Artigo: Neil Ferreira, l'enfant terrible da criação


- 'Bora, Bob? - convidava Neil, neto do turco Haddad, dito Ferreira.

Era pra já. Rabo abanando, o incondicional Bob - de raça ignorada - seguia o filho único do casal cerqueirense Antônio Ferreira e Lília Lopes Ferreira, onde quer que fosse, pelas ruas arenosas de Cerqueira Cesar, cidadezinha a 300 km ao sudoeste da capital São Paulo.

Tão pequena que, no começo daqueles anos 50, quando atingia a sua terceira década independente do município de Avaré, abrigava não mais que 9.000 almas. Entre elas, a do futuro jornalista e criador publicitário Neil Ferreira, nascido em 18 de abril de 1943.

O sobrenome Ferreira vinha do avô sírio - provavelmente chegado ao Brasil em um navio da Navegazione Generale Italiana - e que havia traduzido o seu Scandra Haddad original para, literalmente, Alexandre Ferreira. O insólito prenome Neil - segundo o próprio - foi escolhido pela mãe, inspirada em um romance policial inglês.

De turquinho a lobatiano. 

Cerqueira César, SP
Neil (2006) ironiza a sua origem étnica explicando que imigrante árabe no Brasil só passa à categoria de libanês depois de muitas posses, havendo que superar antes, com as burras em suprimento, duas penosas fases, a de turco pobre, mascate, imigrante recém-chegado, e a de sírio ex-turco agora melhor de vida, mas nem tão melhor que se possa considerá-lo libanês. Conforme Neil, seu avô Alexandre, apesar de bem-sucedido em Cerqueira César, não teria ultrapassado a condição de sírio.

eles chegavam pobres e desempregados, eram "turcos". assentavam-se, abriam um negócio, prosperavam, eram "sírios". enricavam, eram promovidos a "libaneses". meu avô, Alexandre e seu irmão Miguel, desembarcaram em Santos "turcos" e no máximo chegaram a "sírios". não conseguiram promoção para "libaneses"(...) ."Haddad" = ferreiro (profissão), exatamente como "Smith" e "Schmidt". "Ferreira" acho que foi "licença poética" do cartório. A lenda em casa diz que na sua cidade de origem, a família do meu avô era, desde o tempos ancestrais, composta de artesãos"ferreiros", "haddad", com minúsculas mesmo. (FERREIRA.2006)

As pesquisas evidenciam que embora a maioria dos árabes no Brasil seja de origem libanesa, a tradução dos sobrenomes contribuiu muito para a diluição das suas identidades originais:

Navegazione Generale Italiana
(...) os libaneses respondem por cerca de 70% dos imigrantes árabes no Brasil. (...) É importante ressaltar a índole antidiscriminatória dos libaneses, que levou-os a constituir família a partir da união com índias, negras e descendentes de europeus. Isso, a par da tradução de seus nomes árabes para o vernáculo ou a adoção de nomes e sobrenomes de famílias ilustres, levou, com o passar do tempo, à diluição de suas identidades originais. Muitos dos Ferreira, Salles, Souza, Lage, Ananias, Alcântara, Pedreira, Lopes, Teixeira, Araújo, Amado têm sua origem no Líbano. (ETNI-CIDADE, www.etni-cidade.net/arabes.htm)


Praça Irmãos Ferreira
Na acanhada Cerqueira César daqueles tempos, o avô Alexandre e seu irmão Miguel, o Tio Gué, eram prósperos comerciantes - "figurões na cidade",  revela Neil ( 2006) - e teriam doado à comunidade o terreno da praça onde estava a igreja velha, "acho que o local hoje se chama Praça Irmãos Ferreira" - Neil escava na memória, enquanto vagueia recordando-se da infância como "um interminável jogo de futebol", só interrompido por beijus e bolos de fubá, entre outros quitutes preparados pela " tia mais próxima":

Prefeitura de Cerqueira César
Minha infância foi uma delícia, pena que não pude dar uma igual aos meus dois filhos, José Bento e Juliana. Pés descalços, futebol na rua todos os dias com a molecada, umas 3 horas da tarde lanche na casa da tia mais próxima. Iam os 4 sobrinhos e mais os dois times agregados, café com leite, broa de milho, manteiga, pipoca, bolo de fubá, beiju, uma refeição completa, depois continuava o jogo, que não acabava nunca. Tinha cachorrinho vira-latas que me acompanhava o tempo todo, era o "Bob" (nos filmes do cinema local, o amigo do mocinho sempre se chamava "Bob", daí o nome do cachorrinho) (...) A gente sempre variava de tia porque levava os dois times, dava uns 16 tomando lanche, nunca vi uma cara feia nem uma bronca de nenhuma delas. (FERREIRA, 2006)

Localizada no recôndito tranquilo do interior paulista privilegiado pelas águas do Saltinho, do Macuco e por mais uma dezena de cascatas nos arredores do rio Paranapanema que ali se integra à represa de Jurumim, a terra natal do menino Neil Ferreira tinha virado município só em 1918, apadrinhada por um destino ferroviário urdido nos trilhos da Companhia Sorocabana que, por motivos financeiros, cortou Sorocaba como estação final em 1905, favorecendo Cerqueira César.

E bem ali onde os trilhos acabavam, bem ali onde se via interrompido o risco de ferro no chão, começava o desenvolvimento da comunidade cerqueirense, conforme o site Estações Ferroviárias do Brasil.

São-paulino roxo
Na época em que Neil viveu em Cerqueira César, contudo, embora o trem fosse a principal porta de saída e entrada de tudo o que representasse o mundo não-cerqueirense para o menino e seus sonhos de fuga da condição interiorana, São Paulo já havia encerrado a glória da era ferroviária, coincidindo a década de 40 com o fim do regime das oligarquias, a crise da economia cafeeira e a posterior implantação do sistema rodoviário e da indústria automobilística, nos anos 50, segundo aponta o sociólogo Nunes em seu estudo História das Ferrovias (1993).

Na década de 40 em que Neil construiu a sua infância futebolística tricolor, torcendo desde moleque pelo São Paulo F.C. nos álbuns de figurinha, Getúlio Vargas foi o presidente-ditador do Brasil, subiu ao poder e desceu, foi simpático ao fascismo e ao nazismo, depois aos países do Eixo, unindo-se aos Estados Unidos de Roosevelt e enviando pracinhas da Força Expedicionária Brasileira a Nápoles. Sustentado por sua política trabalhista e populista, Getúlio criou o salário-mínimo, a CLT, a Justiça do Trabalho e o PTB - Partido Trabalhista Brasileiro. No 8º ano da sua ditadura e fim da II Guerra (1945), foi  deposto e substituído pelo general Dutra. Mas em 1950, novamente se candidatou à presidência da República e se elegeu, assumindo mais uma vez o cargo de onde fora destituído há apenas 5 anos.

Como um romance
No final daqueles anos 40, porém, Neil nem tinha noção das ascensões e quedas de Getúlio, interessado que estava no mundo fascinante descrito por José Bento Monteiro Lobato no livro Histórias do Mundo para Crianças (1933), no qual a evolução da humanidade era partilhada com as crianças nos serões da Dona Benta, desde o começo do mundo no tempo das cavernas, até a explosão da bomba atômica de Hiroshima.

E com uma diferença marcante da história dos livros escolares: no Histórias, de Lobato (1933), tudo era transmitido como em um emocionante romance de aventuras, cujas proezas abasteceram o pai de Neil - seu Antônio - para ensinar seu garoto a ler aos 5 anos de idade, munindo-o de valioso capital cultural - capital onde a cultura acumulada tem valor de troca, segundo Bourdieu - antes mesmo de mandá-lo à escola.

Monteiro Lobato
A Mestre em História da Ciência e Tecnologia Ivy Judensneider (2006) aponta o modo de contar de Lobato como o de um "filósofo natural renascentista"  que narra a história das coisas englobando tudo que mora nessa teia formada pelas coisas, desde fatos até lendas, incluindo o que se ouviu dizer, o que um dia alguém falou, sem poupar a criança nem da lenda nem do mito.
Misturando lenda, contos de fada, e fatos históricos, Monteiro Lobato relata, em pé de igualdade, a Torre de Babel (“a famosa Torre de Babel de que vocês já ouviram falar”), o Êxodo (“a lenda diz que as águas se abriram à sua [de Moisés] passagem”) e as histórias dos impérios da Babilônia, da Pérsia, de Roma, da Grécia. (...) Moram em suas histórias, lado a lado, os deuses gregos, Moisés, Jesus, Alexandre o Grande, a Princesa Isabel, os protagonistas da Guerra dos Cem Anos e os alemães da Segunda Guerra Mundial. (JUDENSNAIDER, 2006)  http://www.arscientia.com.br/materia/ver_materia.php?id_materia=161)

O mito permitido por Lobato tornou-se poderoso capital cultural para o menino Neil que mais tarde se tornaria um dos mais renomados criadores de lendas e mitos da propaganda, como, por exemplo, o Leão do Imposto de Renda (1978) - em comerciais dirigidos por Andres Bukowinski, o mesmo diretor da série Garoto Bombril - que, de tão incorporado ao cotidiano nacional virou verbete nos dois mais respeitados dicionários brasileiros: o de Aurélio Buarque de Holanda e o de Antônio Houaiss. No Aurélio, o verbete Leão ocupa a 10ª acepção, exatamente no sentido criado por Neil:

-- leão. ----[Do lat. leone.] S. m. 10. Bras. Irôn. Órgão arrecadador do imposto de renda:  “um projeto do Senador José Sarney transita pelas mesas do Congresso, propondo que o leão seja menos voraz com as empresas que continuam acreditando na cultura.” (Rui Castro, em Folha de S. Paulo, 28.9.1983). (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio - Século XXI. São Paulo: Nova Fronteira. 1999.)

No Dicionário Houaiss, o leão se apossa  da 7ª acepção,  com o significado "Regionalismo: Brasil. Uso: informal. órgão responsável pela arrecadação do imposto de renda". O que garante a Neil Ferreira capital cultural único, moeda de grande valor no campo. Um prêmio que ninguém mais, a não ser ele, possui:

[O leão do I.R.] foi o único personagem da propaganda brasileira a ser imortalizado nos dois principais  dicionários. Isso é um prêmio! E só eu tenho. (FERREIRA, 2006)

A permissão para o mito estimulada por Lobato também inspirou A Morte do Orelhão, outro famoso comercial de televisão criado por Neil em parceria com Nello Pimentel e José Zaragoza, na DPZ (1980), onde um orelhão da Telesp despenca lentamente do seu pedestal em pleno cotidiano paulistano e morre na calçada, causando comoção nos transeuntes, que ao final o cobrem com uma folha de jornal, feito cadáver urbano. Tudo para pedir respeito aos orelhões, como narra o texto do comercial:

NARRAÇÃO: Todos os dias pelo menos 20 orelhões indefesos morrem nas ruas de nossa cidade. Nenhum de morte natural. Enquanto a gente dorme eles são covardemente espancados, violentados, assaltados, vítimas da brutalidade e da ignorância de quem não sabe que um dia poderá precisar dele.  - Por favor onde é que tem um orelhão hein? Cadê o orelhão? O senhor sabe onde tem um orelhão? - Acabou de morrer. 20 por dia , 600 por mês, mais de 7000 por ano, a cidade enlutada, exige que isso tenha um fim. Respeite o orelhão. (Audio do comercial para TV. A morte do orelhão. Cliente: Telesp. Criação: Neil Ferreira, Nello Pimentel, José Zaragoza. Agência: DPZ. 1980)
Em artigo sobre os 80 anos do Sítio do Picapau Amarelo, o colunista do Diário do Nordeste José Augusto Lopes ( 2000) chama o testemunho do pesquisador de comunicação Muniz Sodré para enfatizar a atualidade da obra de Monteiro Lobato, depoimento aqui incluído para corroborar o quão definitivo teria sido o autor taubateano nas escolhas dos caminhos criativos do garoto Neil Ferreira, assim como também foi fundamental na carreira de Nizan Guanaes e de Washington Olivetto,  esse último oito anos mais moço que Neil, mas ambos alfabetizados antes do tempo e na mesma idade, por alguém da família - Neil pelo pai, Washington pela mãe - e claramente encaminhados às letras pelas prosas lobatianas. Observe-se o que Lobato teria inspirado nos redatores filhos-de-Lobato quando meninos, segundo Sodré:
Muniz Sodré

Ao contrário das perversões pedagógicas correntes, o empenho lobatiano guiava-se pela invenção e pela curiosidade. O leitor mirim era estimulado a não ter medo de fazer perguntas, a buscar a aventura, a romper os limites colocados pelo universo adulto, entre  fantasia e realidade. ( SODRÉ, In LOPES, 2000 ).

Romper os limites entre fantasia e realidade, sem medo de questionar e empurrado pela curiosidade. Parece que se está falando tanto de Neil quanto de Washington ( ou mesmo de Zaragoza, Petit, Duailibi e Nizan). A diferença talvez esteja em quem os ensinou a ler, o que os teria estimulado a buscar, empoderados do espírito irreverente e questionador da boneca Emília (dizem alguns, o alterego de Lobato).

De estudante interno a cidadão do mundo.

Neil, na penúltima fila, o 3º da direita para a esquerda


No ano de 1948, Neil não só aprendeu rapidamente a decifrar as letras, palavras e sentidos, como daquele momento em diante sonhou ser viajante dos sete mares narrados no História do Mundo. Perguntado sobre o que queria ser quando crescesse, enquanto Washington respondeu, sem hesitar, "vendedor ", Neil não soube definir.  Talvez a expressão "cidadão do mundo" fosse a síntese mais próxima do seu desejo infantil, que, afinal, acabou se cumprindo - maktub, como dizem seus ancestrais - financiado principalmente por seu trabalho na publicidade, que possibilitou, entre outras coisas, que Neil vivesse um ano em Londres, oito meses em Nova York e meio ano em Firenze:

Em Paris, na rua onde queria morar
Por influência do livro, queria crescer logo para viajar e conhecer o mundo. Estive em alguns lugares interessantes, (...) vivi um ano em Londres, oito meses em NY, seis meses em Firenze. Tenho ainda uma dívida externa, devo a mim mesmo um ano em Paris, sei até em que lugar quero morar. ( ...) Quero morar na na Place Dauphine, no 5ème, a ruazinha da entrada é exatamente na metade da Pont Neuf, aos fundos da pracinha (é minúscula) fica o comissariado de polícia, onde o personagem de "Algaravia" (Semprun) ia tentar desencavar seus documentos, para provar que existia. (...) [ mas] não lembro de ter sonhado com alguma profissão, médico, maquinista de trem, bombeiro, craque de futebol. Isso não estava nas minhas cogitações. (FERREIRA, 2006)

O professor universitário, escritor e roteirista de quadrinhos Gian Danton conta que na década de 50 o História do Mundo para Crianças (1933) provocou a ira de um padre que acusava Monteiro Lobato de comunista. "Tudo isso porque o livro explicava o surgimento do universo e da espécie humana segundo os conceitos científicos", diz Danton, referindo-se à teoria evolucionista de Darwin que afirma ser o homem, em última instância, descendente do macaco e não de Adão e Eva, como sugere a Bíblia. 

"Para o venerável sacerdote, dizer que o homem que conhecemos hoje é resultado de uma evolução milenar era sinônimo de comunismo" , explica Danton. E mais: " o  sacerdote também achava comunista e anticristão o fato das histórias de Lobato não terem lição de moral", arremata.

A esposa Eliana e os filhos José Bento e Juliana
Neil, que não virou comunista nem moralista (embora na juventude, nos idos de 64, relate passeatas contra a ditadura e panfletagem de um chamado Jornal das Passeatas rodado "no mimeógrafo" da agência Standard), era tão fascinado por Monteiro Lobato que muitos anos depois, já casado com a ex-jornalista de Veja, Eliana - uma "hippiezinha encantadora" que um dia veio entrevistá-lo, em 1968, segundo ele (2006) - deu o nome de José Bento a seu único filho homem, em homenagem ao criador da boneca Emília, Narizinho, Pedrinho, Visconde de Sabugosa, Marquês de Rabicó, o rinoceronte Quindim, Tia Nastácia e Dona Benta.

Neil e a filha Juliana e namorado
O famoso Sítio do Picapau Amarelo onde as personagens se cruzavam seria clara referência à vida de Lobato na fazenda em Taubaté/SP, onde nasceu (1882) e onde provavelmente o autor gostaria de " verificar pessoalmente se a morte é virgula, ponto e vírgula ou ponto final", como declarou na Argentina, um ano antes de morrer ( 1948), ao repórter da Folha da Noite de São Paulo ( 22 de abril de 1947). Consta, aliás, que o nome original de Monteiro Lobato seria José Renato, diferente do agraciado ao filho de Neil, José Bento Ferreira. No site da Editora Brasiliense - que publicou grande parte dos seus livros - encontra-se uma explicação:

 Monteiro Lobato foi batizado com o nome de José Renato. Mas, aos 11 anos, recebe antecipadamente, como herança do pai José Bento, uma linda bengala que tem gravada no castão as iniciais paternas J.B.M.L. A fim de usá-la, troca o nome de Renato começado do R pelo Bento do nome paterno.  Assume, assim, o nome de José Bento Monteiro Lobato.

Neil jurado no Programa Flavio Cavalcanti
Pelo que Neil conta da sua infância de filho único, não havia espaço livre nos seus dias e noites interioranos para, por exemplo, como Roberto Duailibi - quinto de sete filhos  - ajudar a atender na loja dos pais e dos tios, na Campo Grande dos anos 40. Não Neil, e talvez aí a primeira grande diferença entre Neil Ferreira e seus pares. Apesar de descendende de árabes como os redatores Roberto Duailibi e Nizan Mansur Guanaes, e  "trazer no sangue" - como quer o senso comum -  o gosto pelo comércio, Neil nem titubeia quando revela que nunca ajudava seu avô na loja:

Não ia, eu era muito ocupado com a molecada, só sobrava tempo para o  lanche da tarde na casa de uma das tias. Eu tinha agenda de executivo, o dia inteiro tomado, só futebol ocupava quase o dia inteiro.( FERREIRA, 2006)

Cachoeira Saltinho, Cerqueira César
Por sinal, nem ele ia, tampouco ia seu pai Antonio, o filho do velho Ferreira que, segundo Neil, formou-se em Direito, mas nunca o exerceu, vindo a morrer prematuramente ainda na infância de Neil e legando ao filho, em vez de bens materiais ou a gana por vendas, o gosto pela leitura, pela poesia, pelo pó de pirlimpimpim.

A pesquisadora e crítica literária Nelly Novaes Coelho (2000), professora da USP, citada no mesmo artigo do depoimento de Muniz Sodré, justamente chama pelo mesmo nome - pirlimpimpim - essa espécie de ponte que Lobato teria criado para tornar tangível, segundo ela, a passagem "do real ao maravilhoso" em suas histórias, onde a maioria das situações das personagens é vivida no mundo cotidiano.  

Para Novaes Coelho (2000), esse jeito lobatiano de misturar deuses com mortais na roda do dia-a-dia acrescenta um " poderoso estímulo à criatividade, por demonstrar que qualquer ser humano pode atingir dimensões maravilhosas, através de sua imaginação criadora". Pelo relato a seguir, a fé na imaginação criadora teria sido, talvez, a melhor herança de Antônio Ferreira ao filho:

A vida do meu pai foi um poema, acho. Seu poema foi vivido, não escrito. Meu pai não trabalhou com meu avô nem com meus tios, tenho impressão que eles nunca compreenderam. (...) Ele morreu cedo, fora ter despertado meu gosto pelos livros lembro-me pouco. Ele que levou para casa "História do Mundo para as Crianças", do Monteiro Lobato, e me ensinou a ler desde a pág. 1, ensinando-me a magia das palavras e como a gente podia viajar nas palavras juntadas em frases, em idéias, em pensamentos, destinos, um pó de pirlimpimpim. Não gravei nada de discussões sobre "ganhar a vida", "fazer". "ter"...gravei mais as tentativas de "ser", "sonhar", por isso disse que acho ter ele sido um poeta. ( FERREIRA, 2006)

Ao contrário de Duailibi que ficava hipnotizado ouvindo as palavras escolhidas a dedo por seu tio na loja A Camponesa, para encantar as freguesas, Neil (2006) deixa claro que quando menino tinha mais o que fazer do que aprender a arte do comércio com seu avô árabe apelidado de Leão. Neil lembra dele  como " um homem forte, alto, careca, mal-humorado, lendo o Estadão de manhã e preparando-se para começar o dia", casado com uma mineira, a avó Maria América, que Neil (2006) não conheceu, mas "diziam que era muito doce, o refúgio dos filhos das brabezas do Véio", ele completa.

Pode-se tentar decifrar, nessas entrelinhas, talvez, o embate interno de dois paradigmas masculinos incongruentes onde Neil poderia querer se projetar, em um mimetismo natural de menino com relação à figura masculina: de um
Ser em vez de ter
lado o avô poderoso, empreendedor, ponteagudo como o imigrante que venceu; de outro, o pai poeta, amante das letras, desapegado do fascínio do massari , filho incompreendido pelo próprio pai e irmãos, quem sabe puxando à mãe mineira ou a algum kalil gibran da família, no passado, demasiado frágil quiçá para o gosto do rígido imigrante árabe.

Entre os dois modelos - empreendedor ou poeta - qual seguir? Como o próprio Neil relata, não gravou nenhum mensagem paterna sobre "ganhar a vida", "fazer", "ter" e sim sobre "ser", "sonhar", dois verbos bem mais convidativos ao usufruto que os da luta pela sobrevivência ou acumulação.

Ao que parece, nem o avô com seu jeito aparentemente ortodoxo, nem o pai, com seu estilo aparentemente heterodoxo, foram, sozinhos, os inspiradores do trânsito profissional do menino Neil em relação ao poder, mas a soma de ambos, em uma terceira figura hibridizada: a de enfant terrible, como os fatos indicam, aproveitando do avô o espírito vendedor e a valentia atrevida para abrir portas e fazer negócios e do pai a sensibilidade poética para construir discursos simbólicos e tentar manter-se à parte da mais-valia capitalista.

Neil com o cartaz da exposição de Zaragoza
Porém, na briga interna, parece que o " ser" ensinado pelo pai prevalece sobre o " ter" do avô, pois Neil, embora seja duro em suas negociações comerciais, ao mesmo tempo não abre mão daquilo que acredita ou que possa vir a ferir os seus princípios, em um tudo ou nada corajoso onde, passado o patamar da luta pela sobrevivência,  o "ser" não parece mais se importar com o " não ter".

Como amostra, analise-se o relato que Neil escreve a um potencial parceiro  de trabalho sobre o seu modo de operar, e obviamente, como sói acontecer, vai-se encontrá-lo mais uma vez na mesma velha lida da construção do que Bourdieu chama de capital simbólico - isto é, o poder de fazer crer:

Neil e Zara conquistam o Prêmio Abril de Publicidade
Algumas pessoas acham que sou cheio de frescuras, eu acho que sou seletivo. Escolho os clientes. Só trabalho com quem goste de trabalhar  comigo (...) Não aceito mais, como era forçado a fazer no tempo em que trabalhava em agências, prestar serviços a quem não tenha nada em comum comigo. (...) deixo de ganhar respeitáveis fees, mas preservo meu saco, no momento minha maior riqueza - e em risco de extinção. (...) A primeira reunião é crítica. Cobro R$ 2.000,00 por hora, quantia que é abatida do preço final se o contrato for realizado e cumprido. (..) (FERREIRA, 2006.)

Não há dúvida que alguém que pense assim aos 63 anos (2006) não tem, de fato, o que o mercado considera como flexibilidade básica para ser empresário. Neil não quer mais que quatro reuniões. Neil não trabalha com quem não tem afinidade com ele. Neil cobra vários salários-mínimos por 2 hora de reunião. Essa é a illusio que ele vende e a illusio que seus clientes de free-lance compram. Neil não é uma equipe, mas o que ele mesmo chama de estilo "lobo solitário".

Cidadão Kane
Ocupado em suas lides da infância, ou Neil estava jogando futebol, ou devorando broas na casa das tias, ou fazendo forfait nas aulas de catecismo da igreja ou, ainda, arrebatado pelas aventuras hollywoodianas no escuro do cinema local, viajando pelo mundo com dogs Bobs e filmes em série.

O cinema, aliás,  virou uma de suas mais " imorredouras paixões", segundo lembra, e pelo qual confessa haver ficado " vidrado" nas primeiras matinées em Cerqueira César, depois do catecismo aos domingos, cujo quanto mais cobiçado o filme, mais lotava. O catecismo era a condição imposta pelos pais para liberar o ingresso ao cinema.

Apaixonado pela linguagem cinematográfica inovadora de Orson Welles e seu Cidadão Kane, Neil usa o exemplo de outro filme para narrar o evento cinema na sua vida em Cerqueira César:
Amici Mei, de Monicelli (1975)
Você viu "Amici Mei"? Os vagabundos iam à estação de trem agredir os viajantes, de inveja porque eles passavam, iam, seguiam, e eles ficavam. Comigo era diferente. O bandinho ia à estação aos sábados às 9 da noite para ver se as latas da fita em série do domingo à tarde tinham chegado. Se chegavam, o catecismo no domingo depois do almoço lotava, sem catecismo não se podia ir ao cinema. E no catecismo, o padre era uma atração. Nada de ter pedofilia. Hoje, seria noveleiro da Globo. O julgamento do Cristo foi um thriller. Levou 5 domingos, ele fazia um suspense infernal. Parava o  "impisódio" sempre na hora mais terrivel para o mocinho. Competia maravilhosamente com o cinema. (FERREIRA, 2006)

Aquele duplo capital cultural de religião com sétima arte não se limitava, no entanto, aos domingos cerqueirenses. A vida escolar do garoto Neil, seguindo os padrões da cidade, da família e da época, aconteceu em dois tradicionais internatos de padres de São Paulo: primário e clássico cursou como interno na Capital, no Liceu Sagrado Coração de Jesus, educandário fundado no século 19 por padres salesianos, de requintadas instalações em um espaço de 17 mil m2, no bairro Campos Elíseos, zona central de São Paulo; o curso ginasial (hoje, 6ª à 8ª séries do I grau), na cidade de Botucatu, no Colégio Diocesano de padres lassalistas, que Neil também frequentou como aluno interno.  

Neil adolescente
Para o menino filho único, a vida de estudante interno foi um importante aprendizado - ele reconhece - para a aquisição de capital social, ainda que declare não sido dos alunos mais estudiosos:
Os dois colégios me ensinaram um sentido de comunidade, de vida coletiva, que não tinha. Aprendi que a "turma" é necessária. Pode ser chata, mas é necessária. Eu não sabia o que era viver metido com tanta gente. Aprendi. (FERREIRA, 2006)

Perguntado se carrega algum trauma por ter vivido tanto tempo como interno, longe da família e dos amigos de Cerqueira César, Neil responde que raramente tinha banzo, e que inclusive viveu experiências divertidas, apesar dos castigos de ser privado da sobremesa ou da saída no domingo. Reporta-se com especial afeto a um professor de francês, ex-figurinha de álbum de futebol, que ele chama de " meu tipo inesquecível":

Era um estudante sofrivel, mas curtia a escola, curtia a turma, adorava alguns professores. Havia um, José Luis Monte, de francês, em Botucatu, que tinha sido profissional de futebol e tinha sido figurinha. Descobri um album com a cara dele, o cara virou herói da classe. Dava aula de futebol falando tudo em francês. Meu tipo inesquecível. ( FERREIRA, 2006)

Colégio Diocesano de Botucatu
Naqueles idos de 50, no mesmo Colégio Diocesano de Botucatu, Neil e seus colegas de dormitório sabiam também como conviver entre si e com os padres: 

Nenhum trauma, era muito divertido viver no meio da molecada, meu dormitório tinha uns 20... houve uma aposta para saber se o padre da noite dormia de pijama ou de camisola. Botucatu é um lugar alto e frio e no inverno venta muito. Deixamos uma janela aberta, batendo, numa certa noite e ele apareceu, imenso, na nossa visão uns 3 m de altura, magro, pálido, com uma lanterna acesa na mão... de camisola... foi uma gargalhada geral e castigo geral para o dormitório inteiro, culpados e inocentes. Uma semana sem sobremesa no almoço e na janta. Ninguém ligou, era a semana de "sagu", que a turma detestava. (FERREIRA, 2006)

Neil detestava sagu e também o doce de leite que sua mãe mandava. Em vez de avisá-la para que não desperdiçasse dinheiro nem seus dotes culinários, ele calava e  corria transformar o presente em bem-vindo massari extra, valendo-se de estratégias para superar seu estado de rapazote mimado e dependente. E já se prenunciava a sua decantada visão capitalista aprendidas com os mais velhos:

Todos preferiam, menos Neil
as familias mandavam um "reforço" tipo doces, a minha mãe mandava doce de leite, que era feito de latas de leite Moça cozidas na panela de feijão, todo mundo gostava, eu não. Ia fazer o quê com o doce que a minha mãe mandava? Via colegas mais velhos rifando as maçãs que recebiam de casa. Eu rifei uma coisa diferente. (...) Tudo escondido dos padres. E o sorteio, tinha que ser da maior confiança, eu usava o sistema que já existia, criado pelos mais velhos (e mais fortes) a troco de uma comissão. O sistema capitalista funcionava sim. Então eu organizava uma rifa e levantava uns trocos a mais da mesada. (FERREIRA, 2006)

Mas o lado Haddad de Neil foi usado de muitas outras maneiras, como ele mesmo relata, lembrando seus domingos botucatenses como engraxate e locador de paletó:

Aos domingos, os bem comportados e com boas notas saiam depois do almoço e iam ao cinema, eu às vezes ficava de castigo, então engraxava os sapatos dos que sairiam e levantava mais uma graninha. Umas duas ou três vezes aluguei o meu paletó. O paletó, um colega me viu de castigo num domingo de frio e me pediu emprestado, eu falei não. Ele disse, "te trago um sanduíche de pão, queijo e mortadela e uma guaraná caçula". Começou aí um negócio novo. Se a cada tanto não houvesse férias, acho que ficaria rico.  (FERREIRA, 2006)

Como se vê, embora tenha recebido do pai o lado poético e sonhador, suas circunstâncias o empurraram ao que ele chama de mundo da "sobrevivência dos mais aptos", referindo-se aos episódios de ganhos financeiros paralelos em Botucatu. Havia até, Neil conta, uma categoria praticamente sindicalizada e cooperativada, no colégio, da qual ele fazia parte: a dos  alunos castigueiros (provavelmente os que ficavam de castigo com frequência e faziam disso uma oportunidade positiva).

Criação de Neil para a Pan Am
Imagine-se Neil, órfão de pai, seus estudos custeados pela mãe que passou a se sustentar e ao filho com seu trabalho como costureira, dando-se conta de que, na realidade, o homem da casa, agora, era ele, pois do avô, ele garante, nunca recebeu um tostão. E homens da casa, pelo menos na década de 50, tinham a espinhosa e intransferível missão de provedores. Daí, talvez, o seu esforço em ganhar um dinheiro extra:

Da turma que engraxava sapatos, eu era parte da equipe. Os "castigueiros", como éramos chamados, faziam uma caixa comum, pegavam pares de sapatos, engraxávamos e depois repartiamos a grana. Como eu não era um dos "castigueiros" contumazes, apenas "ocasional", não foi aí que ganhei muita grana, mas ganhei. (...) Puro Darwin, sobrevivência do mais apto. (FERREIRA, 2006)

Businessman precoce
Afora os lógicos motivos, parece também que Neil põe em ação seu lado de businessman precoce também no sentido de se mostrar capaz de superar desafios e de assegurar a sua autonomia perante o grupo e os adultos:

O colégio de Botucatu estabelecia um limite de grana que os pais poderiam destinar, por faixas de idade. Os pais "depositavam" no colégio, os padres distribuiam na hora da saída e a gente assinava um "vale". Na minha faixa de idade, a mais baixa, o meu dinheiro dava para o cinema, o refrigerante, pipoca, sorvete e depois um lanche. É claro que todo mundo recebia da família algum "por fora", propinoduto em ação. Eu não recebia. Disciplina com grana fazia parte do currículo familiar. Mas aprender a me virar também fazia parte. Minhas "atividades" financeiras não foram inventadas por mim, eu via colegas praticá-las e entrava na concorrência. E nunca fiz com amargura. Quando levantava algum, morria de rir porque estava "beating the system", vencia os padres e a família com um único movimento.(FERREIRA, 2006)

Pierre Bourdieu
Perceba-se aqui o que fazia parte do seu currículo familiar, nas palavras do próprio Neil: 1- disciplina com grana; 2- aprender a se virar. Nada mal para um filho único com claro espaço dos possíveis - potencial de realização, segundo Bourdieu - tamanha capacidade de poderoso construtor de capital social com suas atitudes costumeiramente vistas como arrogantes aos olhos dos comuns. 

O garoto de Cerqueira Cesar tinha especial prazer - "morria de rir", ele diz -  em enfrentar o sistema, neutralizando os dois pilares de autoridade em sua vida, ao mesmo tempo " em um único movimento", como relata: os padres e a família.

Atente-se também que ele não diz " mãe", mas "família", o que, na boca de um garoto sem pai nem irmãos provavelmente significa avós, tios, tias e primos, principalmente se a família é do interior e de origem árabe, tradicional, corporativa e com forte espírito de clã,  onde é comum e aceito todos se intrometerem na vida de todos. Para o bem e para o mal. Enfim, Botucatu, a apenas 140 km de Cerqueira César, não lhe tirou o sono.  Não por muito tempo, pelo menos:

Liceu Sagrado Coração, SP Capital
Dá para reclamar? Eu acho que não. Só tinha vontade de ir embora quando não conseguia dormir à noite e escutava, ao longe, o apito lamentoso do trem, na direção de Cerqueira Cezar. Batia o banzo. Passava logo. (FERREIRA, 2006)

Nos anos 50, quando estudava no Liceu Sagrado Coração, em São Paulo, cumpridos os ritos do colégio religioso no domingo de manhã, o atrevido enfant Neil, na valentia dos seus 8, 9 anos, fugia sorrateiramente para assistir a um famoso programa infantil de auditório do apresentador Homero Silva, na Rádio Cultura, a 15 quadras da Alameda Nothman, nos Campos Elíseos, na Capital:

Programa infantil Clube do Papai Noel
mas...não impedia que aos domingos de manhã, depois da missa e do café da manhã, eu esperasse o caminhão de suprimentos chegar e, pelo portão aberto, eu escapava e ia uns 15 quarteirões a pé, da Al. Nothmann à Av. São João, até a rádio Cultura, assistir ao programa Clube do Papai Noel. Voltava e entrava pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que tinha uma porta aos fundos para a passagem dos padres, dando acesso ao colégio, na hora certinha de pegar a fila de entrada no refeitório para almoço. (FERREIRA, 2006)

Quando fala de sua mãe Lília, viúva jovem e filha de pai espanhol, Neil não economiza traços para desenhá-la forte, estratégica e pragmática, muito mais talvez que amorosa, solícita ou maternal, como soíam ser as mães dos anos 40, 50. Basta lembrar que em seus tempos de ginásio em Botucatu ela enviava ao seu único filho, no colégio interno, exatamente o doce que ele não gostava, o de leite condensado cozido em panela de pressão. Mas Neil parece não ter se importado com a distração materna. Afinal, a rifa do doce era profícua.

Neil e sua mãe Lília
Minha mãe era uma guerrilheira, a cabeça que pensava na casa. Lembro que ela dizia "coma pão com banana mas debaixo do seu teto". A primeira coisa concreta que fiz na vida foi aos 18 anos dar uma casinha para ela morar, foi quando sentiu-se segura no começo da velhice. Minha mãe também era de Cerq. Cezar, dos avós maternos, que não conheci, só sei que o avô era espanhol, Evaristo. ( FERREIRA, 2006)


Ao completar 15 anos, em 1958, Neil começou de fato a cumprir por livre vontade o seu destino de cidadão do mundo. Deixou Cerqueira César para tentar a vida definitivamente em São Paulo, lembrança, segundo ele, tão traumática que preferia esquecer. Entretanto, bem ao seu estilo culo de mal asiento - como zomba dele seu parceiro criativo de quase duas décadas, o diretor de arte José Zaragoza - Neil já chegou à Capital dando meia-volta:

Desde que comecei a pensar para além do horizonte do filme em série dos domingos, sonhava com coisas maiores. Botucatu foi uma etapa, Coração de Jesus, internato em SP, outra, Eu queria ver outras coisas. Como todos os primos, amigos, a turminha, a gente queria era dar no pé. (...) Quando cheguei a São Paulo, aos 15 anos, depois de uma noite inteira de viagem de trem, peguei minha malinha de papelão, saí da estação, sentei no meio-fio da calçada e chorei quase uma hora. Só me acalmei quando decidi: "assim que puder caio fora da daqui". Levantei-me e fui enfrentar a vida como um samurai, queimei a ponte de retorno, se cair fora e quando cair fora, será para frente.  (FERREIRA, 2006)
Anúncio imobiliário convincente
"Queimei a ponte de retorno" é uma decisão bastante forte para um adolescente de 15 anos. Não tanto, porém, quando se pondera que ele já não tinha mais pai, havia passado metade da sua breve existência como aluno interno longe de Cerqueira César, e provavelmente agora  - a par de querer " dar no pé" - decerto também se sentia na obrigação de começar a trabalhar para o sustento da mãe.

" Enfrentar a vida como um samurai", por outro lado, traz embutidas conotações de importante capital simbólico, pois sabe-se: samurais não são guerreiros quaisquer, ocupavam o mais alto status social no Japão e seguiam um rígido código de honra. Segundo esse código - Bashido, o caminho do guerreiro - um samurai serve ao seu senhor com empenho, lealdade, bravura e até com a própria vida, se precisar, buscando a perfeição nas artes militares e a mais virtuosa reputação pessoal. O importante na decisão do jovem samurai Neil, no entanto, parece conectar-se mais com garra, austeridade, autodisciplina, autocontrole, determinação e metas claras, que fariam dele dos mais compulsivos workhaolics, seja como jornalista ou como publicitário.

jornal Puk Puk
Em mais de uma entrevista, Neil fez o elogio do trabalho como ponte para o sucesso. Aos estudantes da Famecos (PUCRS) que editavam o jornal universitário Puk-Puk (1971), por exemplo, perguntado sobre o que se deveria fazer para vencer na propaganda, ele foi direto ao ponto: trabalhando. E trabalhando mais que os outros.

Você precisa apenas acordar um pouco mais cedo do que os outros, e dormir um pouco mais tarde. (...) No Brasil, se trabalha sete meses por ano. (...) é só trabalhar mais um pouquinho que as outras pessoas. Não precisa nem ser bom. (...) Quando eu comecei a trabalhar em Propaganda, tinha três redatores super-cobras. Eu olhei para a minha maquininha, e pensei: "em dois anos, eu vou construir o quarto grande redator de Propaganda." (...) foi só estabelecer uma disciplina nazista, mas era comigo, e trabalhar doze, treze horas por dia. (FERREIRA, 1971.)

Interessante notar que Neil programou-se para se construir como o quarto grande redator de Propaganda e, provavelmente tenha sido dos maiores redatores da história da propaganda brasileira. Programou-se e ali parou: em nenhum momento da sua carreira tentou se construir empresário da propaganda, ao que se sabe. Outra observação: diferente dos seus pares, também, Neil não apresenta nenhum traço nacionalista, aliás, trata-se de um globalizado precoce.

Mozart, para Neil o 5º Beatle
Suas referências culturais são requintadas e a maioria estrangeiras, sacadas do chamado mundo sofisticado da cultura, tão prezado pelos frankfurtianos Adorno e Horkheimer, nos anos 40, e tão desmitificado pelos birminghamnianos Raymond Williams e Stuart Hall, entre outros, nos anos 60, que alinham cultura popular e erudita no mesmo horizonte, sob o ponto de vista da narrativa, onde a verdade reveladora dos seus atores se oferece evidente em suas entrelinhas e contextos.

Quando fala de museus, de igrejas, de músicas, de pontes, de ruas, de filmes, de livros, de referências culturais, Neil é coerente com sua face cidadão do mundo: os nomes que cita são espécie de griffe do erudito consagrado, com aquela nonchalance tão habituada à sofisticação intelectual que não se apercebe que em vez de citar, ostenta.

O que não se sabe é se Neil age assim por haver naturalizado, de fato,  um grande volume de conhecimento adquirido em livros, filmes, viagens, cursos, ou se incorporou à pele seu incansável hábito de incorrigível construtor de capital simbólico, ator de si mesmo, como foi, por exemplo, o pintor espanhol Salvador Dalí que, ao morrer - como conta Francesc Petit em seu livro Propaganda ilimitada (1991: 55) - teria merecido do La Vanguardia, principal jornal de Barcelona, um caderno especial e a intrigante manchete: " Morreu o gênio que inventou Salvador Dalí".

De enfant a vieux terrible

Neil, aparentemente, diverte-se com suas irreverências e com suas referências. Como o bom enfant terrible - e ele corrige: estou mais para velho terrible" - que num mesmo movimento desafiava os padres e a família, às vezes ele se vale de sofisticado discurso mais pour épater le bourgeois que por convicção irredutível.

Não há dúvida, todavia, que sua tolerância ao vulgar, ao pop barato, ao rasteiro, é bastante reduzida, ao contrário de Washington e de Nizan, por exemplo, dois contumazes recicladores sem pudor da cultura popularesca, Washington, por exemplo, que não hesitou em utilizar a quase pornográfica música " Na boquinha da garrafa" com uma nova letra ingênua e infantil, para a trilha cantada que anunciava famosa bebida láctea para crianças; Nizan, por sua vez, sem vexar-se de transformar o cabelo pixaim de bebês negros em esponja de aço para vender determinada marca concorrente de Bombril.

Embora tenha criado com Zaragoza, na DPZ, uma das figuras mais populares da propaganda brasileira - o Baixinho da Kaiser -  ambientado dentro de um banheiro masculino, Neil, por sua própria formação evita o popularesco do riso ou do drama fácil.

Comercial O Baixinho da Kaiser
O Baixinho da Kaiser fazendo xixi no banheiro foi resultado da exposição do cooper do bebedor de cerveja. Ele enche o tanque no bar, o que todo mundo sempre mostrou, vai ao banheiro e esvazia o tanque, o que ninguém nunca tinha mostrado. O comercial é o Baixinho esvaziando o tanque. Leão de Ouro em Cannes e, depois, escolhido pela CBS TV Network One of the Greatest Commercials Ever Made (Um dos maiores comerciais de todos os tempos). (FERREIRA, 2006)

Faculdade de Direito USP
Concluído o ensino médio no Liceu Sagrado Coração de Jesus, em 1961, Neil entrou para a Faculdade de Direito da USP -  uma tentativa de seguir os passos do pai? -  segundo ele (2006) com o único intuito de " morar de graça na Casa do Estudante". Mas, dois anos depois abandona o curso - provavelmente quando melhorou suas finanças ou quando desistiu de seguir os passos do pai - indo mais tarde completar, sem grandes arrebatamentos, a sua formação na Escola de Sociologia, a mesma frequentada por Duailibi, porém em épocas diferentes.

Escola de Sociologia e Política de SP
Segundo seu depoimento, a Escola de Sociologia trouxe-lhe mais realizações amorosas (leia-se sexuais) que intelectuais. Achava o marxismo fora de época e até a expressão de Marx "perder o bonde da história", anacrônica. Garante que as passeatas de 64, quando tinha 21 anos e mimeografava o jornalzinho panfletário nas máquinas onde trabalhava como redator  (Standard Propaganda),  foram puro divertimento, desculpa para namorar as meninas sartreanas, e que nunca foi apanhado pela polícia da ditadura:

Você queria saber, acho, se na minha atividade de mimeografista clandestino eu fui preso alguma vez. Fui abordado algumas vezes, mas sempre estava de paletó e gravata, com a carteira de trabalho no bolso com um registro profissional de valor quase inacreditável para a milicaiada. Depois de identificado, me diziam "tudo bem doutor, desculpe o aborrecimento". Os "inimigos" deles eram todos barbudinhos e de jeans. Eu já era zelite.(FERREIRA, 2006)

Ricardo Freire
Em entrevista ao publicitário e jornalista Ricardo Freire, realizada para a seção Hall of Fame do Clube de Criação de São Paulo, que homenageia os mais ilustres criadores da publicidade brasileira (1999), Neil boceja metaforicamente comparando-se ao personagem Drácula, quando avalia a propaganda daquele ano. E continua a construir capital simbólico, do alto dos seus 56 anos, na ocasião:

 [ Drácula] não é um filme de terror nem um filme erótico. Drácula é um filme sobre o tédio da imortalidade. A vida eterna  é um saco. As vezes eu sinto isso, quando passo na rua e vejo um outdoor com um título que eu já fiz há 20 anos. (FERREIRA, 1999)

 Quando fala sobre música, por exemplo, ele lamenta a falta de opções e, ao lamentar, costura aqui e ali indícios de erudição casada com capital cultural  que rapidamente, de novo, se transforma em simbólico, o máximo de popularesco que ele consegue é chamar Mozart de " o 5º Beatle":

E hoje ? O que ouvimos ? Meus ouvidos que cresceram com Mozart e com 'Simpathy for the Devil', dos Stones, são incapazes de ouvir o que há por aí agora.( FERREIRA, 2006)

Quando critica o PT e o Governo Lula, por exemplo, na coluna que assina toda sexta-feira, no jornal paulistano Diário do Comércio, onde é um pertinaz cobrador e impiedoso crítico do ex-presidente Lula e seus seguidores, Neil enfia o dedo na ferida justo pela fenda mais óbvia e a que mais sangra: a da incultura. Além de se dizer " democrático à moda ateniense" ( ou seja, elitista) e de imitar o jeito de falar errado de Lula - menas, perca, etc - ele, por exemplo, exerce sem pudor o seu lado politicamente incorreto quando comenta o filme brasileiro sobre a vida dos cantores Zezé de Camargo e Luciano:

Eu não vi  "Os 2 Filhos de Francisco", nem vou ver. Não vi e não gostei, esse é um filme para o Brasil do Lulla, que assistiu "emocionado" a uma cópia pirata em Brasília. Êlles lá, eu aqui. (FERREIRA, 2006)

Stalimir Vieira
O redator Stalimir Vieira, colunista do jornal Propaganda & Marketing, ex-colega tanto de Neil quanto de Washington, na DPZ do final dos anos 70, detectou uma contrastante diferença de atitude de ambos em relação ao uso da cultura na publicidade - Neil mais à erudita, Washington mais à popular - apontando talvez uma diferença nos espaços dos possíveis dos dois, com tendências quiçá a facilitar mais a ascensão ao poder de Washington do que a de Neil, dentro daquele contexto histórico econômico e sóciocultural de alargamento da classe-média baixa com a subida gradativa de uma camada crediarista de varejos como a Casas Bahia, por exemplo, nos anos 80, que passa a ter melhor poder aquisitivo mas não sofistica o seu repertório cultural.

Isso acontece exatamente na década em que Washington abre sua agência, e, resguardado o mais que compõe o habitus de cada um dos dois criadores, encontra-se aqui uma evidência do que Bourdieu (1996) chama de " envelhecimento social",  cujo só acontece quando outro recém-chegado rompe as barreiras de entrada no campo, sustentado por um discurso novo, tecendo nova illusio - no caso, a illusio do popular substituindo a illusio do erudito -  que faz com que o campo da publicidade considere o já estabelecido - no caso, Neil - como de certo modo, um estilo a ser superado. 

Como sempre e cada vez mais, o valor-novidade impulsionando as grandes mudanças no campo da produção cultural:

Washington Olivetto
[Com Washington] A fase da elegância formal, da necessidade de conteúdo cultural na propaganda ia conhecendo seus sinais de velhice. O criativo publicitário deixava de ser o ex-jornalista, o sociólogo arrependido, o aluno de psicologia que trancou a matrícula, o artista plástico atrás de grana, enfim, a formação humanística - atributo fundamental que um dia se exigiu para o exercício da função, uma vez que não havia uma profissão regulamentada - virava uma espécie de luxo decadente. (VIEIRA, Stalimir, 2001)

Elegância formal, conteúdo cultural, ex-jornalista, sociólogo, formação humanística, de fato, tudo isso era inequivocamente a tradução de Neil Ferreira. 

Naquele fatídico ano de 1958, quando mudou-se para São Paulo, com 15 anos anos apenas, Neil conta que chegando à estação ferroviária teria ficado tão assustado, que sentou no meio-fio e chorou por uma hora.

Brasília em obras
Era o ano em que o Brasil venceria a Copa do Mundo por 5x2 contra a Suécia, com uma equipe inesquecível, segundo os cronistas da época. Na Brasília em obras no coração do Brasil Central, os candangos, obreiros vindos de todo lugar, principalmente do nordeste, e considerados os primeiros brasilienses históricos, construíam a nova capital do Brasil, sob o traçado de Niemeyer e Costa.

No céu, não apenas a URSS já havia colocado em órbita o seu primeiro satélite, Sputinik I, como o segundo, inclusive com a cadelinha Laika a bordo. O escritor beatnik Jack Kerouc, considerado a voz da sua geração, lança a novela On the road, traduzindo os valores beat em meio a drogas, álcool e jazz. 


Capa do Diário da Noite 
No Brasil, João Gilberto inaugura oficialmente a bossa-nova com a música Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, seus acordes dissonantes e o tom intimista provocando nos mais conservadores o epíteto de "desafinado", mote da próxima música de Tom Jobim, com o mesmo nome - Desafinado - em que ele bem-humoradamente alertava: "fotografei você na minha Rolleyflex, revelou-se a sua enorme ingratidão"(...) argumentando " que no peito de um desafinado também bate um coração". Na Itália, o papa João XXIII assume o trono de Pio XII. Na França, De Gaulle é escolhido presidente.

Jorge Ferreira
Neil recorda que tinha conseguido uma indicação para trabalhar como office-boy na redação do jornal Diário da Noite, recomendado por um primo do seu pai, também cerqueirense - importante capital social - o famoso jornalista Jorge Ferreira, da revista O Cruzeiro,  conhecido como o repórter do Xingu que havia se juntado aos irmãos Villas Boas pela causa indígena. Pelas reportagens de Ferreira na revista O Cruzeiro, o Brasil se embrenhava nas matas do Araguaia. 

O envolvimento de Ferreira culminou com a criação  do Parque Nacional do Xingu (atualmente Parque Indígena do Xingu),  em 1961. Primeiro jornalista a descrever o Quarup (...) foi convidado pelo presidente da república Jânio Quadros  a presidir a Fundação Brasil Central e transformar em realidade  o sonho dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas.  (O Estadão: disponível em http://www.estadao.com.br/villasboas/jorge.htm)

O repórter Neil
Embora bem recomendado pelo primo Jorge e com o espírito lobatiano de aventura ainda vivo em sua memória, o adolescente Neil tinha seus motivos para ficar assustado quando chegou à ferroviária. Daquele dia em diante, sua vida entrou em um rigoroso regime de quartel, todos os horários tomados em tarefas instransferíveis de trabalho, estudo e trabalho novamente, varando até as madrugadas, em tempos verdadeiramente difíceis que Neil atenua a gravidade e garante eram "divertidos", percebendo-se aqui um insuspeitado valor estóico,  provavelmente fruto do pragmatismo da mãe viúva jovem e guerreira, como o filho a nomeou:

... aprendi a revelar filmes e passei a laboratorista da redação. Os fotográfos gostavam de mim e me levavam nas reportagens, para carregar suas bolsas de lâmpadas. Aprendi a anotar dados de reportagens e passá-los para os repórteres. Eu estudava o curso científico das 7h30 às 11h30 da noite. Consegui um lugar de revisor "wet back" da meia-noite às 4 da manhã, era "de menor" e não podia trabalhar a essa hora. Como revisor, além de corrigir passei a reeescrever algumas matérias muito mal alinhadas. O secretário de redação me notou e ofereceu-me um lugar de trainee, das 7h da manhã ao meio-dia. Então, estudava das 7h30 às 11h30 da noite, trabalhava como revisor da meia-noite às 4 e como trainee de reporter das 7h da manhã ao meio-dia. Dormia à tarde. Acho que foi a fase mais divertida da minha vida. (FERREIRA, 2006)

E, antes que se fique penalizado com a situação do jovem Ferreira, ele emenda outra frase e poetiza, como seu pai Antonio, deixando a realidade mais suave:

Viaduto do Chá, São Paulo Capital
Não pense que foi sofrimento ou "trabalho escravo". Eu gostava muito. Saia de madrugada e ia tomar café com leite, pão fresquinho e mortadela, uma  delícia, na padaria mais próxima. Escutava meus passos batendo na calçada. Nunca tive medo, Nunca fui assaltado. Às vezes, no inverno, saia da redação, na 7 de Abril, centrão, e ia a pé até o Viaduto do Chá olhar o vale do Anhangabaú mergulhado na neblina. Lindo. (FERREIRA, 2006)

De 1958 a 1961, Neil exerceu a sua nova profissão de repórter, copidesque, jornalista, redator e revisor, onde tivesse oportunidade - no Diário da Noite (1958), na revista O Cruzeiro, como free-lance (1959), no Jornal do Brasil (1961), de modo a juntar o dinheiro necessário para garantir à mãe um teto, meta alcançada quando ele completou 18 anos, em 1961.

revista O Cruzeiro
Na revista O Cruzeiro, era a época do repórter-estrela como Audálio Dantas, por exemplo, com quem Neil realizou algumas reportagens elogiadas, segundo ele, inaugurando no Brasil o new journalism, já praticado nos EUA por Truman Capote, Tom Wolfe e Gay Talese. Sempre em regime de free-lance, que Neil (2006) - em seu indefectível discurso pró-trabalho - afirma só existir por "excesso de vagabundagem das equipes":

O free lance só existe não por excesso de trabalho nas empresas, mas por excesso de vagabundagem das equipes. Faça a conta, 30 dias de férias, 104 sábados e domingos, uns 16 feriados, total de 150 dias na vagabundagem, sobram 7 meses de trabalho no ano, enquanto for assim, os frilas deitam e rolam. Na "O Cruzeiro" só tinha estrelas que não admitiam fazer coisas menores e mesmo não fazendo, ganhavam. Se eu não fizesse, não ganhava. (...) Nunca fui estrela. (...) (também comecei em propaganda catando os restos de redatores consagrados...) Eu não recusava nada porque era um troquinho a mais e sempre muito divertido. (FERREIRA, 2006)

Interessante notar que em 1971, quando deu entrevista ao PUK-PUK, Neil afirmou que no Brasil só se trabalha 7 meses por ano, ou seja, exatamente a mesma resposta que deu em 2006, 35 anos depois,  falando da necessidade de free-lance. O trabalho, uma obsessão, ao que parece, e sem prazo de validade.

Como tantos outros jornalistas da época - Sérgio Graciotti, por exemplo, que antes de se transformar no criador mais poderoso da agência considerada mais poderosa dos anos 70, a MPM, trabalhou anos na Folha, na rádio Difusora e até na revista Realidade, como ele relatou ao CPDOC/ABP - FGV (2005:6), confirmando a lacuna estrutural - ausência de um certo talento necessário ao momento histórico - , quando se constata, nos anos 60,  a evidente carência de redatores publicitários formados para a prática do ofício e a natural transferência de redatores jornalistas para o campo símile de comunicação, a publicidade.

O new journalist Tom Wolfe
Neil entrou na propaganda em 1963 por mérito de já dominar o texto jornalístico, inclusive com a prática de um texto menos formal, amaciado, como queria Bill Bernbach - guru de Julio Cosi Jr, Periscinotto e Duailibi - pela permissão do texto " romanceado" do chamado  novo jornalismo,  que surge para se opor ao chamado "jornalismo bege" e à "pseudo objetividade" com que são relatados os fatos no old journalism, baseado em que " fição é a única forma que podemos dar aos fatos, pois todas as formas são ficções", sintetiza no New York Times, o professor da Columbia University, Michael Wood (1973),  em sua resenha do livro The new journalism, organizado por Tom Wolfe e E.W.Johnson.  
 
Enfim, como ensina um dos seus mais fiéis seguidores, o próprio Tom Wolfe: 

A idéia era dar a descrição objetiva completa, e um algo mais que os leitores sempre tiveram que buscar nos romances e contos: ou seja, a vida subjetiva ou emocional dos personagens. (WOLFE, Tom, citado por MARSHALL Leandro, em Truman Capote. Boletim Nº 20. Janeiro-Fevereiro de 1998. Instituto Gutenberg)
Segundo Neil, vários padrinhos o ajudaram na mudança do jornalismo para a propaganda, no começo dos anos 60: Rogério Severino, da TV Tupi, Antônio Nogueira, da agência C.I.N., Júlio Cosi Jr e Roberto Duailibi, da Standard, e Alex Periscinotto, da Almap:

Estava no jornalismo e um dirigente da TV Tupi, Rogério Severino, "descobriu" o meu texto e indicou-me para um amigo dele, Antonio Nogueira, então sócio de uma agência de propaganda chamada C.I.N. (hoje Leo Burnett). Antonio Nogueira ofereceu-me um "contrato de risco": eu ficaria 3 meses na C.I.N., era o prazo que eu tinha para ver se me ajustava ou não. Se desse certo, eu teria uma nova carreira aberta à minha frente, se não desse certo, cada um voltaria para sua casa. Fiquei interessado porque o salário inicial era o dobro do que eu ganhava no jornal. (FERREIRA, 2006)
O fotógrafo Neil

Atente-se aqui, lembrando da advertência de Bourdieu (1996) de que o verdadeiro candidato a dominante no campo da produção cultural  arrisca muito mais que seus pares, sem aparentemente atemorizar-se com perdas financeiras, seja porque já conta com capital econômico, seja porque tem gosto pelo risco. Neil, no entanto, provavelmente em razão de seu compromisso com sustentar-se e à mãe, foi extremamente prudente ao realizar a troca de emprego, protegendo-se com um plano B:
Aceitei [ a proposta da C.I.N.], mas não saltei no trapézio sem rede. Como o trabalho na agência era das 8 da manhã às 6 da tarde, peguei um lugar na sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil (então o jornal mais bem escrito do país) das 7 da noite à meia noite, o que me garantiria se  o trabalho na publicidade não desse certo. Deu. Menos de 2 meses depois, a Standard Propaganda (hoje Ogilvy), escrit. de São Paulo, então a melhor agência brasileira, ofereceu-me o lugar de assistente do diretor de criação, o Roberto Duailibi. Fui. Entrei assistente, saí diretor de criação. (FERREIRA, 2006)

Seis meses depois de entrar na C.I.N, Neil vai para a Standard, onde aprende tudo do ramo com seus dois mestres - Cosi Jr e Duailibi - e então vai para a Almap (1967), aprender mais um tanto com " o outro" representante do Bill Bernbach no Brasil, Alex Periscinotto.

Em 1969, em plena era AI-5, o dono da brasileira Norton Propaganda, Geraldo Alonso, ao perceber que criatividade era a illusio que dominava o mercado, contratou Neil Ferreira e uma equipe de criadores que fizeram a sua Revolução Criativa à moda Bill Bernbach, no Brasil, registrada em um famoso anúncio publicado na revista Propaganda, com a foto da nova equipe de redatores e diretores de arte da Norton, cada um empunhando suas "armas": máquinas de escrever, régua T, pincéis, canetas, sob o título " Os subversivos" - em clara provocação ao regime militar que comandava o país. Neil relembra o conteúdo:

Anúncio Os Subversivos, Norton Prop. 1969
O anúncio dizia mais ou menos: "Já era tempo de denunciá-los à nação. Olha as armas terríveis que eles têm nas mãos. São armas que podem abalar governos ou vender produtos. Com elas, esses homens são capazes de mudar a história de um país ou a história de um produto. Basta apertar um botão. De uma máquina fotográfica. Uma câmera de cinema. Um aparelho de TV. A tecla de uma máquina de escrever. Eles usam essas armas para gerar insatisfações, criar descontentamentos, acender desejos (...)" E vai por aí. Há um permanente subtexto referindo-se à situacão política do momento. A milicaiada vivia "denunciando subversivos à nação". Quando um "aparelho" caía, eram apresentadas fotografias do "vasto material subversivo apreendido", geralmente máquinas de escrever, estêncils, mimeógrafos. ( FERREIRA, 2006)

Segundo Ricardo Freire, no texto do Hall of Fame do Clube de Criação de São Paulo, a revista foi recolhida das bancas. E Neil,  o autor do anúncio, chamado para dar satisfações à censura:

Não me lembro da revista ter sido recolhida, mas eu fui "recolhido" (gentilmente, anote-se) a um escritório de censura, na rua Xavier de Toledo (...) Falei com o diretor, um militar em roupas civis, que me perguntou muito sobre "o que eu queria dizer com aquele anúncio e por que tinha escolhido a palavra "subversivos" tão grande no título". Repeti tim-tim-por-tim-tim igual explicação que havia dado ao Geraldão [ Alonso] antes do anúncio sair. (...) Sobre a palavra "subversivo", falei horas, não fui sequer ouvido. Então apelei e falei, "olha coronel, essa palavra equivale a mulher pelada no anúncio, é só para chamar atenção". Ele me ofereceu água, cafézinho e no maior  cavalheirismo me disse "porra por que não falou isso antes ". E todo mundo foi pra casa dando risada.( FERREIRA, 2006)

Em menos de um ano, Os Subversivos causaram uma reviravolta no faturamento da Norton, de tal maneira que em 1970, o empresário Geraldo Alonso ganhou o Prêmio Colunistas como Publicitário do Ano e Neil, o Prêmio Colunistas como Exemplo do Ano, que ele justifica:

... exemplo de criatividade e por pegar uma agência superconservadora, quase no fundo do poço, e transformá-la em um ano numa das mais criativas e vitoriosas do Brasil. Sangue, suor e lágrimas. ( FERREIRA, 2006)

Nem uma década depois de transferir-se para a propaganda e Neil já havia construído uma carreira meteórica e de sucesso. Ele próprio analisa o espaço dos possíveis daquela realidade conjuntural, entre 60 e 70:

Naquela época não era como hoje que existem 10 agências contratando 100 redatores. Naquela época, eram 10 agências contratando 3 redatores. Os caras mudavam de emprego toda semana, dobravam o salário todo dia. (FERREIRA, in FREIRE, 1999.)

Ênio Mainardi: despedido por Neil
Depois da Norton, Neil foi para a Proeme (1972), sob a direção de criação de outro histórico enfant terrible, Enio Mainardi (pai do ex-colunista da Veja Diogo Mainardi), conhecido por seu talento mas também pelo gênio intempestivo e atitudes insólitas, por exemplo, fazer reunião vestindo apenas cuecas, por alegado calor. Neil conta que ficou na Proeme apenas 45 dias e " despediu" a agência do Ênio de sua vida.

... achei que ele era insuportável. Demiti-o pelos jornais. Sou o único ex-empregado dele que ele não pode dizer que demitiu. (...) Quando resolvi sair, numa sexta-feira na hora do almoço, reuni a equipe de criação, Enio inclusive, e comuniquei que tinha tido uma idéia maravilhosa, a melhor da minha vida: "não volto mais aqui depois do almoço". (...) Um jornalista (...) publicou: "Para trabalhar com o Enio mais de duas semanas, você precisa ter a paciência do Sérgio Graciotti ou o caráter do Hans Hausdenchild. Eu não tenho nem uma coisa nem outra. Por isso, demito agora a agência dele da minha vida". (FERREIRA, 2006)

Neil em sua casa na Granja Viana
Naquele ano de 1972, Neil mudou-se com a família para uma casa na Granja Viana, no município de Cotia, a 13 km da Capital São Paulo. Mudou-se também para a agência SGB, onde ficou algum tempo e depois recolheu-se à Granja e aos seus free-lances.

Cinco anos depois, em 1977, Neil ( 2006) conta que recebeu um telegrama de Zaragoza convidando-o para conversar sobre trabalhar na DPZ, onde permaneceu por quase duas décadas, entre idas a Salles (90) e um anúncio "declaração de amor" publicado em todos os jornais:

Neil e Zaragoza
Trabalhei duas vêzes na DPZ, somando acho que uns 18 anos. A primeira vez, em 1977. Era free lance, (...) o Zaragoza mandou um telegrama perguntando se eu gostaria de conversar com ele. (...) Fiquei até o fim de 89.  (...) Depois de um tempo fui para a Salles, fiquei dois anos, almoçando a cada duas semanas com o Zaragoza e ele sempre me convidando para voltar e eu enrolando. Um dia ele fez a coisa mais gay que já vi na propaganda. Publicou um anúncio nos principais jornais dizendo "NEILZINHO QUERIDO VOLTE PRA CASA, TUDO ESTÁ PERDOADO. Z." Alguém resiste ? Não há nenhum redator do Brasil que tenha um prêmio desse valor. Voltei e fiquei mais 6 anos, saí de novo. Na semana passada [ dezembro de 2006] ele convidou outra vez. (...) fala que sou "Culo de mal asiento"...(FERREIRA, 2006)
Anúncio de Zara para Neil

" Cair fora para frente", naquele depoimento de Neil em 1958, quando chegou a São Paulo, podia significar tanto fugir de briga quanto realizar um upgrade, como se usa dizer hoje no mundo tecnologizado. Podia querer dizer, por exemplo, cair fora para um lugar melhor, como sua casa na Granja Viana ou até morar um ano em Paris, naquele apartamento da Place Dauphine, 5ème, que ele diz haver um dia se prometido. Só não significa, ao que parece, transformar-se em empresário de propaganda.

Neil e um dos seus polêmicos anúncios
Ao contrário de Duailibi, Petit, Zaragoza, Olivetto e Guanaes, ele afirma com todas as letras que não quis ser empresário. E as razões alegadas para isso são tão variadas quanto diversas dos seus pares e, às vezes até, diametralmente opostas.  Em entrevista ao CPDOC da FGV para a Memória da Propaganda ABAP, em 2005, aos 70 anos, Duailibi enfatiza que um dos lados positivos de ter virado empresário foi nunca mais precisar se preocupar com ficar desempregado. Por sua vez, questionado pelo jornal universitário PUK PUK, em 1971, aos 28 anos, se não pretendia montar uma agência, Neil respondeu na época zombeteiramente, como responderia um enfant terrible:

Eu não abri porque daí eu não vou ter pra quem pedir demissão. Eu quero ter. Eu sou um cara livre, independente, e não quero ficar escravizado a uma empresa, mesmo que seja minha.  (FERREIRA, 1971.)

Três décadas depois, em 2006, aos 63 anos, perguntado mais uma vez qual a razão, de fato, de não haver aberto a sua própria agência, a resposta veio tão parecida com a de 35 anos atrás, que poderia ser copiada e colada, agora na boca de um - como ele mesmo diz - vieux terrible:

Mantenho o que já disse: "Se eu tiver uma agência não tenho para quem pedir demissão". Isso é indiscutivel. Há uma outra razão, discutível. Conheço de perto a vida de alguns donos de agência da minha geração, que ficaram muito ricos, eu não fiquei. Eu não invejo a vida deles, Tenho certeza de que invejam talvez não a minha vida, mas a minha liberdade. Nenhum cliente manda na minha liberdade nem no meu tempo. (...) não quero voltar para o ambiente de agência nem como visitante. Já imaginou se eu fosse dono de uma, o que seria de mim? (FERREIRA, 2006)

Neil e Emerson Fittipaldi
Informado de que nesta pesquisa acadêmica ele funcionaria como uma espécie de parâmetro, exemplo de desvio da trajetória ao poder dos seus pares, isto é, como "o que não virou dono", Neil reagiu com irritação:

Não "sou - o que - não - virou - dono" (...) eu sou aquele-que-não-tem-dono. Sou um vira-latas. Sou gato de telhado, não sou gato de sofá.  Gato de sofá tem abrigo, alimento e até carinho, mas antes cortam-lhe os culhões. Life is tough. (FERREIRA, 2006)

 E, finalmente, Neil procura deixar claro, de uma vez por todas, a principal diferença entre ele e os outros cinco criadores publicitários, Duailibi, Petit, Zaragoza, Washington o e Nizan:

Zara e Neil duplando na DPZ
Objetivos diferentes. O D e o Z sempre quiseram ter sua agência. Não sou íntimo do P, mas se ele está lá até agora é porque tem o mesmo objetivo. O W, desde que o conheço, sempre quis ter a sua agência. Não sou íntimo do Nizan, mas acho que ele sempre quis ter as suas agências. Eu nunca quis ter nem jornal nem agência. (...) Quando entrei no jornal, olhei a mesona do fundo e pensei "se ficar aqui 20 anos e trabalhar direitinho vou ser um daqueles caras, o comando do jornal". Levei um susto, não queria ser nenhum deles. Quando entrei em agência, olhei em volta em busca dos caras vitoriosos. Achei muitos, não gostei de muitos, gostei de muitos, a quem admirei e  admiro. Mas não quero ser nenhum deles, nem mesmo o Zaragoza, para quem a vida é uma eterna festa, é a pessoa mais honestamente feliz que conheço. (...) Culo de mal asiento. Nada de filosofia nem de ideologia. Apenas culo de mal asiento. Tendeu ? ( FERREIRA, 2006)

Talvez, como percebeu Ricardo Freire ( 1999), quando entrevistou Neil para a homenagem a ele publicada no Anuário #24 do Clube do Criação de São Paulo, o beatnik cerqueirense Neil Kerouac Lennon Dylan Jaegger Lobato Mozart Ferreira parece apreciar bem mais a estrada de ferro do que a estação ferroviária:

Neil Ferreira não se aposentou. Apenas decidiu trabalhar numa agência onde todas as pessoas são tão inteligentes, cultas e articuladas como Neil Ferreira. ( FREIRE, 1999.) <>

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OBS: Este texto é um capítulo de
- CRAIDY, Maria da Graça. Do Porão ao Poder, A ascensão dos criadores publicitários ao poder, dissertação de Mestrado defendida em 2007, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Famecos, PUCRS, Porto Alegre/RS (páginas 165 a 193), que investiga a ascensão dos criadores publicitários brasileiros ao poder, entre a década de 60 e 90, estudando a trajetória de seis criadores publicitários: Roberto Duailibi, Francesc Petit, José Zaragoza, Neil Ferreira, Washington Olivetto e Nizan Guanaes, sob o suporte teórico de Pierre Bourdieu e suas categorias habitus, capital social, espaço dos possíveis, lacunas estruturais, campo. No caso de Neil Ferreira, investiga-se a razão de ele não haver se tornado dono de agência como seus pares, embora possuísse aparentemente os mesmos atributos para ascender ao poder empresarial, como eles.

NOTAS:
1. Depoimento por email à autora desta pesquisa, disponível para comprovação, referido como (FERREIRA, 2006) no decorrer do texto.

2. Amici Miei I e II .Comédias italiana do diretor Mario Monicelli ( 1975) ( 1982), atuando Ugo Tognazzi, Phillipe Noiret e Adolfo Celi, entre outros. No Brasil, Meus Caros Amigos e na sequência, Quinteto Irreverente.

3. Culo de mal asiento:  expressão idiomática espanhola que significa ativo, agitado, inquieto, nervoso, intranqüilo; se diz da pessoa muito excitável.

4. Dança da Garrafa, música axé  moda nos anos 80. originada de uma música maliciosa do grupo É o tcham!, assemelhando seus movimentos à pratica sexual, onde o dançarino se requebra em direção a uma garrafa colocada no centro da dança, Refrão: " Vai ralando na boquinha da garrafa/ E na boca da garrafa/ Sobe e desce na boquinha da garrafa/ E na boca da garrafa."

5. Wet back : " costas molhadas"; assim eram chamados os mexicanos que atravessavam o Rio Grande a nado (molhando as costas, portanto) entrando ilegalmente nos EUA. Tem o significado de "clandestino"

6. Segundo Neil, quem lhe deu um " belo impulso" foi o secretário de redacão, Eugenio Gertel, "pessoa histórica da 'cozinha' do jornal", que fazia a edição sair "boa e na hora".

7. New Journalism: relato dos fatos jornalísticos em narrativa romanceada, como se fosse ficção.

8. Glossário bourdieuano:

Campo: " lugar de lutas entre detentores de poderes (ou de espécies de capital) diferentes que (...) têm por aposta a transformação ou a conservação do valor relativo das diferentes espécies de capital (...)" ( Bourdieu, P. As regras da arte, São Paulo: Companhia das Letras, 1996: 244);

Capital econômico: capital financeiro, patrimonial, acessível por herança, renda, patrimônio adquirido ou tradição familiar.

Capital simbólico: capacidade de diferir pelo uso estratégico das palavras, da persuasão, de fazer crer. Atuação, carisma, atitude. Peso equivalente ao econômico do dominante, específico da consagração.

Capital cultural: quantum acumulado de cultura erudita, média ou popular, habilidade ou conhecimento específicos, adquiridos na escola, nas instituições ou por habitus familiar.

Capital social: rede de relações favorecedoras de acesso ao patamar dos dominantes, com trânsito junto ao poder econômico ou político, também chamada por alguns intérpretes de Bourdieu de " capital relacional".

Dominante/dominado: posições de superioridade ou de inferioridade ocupadas pelos integrantes de cada campo, onde o dominante, dono do capital econômico, luta por sua permanência no poder e o dominado, lançando mão de capital simbólico, social e cultural, luta por sua ascendência ao poder.

Espaço dos possíveis: revelação das disposições; herança acumulada pelo trabalho coletivo; potencialidades à espera de objetivação; lacunas à espera de preenchimento; o espaço dos possíveis existe objetivado nas estruturas do campo e subjetivado nas estruturas mentais do habitus; é uma espécie de soma da estrutura favorável + o habitus; Roger Chartier chama de rede visível ( lacuna estrutural) + invisível ( habitus) ou, ainda, corpo ( lacuna estrutural) + mente ( habitus) social.

Habitus: "sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, enquanto princípios geradores e organizadores de práticas e de representações (...); espécie de " bagagem" cultural, social, familiar, escolar, valoral, que cada um de nós carrega sem ter consciência dela e que favoreceria determinados movimentos ascendentes ou não, dentro do campo; segundo Bourdieu, essas tomadas de posição seriam mais ou menos facilitadas quanto mais ou menos capital o agente carrega em sua " bagagem".


Illusio: jogo, espécie de alucinação coletiva; a obra de arte é produzida como um fetiche; produz a crença no poder criador do artista, no seu valor simbólico no campo; e produz novos consumidores desse valor.


Lacuna estrutural: espécie de "brecha" estrutural em dado momento histórico e sob determinadas condições, que favorece a tomada de posição; junto com o habitus favorável, resulta em um claro espaço dos possíveis, segundo Bourdieu, ou seja, um claro espaço de acesso ao poder dentro do campo, auxiliando o ator social a passar da posição de dominado à de dominante.

 Jeca Tatu 2012: Jomar Pereira, Neil e Hiran Castelo Branco
HOMENAGEM:

 Em maio de 2012, Neil Ferreira recebeu o Troféu Jeca Tatu, concedido pela ALAP-Associação Latino Americana de Agências de Publicidade, pelo conjunto da premiada obra como redator publicitário entre os mais brilhantes de todos os tempos. A ele, meu ídolo e inspirador da minha carreira como redatora, presto aqui a minha amorosa homenagem.




Bibliografia:

- BOURDIEU, Pierre - As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- FERREIRA, Neil - Depoimento por email à autora, 2006.
- FREIRE, Ricardo. Hall of Fame. Homenageado Neil Ferreira. in Anuário # 24. CCSP. São Paulo: Burti. 1999.
- VIEIRA, Stalimir - Bundalismo e bobagismo, disponível em www.stalimir.com.br
- ZARAGOZA, José - Layoutman. São Paulo: Zaragoza,  2003


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