A mão do flanelinha.

Cada vez que vou estacionar meu carro na rua e surge não sei de onde um flanelinha com aquele ar feroz de dono do metro quadrado, me dá uma vontade homicida de acelerar em vez de engatar a ré, passando por cima dele e acabando com tudo ali, antes mesmo de começar.

Alguém por favor me explique por que é que um sujeitinho que nunca dirigiu na vida pensa que pode te orientar sobre como estacionar? Mas o problema não é só orientar. Não. Ele não se contenta só com orientar. Ele quer mandar, comandar, ele e-xi-ge que você coloque a marcha rapidamente, no tempo que ele quer - porque está muito ocupado, imagino!

Com uma leve irritação na voz, ele grita aquilo que mais me bate nos nervos, (em perigosas ressonâncias no fundo dos parafusos soltos da minha maluquice adormecida): - Vem ! Vem! Vem!... E, não bastasse o vemvemvem, ele ainda enfatiza o seu comando com o que liberta imediatamente os gonzos soturnos do sótão onde mora o meu lado facínora urbana e seu facão justiceiro. Ele enfatiza o seu comando com a mão.

Com a palma da mão virada pra cima, o maldito flanelinha dobra os dedos em direção ao peito dele, mantendo o polegar espetado para o lado, e fica ali, movimentando aqueles quatro dedos pra fora e pra dentro, com uma rapidez que meus olhos mal captam o movimento. Asa de beija flor perde.

E quanto mais aquela mão abre e fecha, mais eu, que dirijo desde os 16 anos - e isso já lá se vão décadas e mais décadas! - passo a achar que não sei mais estacionar. Meu deus, não vai dar certo, não vou conseguir!

Imediatamente, meu carro adquire uns 2 ou 3 metros de comprimento além e 1 metro de largura a mais, e cer-ta-men-te não vai caber naquela vaga. Nem que a vaca tussa e dance hip hop. Mas, o flanelinha não está nem aí. O único que você consegue virando barata tonta é aumentar ainda mais o vai e vem daquela mão nojenta cheia de sujeira que insiste, agora, com redobrado vigor:- Vem, vem, vem! E, ele acrescenta:... que dá!

Como se o fato de ele, o mestre da rua, dizer pra você que-dá, desse. Como se o número de vezes repetidas que ele diz que-dá, aumentasse a competência do estacionador, no caso, eu. E não é um que-dá nutritivo, de mamãe-águia amorosa que quer ver o filho decolar do ninho. Nan nan nan. É um que-dá tipo que dá tapa na orelha se não der.

Assim que, apagadas da sua memória as tantas horas de vôo que que você tinha antes de conhecer o flanelinha, você, afinal, se rende. E depois de bufar, gemer, suar, olhar pra mão do flanelinha, suspirar, vesguear, olhar pra mão do flanelinha, espiar prum lado, pro outro, pro espelho de fora, pra dentro, pela janela, olhar pra mão do flanelinha, esterçar a direção quase 360 graus, você consegue finalmente estacionar esta banheira desgraçada que insiste em chamar de carro. E a primeira coisa que você resmunga entredentes, quando chaveia o carro e finge que sorri pro flanelinha que fica apontando aquele polegar asqueroso pra você, é: - não sei como pude dirigir sem você antes na vida, hijodeunagranpu!
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4 comentários:

  1. Oi, Graça! Blog muito bom este teu. Adorei. Vou fazer a oração para que visitem o meu blog tb.
    Quanto aos flanelinhas, quem perde a paciência comigo são eles. Eu nem olho pras mãos deles. faço exatamente como quero. Eles ficam P da vida e me largam de mão. Voltarei aqui. bj Mª Helena Frantz

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  2. Marly Revuelta escreveu:
    hahahahah!! essa é a Graça que eu conheço!! Coitado do flanelinha esta almadiçoada até a centésima "encadernaçao"!!!

    Ca entre nos, eu os detesto também. Em Sampa sao também insuportaveis e se tornaram incontornaveis. Vc nao consegue estacionar sem pagar o "pedagio" a eles!!

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  3. Andre Gagliardi escreveu:
    Gostei muito, do teu blog e fui direto ler a do flanelinha... de rolar de rir. Tu tens toda a razão. Mas já te ocorreu, que de repente aquele é o único momento, que aquele sujeito se acha importante e detentor de algo que é só dele (conhecimento da rua de saber conduzir para um estacionar). É a catarse do cara, hehehe ... Mas de qualquer forma, gostei do teu texto, com esse toque de humor ácido. E, mais já coloquei o teu blog, nos meus favoritos.

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  4. Vicente Almeida Corbellini escreveu: "Muito bom. É de bater palmas dobrando os dedos. bjs e abs profee."

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