Em bocas de matildes.

Ilustração: Norman Rockwell, Gossip.

Às vezes me pergunto se fazer fofoca não seria uma espécie de exercício de literatura popular. Em vez de ler os clássicos que falam do povo, o povo escreve seus próprios clássicos, na prática. E vai acrescentando um tempero aqui, uma pimenta acolá, um toque de terror, tragédia, suspense, outro de comédia. E a história cotidiana que, sem os adornos das más linguas, seria prosaica e sem-graça, adquire tons de supremo fascínio, seduzindo novos leitores e recém-abduzidos adeptos da continuação daquele invento, cada dia mais enfeitado de fantasias e obscuras reinterpretações.


Interiorana que sou, nascida e criada em Ijuí, ainda hoje me choca constatar o tanto que se sabe um da vida do outro, nas tortuosas janelas ijuienses de olhos que tudo vêem. Onde quer que você vá, o que quer que você faça, saiba que não adianta se esconder: alguém, em algum lugar, viu você burlando a lei e os bons costumes, botando o dedo na balança, roubando a maçã do vizinho e - quem sabe, até - o vizinho da vizinha. George Orwell pensa que inventou o Big Brother na ficção chamada 1984, mas, não. Qualquer cidadezinha do interior já tinha seus mil e uns big brothers, muito antes de 1984. Para dizer a verdade, qualquer cidadezinha sempre esteve muito mais para Os Mil Olhos do Dr.Mabuse ( o clássico filme alemão) do que para o Big Brother. Big Brother, inclusive, já virou hit ultrapassado da Globo, mediocrizado em vidas tediosas e desinteressantes.


Não, mil vezes o olhar popular!.. Ali, sim, o verdadeiro sabor da maledicência bem-escrita, com requintes que muito escritor consagrado não conseguiria imaginar sozinho, porque covardia, afinal, milhares de mãos a enfiar sua cucharra torta. Nunca vou esquecer quando fiz 15 anos, do roteiro que inventaram para minha festa, com hora certa e performance programada: à meia-noite em ponto - diziam - eu trocaria de roupa e desceria a escada, vestida de gala, para ganhar das mãos do meu pai a chave de um Fusca novinho em folha, festa interrompida só para o gáudio de ahs e ohs locais. Um Fusca, com 15 anos?!...Certamente o povo projetava em mim sua fantasia Cinderela de consumo. O único Fusca que ganhei na vida veio usado, meio batido num paralama, meiado com meu irmão caçula...E, ainda assim, muitos anos mais tarde!


Mas, as melhores fofocas são, com certeza, aquelas que desabonam gente séria, que mostram as cuecas sujas de moralistas severos, putanesqueiam damas da sociedade, virginizam putas, destroem nomes imaculados e apontam nudezas de reis. Há um prazer maquiavélico do povo em vingar-se dos falsos, dos ricos, dos poderosos, dos aparentemente bem-sucedidos. Como se fofoqueando equilibrassem os pratos da balança de Minerva, compensando a injustiça de uns terem tanto, outros nada. Pois, com a maledicência, batem uma mão na outra, triunfantes, agindo como deuses, salomões modernos, robin hoods de valores morais, tirando dos ricos, dando na boca dos pobres.


De modo que, como diria o old shakespeare, não há nada de novo debaixo do sol que um olho popular inadvertidamente inda não tenha visto ou que não ache um jeito de ver, ou, se não enxergar nem ouvir, que não invente, aumente um ponto e escreva, assim, seu próprio conto. E viva o voyeurismo da literatura popular, com sua merecida função social, dizem que despressurizadora da opressão.


Li uma vez que a fofoca é o ópio dos oprimidos: você me destrói com seu poder, eu destruo você com minha língua. Veja bem, não sou eu que estou dizendo, corre por aí à boca pequena, fulana jura de pé junto que viu com esses olhos que a terra há de comer, me contaram, mas não conta pra ninguém, tá?
( Graça Craidy)
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I'm the best. Fuck the rest.

Era um, era dois, era cem. Era um monte de gente e, para Ricardo José Neis, ninguém. Para ele, na direção de seu Golf preto, na Rua José do Patrocínio, Cidade Baixa, em Porto Alegre, na última sexta-feira, as mais de 100 pessoas do grupo Massa Crítica que protestavam pacificamente por espaço para ciclistas, eram simplesmente isto. Ninguém.

Impaciente com os ciclistas de todas as idades que tornavam o trânsito mais lento no comecinho da noite, o funcionário do Banco Central Ricardo José Neis buzinou uma vez, duas, três. E na próxima, não buzinou mais. Simplesmente arremeteu seu Golf preto contra o grupo, fazendo voar ciclistas para todos os lados e ferindo pelo menos 10 deles, igual a filme de ação de Hollywood. Só que com sangue de verdade, osso quebrado de verdade, choro de verdade, pavor de verdade, estupefação de verdade.

O que dizer de um homem que faz isso? Que é um animal? É pouco. Que é um maluco? É pouco. Que é um doente? É pouco. Que é um filho da mãe? Aí, já podemos conversar.

Neis, que segundo a Polícia tem 47 anos, parece ser um legítimo filho da mãe. Ou, melhor dizendo, um legítimo filhinho da mamãe. Você sabe: filhinho da mamãe não pode ser contrariado, filhinho da mamãe quando quer, quer agora e nem um minuto depois, filhinho da mamãe se joga no chão e dá socos, filhinho da mamãe grita eu quero porque quero e enfia o pé no acelerador.

Um dos manifestantes declarou ao Terra que havia pedido calma ao motorista, alertando-o de que havia inclusive crianças entre os ciclistas. Ao que o irracional simplesmente alegou pressa. Pressa? Como todo garoto mimado, ele não deve gostar de esperar. Como todo garoto que nunca ouve não, ele não deve lidar bem com a negativa.

Porto Alegre está cheia de filhinhos da mamãe no trânsito, que costuram nas ruas de um lado pro outro, que põem a vida alheia em risco, que nos oprimem com suas camionetas gigantes e com seus sons em volume altíssimo, que estacionam em fila dupla, que literalmente passam por cima de nós, fisica e moralmente, nos humilhando e nos assassinando com sua baba infantilóide de meninos malcriados, baldosos, mimados, criados acreditando que o mundo só existia por causa deles, que tudo girava ao seu redor e que o outro está ali apenas para o servir, aplacar a sua sede, sua fome, seu desejo.

Meu deus do céu, o medo que certos pais têm de dizer não é uma coisa que me deixa pasma. Não. Três letrinhas. Tão valiosas quanto sim. Mas boa parte dos pais de hoje não consegue. O não parece anticonstitucionalissimamente. Trava a língua. E eles não conseguem dizer. Cuidado. Criança que nunca escuta não, de pequena, depois pode virar monstro assim, que nem essezinho ali, pouquidão de pessoa.

Arreda, doença urbana!

Tomara que esse tal seja punido. E vá para a cadeia e receba as más-vindas dos seus colegas de quarto. Ali talvez ele entenda mais didaticamente que os outros não são personagens de videogame.
( Graça Craidy)
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Pipoca que o pariu - II

Acabo de ler no Correio do Povo que na Letonia um espectador assassinou o outro no final da sessão do filme Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010), enlouquecido com o ruído que a vítima teria feito ao mastigar pipocas durante a projeção do delicado drama psicológico onde Natalie Portman se dilacera entre o bem e o mal. Nunca pensei que alguém chegaria a tanto, mas o sentimento de ódio que o moveu, ah, isso eu entendo. E como entendo!

A mão do flanelinha.

Cada vez que vou estacionar meu carro na rua e surge não sei de onde um flanelinha com aquele ar feroz de dono do metro quadrado, me dá uma vontade homicida de acelerar em vez de engatar a ré, passando por cima dele e acabando com tudo ali, antes mesmo de começar.

Alguém por favor me explique por que é que um sujeitinho que nunca dirigiu na vida pensa que pode te orientar sobre como estacionar? Mas o problema não é só orientar. Não. Ele não se contenta só com orientar. Ele quer mandar, comandar, ele e-xi-ge que você coloque a marcha rapidamente, no tempo que ele quer - porque está muito ocupado, imagino!

Com uma leve irritação na voz, ele grita aquilo que mais me bate nos nervos, (em perigosas ressonâncias no fundo dos parafusos soltos da minha maluquice adormecida): - Vem ! Vem! Vem!... E, não bastasse o vemvemvem, ele ainda enfatiza o seu comando com o que liberta imediatamente os gonzos soturnos do sótão onde mora o meu lado facínora urbana e seu facão justiceiro. Ele enfatiza o seu comando com a mão.

Com a palma da mão virada pra cima, o maldito flanelinha dobra os dedos em direção ao peito dele, mantendo o polegar espetado para o lado, e fica ali, movimentando aqueles quatro dedos pra fora e pra dentro, com uma rapidez que meus olhos mal captam o movimento. Asa de beija flor perde.

E quanto mais aquela mão abre e fecha, mais eu, que dirijo desde os 16 anos - e isso já lá se vão décadas e mais décadas! - passo a achar que não sei mais estacionar. Meu deus, não vai dar certo, não vou conseguir!

Imediatamente, meu carro adquire uns 2 ou 3 metros de comprimento além e 1 metro de largura a mais, e cer-ta-men-te não vai caber naquela vaga. Nem que a vaca tussa e dance hip hop. Mas, o flanelinha não está nem aí. O único que você consegue virando barata tonta é aumentar ainda mais o vai e vem daquela mão nojenta cheia de sujeira que insiste, agora, com redobrado vigor:- Vem, vem, vem! E, ele acrescenta:... que dá!

Como se o fato de ele, o mestre da rua, dizer pra você que-dá, desse. Como se o número de vezes repetidas que ele diz que-dá, aumentasse a competência do estacionador, no caso, eu. E não é um que-dá nutritivo, de mamãe-águia amorosa que quer ver o filho decolar do ninho. Nan nan nan. É um que-dá tipo que dá tapa na orelha se não der.

Assim que, apagadas da sua memória as tantas horas de vôo que que você tinha antes de conhecer o flanelinha, você, afinal, se rende. E depois de bufar, gemer, suar, olhar pra mão do flanelinha, suspirar, vesguear, olhar pra mão do flanelinha, espiar prum lado, pro outro, pro espelho de fora, pra dentro, pela janela, olhar pra mão do flanelinha, esterçar a direção quase 360 graus, você consegue finalmente estacionar esta banheira desgraçada que insiste em chamar de carro. E a primeira coisa que você resmunga entredentes, quando chaveia o carro e finge que sorri pro flanelinha que fica apontando aquele polegar asqueroso pra você, é: - não sei como pude dirigir sem você antes na vida, hijodeunagranpu!
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Botox na cabeça.

Outro dia eu olhava distraída a embalagem de um creme para o rosto, quando li no rótulo a seguinte especificação: creme antiidade. Como, assim, antiidade? Contra a idade? Pensei estar diante de um caso para o Procon, ou de uma obra de ficção, quiçá de um invento revolucionário. Tinham descoberto, afinal, a fonte da juventude?

O absurdo daquela expressão - antiidade - me traduziu como nunca a insana busca que se estabeleceu hoje em espelhos, mídias e clínicas de beleza, para se perpetuar dentro de um padrão cruel e aprisionador do falso jovem eterno. Não fosse uma luta inglória, quanta fonte de sofrimento, e principalmente, que falta de senso!

Acho engraçado quando falo minha idade e comentam: “ não parece!”. Imediatamente depois de uma estúpida vaidade fugaz que me faz sorrir e agradecer o pretenso elogio, caio em mim do ridículo da situação. Que mundo é esse que é mais bacana você parecer do que ser? Que tontería é essa que fazemos de conta que congelamos o tempo e, pior, desfazemos da estrada, dos aprendidos, dos construídos? É pra ter vergonha de existir com a matemática real da contagem, como se conta o tempo de uma árvore, de uma pedra, de uma borboleta?

Numa entrevista, a escritora gaúcha Lya Luft diz que fica incomodada quando afirmam que ela tem espírito jovem, pois afinal demorou tanto para conquistar seu espírito maduro e agora querem que regrida para aquele espírito imaturo dos seus 20 anos?

O poeta mato-grossense Manoel de Barros, na sua simplicidade pantaneira, transgride a ânsia comum dos mortais pela juventude e desafora: “ Tenho candor por bobagens. Quando eu crescer, vou ficar criança”.

Aí é que mora a sabedoria. No jeito de olhar a vida como um guri, com olhos de primeira vez. Não no fascínio de querer ser novo, mas no prazer de descobrir o novo, no se deixar seduzir pelo ainda não-descoberto, na imensidão do tanto por desvendar. Cada vez que a gente se encanta com o novo, se perpetua dentro da gente, mesmo, porque ocupa ainda mais o espaço que nos cabe de humanos, inteligentes e ricos proprietários dos nossos incríveis cinco sentidos.

“ Leva-se muito tempo para ser jovem”, ironizava o grande pintor Picasso. E o filósofo paulista Mário Sérgio Corella completa: “ Velhos são os objetos, que já nascem prontos. Um liquidificador fica velho. Gente, não. Gente está sempre se fazendo. Gente só tem idade”.

Dito isso, sugiro que cada um de nós aproveite esse gerúndio do se fazendo e trate de se ocupar com novos espantos, pois tempo realmente não tem nada a ver com dinheiro ou juventude, mas com vida. Aliás, o que você viu, ouviu, cheirou, saboreou e sentiu hoje, querido leitor? ( Graça Craidy)

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Eu não sou cachorro, não.

Não é que eu não goste de cachorro, gato, hamster etc. Até gosto, acho bonitinho. Só não quero é intimidades com eles.

Não quero nenhum desses seres me lambendo o pé, a mão, muito menos a cara e in-fi-ni-ta-men-te menos, ainda, a boca. Quanto menos não seja, por uma questão de higiene, eca! Pois se a primeira coisa que cachorro faz quando vê outro cachorro é lamber o fiofó do novo amigo, o que é que eu quero com a mesma língua canina investigativa suspeita me lambendo a seguir? Francamente, o bicho não tem o menor critério com aquela língua dele.

Gato, a mesma coisa. O bichinho é bonitinho, fofinho, engraçadinho, mas passa o dia se lambendo. "Tomando banho", dizem seus donos e donas, quase com lágrimas nos olhos, completando, exultantes: - "São mais limpos que a gente!".

Mas eu, por mais que me esforce, só fico pensando: - Sim, o gatinho tomou banho de língua, mas, quem lavou a língua dele, depois que ele lambeu as partezinhas dele?

Hamster, então, me dá nos nervos. Bicho neurótico. Até entendo ele, coitado! Se eu ficasse gorda daquele jeito toda vez que comesse e se me trancassem naquela gaiolinha com apenas uma roda pra me entreter dia e noite, acho que eu também enlouqueceria.

Uma vez, me hospedei numa casa onde tinha um desses hamsters, que dormia na cozinha, dentro de uma gaiola. Tchê, no meio do silêncio da noite só se ouvia um estranho e obsessivo pam-pam-pam-pam. Fui averiguar. Era ele, o hamster neurastênico, naquela roda maluca, se exercitando sem parar, às vésperas de um infartinho do miocárdio. Acho que ele só pararia com um tapa na orelhinha ou com uma hamster recém-chegada da Disney.

Um dia uma amiga gatista militante, ao me ouvir comentar que eu não era muito chegada em bicho, me olhou escandalizada. E não se conteve: - credo, como é que uma pessoa tão legal como tu pode não gostar de bicho?

Tomada de surpresa com aquela falsa conexão cartesiana, respondi:
- Se gostar de bicho indicasse caráter, o que dizer do Hitler, sabidamente um apaixonado por seus cães?

( Pronto. Falei! Cansei de ser olhada como vilã só porque não faço gutiguti cada vez que vejo um bichinho de estimação.) ( Graça Craidy)

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Nizan Guanaes, quem te viu e quem te vê.

Li no Blue Bus que Nizan Guanaes determinou: nas agências do seu grupo de comunicação, o ABC, todo mundo agora tem que sair antes das 8 da noite, pois as luzes automaticamente se apagarão. E quem nao conseguir se organizar até lá, que chegue mais cedo, ele aconselha.
A notinha do Blue Bus também explica que a própria agência fornecerá dicas de filmes, shows, peças de teatro e até cursos, para que os funcionários evoluam, se oxigenem, cresçam profissionalmente. E a ordem de Nizan Guanaes tem até um nome glamuroso: After Eight.

Lembrei na hora da música Apesar de Você, do Chico Buarque: "Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar"...After Eight? Ora, por quem sois, Nizan Guanaes? Pois se quem inventou a jornada 24 horas foi ele, na sua sanha neoliberal irracional de vencer a qualquer custo. Pois se foi ele quem chupou o sangue dos seus profissionais e mostrou ao mercado que quanto mais chupasse, mais sangue haveria. Sangue, aliás, generosamente remunerado, justiça seja feita. Ao melhor estilo Mefisto, ele sempre comprou a alma dos criadores a bom preço.

After Eight, Nizan Guanaes? Ara, como se diz aqui na minha terra, não me faz te pegar nojo! Pois se foi ele que estimulou o fim do expediente normal, a falsidade de ficar remanchando na agência até tarde, a competição doentía entre colegas, o trabalho escravo na criação publicitária brasileira. Ele que rasgava leiautes na frente de todo mundo, humilhando criadores, e que gritava que nem um louco e jogava água na cara das pessoas, entre outras coisas, quando não gostava do trabalho. Ele que, como conta Alexandre Gama, no Jornalirismo, criou um ambiente absolutamente insalubre, "um lugar para se trabalhar com máscara de oxigênio". Agora ficou bonzinho, compreensivo e preocupado com o lazer dos seus criadores?

Tristes tempos de estagiários com profundas olheiras. Bem que eu dizia: - gente, vão pra rua, vocês precisam se alimentar da vida, é lá que está a inspiração do criador. Mas, qual! Em algumas agências onde trabalhei, inclusive, quando eu saía às 7 da noite, um certo povo arrivista me olhava feio, como se a errada fosse eu e não eles fingindo que ainda tinham o que fazer.

Lembro do testemunho de um Diretor de Criação que trabalhou na DM9, uma das agências do Grupo ABC. Ele contava que toda vez que ele e outros pensavam em pedir demissão, por não aguentarem mais os abusos de Nizan Guanaes, ligavam pro gerente do banco: - qual o saldo da minha conta? E acabavam desistindo.


Nizan Guanaes, do Grupo ABC.A tal notinha do Blue Bus justifica a medida de Nizan Guanaes dizendo que o próprio mercado de criação pressionou para isso, em um hotsite piratão de nome Fuck-alguma-coisa que metia o pau nos diretores de criação, entre outras coisas, por exigirem jornadas desumanas de trabalho de suas equipes.

Aleluia, entonces! After Eight, Nizan Guanaes? Demorou.

PS: A nota hilária fica por conta de outra notícia logo abaixo, no mesmo Blue Bus: Nizan Guanaes acaba de ser escolhido o novo embaixador da Boa Vontade pela Unesco.
Arte: Lolpics.se


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Crônica: Os outros, que inferno.


Não canso de me surpreender, toda vez que me dou conta do quanto as pessoas pensam diferente umas das outras. Do quanto cada olho é único, primitivo e original, na labuta de traduzir a própria percepção.

Lembro da velha fábula dos cegos passando a mão num elefante, cada um interpretando à sua maneira. ” É fininho e curto”, diz o que apalpou o rabo. “É redondo e grosso”, garante o que tocou a tromba. Todos eles certos, do seu ponto de vista, todos parciais, do ponto de vista do elefante.

Uma questão de onde você coloca a câmera e com que repertório avalia o que vê. Se o seu repertório é amplo, cheio de olhares guardados, certamente você vai ver muitas coisas, como o Pequeno Príncipe do Saint-Exupery enxergava lindos significados num borrão mal-desenhado. Se o seu repertório é limitado, você quase sempre vê as mesmas coisas. Tudo lhe ronca igual.
Arte: Saint-Exupery, do livro O Pequeno Príncipe.

Um dia um colega partilhou comigo a sua genial descoberta, que mais tarde descobri ser também a opinião do psicanalista Lacan: “ As pessoas não ouvem, Graça, as pessoas in-ter-pre-tam.” Ri muito, na época, e, hoje, cada vez que topo com mal-entendidos, me vem à mente a frase dele. Mal-entendido, não: interpretação!

Por sinal, uma das coisas boas de a gente ficar mais velha é entender que boa parte do tempo as pessoas não agem contra seus interlocutores, mas simplesmente porque são o que são. Isto é, nada pessoal. O sujeito que esbraveja por qualquer dá-cá-aquela-palha, a criatura que não devolve sorrisos, o indivíduo que enrijece o corpo na hora do abraço, a fulana incapaz de usar aquelas quatro expressõezinhas básicas por favor - com licença - desculpe - muito obrigada, me responda sinceramente: o problema é deles ou é seu? Claro que é deles! Como diria o Simpson do desenho animado: “Não fui eu. Já estava assim quando eu cheguei!”

Bem a propósito, o filósofo francês Jean-Paul Sartre alertava: “ O inferno são os outros”. Ora, se todos nós, em algum momento, somos o inferno do outro, melhor aprender de uma vez por todas a tourear os demônios que nos habitam. E a primeira coisa que a gente devia se propor é não ficar ofendido porque o outro pensa diferente. Afinal se cada um tem a sua cabeça, única, pessoal e intransferível, deveria inclusive ser natural emitir a própria opinião. Não a do outro. E desse respeito mútuo e desofendido, quem sabe quantas novas trocas?

A verdade, enfim, é uma só: pensar diferente não é ofensa nem desamor. Mas, apenas isto: pensar diferente. Entendeu, querido leitor? Ou interpretou? ( Graça Craidy)

Pichei, sim. Manchei o teu nome.


Era o ano de 1983. Era Porto Alegre. Era a Marca Propaganda (hoje extinta), onde eu trabalhava como redatora já há mais de seis anos.

Ansiosos por mudanças e interessados na boa relação que um certo publicitário paranaense tinha com um certo diretor de marketing do nosso cliente principal - uma certa caderneta de poupança - os donos da agência contrataram o referido publicitário do Paraná por baixo do pano, na maciota, sem contar pra ninguém da Criação. E o anunciaram, assim, do nada, como o novo Diretor de Criação.

Bafafá, diz-que diz-que, pânico, medo, será que ele vai demitir todo mundo? Enfim, aquele momento lexotan normal pré-passaralho pelo qual todo mundo que trabalha já passou ou vai passar um dia. Pois bem. O pé-vermelho em questão, no seu primeiro dia, decidido a me cooptar, me convocou para um tête-a-tête sinistro.

- Graça, vou te fazer Diretora de Criação, queres? Assim, - e ele baixava a voz, melífluo e íntimo, para meu pavor- podes pegar só o filé de criação, que tal? Tu viras Diretora de Criação e eu assumo o Atendimento. E a gente trabalha junto.

Desconfiadíssima com aquele papo aranha e aquela falsa amizade de infância, respondi desaforando: - Se eu virar Diretora de Criação, todo mundo vai pegar filé e osso, sem privilégios.

( Na verdade, eu não queria ser diretora de coisa nenhuma. Só, mesmo, do meu próprio destino, anarquista que sou desde criança.)

O homenzinho caborteiro ficou meio desenxabido com minha resposta malcriada e desdenhante de poder. Mas, disfarçou: - Bom, pensa até amanhã e me diz.

Foram as suas últimas palavras. E as minhas, também.

No dia seguinte, chefia nenhuma apareceu na agência. Mas a moça do RH, sim. Ela passava dum lado pro outro pela porta na minha sala, parava, ficava muda, agoniada. E seguia. Dali a pouco, tudo de novo. Até que eu falei:- ô, criatura, que tanto tu passa e pára, passa e pára? Vai dizer que veio me demitir? Bingo! Ela tinha vindo.

Fiquei tão pê da vida que saí correndo pra dentro da sala dos donos da agência, pra tirar satisfação. Ninguém. O sangue me fervia, eu poderia esgoelar um. Na falta, peguei um pincel atômico preto, daqueles grossos que mal cabe na mão, e pichei na parede limpinha da sala dos patrões, de fora a fora: TRAIDORES!...Não contente, entrei em outra sala da Criação e lancei ali, do Quintana, a minha praga malévola, por escrito: VOCÊS QUE AÍ ESTÃO ATRAVANCANDO O MEU CAMINHO, VOCÊS PASSARÃO. EU, PASSARINHO.

Um mês depois, peguei meu Fundo de Garantia e fui pra Nova York passear, estudar, curtir jazz. Dois meses depois, fui escolhida Redatora do Ano pela Associação Rio-grandense de Propaganda. Três meses depois, em janeiro de 84, fui pra São Paulo fazer um estágio em planejamento na Talent, com o mestre Julio Ribeiro e a mestra Mari Zampol. E só voltei 20 anos depois.

Eu, passarinhei.
( Graça Craidy)

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Eu, eu, eu, tudo eu.

Ética à la carte.Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Essa parece ser a posição de Gilles Lipovetsky em sua análise da ética praticada pelas empresas, pela mídia e pelos chamados neoindividualistas, na pós-modernidade, em seu livro Metamorfoses da Cultura Liberal. Pragmático em suas afirmações – muitas delas endossadas por pesquisas - Lipovetsky constata, sem se escandalizar, que hoje a moral e a ética são flexíveis, relativas.

Dever X direito.No passado, fazia-se tudo por dever; no presente, faz-se por direito. Afastado do vergalho da antiga igreja punitiva, que impunha sacrifícios, e indiferente à ação do Estado não mais cobrador de nacionalismos, o homem pós-moderno tornou-se um “hiperindividualista” voltado para o seu bem-estar, com direito a opinião própria e devedor de obrigações apenas à sua consciência: “cada um se quer autônomo para construir livremente, à la carte, o seu ambiente pessoal”.

Medos de Narcisos. Há uma diferença, porém, em relação ao egocêntrico do século XX: o Narciso atual não é tão triunfante e apesar de não ter mais tanto medo de ir para o inferno ao morrer, teme ficar doente, posterga a morte sine die e odeia envelhecer, “ fragilizado por ter de carregar-se(…) sem os apoios que outrora eram construídos pelas normas sociais”.

Nova ideologia.Lipovetsky alerta para um paradoxo: ao mesmo tempo em que lambe o seu umbigo, o neoindividualista também tornou-se mais cidadão, mais voluntário, mais pluralista e mais consciente. Desapegado de ideologias outras a não ser um profundo senso de democracia entronizado, reconhece os impactos negativos da tecnologia sobre o meio ambiente e reclama - ainda que em organizações temporárias e numa “ética de urgência” - da ação irresponsável das empresas e da corrupção dos políticos, posicionando-se indignado contra a violência, a intolerância, o abuso de poder, o desrespeito às crianças e a transgressão dos direitos humanos. Flashes de cidadania, para depois voltar ao seu sofá, às suas vitaminas e ao seu livro de auto-ajuda.

O bem que lucra.Quando fala da nova ética nas empresas, Lipovetsky comprova um crescimento da responsabilidade social empresarial, não só para o mercado, mas para os próprios funcionários, embora detecte nisso apenas mais uma estratégia de marketing. É bom comercialmente para a imagem da empresa praticar o bem. De um lado, o consumidor consciente e o funcionário com orgulho corporativo, de outro, a empresa-cidadã, novos pares amorosos da pós-modernidade. Modismo, talvez – diz Lipovetsky – mas ainda assim positivo, porque transformador.

Mídia democratizante.Ao contrário de Baudrillard, que diaboliza a mídia, o autor até reconhece os deméritos do entretenimento sem vistas a educar, da padronização da aparência, da democracia de espetáculo, mas vê proveitos, também, entre eles o da mídia derrubar as tradições, as barreiras de classe, as morais rigoristas e as grandes ideologias, sacralizando o livre governo de cada um. Graças à mídia, que mostra a todos os vários pontos de vista sobre um mesmo fato, o homem pós-moderno - segundo ele - aprendeu a comparar, libertando-se do discurso monolítico de partidos políticos ou doutrinações, com tendências a votar muito mais em pessoas que em programas.

Em síntese, a única coisa que Lipovetsky reclama é esta: individualismo, OK, mas – silvuplê - responsável! Narciso que amadureça.
(Graça Craidy)


Metamorfoses da Cultura Liberal. Ética, mídia, empresa.
( Lipovetsky, Gilles ; trad.Juremir Machado) Porto Alegre:Sulina, 2004


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Pipoca que o pariu.

Desisto. Não dá mais. Vocês venceram, seus papa-pipocas barulhentos. Não vou mais ao cinema. Não aguento mais misturar schlofts e pssssss e chulomp chulomps-ahhhs!com Scorsese, Woody Allen, Eastwood, Kubrick, Bergman, Coen, Fellini, Coppola, Hitchcock, Spielberg, Almodovar,Linch, Kiarostami, Tarantino e tantos outros diretores de cinema geniais e seus filmes maravilhosos.

Pois se o bom de ir ao cinema é sair da vida real e entrar na vida dos personagens, o que é, por amor de deus, que estão fazendo essas criaturas insensíveis - que odeiam cinema e adoram pipoca - atrás, na frente e ao meu lado, me trazendo abruptamente de volta ao lugar onde estou?

Se a delícia do filme é virar pó, sumir do mapa, se desintegrar pelos corredores e vielas e vírgulas e suspiros das cenas, quem catzo está produzindo esse infernal barulhinho de pipoca mastigada de boca aberta e papel amassado, que me pesca com violência de volta pra sala?

Quando meu coração se aperta e a respiração encurta e os olhos se arregalam no candor do segundo de alguma cena que levou um milhão de segundos pra ser feita, por que cargas dágua um fdp perto de mim ou ali adiante mais pra baixo, destrói tudo com a sanha infame dos seus molares e incisivos caninos?

Por quê, meu deus? Por que eu tenho também que suportar esse cheiro nauseante de manteiga que quase me faz vomitar e que depois gruda no carpete e adquire um asqueroso olor de chulé? Por que eu tenho ainda, na saída, que pisar nas centenas de pipocas que os horríveis hagares falsos cinéfilos derrubaram no chão, na ânsia obsessiva de consumir até o último piruá aquele inacreditável baldão de pipoca jumbo?

Quer saber, mesmo, por quê? Em seu blog da revista Carta Maior, Emir Sader revela que 90% da arrecadação nos cinemas não vêm dos ingressos. Vêm das comidas e bebidas, leia-se pipoca e refrigerante.

Sader traz o depoimento de um executivo de cinema dos EUA, obtido no livro O Grande Filme, de E.J.Epstein( Summus) que afirma: o segredo para uma grande cadeia de multiplexes bem sucedida está naquela porção extra de sal acrescentada à pipoca. Aumenta a sede e implora por um refrigerante. Ahá! Cães!

Mas, a meleca não pára por aí. Sader também reporta o testemunho de um dono de cinema que atribui descaradamente ao porta-copos nos assentos do cinema "a inovação tecnológica mais importante desde a sonorização". Socorro!

Por isso em todas as novas salas de cinema de shopping cruza-se antes pelas lanchonetes, diz Sader. E o apaixonado dono de cinema aquele, que na real não passa de um desapaixonado dono de lanchonete, faz questão de arrematar: "Quanto mais pessoas conseguirmos fazer passar pela pipoca, mais dinheiro ganhamos".

Ah, bom! Pelo menos agora eu sei que aquele monte de bruto entrando com pipoca no cinema, antes de ser um bruto é, na verdade, um marionete.

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Artigo: O preço de virar mercadoria

Hoje tem espetáculo.
Um grande e acachapante faz-de-conta. É nisso que parece haver se transformado a vida cotidiana brasileira, no pseudoglamuroso mundo do chamado “espetáculo” - expressão de Guy Debord (1997)- onde a sociedade adere religiosamente à lógica do consumo, hipnotizada pelo fetiche da mercadoria:

“O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social.”( DEBORD, 1997, p.30)

Valores, pessoas, tempo, cultura, política, relações, religião, espaço, história,
quase nada – observa Debord (1997) - escapa à ideologia dinheirista avassaladora da mercadorização, substituindo o verdadeiro pelo falso, o real pela ilusão, o original pela cópia.

A mídia, senhora da informação - em geral desinformante e deformante - medeia o espetáculo com imagens e representações obnubiladoras, a serviço do mercado e dos interesses econômicos de um hipercapitalismo que se auto-devora todos os dias, feito epidemia globalizada, regurgitando de volta novas devorações necessárias ao girar insano da roda produtiva mundial:
“O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social
entre pessoas, mediada por imagens.” (DEBORD, 1997, p.14)

O mundo, não uma simples metáfora, mas literal planeta geográfico, pelo qual os tentáculos homogeneizantes do compre, consuma, produza se alastraram inapelavelmente, podando diversidades e pasteurizando culturas, dos fast-foods da obesa mórbida América à última aldeia da Ásia, onde o espetáculo se dá ao luxo de explorar chineses miseráveis, na faina de produzir supérfluos para serventias ocidentais.
Dito e feito.
Guy Debord (1997), autor do livro A Sociedade do Espetáculo, de inspiração marxista, foi mais que filósofo, cineasta e agitador político do Movimento de 68, na França. Foi profeta. E profeta reincidente, conforme sua própria releitura do livro, 12 anos depois de lançado, onde diz não duvidar que a confirmação encontrada por todas as suas teses continue até o fim do século, e além dele. (p.152)

Em 1967, na primeira edição da sua polêmica obra com 221 concisos e contundentes aforismos, já alertava sobre as mudanças desumanizantes que o espetáculo estaria impondo à sociedade.
“Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.”(DEBORD, 1997, p.13)
Quase 40 anos depois - com exceção da sua fé na antiespetacularização a ser cumprida pelo poder revolucionário do proletariado (que acabou cooptado pelo espetáculo) - tudo o que Debord escreveu é um tapa na cara, tamanha a sua correspondência ao real dos dias de hoje. Real, aliás, cada dia mais falso.


Comer, beber, viver.

É só espiar em qualquer casa brasileira, atualmente, para se dar conta de o quanto
tudo o que era diretamente vivido, por exemplo, na alimentação, se afastou num
“simulacro”, vitupério favorito do também antiespetáculo Jean Baudrillard ( 2002).
Abra a geladeira, os armários da cozinha.O leite tetrapakado passou por tantos processos que ninguém mais percebe que veio da vaca. Suco “natural” de laranja em caixinha? A fruta foi colhida verão passado e já completa aniversário dentro da embalagem.

Num pote plástico, você encontra a estranha “mistura de palmitina e estearina”
que o espetáculo tratou de arranjar apelido mais palatável – margarina – cercando-a com famílias sorridentes, tosco arremedo de manteiga.

O café foi adicionado do prefixo Nes – quase que numa irônica negação - e não carece mais de coador: é uma remota lembrança da rubiácea original.

A velha e boa sopa nutritiva virou pó e se esconde em embalagens coloridas com o appetite-appeal de deliciosas fotos dos legumes que representa, bastando acrescentar água fervendo e beber.

Caldo de galinha agora é um bizarro tijolinho marrom, o poderio nipônico do glutamato monossódico – leia-se aji-no-moto, que ninguém sabe direito o que é – dominando a culinária ocidental espetacularizada.

A comida do bebê, preparada artesanalmente nos antanhos com zelosos cuidados de mãe, já vem praticamente mastigada em mimosos potes que remetem a bucólicas cenas rurais, e o leite em pó, com veleidades implícitas de amamentação (para ajudar a manter intactos os jovens seios das mães em tempos de espetáculo), traz no rótulo uma tímida advertência em corpo 8 -certamente enfiada ali por determinação legal - de que o aleitamento materno é o que melhor protege, de fato, contra doenças pós-nascimento.

Até o cachorro e o gato, que não possuem tostão, viraram consumidores espetacularizados. Flocos esquisitos desapetitosos, de alegadas vantagens nutritivas e em duvidosos tons beges, são-lhes servidos generosamente pelos donos, como se
comida fossem:
“No mundo realmente invertido, a verdade é um momento do que é falso.” (DEBORD, 1997, p.16)

Tour familiar.
Mas, não fique só na cozinha. Espie no quarto do garoto, por exemplo. Em frente ao computador, ele joga concentradíssimo um game campeão, favorito dos teens no mundo inteiro: sangue se esparrama por todos os cantos da tela, enquanto o rapaz dá tiros certeiros com o mouse travestido em arma sofisticada, pois a graça do jogo – pasme - é quem consegue matar mais pessoas em menos tempo. Tudo virtualmente, claro.

Isso para não falar do bichinho doméstico japonês virtual - o “tamagochi” - que ocupou a mente e os dias de milhões de crianças no mundo inteiro, chegando ao paroxismo espetacular de “ morrer”, caso não fosse alimentado direito por seus minidonos, causando profundas comoções irreais de lágrimas verdadeiras, como Debord previu:
“A sua acumulação automática libera um artificial ilimitado, diante do qual o desejo vivo fica desarmado.” (DEBORD, 1997, p.45.
Bisbilhote no quarto da garota. No espelho, ela acaricia orgulhosa os seios novinhos em folha que ganhou dos pais, não no nascimento – veja só! – mas em seu último aniversário, dois lindos seios inflados com silicone, tamanho 44, que vão deixá-la muito mais feliz e segura e competitiva para sair com a turma, arrumar um namorado,
um emprego, quiçá um marido.
“O espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana - isto é, social - como simples aparência.” (DEBORD, 1997, p.16)

Agora, dê uma olhada na sala de estar. Escarrapachado no sofá, devorando compulsivamente salgadinhos extrudados (extrudados?!) de pseudobacon e bebendo da lata um suco escuro - extraído dizem que de coca - o pai vibra com seu time de futebol em gols replayzados à exaustão, sob o patrocínio generoso de algum banco, cerveja ou estatal que finge apoiar o esporte para vender suas traquitandas. Onde mais um time pode fazer o mesmo gol tantas vezes e em tão pouco tempo? Na vida real é que não. Daí, decerto, o fascínio irresistível de assistir ao jogo na anunciada
alienação da telinha:
“A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado […] se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive.” (DEBORD, 1997, p.24)
A empregada, em seu quarto-ovo, esquece a miséria da favela, o marido bêbado, os filhos ao Deus-dará e chora copiosamente porque a mocinha da novela tem um câncer sem cura, a atriz sofrendo de mentira - na tela - no lugar da infeliz de verdade.

Na suíte master, a mãe coloca uma camisola sexy enfaticamente recomendada por famosa revista feminina e os livros de auto-ajuda mais vendidos, alisa as rugas delicadamente paralisadas com injeções de curare-botox e aguarda: hoje o marido vai tomar uma pílula milagrosa - que foi-lhe vendida pela internet com o imbatível argumento de “o melhor custo x benefício por ereção”1 - e garantidamente cumprirá com o seu dever conjugal de macho eterno, os sinais da produção reinante confirmando a linguagem do espetáculo(Debord, 1997, p.15.).

Era uma vez.
Mas, afinal, como foi que essa história de carochinha-terror começou? Com a modernidade e o advento da indústria, das tecnologias, das invenções revolucionárias do século 19, da ascensão da burguesia pela aposta no valor do trabalho e do capitalismo discretamente apoiado pela religião protestante que reinveste todo ganho nos seus negócios (segundo a descoberta de Weber, em A ética protestante e o espírito do capitalismo), as ofertas de provisões aumentaram em quantidades excessivas e as necessidades básicas das sociedades acabaram supridas antes do que se pensava:
“A raiz do espetáculo está no terreno da economia que se tornou abundante”. (DEBORD, 1997, p.39.)
Azar!… O circo lucrativo já estava montado. Máquinas, empregados, bancos, fornecedores, distribuidores, comerciantes, serviços, havia muito em jogo para conformar-se com o ramerrão de só suprir necessidades básicas.

Solução? Ampliar as necessidades de sobrevivência, inventar o supérfluo, criar obsoletismos artificiais, apropriar-se do simbolismo histórico de paraíso celeste do cristianismo ( Debord, p.19) e transportá-lo para a terra, tornando-o acessível aos mortais, traduzido em bens e serviços divinos, adquiríveis mediante pagamento de quantias estipuladas pela oferta e pela procura.

Foi dada a partida para a grande corrida do consumo escravo da produção (e vice-versa), em um ciclo vicioso que acabou gerando uma incansável e ciclópica roda da fortuna, espécie de ninfomania consumerista moto-perpétua, onde, quanto mais se consome, menos se satisfaz, quanto mais se contempla, menos se vive.

Eu sou, tu tens, ele parece.
Para fazer os humanos tornados consumidores acreditar que precisavam do arsenal infinito de supérfluos fabricados, havia que enfeitiçá-los com encantos poderosos de prestidigitação: a noção de ser foi substituída, então, pela de ter e de parecer. Insólita inversão: você só existe, se possuir bens; você só é, se parecer ser. Pirandelo?
Olhe nos rótulos dos cremes femininos para a pele, por exemplo. Está ali
claramente indicado: creme antiidade. O esperado, o desejável é você não parecer
ter a idade que tem, para assim enganar os outros – e a si mesma – de que não viveu o que ja viveu, mas magicamente suprimiu anos da sua aparência. E, assim, será melhor aceita em seu grupo social, pois no espetáculo, velhice é
um lugar que não existe:
“[…] é nitidamente proibido envelhecer. É como se houvesse uma tentativa de manter, em todo indivíduo, um “capital-juventude” [...]” (DEBORD, 1997, p.109)

Engambelados pelo mito do progresso, da acumulação pela acumulação, do futuro com final-feliz hollywoodiano, do status competitivo, da eterna juventude, do individualismo, da distorção do sentido verdadeiro de amor, amizade, confiança, auto-estima, alegria e outras emoções antes gratuitas, e, ainda, do usufruto mundano permitido pela nova moral não sacrificial observada por Lipovetsky ( 2004, p.27), multidões de órfãos de grandes utopias pelas quais sonhar aderiram à doce-amarga ideologia pseudodemocratizante do consumo.

Ficou subliminarmente estabelecido: todos têm direito à igualdade, à liberdade e à fraternidade do luxo, do conforto, das griffes, das marcas. Desde que possuam dinheiro para comprá-las.

Nos bastidores do circo, o poder econômico. No picadeiro, a mídia, gerando imagens 24 horas por dia, em seu proselitismo contumaz assumido da doutrina moto-contínua que repete incessante: o espetáculo não pode parar.
“O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem atual faz a respeito de si mesma, o seu monólogo laudatório.” (DEBORD, 1997, p.20.)

A mídia e o Midas.
Lipovetsky
Em uma estranha esquizofrenia, a mídia marioneta o cotidiano das pessoas com sal e açucar, ainda que Gilles Lipovetsky (2004, p.85) e Dominique Wolton (2003, p.6) elogiem o poder democratizador da televisão, na sua virtude de proteger os cidadãos de doutrinas totalitárias e criar vínculos de identidade nacional.

Todas as noites, os telejornais têm o lamentável costume de privilegiar sadicamente a divulgação da desgraça: ensangüentam sem pudor o jantar de milhões de telespectadores com violência e miséria humana, suas frases curtas acrescentando um estranho “ pelo menos” apêndice nas sentenças das mortes - “ morreram, pelo menos X pessoas” – quanto maior a tragédia, mais regozijo dissimulado no olhar dos apresentadores.

Momento jornal nacional que o filósofo Jean Baudrillard (2002, p.13) – evidente partidário de Debord - interpreta como ocasião de metafórica massagem cardíaca, onde as pessoas, zumbizadas no seu destino de não-vivas, podem de alguma maneira vibrar e se sentir enfim partícipes, a infelicidade alheia como última energia do real onde vampirizam sentido.
Mesma razão do sucesso dos reality-shows - enfatiza de novo Baudrillard (2002, p.30) - que mais que uma realização da profecia orwelliana, escracha o voyeurismo da vida dos outros como uma espécie de transfusão de vidas, ainda que medíocres, às não-vidas, mais medíocres ainda, do lado de fora da tela.

Pelos big-brothers de TV, as massas adquirem uma pseudo-interatividade como legítimos figurantes de uma realidade que -diz ele - já não existe. O privado, faminto de si, como lembra Debord:
“…se a sobrevivência consumível é algo que deve aumentar sempre é porque ela não pára de conter em si a privação.” (DEBORD, 1997, p.32.)

Por outro lado, a mídia também oferece o merthiolate das novelas apaixonadas, em séries que levam os telespectadores pelo beiço meses a fio, a vida irreal com direito a finais felizes, já que na dita real o mocinho dificilmente triunfa com tamanho esplendor, prerrogativa dos bandidos, principalmente os de terno e gravata ou os emergentes famosos de passado obscuro.

Tudo temperado por intervalos comerciais – sustento das emissoras – onde o
positivismo, naturalmente, impera, em festivais glamurosos de sorrisos falsos,
cúmplices, persuasivos, sexies, melífluos, para vender de xarope contra tosse a
(até bem pouco tempo atrás) cigarro, de kits para emagrecer a engordurantes
comidas, de carros a endividamentos para comprá-los.

O 7º dia.
Aos domingos, inclusive, na peculiar apropriação insaciável do tempo e do lazer que Debord (1997, p.105) aponta como característica do espetáculo, a mídia se apossa desde a madrugada dos relógios dos telespectadores.

Começa com corridas de Fórmula-Um que trazem sempre os mesmos campeões, em uma farsa já denunciada pela própria mídia, mas logo convenientemente esquecida, na cola da cartilha espetacular:
“ O espetáculo organiza com habilidade a ignorância do que acontece e, logo a seguir, o esquecimento do que, apesar de tudo, conseguiu ser reconhecido.” (DEBORD, 1997, p. 177)

Marshall Mc Luhan, chamado por Debord de “o primeiro apologista do espetáculo”, não escapa das vociferações do francês: “ parecia o imbecil mais convicto do século”. Convicção abalada depois,em 1976, quando o próprio McLuhan reconhece que “ a pressão dos mass media conduz ao irracional”.(Debord, 1997, p.192).

Cáustico, Debord se vale da famosa expressão “ aldeia global” do canadense para apontar o sentido provinciano de “aldeia”: conformista, fofoqueira, entediada, vulgar, banal, mexericando sempre sobre os mesmos.(Debord, 1997, p.192)
Qualquer semelhança com as revistas que falam da televisão não é mera coincidência: Fulano casou, Sicrana fez plástica, Beltrano se divorciou, Fulana cortou o cabelo, Sicrano foi para Disney, Beltrana tem um cachorro. Mas, a melhor de todas, sem dúvida, é a fofoca do Príncipe Charles que queria ser o “tampax” da amante casada. Que espetáculo!

Enquanto isso, no domingo depois do almoço, a mídia emenda programas de auditório que entretêm os do sofá com bobagens desimportantes, geralmente conduzidos por ícones produzidos no seio da mídia: apresentadores incultos, atores de novelas, músicos de talento duvidoso, socialities vazias, os programas espertamente entremeados de testemunhais ao vivo – caricatos teatros mambembes - para avalizar produtos e remédios que os comunicadores descaradamente mentem haver testado pessoalmente.

À noite, afinal, vem o apogeu do antigo Dia do Senhor: um programa aguardado ansiosamente por todas as famílias, de nome superlativo – fantástico! – que fecha com chave de Midas a semana, sua abertura musical quase um réquiem anunciando o acabou-se o que era doce do fim-de-semana.

Ainda não!… Logo após o programa superlativo, intermináveis mesas redondas esportivas ocupam o tempo que resta com pífios laudatórios verborrágicos sobre desempenhos futebolísticos, revivendo, um por um, cada lance já visto e revisto no mesmo dia, à tarde, para impaciência das esposas que aguardam seus arredios maridos entre os lençóis dominicais.

Tudo para quê? Amainar a indefectível depressão pós-fim-de-semana que permeia as salas de estar do país inteiro, antevisão da semana espetacula cujo descortino traz o mesmo velho espetáculo da semana anterior: correr atrás de dinheiro para pagar as contas de coisas e serviços que hão de lhes garantir auto-estima, prestígio, amor, posição social e sabe-se lá mais o quê que a linguagem espetacular inventa para atarantar os seus chamados públicos-alvo.


Desunidos venceremos.

Debord
Debord dedica um capítulo inteiro do seu livro para falar da separação que o espetáculo promove, reunindo o separado enquanto separado.(Debord, 1997, p.13-25)

Multidões solitárias portam produtos que realizam costuras sociais de representação
(como o telefone, o carro, o computador, p.ex), transitam em espaços urbanos desenhados para o desencontro (como Brasília, p.ex.) e moram em agrupamentos pseudocoletivos de inspiração rural ( como Alphaville, p.ex.) ou, ainda, em condomínios verticais onde os moradores no máximo se dão bom dia, no elevador:
“… É um novo campesinato fictício.” (DEBORD, 1997, p.116)

A tão propalada liberdade de escolha garantida pela oferta de bens e serviços - no entender de Debord (p.188) - traz embutida a lógica binária de premissas já escolhidas antecipadamente pelos donos do espetáculo.

Quer uma prova? Telefone para qualquer empresa, hoje em dia, principalmente bancos, e você vai ter a clara idéia da observação debordiana. Em meio a confusos “disque 1, disque 2, disque 3, disque 4”, que remetem o atabalhoado usuário a outros tantos disques 5,6,7,8 maquinais, a lógica economicista binária - apostando em máquinas para economizar em tributos - posterga ao máximo o contato direto com atendentes de carne e osso.
Atendentes, aliás, que mais parecem robôs de software limitado, todos com os mesmos “ obrigado por aguardar, senhor” e seus gerundismos padronizados de telemarketing, não resolvendo absolutamente nada além do feijão-com-arroz.

A ciência, doente de poder.
Debord denuncia também a espetacularização da ciência, sem autonomia e comprometida com os interesses econômicos, hoje posicionada não apenas contra as possibilidades de vida do homem, mas também contra as da sua sobrevivência:
“…a medicina já não tem o direito de defender a saúde da população contra o ambiente patógeno, porque isso significa opor-se ao Estado, ou apenas à indústria farmacêutica.” (DEBORD, 1997, p.198)

Conforme artigo na revista Ciência Hoje On-Line, sob o título “ Pesquisa de ponta despreza problema de saúde pública”, as doenças que mais matam no mundo não são abordadas pelas maiores revistas médicas. Por quê? Veja o que diz a Dra Paula Rochon, uma das autoras do estudo canadense publicado no Canadian Medical Association Journal (CMAJ), em 25 de maio. (2004)
“ Uma razão potencial para esse resultado é que o estudo de terapias dessas doenças pode ser benéfico mas tem custo alto, diante das pessoas que precisam dos tratamentos em países de baixa renda”,


A história, em 30 segundos.

Para Debord, a história em tempos de espetáculo inexiste, já que não apresenta novidades. Foi substituída pela novidade frouxa e fugaz dos produtos, dos lançamentos comerciais, das mercadorias cotidianamente reinventadas como indispensáveis e inovadoras:
“Cada mercadoria determinada luta para si própria […] como se fosse a única.”(DEBORD, 1997, p. 40)

Que sabão lava mais branco? Quem faz a melhor cola: pepsi ou coca? Qual cerveja desce mais redondo? Que ácidoacetilsalicílico cura mais rápido a dor-de-cabeça? As guerras “ de verdade”, hoje – debocha Debord - não se dão entre homens, idéias e suas armas, mas entre marcas adversárias e suas paixões. ( E eu complementaria, sem medo de errar: e entre os times e torcidas de futebol… Basta medir o tempo e energia gastos com o assunto! )

Faz sentido. A apologia do “ melhor e mais” curra dia e noite nossos ouvidos. Cervejas e refrigerantes brigam entre si pelos nossos copos, supermercados se digladiam por nossas compras do mês, bancos e cartões de crédito se empurram pela nossa escravidão consentida, montadoras de automóveis se atropelam por nossos guidons, empresas de telefonia nos desatinam com seus celulares cada vez menores e com mais acessórios que não servem para nada que não seja assaltar nossos bolsos.
Ou alguém pode me explicar, por exemplo, para que uma pessoa – que certamente
já tem uma câmera fotográfica em casa - precisa de um celular que tire fotos?
Por que um sujeito deveria trocar seu carro que está funcionando perfeitamente,
por outro igualzinho recém-lançado, que os fabricantes adredemente redesenharam o pára-choque, só para tornar o “ velho” desatualizado, inadequado, demodée e, pior, com menor valor de mercado, pois o “ novo” vai transformar o “antigo” automaticamente em um reles usado, que o espetáculo – em nsua eterna reciclagem devoradora - chama eufemisticamente de “ seminovo “?

O eufemismo, por sinal, é o mais caro recurso de linguagem do espetáculo. Em tempos de “ politicamente correto”, sob o disfarce de um pseudorespeito aos direitos humanos, tudo vem marshmelado com o estilo de dizer-não-dizendo ” tucanês”, como galhofa o humorista da Folha de São Paulo, Zé Simão.

Eufemismos abundam, a começar pelos preços. Você não paga R$100,00, paga R$ 99,99 e fica com a nítida sensação de que gastou menos do que R$100,00. Você não compra em liquidação, compra on sale, e anela em si o sentimento superior de que não se aviltou comprando coisas chiques em oferta, “coisa de pobre”, que Deus o livre!

A pobreza da riqueza.
Aliás, pobreza, em tempos de espetáculo, não é só uma circunstância sócio-econômica, inspiradora dos cuidados estatais e da sociedade preocupada com o bem-estar dos seus cidadãos. Pobreza é o horror dos horrores, o inferno do antigo apocalipse transmutado em ameaça cotidiana.

Como se fosse doença contagiosa, a pobreza é evitada por todos, de todas as maneiras, sua ameaça pior do que câncer, Aids, lepra ou coisa parecida, já que provoca a mais terrível de todas as desgraças: nos excluir das benesses da
sociedade do espetáculo, putrefatos apátridas à margem do consumo, portanto, à margem da vida.

O assassinato misterioso de moradores de rua em São Paulo, segundo artigo do psicanalista Contardo Calligaris ( Folha de SP, 26.08.2004), é um exemplo real do horror à pobreza, provavelmente praticado por jovens sem futuro– ele analisa – que estariam eliminando concretamente o espantalho anunciado dos seus próprios devires sem esperança. Debord, talvez, interpretasse assim:
“ …quanto mais [o espectador] aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo”. (DEBORD, 1997, p.24)

Mas, the show must go on. Assim, a propaganda trata de se apropriar sem escrúpulos de antigos valores para incutir medos, inseguranças, inadequações, sentimentos baixos, nos fazendo crer que, com aqueles produtos ou serviços, seremos melhores, mais amados, mais seguros, mais aceitos, mais vitoriosos, mais ricos, mais jovens, mais felizes.

O sucesso fracassado.
A noção de “ sucesso”, inclusive, está embutida em todas as promessas. O espetáculo é o nosferatu oficial do desejo humano de sucesso. E sucesso tem vários significados. Não é mais ser bonzinho para ir para o céu quando morrer, como queriam as antigas religiões, que antes nos controlavam passivamente com seu severo decálogo.

Lipovetsky ( 2004, p.21) aponta para uma ética atual bastante flexível – “ à la carte” - onde quase mais nada é pecado nem proibido, os hiperindividualistas
decidindo em foros íntimos o que é certo e errado, fazendo jus à uma muito anterior observação de Debord de que
“ os homens estão mais parecidos com seus tempos do que com seus pais”. ( Debord, 1997, p.182)
Caiu a máscara de demens in sapiens detectada por Edgar Morin ( 2002). E os políticos, que Baudrillard ( 2002, p.42) chama de “charlatões”, contam também
com o acobertamento cúmplice da mídia, segundo Debord, as suas reputações maleáveis e corrigíveis à vontade pelo espetáculo. De demônios se tornam anjos: “O que nunca é punido, torna-se permitido”. (DEBORD, 1997, p.184)

O céu está 100% acessível, desde que você possa comprá-lo. E não é mais aquela balela dos anos 60 da Igreja Católica, que vendia barato indulgências plenárias e cadeirinhas celestiais.

Céu é um sucesso tangível e terrestre. Até mesmo nas religiões modernas – as grandes monopolizadoras das madrugadas televisivas - que promovem sem pruridos “ vigílias de empresários”, para orar por lucros, em nome do senhor-jesus. ( Logo Ele, que dizia seu reino não ser desse mundo... )
“ Nunca foi possível mentir com tão perfeita ausência de conseqüências”. (DEBORD, 1997, p.183)
Sucesso é ser magro. Nem que transforme adolescentes em anoréxicas dignas de Biafra. Sucesso é ter muito dinheiro, conta em banco, cartão de crédito, carro importado, griffes famosas, cabelos loiros, peitos grandes, pênis eretos, bumbuns arrebitados, rostos sem rugas, férias no exterior.

Sucesso é ter mais que o vizinho, que o colega, que o cunhado, é ser guindado aos mais altos cargos na empresa, é causar inveja, freqüentar shoppings, restaurantes chiques, cabeleireiros, vernissages, é sair na revista Caras estatelado numa cama do seu castelo fake ou agarrado a uma lagosta boca-livre em sua sonífera ilha.

Sucesso é não envelhecer jamais, é trocar a esposa de meia-idade por uma de 20 anos, é fazer lipoaspiração e plástica dos pés à cabeça e expor-se à curiosidade alheia, mostrando com orgulho a sutil cicatriz.

Na sociedade do espetáculo, sucesso é privilegiar o corpo em detrimento da cabeça. E dê-lhe Prozac, Lexotan e Isordil!


Vida real: o resgate.

O filósofo Edgar Morin, em seu livro Terra-Pátria ( 2000), escrito quase quatro
décadas depois do A Sociedade do Espetáculo ( 1997 [1967]), parece concordar
com Debord, inclusive na exacerbação de muitas das previsões do colega francês.

Acusando a tecnociência de motor da agonia planetária e o desregramento econômico de reducionista cego ao não-econômico, Morin (2000) atribui à lógica da máquina artificial a supressão da poesia da vida, a deterioração das solidariedades e a subjugação dos humanos em sufocantes prisões racionais de especialização, cálculo, eficácia, rapidez, cronometria, “ macdonaldizando” – segundo expressão de Georges Ritzer ( in Morin, 2000) – a sociedade.

Um angustiante vazio interno - diz Morin (2000) - deixou o homem “ doente de velocidade”, alheio ao seu ritmo natural, provocando um consumo histérico do presente hiperatrofiado, com insaciável obsessão estética e dietética, em meio à fria sensação de perda do futuro, onde até o amor sofre do mal da instabilidade, da pressa, da superficialidade.

Como fugir dessa opressão espetacularizada dos tempos hipermodernos? Morin e Debord, coincidentemente, apontam para o mesmo caminho: pelo prazer da itinerância e pela valorização dos momentos autênticos de viver por viver.
Morin
Para Morin (2002, p.154-156) - pregoeiro da plena assumpção do sapiens-demens - o alívio essencial viria do cultivo da arte, do amor, da amizade, que nos roubam do estado prosaico, racional, utilitário, e nos arroubam a um estado poético de pacto surrealista com o real.

Na boca de Debord, a itinerância recomendade por Morin é um sinônimo de idêntica libertação: “viagem”. Poeta, Debord conclama a sociedade a acordar do tédio de suas vidas espetacularizadas para alçar vôo em redentoras experiências originais:
“ … trazer de volta a [...] vida entendida como uma viagem que contém em si mesma todo o seu sentido”. (DEBORD, 1997. p. 117)

Viagem sem preço.



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anos, do site www.uol.com.br, em 20/08/2004.


Referências Bibliográficas
BAUDRILLARD, Jean - “ Tela Total: mito-ironias da era do virtual e da
imagem” ; tradução Juremir Machado da Silva. 3 ed - Porto Alegre: Sulina,
2002.
CALLIGARIS, Contardo - “ Quem tem medo dos moradores de rua?”, artigo
in Folha de São Paulo, edição de 26.08.2004.
CIENCIA HOJE ON-LINE - “Pesquisa de ponta despreza problema de saúde
pública”, artigo in site http://www2.uol.com.br/cienciahoje/chdia/n1078.
htm) 23.06.2004.
DEBORD, Guy - “ A Sociedade do Espetáculo”; tradução Estela dos Santos
Abreu; Rio de Janeiro: Contraponto. 5ª reimpressão.1997
LIPOVETSKY, Gilles - “ Metamorfoses da Cultura Liberal: ética, mídia e
empresa”; tradução Juremir Machado da Silva.- Porto Alegre: Sulina, 2004.
MORIN, Edgar, KERN, Anne B. - “ Terra-Pátria”, tradução Paulo Neves -
Porto Alegre: Sulina, 2000.
MORIN, Edgar - “ O Método 5, A Humanidade da Humanidade”, tradução
Juremir Machado da Silva - Porto Alegre: Sulina, 2002.
WOLTON, Dominique - “ Internet, e depois? uma teoria crítica das novas
mídias”, tradução Isabel Crossetti - Porto Alegre: Sulina, 2003.

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Vende-se criança. Cobra-se bem.

Essa gente que mexe com inseminação humana se acha deus. Não. Se acha mais que deus. Tão mais que acha que pode anunciar criança feito mercadoria. Fiquei chocada com a campanha publicitária de uma clínica de inseminação aqui de Porto Alegre, por sinal, localizada em um prédio hiperchique da cidade. Os caras anunciam criança como um big mac, vendendo features ( excelência técnica), vantagens ( tecnologia de ponta) ao melhor estilo publicidade sem ética da pós-modernidade, embora ironicamente também se atribuam - veja você!- ética. Chegou a me dar um arrepio quando vi o anúncio na ZH, e ao entrar no site, horror de novo. O mesmo discurso risonho de venda de criancinhas, como se fosse a coisa mais natural e aceitável do mundo anunciar bebês. Só falta dizer: compre um e leve três!...
Um texto cheio de dentes, pimpão, de silvio santos em porta da felicidade. Eles devem defender seu cinismo mercantil baseados em quão felizes ficam as mamães e os papais desses bebês inseminados. Mas, podem tirar o semenzinho da chuva. Pra cima de mim, não, que eu sou do século passado. Por favor, tenham mais compostura quando tratam desse assunto. E não atravessem a rua da ética indo vender criança na peixaria. Publicidade assim fede.

PS: Antes que me joguem pedras, atenção. Não estou criticando quem faz inseminação artificial. Estou criticando propaganda de inseminação artificial como se bebê fosse mercadoria.

Humor: Pecadora.

Estávamos de férias em Itapema,SC, toda a família. E nos visitava um padre lá de Ijuí.

Enquanto ele se escarrapachava numa cadeira de praia se empanturrando de alguma guloseima como só padres sabem se empanturrar, meu sobrinho Pedro, o perguntador, que devia ter uns 5, 6 anos, resolve inquirir o homem de deus sobre questões que atormentavam a sua cabecinha de minigênio.

- Padre, é verdade que é pecado falar nome feio?

O padre, meio sério, meio rindo, tentou se esquivar de uma resposta sim ou não. Mas Pedro, o pentelhinho, nao se rendeu àquele depende escorregadio.

- Nome feio, padre! Daqueles beeeem feios!- ele insistiu, apertando o padre nas costas da cadeira com seus olhinhos azuis determinados.

O padre foi obrigado afinal a dizer que sim, mas ressaltou: não seria um pecado mortaaal, porém um mais leve, da categoria dos veniais.

Pedro, o promotor, deu-se por satisfeito e virou-se entao triunfante pra mim, me entregando sem dó, ali mesmo, na frente do padre.
- Viu, tia Graça?

( Graça Craidy)

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Um blog à beira de um prozac.

Oh, Deus! Faça com que visitem o meu blog, para que ele nao seja mais um desses blogs solitarios e deprimidos vagando à deriva por esse breu digital, sem amigos, sem leitores, sem seguidores, sem simpatizantes, sem implicantes, sem replicantes. Amém. ( Breve momento argentino, com trilha de Antonio Maria.)

Poesia: Sangria

Enquanto o vermelho da minha boca
se descora no cigarro
eu sangro pela caneta.

Poetar
é a sangria desatada
da minha alma.

( Graça Craidy)

Livro: A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord

ISTO É QUE NÃO É, COCA-COLA!


Guy Debord é o brilhante filme que deu origem à série Baudrillard. Inspiração, aliás, permitida a priori pelo próprio Debord, há quase 40 anos, em seu aforismo 207 do livro A Sociedade do Espetáculo, onde o autor estimula o “ uso desviado”, afirmando que “ o plágio é necessário” ao progresso das idéias, porque “ apaga uma idéia errônea, a substitui pela correta”.

Não é o seu caso. Se tem coisa que o filósofo, cineasta e agitador político do Maio de 68 Guy Debord acertou foi na sua lúcida premonição da chamada “ sociedade do espetáculo”.

Regido pela lógica do consumo, pelo poder econômico, pela “ sobrevivência ampliada” com “pseudonecessidades” e pela sedução da mídia, o espetáculo se impôs fundamentado em um maquiavélico script: “ tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação”.

É impressionante que, já naquela época, Debord tenha antecipado o “ império da passividade moderna”, onde os homens - hipnotizados pela tela da TV, do computador, do celular - seriam transformados em meros consumidores e espectadores manipulados, expropriados de seu tempo, vidas e desejos reais e convencidos de que “ a ilusão é sagrada; a verdade, profana”.

Abduzidos ao “ pseudomundo à parte do não-vivo”, do lado de lá da tela, eles jazem prisioneiros de “ interlocutores fictícios que os entretêm com a sua mercadoria”.

De fato. Pra que mais, se quem tem Globo tem tudo?

Ladra descarada de valores verdadeiros e históricos, a publicidade – melíflua porta-voz dos senhores da sociedade do espetáculo – segundo ele, ajudou a separar os indivíduos de si próprios e dos outros, criando “ o monopólio da aparência”. Foi cúmplice na inversão da realização humana “ do ser para ter e parecer” e passou a comandar “ multidões solitárias” falsamente coladas por descartáveis invenções tecnológicas que acentuam as suas distâncias.

“ O espetáculo reúne o separado e o mantém separado”, diz Debord. Vide as grandes capitais, com seus milhões de carros e celulares e seus las-vegasescos templos de consumo: os shoppings e hipermercados.

Debord alerta para a paradoxal privação contida no consumo de mídia e mercadorias: “ O espectador, quanto mais contempla, menos vive”.

E psicologiza: “ quanto mais aceita se reconhecer no espetáculo, menos compreende sua vida e seus desejos”.

A ausência de história na sociedade do espetáculo - que só vive do presente “estranho” - propicia o canto épico pífio do desimportante “ confronto das mercadorias”, onde as grandes questões passam a ser, por exemplo, quem lava mais branco, qual cerveja desce mais redondo. E onde, ainda, a novidade da história é toscamente substituída pelo Novo! Único! de produtos ou serviços que logo se tornarão velhidades em favor de outros lançamentos, definitivos até o próximo intervalo.

Na sociedade do espetáculo, a ética – como depois constatou Lipovetsky – é relativa: “ reputações são maleáveis e corrigíveis pelos que controlam a informação” e “ o que nunca é punido torna-se permitido”, dando inclusive espaço para que os homens fiquem “ mais parecidos com seu tempo do que com seus pais", como aconteceu com a famosa Lei de Gerson.

Será que vamos nos consumir de tanto consumir? Guy Debord não tem dúvidas. A não ser que a sociedade acorde do tédio de suas vidas espetacularizadas e passe a “ conhecer experiências autênticas”.

Resta, de esperança, o poético apelo de Debord: “ Precisa trazer de volta a vida entendida como uma viagem que contém em si mesma todo o sentido”.

Árdua tarefa. Ele, mesmo, não conseguiu descobrir o seu sentido. No outono de 94, doente e isolado, suicidou-se. ( Guy Debord, A sociedade do espetáculo, trad .Estela S. Abreu, 1ª Ed Contraponto 1997) (Graça Craidy)
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