Maffesoli avisa às tribos: a privacidade c'est fini.

Foto: Denis Rouvre

Enquanto boa parte do mundo intelectual meneia a cabeça profetizando o fim dos tempos causado pela mudança drástica dos valores - o visual adquirindo importância inimaginada em detrimento do conteúdo, a estética se apossando da ética, as identidades se transformando em espécie de roupas banais no armário do cotidiano, os sonhos de um futuro estável e feliz se viniciusdemoraesizando em cenas rápidas, atrevidas e conformadas de infinito-enquanto-dura - o sociólogo francês Michel Maffesoli, do alto de sua impecável gravata borboleta, nem se abala.

Para ele, tudo faz parte de uma mutação natural, troca de comando de uma sociedade moderna exacerbadamente racionalizada para o revezamento com o exercício do seu oposto: uma sociedade pós-moderna reemocionalizada que retoma um modo arcaico e pré-individualista de viver.

Sai Apolo, volta Dionísio.

No seminário de metodologia, epistemologia e pós-modernidade que ministrou na PUCRS, em maio de 2006, sob o título Sociologia compreensiva, razão sensível e conhecimento comum, pontuado por estratégicos pitstops etimológicos que foram resgatando, uma a uma, as raízes das palavras-chaves do seu discurso, Maffesoli não deixou dúvidas: para ele é, mesmo, o fim dos tempos. Fim dos tempos modernos. Da razão cartesiana. Da identidade fixa. Do individualismo. Da privacidade. Do conceito. Do monoteísmo. Da eternidade no futuro. Da explicação. Da relação causa-efeito. Da metafísica. Da grande ideologia. Do drama. Do falo. Da sexualidade burguesa produtiva. Da verticalidade do poder. Da Lei do Pai.


Mas, não há motivos para se desesperar, ele alerta, aforismático: " o fim de um mundo não é o fim do mundo".

Em seu lugar, são bem-vindas a emoção e a intuição, a identificação plural e mutável das personas e suas máscaras, o tribalismo e a comunidade, o grupo e a exposição pública, a histeria e a orgia coletiva, a noção, a metáfora e a compreensão, o cotidiano e as multicausas, a invaginação e o ventre, a phisis, o politeísmo e as pequenas ideologias, a horizontalidade da potência, a tragédia, o paradoxo, o cybersexo, o instante eterno e a Lei do Irmão.

Maffesoli gosta tanto dessa revirada no planeta que chama o momento atual de reencantamento do mundo, onde o mito de Dionísio embriagadamente aciona os sentidos e convida ao desfrute da vida sem metafísica. Bem à Nietzche ( 1983), por quem o francês se declara tão influenciado que, a fazer justiça, deveria citá-lo três, quatro vezes em cada página dos seus livros: " Nietzsche é como um par de óculos para mim", diz, " ele está em mim como o bebê que suga a mãe".

O método: binóculo metafórico.


Para entender o que se passa hoje, Maffesoli aconselha o pesquisador a colocar-se no caminho (etimologia da palavra método) da sociologia compreensiva como sugere Georg Simmel - outro admirador de Nietzsche - olhando para tudo de relance, feito um relâmpago, com uma olhada sociológica que se posiciona " bem longe no passado para poder enxergar bem longe no futuro", e, também - citando Simmel, Weber e Nietszche - " buscando a profundidade que se encontra na superfície das coisas". Isto é, investigando aquilo que está no nariz das pessoas, mas ninguém vê: " precisamos compreender o que está escondido e ao mesmo tempo o que está evidente", ensina Maffesoli.

Só assim se apreende o espírito do tempo, o paradoxo da não contemporaneidade que se entrelaça e se esconde no cotidiano, como indica a frase do pintor abstrato holandês Karel Appel, para Maffesoli um claro exemplo de verdadeira atitude compreensiva: " o olho deve estar pronto para ouvir ; a rua é o meu atelier."

Tal qual Morin (1999), que abomina o positivismo nas ciências humanas e enaltece o método da complexidade - aquele que incorpora as tripas - Maffesoli desgosta do paradigma da sociologia explicativa que separa, desviscera, " retira as dobras" ( etimologia de explicare) e que usa a via reta da razão, conforme Thomas Kuhn, para ir direto ao objetivo, mas deixa na beira da estrada as bagagens que pesam, como o imaginário, por exemplo. Bagagens essas - tal qual as tripas - fundamentais para compreender ( cum prehedere: juntar o que foi separado). Aliás, para Maffesoli, compreender envolve inverter o processo: em vez de analisar, dissecar, apartar, que venham generosos verbos como abarcar, cingir, abranger, num retorno ao noturno do imaginário como queria seu outro mestre francês Gilbert Durand.


Nisso que Maffesoli chama de " deslizamento do conteúdo para o continente", a razão cognitiva da Modernidade dá lugar à razão sensível da Pós-modernidade, a um saber que o sociólogo afirma ser da ordem do saber animal e não passa pela cognição, mas pela conscientização da pele - que, afinal, dá forma ao corpo, ele lembra - convidando o pesquisador a interagir com a phisis em vez de ir além da phisis, a entrar na matéria, praticando o que ele chama de sociologia da pele, desistindo de decidir autoritariamente o que é ou não realidade, mas fazendo o modesto papel de moldura que apenas realça o objeto, não se apodera dele, para " posée bellement le pròbleme", ele diz, usando expressão de Aristóteles.

Pós-modernidade: arcaica e renascentista

Mais de uma vez, no decorrer do seminário, Maffesoli desmasculiniza os tempos atuais e, quando não fala em invaginar, insinua a bissexualização, reconhece o hedônico não funcionalista do sexo sem o fito de procriar, e inclusive, se movimenta no discurso feito a categoria gênero de certa forma houvesse se tornado obsoleta. Segundo ele, tudo o que antes, na Idade Moderna, foi espada, falo, corte, vertical, agora, na Pós-moderna, se horizontalizou. A começar pelo poder, que - de novo à la Nietzsche - vira potência, no sentido de vontade de auto-superação, de criar, de fugir do rebanho.


O sociólogo francês decreta também o ocaso do monoteísmo, de um Deus único poderoso, monoideísmo ou monotonoteísmo - segundo sarcástica expressão nietzscheana - denunciando que " o monoteísmo é uma espécie de saque, pilhagem epistemológica", porque empobrece o imaginário coletivo, impõe uma só forma de pensar e ser.

Em paradoxal posição politicamente correta, Maffesoli apregoa a volta à diversidade dos deuses como antídoto contra a destruição da biodiversidade e a dicotomização do mundo, que separa o eu do Outro, a natureza da cultura.

Essencial em Maffesoli é entender a sua postura de respeitosa observação, abrindo mão de conceito em favor de noção, metáfora, fórmulas que ele reputa menos totalizantes para catalogar a vida. Para ele, o papel do pensador é apenas cristalizar o que já está na cabeça das pessoas, dando-se conta de que as coisas se apresentam sempre em duplo sentido, como se tudo estivesse, ao mesmo tempo, ligado e separado, feito as famosas ponte e porta de Simmel, uma fechando, outra ligando: " Não sou eu que vou criar o que estou nomeando, mas vou fazer com que aquilo que já existe seja destacado", ele esclarece.

Onde Lipovetsky ( 2004) enxerga hiperindividualismo como uma característica da Pós-modernidade, Maffesoli vê a saturação do indivíduo, possibilitando a emergência da pessoa - isto é, da persona e de suas máscaras - com múltiplas identificações, nomeadas de sinceridades sucessivas no glossário maffesoliano.


Contra a solidão das grandes cidades tão estudada por Simmel nas primeiras explosões urbanas do século 19, Maffesoli detecta um arcaico desejo de tribalismo, de partilha coletiva, um modo de estar junto orgânico, que ele soma com mais dois arcaísmos: um, já citado, do retorno aos valores dionisíacos hedonistas e outro, filho da globalização, do retorno ao nomadismo, que traz embutido o bárbaro selvagem pós-sedentário da megalópole.

Sexo, mentiras e dvd.

Em relação ao sexo, especialmente ao cybersexo, o francês relata que há uma nova erótica social facilitada pela tecnologia e pela internet e que a prática do sexo virtualizado funciona como um cimento social, ligando as pessoas, sem culpas, remorsos, preconceitos, apenas lúdicos e bem-vindos exercícios do imaginário.

Como o antropólogo Néstor Garcia Canclini ( 1999), que nomeia glocal o mix intercultural fruto da negociação entre o tom local e o estrangeiro globalizante, Maffesoli confirma: a tendência é misturar, sem pudores, raízes com novidades, mixórdias culturais de, por exemplo, feijoada com McDonalds.

E a privacidade, a qual o francês lembra ser uma invenção burguesa do século 19, que economizava tudo, desde os bens até a própria intimidade, está com os dias contados. Vide os blogs, os reality-shows, a Orkut, o Facebook. Segundo ele, há uma nova onda dionisíaca de obscenidade pós-moderna, que tudo mostra, tudo precisa exibir compulsiva e publicamente, no desejo de partilha.


Maffesoli critica a visão antivisual de Guy Debord ( 1967) com sua categoria espetáculo e a de Jean Baudrillard ( 2002), com sua categoria simulacro, aos quais ele chama de " os últimos marxistas" e lamenta também o epíteto do que o acusam seus desafetos, alienado, o excesso de severidade, o elogio da racionalidade e a falta de vocação hedonista - aliás bastante típica de uma certa esquerda vintage.

Para explicar o porquê de tamanha explosão do imaginário ( palavra originada de imagem, diga-se), Maffesoli faz um esforço lógico de causa-efeito. Devido ao movimento iconoclasta da Idade Moderna, que sufocou e destruiu o valor da imagem em favor da importância do espírito, da razão, da explicação, agora se propicia o ressurgimento das forças arcaicas naturais arquetípicas que atravessam os tempos amordaçadas, mas um dia se revoltam e renascem, exatamente no momento em que a humanidade de novo permite a estetização da existência: " A estetização é a rebelião do imaginário", constata.

Conforme Maffesoli, tatuar o corpo, adorná-lo com piercings, teatralizar rituais coletivos, vivenciar tragédias em manifestações viscerais de histeria grupal - como a Copa do Mundo, por exemplo - permite aos indivíduos compartilhar uma vibração comum que no seu modo de ver homeopatiza a morte em festas que intuem a não-eternidade do humano. Ao intuirem a sua mortalidade, os indivíduos a substituem pela intensidade do instante eterno, onde o bálsamo da estética rege a ética e o que verdadeiramente une é o simbólico.<> ( Graça Craidy)


Referências:

- BAUDRILLARD, Jean - Tela total. Porto Alegre: Sulina, 2002.

- GARCIA CANCLINI, Néstor - La globalizacion imaginada. Buenos Aires: Paidós, 1999.

- DEBORD, Guy - A sociedade do espetáculo. [ 1967] São Paulo: Contraponto, 1997.

- LIPOVETSKY, Gilles - Metamorfoses da cultural liberal. Porto Alegre: Sulina, 2004.

- MAFFESOLI, Michel - Sociologia compreensiva, razão sensível e conhecimento comum. In manuscritos colhidos no seminário de mesmo nome, por Graça Craidy, 43 páginas, Porto Alegre: PPGCOM PUCRS, 2006.

- MORIN, Edgar - O Método 3. O conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 1999.

- NIETZSCHE, Friedrich - Sobre verdade e mentira no sentido extramoral . [ 1873] p.43-52, Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 1983

- SCHILLING, Voltaire - Georg Simmel e a filosofia do dinheiro - Círculos sociais. Acesso em 17/06/2006, 12:38. Disponível em : http://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htmSIMMEL, Georg -

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3 comentários:

  1. li mafessoli, estou relendo durand, adoro eliade, jung, campbell...acho que é bem por aí mesmo estamos entrando (já entramos!) numa nova era, uma virada de página intelectual, espiritual, cultural e o que mais seja e quem não entender esse momento será engolido..

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  2. Marcio Reiff escreveu:

    inteligência e sensibilidade se equalizam nos textos dessa gaúcha universal

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  3. Achei as reflexões bastante instigantes...
    Assim, talvez estejam mesmo “os sonhos de um futuro estável e feliz se viniciusdemoraesizando em cenas rápidas, atrevidas e conformadas de infinito-enquanto-dura” ...Talvez possamos conciliar “conceito” com “noção”... Privacidade é intimidade, cada um cuida da sua, compartilhando como e com quem lhe convém... exercendo-respeitando o limite-liberdade individual, no mais é violência. Felizmente existem muitas “tribos” desinteressadas em “exibir compulsiva e publicamente, no desejo de partilha”, algumas estão por opção fora das redes sociais virtuais.
    E nesse ‘instante eterno” demoraesizante... ainda se pratica a estética do descaso-acaso reinando num `caos´ que não teria como “reger a ética”, quase desconhecida, mascarada pelo poder, ganancioso e corrupto... se algo une me parece ser a ilusão.
    Compartilhei ;)

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