Afasta de mim este cale-se. Os peremptórios estão chegando.

Petardos retórico-salivares.










Toda época tem o seu deus. Na nossa, uma divindade se destaca mais que todas as outras: a do Peremptório.

Deus nos livre do Peremptório! O Peremptório é uma deidade cruel. Frio. Implacável. Intocável. Irretrucável. Irretorquível. O mais puro de todos. O mais bem-informado de todos. O que tudo sabe. O que tudo vê. O que tudo critica. O que tudo julga. O que tudo estudou, leu, releu. O que tudo acusa. E, principalmente, o que ninguém pode contrariar.

Ai de ti, Betsaida, se não caires nas graças do Peremptório. Melhor não. Porque se você ousar pensar diferente dele, ter as suas razões, apostar no seu próprio juízo de valor, ser fiel à sua maneira de pensar, à sua experiência, ao que você acredita, ser enfim, honesto consigo mesmo, você é um homem potencialmente morto a petardos retórico-salivares pelo Peremptório.

A democracia vai pro brejo e muge.








Não importa a categoria, o tema, o assunto. Pode ser política, arte, música, futebol, questões condominiais, gosto, desgosto, de uma coisa pode ter certeza: se você pensar diferente do Peremptório, reflita bem antes de falar. Você está com tempo? A paciência é uma das suas virtudes? Fez cursinho no templo zen de Três Coroas? Então, puxe um banco. Porque se tem coisa que deixa o Peremptório mais peremptório ainda, atacado de agudíssima peremptorice é o Outro - qualquer Outro - se manifestar publicamente de maneira oposta à dele. Aí a democracia vai pro brejo e muge, muge, muge. Mas ninguém escuta.

Não pertencer ao reino dos Perempórios é ter que se sujeitar a uma saraivada de argumentos os mais diversos catados em todas as instâncias do pensamento. E, se o Peremptório for acadêmico, adicione uma saraivada de citações, cada entre aspas um metralhar de setas ponteagudas direto na sua jugular, que querem dizer apenas e tão somente uma coisa: cale-se, cale-se, cale-se, idiota!

O Peremptório não aceita que ninguém pense diferente dele. O Peremptório adora uma unanimidade, não importa o que Nelson Rodrigues tenha alertado a respeito dela. Desde que seja una com o que ele acredita.

Sonha com um totalitarismozinho básico.








O Peremptório não dorme enquanto não convencer quem diverge dele a concordar com suas ideias. Ele adora proclamar que a democracia é o melhor dos sistemas mas na hora do vamos ver, é o primeiro a sonhar com um totalitarismozinho básico, onde ele é o rei da cocada preta e você o peão sem cuca e sem cocada. Peremptórios amam subestimar o interlocutor. Você não concorda com ele? Você só pode ser um ignorante, um burro, um alienado, um mal-informado, um coxinha, um petralha, um esquerdinha, um direitoso, um isso ou, quem sabe até bem pior, um aquilo!

Faz parte da estratégia do Peremptório inibir seus interlocutores com a ameaça de ostracismo intelectual. Sim, aquele dedão apontado pra você não está apenas dizendo que discorda de você. Está bradando que você é um sem-QI, um pobre coitado dum mortal que obviamente não sabe das coisas pois - imagina! - ousa discordar dele. Você só pode ser um mentecapto, um estulto, um bocó, talvez até um bocó de mola, mais feio ainda. 

Peremptórios adoram se colocar no trono e jogar seus oponentes aos crocodilos para manterem a sua majestade e o seu reino peremptoriesco engalanado com suas aspas citativas, como se citando alguém famoso você fosse obrigado a se curvar às supostas evidências e concordar, finalmente, com ele. E a mí quê? diria minha mãe.

Neverending trololó.








Tem um tipo especial de Peremptório que me bate especialmente nos nervos: é o Peremptório que adora usar o Outro como seu  sparring intelectual fazendo cama pra ele brilhar com suas proparoxítonas e construções imagéticas. Ah, confesso que esse, quanto mais entrudo, mais rápido está pedindo pra sair.

 Ainda que eu tenha o poder de bloquear o Peremptório no feice e me livrar per omnia saecula saeculorum de seu neverending trololó, penso muito antes de tomar essa decisão radical. Dou várias chances ao Peremptório. Mas chega um dia em que não há mais alpargata sete-vidas que resolva e então eu passo para a fase dois, que antigamente a gente chamava de gelo e hoje em dia a gente chama de delete. Xô, Peremptório! Vá cantar marra noutra freguesia! Faça-me o favor. Pô.
(Graça Craidy)

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