Cala a boca e beija.

Um dos grandes mistérios, entre os milhares que habitavam minha cabeça, na infância, era o beijo na boca. Que coisa esquisita era aquilo de colar a boca? Só tinha visto no cinema, fazendo fundo pro The End. No cinema e um dia também pelo buraco da fechadura, que é quase a mesma coisa.

Meus pais, avessos a manifestações apaixonadas em público, tinham se trancado no escritório. Intrigada com o segredume deles, espiei pela fechadura da porta. E lá estava, que nem filme de Doris Day com Rock Hudson, meu pai beijando a minha mãe na boca, o corpo curvado e a cabeça torta.

Ficou aquilo registrado em meu olho voyeur, misto de estranheza e encantamento, como se eles fossem personagens. Na vida, não se beijava assim. Afinal, fecharam a porta, deve ser de fazer escondido.

Quantas coisas pertenciam ao reino do fazer escondido, nas infâncias dos anos 50... Não à toa que meu gibi predileto era o Gato Felix com seus indefectíveis pontos de interrogação, cipós que me jogavam pra lá, pra cá nos dias e noites daqueles anos pretensamente dourados. Aliás, quando vejo a Graúna do Henfil, me enxergo criança: sempre dois olhões estanhados especulando ao redor, fazendo demandas esquisitas que o mais das vezes deixavam os adultos muito desinquietos.

Descobri nas priscas que o melhor era esconder minhas perguntas e tratar de investigar sozinha as respostas. E a grande questão do beijo na boca, por exemplo, foi uma dessas que ocupou boa parte das minhas jornadas detetivescas infantis.

Eu fazia testes no espelho. Minha boca na boca refletida. Era gelado. - Não deve ser isso. Beijava o braço: - Braço?...Nhé! Quando virei adolescente, era a mais atenta ouvinte das minhas amigas saidinhas que já namoravam: - beijou? beijou! na boooooca?!
Elas contavam que sim, poderosíssimas. Mas nada de revelar os comos, as nojentinhas.

E a curiosidade somada à ignorância permanecia. E junto com aquela certeza de que era coisa de se fazer escondido, agregou-se um novo dado: a vergonha de não saber. Pior, ainda: a vergonha de ser descoberta como desconhecedora da prática do ofício. O que resultou num comportamento pessoal no mínimo estranho aos eventuais admiradores mais ousados que procuraram meus lábios, em vão.

Não teve quem atinasse que eu fugia com a boca, errando o alvo, não porque desquisesse ou fosse rígida, mas pelo embaraço terrível de me cair a máscara de virgem burra. Logo eu, tão inteligente. Virgem, sim. Burra, jamais!

Minto. Graças aos santos protetores da adolescente infeliz, houve um único bravo cavalheiro que não aceitou aquele negaceio como rejeição.

Recém eu tinha ido de mudança para Porto Alegre, mais feliz que passarinho alforriado da gaiola. Ia fazer faculdade, tinha virado gente grande, 19 anos, livre enfim de dar satisfações. Lembro que nem olhei para trás, adeus, meu pai, minha mãe!

Era sábado à noite, caminho a pé pra casa após horas num barzinho com uma amiga e, de lambuja, novo acompanhante, alto, bonito e loiro, que parecia bastante interessado na risonha coloninha aqui, acabada de chegar do interior. (Imagina, ele tinha comprado até rosa vermelha pra mim! Meus pés afundavam em algodão-doce.)

Chegamos ao prédio da minha amiga, ela cumplicemente sumiu no hall do elevador e eu fiquei ali, enleada na conversa murmurante do meu herói urbano. Num repente, do nada, ele aproximou seu rosto do meu e grudou os lábios imã em minha boca. Assustada, tentei desviar. Ele não desgrudou milímetro.

Pânico! Pânico! Tentei fugir: - ele vai perceber que eu não sei, socorro, pai! que vergonha, mãe! Dois braços muito mais fortes que os meus me mantiveram imobilizada contra o vão da porta de ferro do edifício.

Não deu nem tempo de eu metabolizar aquele pavor, já outro susto se emendou: língua!!!...Como-assim, lín-gua? Nunca na vida antes alguém sequer insinuou que beijo de boca continha língua. O que seria aquilo, meu deusinho do céu?

Feito barbárie em portão de castelo de Hagar, a língua do moço me invadiu a boca com valentia e vigor e, não bastasse o inusitado do objeto-função, começou a movê-la suave, roçando-a em minha própria língua e céu-da-boca e dentes e lábios.

Enlanguesci. De estado sólido mudei para puro líquido. E, se no começo fiz corpo duro, prenhe dos medos ancestrais, aquele meneio molhado, sensual e insólito me alquebrou a vontade de resistir, para sempre, acendendo ali quereres outros que me transformaram, do momento em diante e para o resto da vida, de menininha boba em arrebatada beijadora mulher.

Como diriam os Tribalistas: eu já sabia beijar de língua. Agora, só me restava sonhar. (Graça Craidy)

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8 comentários:

  1. Rah! Muitio bom!
    E, depois desses beijos de cada um, o que mais não se descobre envolvendo língua, né?

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  2. Adriana Gragnani escreveu:

    Suas crônicas são tão legais. Gostaria tanto que os adolescentes as lessem!

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  3. Daniela Craidy escreveu:

    "Acho que todas nós passamos por isso,né?Da vergonha de ser a ÚLTIMA a saber ,a estranha sensação daquele "objeto-função"(muito bom!)invadindo nossa boca...Como será que é para os homens esta primeira
    vez????Curiosidade!!!!!!Será que algum consegue nos contar esta sensação com tanto charme?Tá lançado o desafio........"

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  4. Tatich: ... se sentiram nervosos, assustados, inseguros e sob a pressão de uma aposta. (+ ou -?) cham cham!!!(rs)

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  5. Marly Revuelta escreveu:

    Gracinha, adorei!!! me fez lembrar do meu primeiro beijo. Vc devia escrever um livro. Acho que se daria super bem como escritora poius vc consegue passar toda a emocao que sente quando escreve.

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  6. Alberto Zetune escreveu:

    Um sarro Cala Boca e Beija.
    Eu lembro que quando eu tinha uns 11 anos, a meninadinha falava que só puta dava beijo de língua. Pode?
    Bjs

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  7. J. Moura escreveu:

    Enviei para vários amigos.
    Tuas crônicas conseguem ser bem humoradas, realistas, inteligentes e com um estilo muiiiito refinado. Colocam-nos em cena como co-protagonistas dos acontecimentos que fluem ao vivo e a cores.
    És mestra na arte de redigir, de fato e de direito !

    PARABÉNS
    Um texto melhor do que o outro!!!

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  8. Nara Fogaça escreveu:

    Gracinha, que produção!
    Maior que a tua só a do Picasso!
    Estou gostando muuuuuito do Blog.

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