Um cuento dos bosques de Viena.


Era quase meia-noite em Viena. E eu ainda trazia no ouvido os acordes encantados dos violinos de Strauss, enleada no um-dois-três-um-dois-três do concerto de valsas que havia acabado de assistir, meus pés ensaiando fantasias Sissis de cruzar salões em vestidos bufantes, com saias de armação que cochichavam chiquechiques ao passar, anelando príncipes e felicidades para sempre.

Contos dos Bosques de Viena, Valsa do Imperador, Danúbio Azul, tantas lembranças da infância em Ijuí onde eu costumava bailar com minha irmã mais moça depois do jantar feito uma borboletinha sem amanhãs, a gente rodando e rindo e rodando na sala, enquanto na eletrola rodava um LP inesquecível que meu pai punha para tocar, chamado De Portugal à Áustria. Pois então, agora eu borboleta de novo, e na Áustria de verdade. Uh!

O hotel Renaissance ficava bem longe do local do concerto, mas como Viena era segura, voltei caminhando. Parecia que só eu andava na rua. Eu e a lua. Cidade linda, antiga e deserta. Embora eu estivesse em traje de festa, vestido de crepe, saia esvoaçante, sapatos altíssimos, nem senti a caminhada, me entregando àquela brisa noturna vienense com uma liberdade desconhecida. Poder circular a pé, de noite, pra quem morava em Sao Paulo? Eu andava bem devagarinho, pé por pé, sem pressa, pra não gastar muito rápido aquele momento único e mágico.  

Quando cheguei na recepçao do hotel atrás da minha chave, vi um casal jovem e mais um rapaz dos seus 35 anos entre risos e guizos ao redor de uma garrafa de champanha, numa mesa da entrada. Pela melodia de suas frases, deprendi: italiano.

Quando cruzei com eles, os três me olharam sorrindo, sorri de volta, e foi a senha para que o moço que estava sozinho se levantasse prontamente e, galante, me convidasse para  sentar com eles. Perché no? - pensei, com aquela ausência de prudência a que só turista se atreve, bagagem deixada de propósito em casa, junto com bom senso, malícia, e todo o resto do indefectível kit mamãe-ensinou.

O único italiano que eu havia aprendido na vida era nas músicas de Nico Fidenco, Sérgio Endrigo, Rita Pavone e Gigliola Cinquenti, entre outros que embalaram as reuniões-dançantes da minha adolescência. Mas conseguíamos nos comunicar. Eu lançava Amore Scusamis e Aldilás pra lá, eles me respondiam com Datemi un Martelos e Io Che non Vivo Senza Tes pra cá. O que faltava, a gente preenchia com inglês e espanhol. E andiamo via, que Deus protege os bêbados, as crianças. E os turistas, também.

Depois de alguns cálices borbulhantes, alguém sugeriu dançar em um night-clube vienense badaladíssimo. Eu, que já estava pronta para festa, foi só passar a mão na bolsa. Afinal, o máximo que podia me acontecer era não gostar do lugar, pegar um táxi e voltar para o hotel.

O lugar era bacana, o italiano me convidou pra dançar e eu que achava o sujeito bem normal e educado, até então - se bem que homem italiano sempre encontra um jeito de ficar valendo R$1,99, nem que seja por um átimo - comecei a ficar com um pé atrás.

Sabe-se por que razão o homem começou a passar a mão nas minhas costas e a sussurrar no meu ouvido uma frase completamente nonsense: - tu sei morbida! murmurava ele, com voz meio sinistra de filme de José Mojica Marins.

- Mórbida, eu? pensei, apavorada. Dio mio, onde é que eu fui amarrar meu burro? Se tem coisa que não sou, nunca fui nem jamais serei na vida, definitivamente, é mórbida...Cruz credo, avemaria!

Sorri amarelo, não querendo parecer mal-educada. Mas comecei a me afastar devagarinho, assim como quem não quer nada, pronta pra sair em desabalada carreira, a qualquer momento, se necessário. E o sujeito a insistir, com olho de peixe morto: - morbidissima!

Sugeri delicadamente ir embora. O esquisito aceitou. Voltamos para o hotel. Na hora do bonna notte, ele tentou ainda galantemente se oferecer para dormir no meu apartamento, ao que eu, suave mas firme, respondi -  no, grazie!  Completando cá dentro no meu pensamento: - nem morta!

Já no quentinho do meu quarto, a porta bem trancada, me ocorreu uma dúvida. Como eu vinha de 10 dias pela Itália, trazia na bagagem um pequeno dicionário Italiano-portoghese.  Eme, eme. Eme o. Eme o erre. Morbido, achei!

E estava lá, inocentemente descrito o significado da maledeta parole do Don Juan italiano: morbido, ag. macio (massio). (Graca Craidy)

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