O homem cordial, um equívoco histórico.

Cordial vem de cor, coração, não bonzinho, mas movido
pelos sentimentos ( bons e ruins).
Assisti na UFRGS à interessante palestra de Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz, editores críticos da ultimíssima edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, livro fundador da compreensão do Brasil e do brasileiro, junto com Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

O livro, que completa 80 anos da sua primeira edição, já passou por 5 edições e mais de 600 ajustes e reajustes feitos pelo autor, só nas duas primeiras edições.

Buarque de Holanda, com seu famoso capítulo 5 sobre o conceito de Homem Cordial, teria vivido uma espécie de inferno astral permanente, desde que o público e a crítica elegeram sua visão da cordialidade do brasileiro como o hit do livro.

Por quê? Primeiro porque segundo pesquisas de Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz, o conceito de Homem Cordial não é dele, Sérgio Buarque de Holanda, mas de um outro escritor, Ribeiro Couto. Couto teria se referido ao brasileiro, antes de Buarque, como "daremos ao mundo o homem cordial", visão apropriada ao livro Raízes do Brasil para complementar a sua tese.

(Imagina que louco um intelectual como ele ser reconhecido gênio por um conceito que não é exatamente seu?)

Segundo, porque houve miles de mal-entendidos quanto ao conceito de Homem Cordial, principalmente por parte de Cassiano Ricardo, que teria contribuído para o erro de compreensão ao ressaltar o livro como um " tratado sobre a bondade" do brasileiro, entendendo erradamente que cordial viria de "gentil, sociável," ao contrário do que realmente Buarque queria significar.

Cordial, diz Buarque, vem de "cor" = coração, ali onde acontecem as emoções - as boas e as ruins - e que esse homem movido pelo coração e suas paixões pratica suas relações com o público como se fosse privado, privilegiando sempre a família e os seus.

Quem não conhece esse jeito de fazer as coisas no Brasil? Basta lembrar a votação do impeachment, lembra Lília.

Lilia conta que garimpou a expressão " homem cordial" em jornais, revistas, e descobriu-a, por exemplo, na boca ignorante de Geraldo Alckimin em pleno exercício de um suspeito politicamente correto, ao dizer em um discurso que, no Brasil, o homem é cordial e a mulher também. E Lília ironiza: " ao fazer isso ele está dando um toque a Sérgio Buarque de Holanda, como quem diz, você não falou na mulher, falo eu."

Os editores contaram também das ressonâncias do famoso prefácio de Antônio Cândido ao livro, que muitos consideram o último capítulo extraoficial e outros, menos bondosos, entendem como o local onde Cândido teria inventado um Sérgio Buarque de Holanda que não existe.

Essas e outras descobertas picantes e interessantes fazem do último Raízes do Brasil um must a ser saboreado com vagar, porque é um livro que não se acaba nunca, está sempre em processo, dizem os editores críticos: a cada novo momento histórico as pessoas o lêem de um jeito, conforme suas dores e amores sociais atualizados. A ver!

( Graça Craidy)

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