Wolton: A caixa-preta da comunicação é o Outro.


Il faut partager.

"Partager". Essa é a expressão recorrente que permeia o discurso humanista do sociólogo francês Dominique Wolton, diretor de pesquisa e da revista Hermès no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), um apaixonado confesso por democracia, diversidade e comunicação. Tão apaixonado, que escreveu um livro-s.o.s. onde apela ao mundo: "Il faut sauver la communication".

É preciso salvar a comunicação. SP: Paulus, 2006



Nele, Wolton afirma que a salvação da humanidade, em tempos inquietos de mundialização, só poderá ser alcançada pela restauração da partilha saudável com o Outro e pelo respeito às diferenças culturais proporcionado pela verdadeira comunicação. Não confundir com informação - ele alerta. Comunicação é a que estabelece laços sociais, vínculos, relações e gera pacificamente um novo amoldamento de coabitação produtiva entre os indivíduos, as sociedades e as nações. Informação, não. Informação apenas informa.

Il faut accepter l'autre.

" A comunicação tem um grande valor humanístico e democrático", garante Wolton, porque "é igualitária, reconhece o valor do Outro, reconhece sua liberdade, igualdade e alteridade".


A democracia, diz ele, "é o único regime que admite que o Outro não pense como nós".
Por isso, deduz que comunicação, muito mais que uma questão econômica ou tecnológica, é uma questão política e cultural. Política é o meio legítimo de organizar a coabitação entre os indivíduos, entre as sociedades, as culturas e as civilizações.

Principalmente nos tempos atuais, lembra Wolton, onde a comunicação é encarada pelos players do setor como um mero processo de racionalização e mercadorização da vida, esmagando diversidades e gerando resistências de culturas oprimidas que reagem com violência, como no episódio de 11 de setembro, por exemplo.

Em entrevista a Juremir Machado, no site Trópico, Wolton dá a sua versão do atentado, bastante semelhante à de Jean Baudrillard (2003), inclusive, que também enxerga ali a vingança das culturas singulares desaparecidas:

" Na era da globalização da informação, os povos e as culturas querem ser reconhecidos.(...) A violência do atentado reflete a violência da sociedade capitalista e a sua dificuldade para conviver com outras culturas. O terrorismo é inaceitável. Mas é preciso compreender o desespero que o gerou.(...) Para além da desigualdade econômica, o mais grave, sem dúvida, é a falta de comunicação entre as culturas. (...) o 11 de setembro é emblemático do fosso cultural. Bin Laden não é o porta-voz dos pobres, tampouco o herói da guerra de religiões, mas simplesmente o símbolo da incompreensão entre as culturas. " ( TRÓPICO)



Afora as reações radicais, a globalização tem provocado, também, um recrudescimento do nacionalismo em muitas culturas. " Quanto mais globalização, mais os povos vão querer manter as suas identidades" - diz Wolton. Identidades, aliás, entrelaçadas pela comunicação:
"( ...) os meios de comunicação nacionais desempenham um papel importante, pois são um fator de identidade coletiva e de laço social, pela língua, pela informação, memória, cultura." ( TRÓPICO)


Il faut défendre l' identité .

Alinhados com a opinião de Wolton, estão também Anthony Smith (1997), Manuel Castells e Pekka Himanen ( 2002), outros estudiosos da mundialização na chamada Era da Informação, que detectam um contra-movimento das culturas ameaçadas pelas indústrias culturais homogeneizadoras.

Castells e Himanen (2002) , em seu livro sobre a Finlândia, relatam que depois de muito tempo sob o domínio das culturas russa e sueca, os finlandeses, carentes de mitos construtores da sua identidade nacional e do seu próprio idioma (substituído pelo sueco em várias gerações), incentivaram o aprendizado do finlandês via comunicação e literatura e elegeram um poema épico como o narrador de sua história.



"...Os meios de comunicação e a literatura em finlandês se desenvolveram em grande medida como um projeto nacionalista guiado pelo princípio de ' um idioma, uma nação'. O poema épico nacional Kalevala ( ...) foi deliberadamente manipulado para construir uma história finlandesa mítica."( 2001:144)

O cientista político britânico Smith (1997), em suas pesquisas sobre identidades nacionais, afirma que nada é mais forte que a identidade coletiva e que o grande fio que a tece é a cultura, impregnando a vida dos indivíduos em várias esferas, feito um constructo multidimensional.

As principais funções desse movimento nacionalista salvaguardador, diz Smith, são criar uma história, um destino, uma grande família a que todos pertençam, devolvendo a cada um o que ele poeticamente chama de " direito de nascer".

Il faut cohabiter.

"A questão da comunicação é a questão do amor", esclarece Dominique Wolton, reafirmando que na comunicação sempre se busca o Outro, alguém para escutar "o que eu tenho a dizer". No entanto, ele alerta: " 'Eu tenho algo a dizer' não é comunicação", apenas expressão, informação, mensagem sem destinatário.

"Comunicação é falar, ser ouvido, ouvir " - enfatiza, advertindo para o perigo ideológico da arrogância de uma comunicação feita por emissores que falam ao vento, esquecendo que a dinâmica do real processo comunicativo só se completa, de fato, no momento em que a mensagem é decodificada.

Em vez de "eu tenho algo a dizer", melhor seria - contrapõe ele - "eu sonho compartilhar com alguém algo que nos interesse".


"O verdadeiro elogio da comunicação é o diálogo", afirma Wolton. Aliás, essa, a grande dificuldade de qualquer relação, ele mesmo reconhece, pois para haver diálogo é necessário de antemão aceitar a alteridade do outro, respeitá-lo ao mesmo tempo como um igual e como um diferente.

O diálogo seria uma superação consciente do percalço da diferença: " Reconhecer a dificuldade e, apesar disso, querer manter a comunicação", contemporiza Wolton. Dificuldade a que ele dá o nome de "incomunicação", espécie de breu, limbo, pré-estréia constrangedora da troca desejada e, ao mesmo tempo, alerta de impasse, rumo ao horizonte de coabitação. "Incomunicação é a realidade", escancara o francês, não deixando dúvidas de quão difícil é comunicar-se de verdade.

Il faut s'ouvrir.

Sua proposta: o primeiro passo para haver comunicação é "aceitar a incomunicação". Ou seja, compreender, como premissa básica das relações, que sempre há uma incerteza de que o Outro vá nos ouvir, nos entender, nos respeitar, nos aceitar.

Por quê? Porque o Outro é, também ele, um Eu, sujeito "centro do seu mundo", na expressão de Edgar Morin.


"Outro significa, ao mesmo tempo, o semelhante e o dessemelhante; semelhante pelos traços humanos e culturais comuns; dessemelhante pela singularidade ou pelas diferenças étnicas. O outro comporta, efetivamente, a estranheza e a similitude. (...) O fechamento egocêntrico torna o outro estranho para nós; a abertura altruísta o torna simpático. O sujeito é, por natureza, fechado e aberto." (Morin, 2002: 77)


Como facilitar o abrir-se para o Outro, em harmoniosa coabitação, atendendo aos apelos de Wolton? Morin explica que é preciso cultivar o hábito de enxergar o Outro com duplo olhar - como sujeito e como objeto:

"O ponto capital é que cada sujeito humano pode considerar-se ao mesmo tempo como sujeito e como objeto e objetivar o outro enquanto o reconhece como sujeito. Infelizmente, é capaz de parar de ver a subjetividade dos outros e considerá-los somente como objetos. A partir daí, torna-se 'inumano', pois deixa de ver a humanidade deles ou, ao contrário, só pode amar ou odiar cegamente." ( Morin, 2002: 80)



Mais de uma vez Wolton realça que o difícil na comunicação é o receptor: o Outro. Vale-se até de uma expressão bombástica, para sublinhar a sua afirmação: "O receptor é a caixa-preta da comunicação". Tão complicado saber o que se passa na cabeça do Outro, tão delicado atingir uma simetria de codificação-decodificação ideal, que, para nos pouparmos do inferno sartreano, "preferimos a tecnologia", diz Wolton, onde se pode simplesmente transmitir, sem partilhar.

Il faut surpasser la technique.

Pior aliás que incomunicação, ele lamenta, é o equívoco da filosofia da comunicação dominante que imagina a técnica garantir a comunicação:

"O desafio da comunicação não está na técnica, mas no homem. Quando não conseguimos nos entender sob o ponto de vista humano, achamos que a técnica vai resolver. Mas, você pode passar horas no computador e não ter relações. "


A técnica trouxe informações abundantes, mudou a noção de tempo e espaço, e no entanto, diz Wolton, em sua entrevista ao Trópico," vê-se de tudo, mas compreende-se pouco. O fim das distâncias físicas revela a incrível extensão das distâncias culturais. (...) Precisamos compensar a velocidade e a performance dos sistemas de informação com a lentidão da intercompreensão entre os homens."

Il faut communiquer.


Nem apocalíptico nem integrado, Dominique Wolton escapa aos epítetos de Umberto Eco pela via de um otimismo crítico contundente, em que aponta os erros e propõe as soluções. Erros: tecnicismo, egocentrismo, monoculturismo, economicismo, elitismo intelectual. Soluções: democracia, consciência da incomunicação, diálogo, respeito à diversidade, à alteridade, à cultura, atenção ao receptor, legimitação das diversas manifestações culturais, estímulo ao exercício de coabitação.

E arremata: "o grande desafio da comunicação é conseguir compreender um diferente de mim". ( Ainda que ele mesmo compreenda mas não aceite, por exemplo, o diferente Pierre Levy, a quem chama de "filósofo da técnica" e o outro diferente Michel Maffesoli, a quem acusa de ter uma visão meramente "estética", não propor nada, e, como se não bastasse, decretar a morte da democracia.)
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Referências bibliográficas:
- BAUDRILLARD, Jean - Power Inferno - trad. Juremir Machado, Porto Alegre: Sulina 2003
- CASTELLS, Manuel e HIMANEN, Pekka - El estado del bienestar y la Sociedad de la Información. El modelo finlandés -Ed. En castellano. Madrid, España: Alianza, 2002
- MORIN, Edgar - O método 5 - A humanidade da humanidade - A identidade humana, trad Juremir Machado da Silva, Porto Alegre: Sulina, 2002
- SMITH, Anthony - La identidad nacional - Madrid , España: Trama, 1997.
- TRÓPICO - Wolton fala sobre a valor da mídia e da diversidade, entrevista a Juremir Machado da Silva, http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/517,1.shl (12:44, em 19 de junho de 2005)
- WOLTON, Dominique - .Il faut sauver la communication - Report escrito pelo autor para o Seminário Comunicação, Política e Tecnologia. PPGCOM PUCRS, de 17 a 19 de maio de 2005: Porto Alegre ( tradução nossa)
- WOLTON, Dominique - anotações em aula, durante o Seminário Comunicação, Política e Tecnologia, ministrado pelo sociólogo no PPGCOM PUCRS, de 17 a 19 demaio de 2005, Porto Alegre.
( Graça Craidy)
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