Meu coração jorrou sangue azul-royal lavável.

A lembrança dos meus 15 anos é uma tarde fria de inverno de julho, com sol e uma praça no meio. Naquele longínquo ano de 1966, quando tudo ainda se oferecia como um imenso mundo por descobrir, a menina-moça Graça era uma mistura esquizofrênica de mulher feita com garota amedrontada e agressiva.

O corpo já estava pronto, curvas fartas, cintura fina, pernas grossas. A cabeça, um emaranhado de porque-sins e porque-nãos, ora exclamativos, ora perguntas, o mais das vezes reticências, que adolescente convicto é filho de ficção, nunca sabe direito se quer, se gosta, desgosta, de onde veio, para onde vai e, principalmente, por que esta espinha tinha que nascer bem aqui na testa e logo hoje que tem baile?

Porém, no enredo daquele tango, havia espaço para um galã, um belo galã moreno no auge dos seus 18 anos.

Yunes, libanês como meus avós, era filho primogênito dos Kfouri, nossas famílias imigrantes unidas pelo passado na terra do cedro eterno. Irônico, inteligentíssimo, machista, cheio das exigências, ele me privilegiava com sua atenção muito mais por minha apregoada intelectualidade de estudante primeira da classe - eu achava - que por meus dotes físicos, aliás, totalmente fora do padrão da época, onde uma Twiggy magérrima e de peito liso acentuava ainda mais quanto sobrava em mim o que nela desabundava.

Nem sei quantas mil voltas demos ao redor da antiga Praça da República, naquelas férias de julho, Yunes e eu, peripateticamente conversando feito dois velhinhos precoces sobre coisas sérias, profundas, sobre o que iríamos ser quando crescêssemos. Aquele olho castanho árabe com cílios espessos tentava me perscrutar os pensamentos mais escondidos - eu percebia - ao mesmo tempo em que também tentava me domar - isso eu também percebia - se fazendo superior para dar prova do quanto sempre eu estaria pelo menos um degrau abaixo dele, o poderoso homem, masculino, singular. (Pode-se imaginar o grau de macheza contido na explosiva combinação árabe com gaúcho, naqueles idos dos anos 60...)

Nada como um desafio desses para eu exercer minha pior rebeldia e irreverência contra o supremo desaforo de Yunes querer me " quebrar o corincho", como se diz na campanha. Freud explica: filha mulher de pai árabe tudo que sonha é se libertar do cabresto, jamais trocar espontaneamente de domador.

No entanto, meus hormônios recém em ebulição não queriam nem saber dessa conversa íntima libertária. Eu tinha, sim, atração por Yunes e mais todo o kit que compunha sua fascinante personalidade. Óbvio que eu não ousava confessar, nem para mim, quanto mais para ele. E óbvio, também, que eu não me atrevia a agarramentos, que para essas ousadias a permissão paterna era zero vezes zero. Mas, uma brincadeira de mão daqui, um empurrãozinho infantil de lá, só sei dizer que ali tinha coisa - ah, se tinha! - qualquer um que botasse reparo, de fora, poderia jurar.

Sábado à noite, reunião-dançante na casa de uma das meninas da turma, todo mundo dançando twist, hully-gully, os puladinhos de Ray Conniff e Herb Alpert, as canções do Roberto ou Sergio Endrigo e - a mais esperada de todas - a mela-rela Je t'aime, com Jane Birkin em gemidos que a gente fazia de conta que não ouvia, mas se deliciava, sim, com cada ai. Eis que Yunes surge no meio da pista, me puxa pelo cotovelo e faz sinal com a mão. Queria falar comigo lá fora, na rua, em frente à casa.

Caminhando atrás dele, toda catita no meu vestido de musseline estampada e sapato de salto azul-perlê, eu pensei: - Ih! que será agora? Esse guri, em vez de me tirar pra dançar, me tira da festa?....Na verdade, eu estava era nervosa por aquela súbita intimidade forçada à luz da lua.

Yunes me levou até debaixo de um poste, na calçada vazia, quase um quarteirão longe da festa. Só hoje atino com como ele estava atormentado, rosto sombrio, um olho cavo que não me encarava, a luz fria acentuando sua palidez.

Sem dizer palavra, tirou do bolso um pacotinho toscamente embrulhado em papel pardo e várias vezes cingido com barbante até o laço final.

E me estendeu aquilo, como quem diz: - seja o que deus quiser! Também eu sem dizer palavra, misto de taquicardia e gato felix, agarrei o embrulho, desamarrei o laço, segurei o barbante numa mão e, de tão tremendo, deixei cair no chão o conteúdo do pacote.

Como aves desarribando, dezenas de papéis de diferentes tamanhos e texturas, escritos à mão, se esparramaram na pedra irregular da rua.

Enquanto eu catava atabalhoadamente o ar, me imiscuindo no poema vivo que aquele momento único desenhava debaixo da feérica luz do poste, vi Yunes virando as costas e indo embora, passos lentos rumo à Rua 15 de Novembro, me abandonando na cena feito anjo do paraíso acabado de cumprir missão.

Indecisa entre pedir que ficasse ou devorar os segredos do seu singelo pacote, permaneci ali, muda e pasma, sentada na sarjeta, em busca de desvendar a tinta dos seus escritos, lembrança por nunca se apagar.

Eram ilhas, os papéis. Cândidas ilhas brancas, rodeadas de rimas de eu-te-amo azul-royal lavável por todos os lados.( Graça Craidy)

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13 comentários:

  1. Ana Maria Colling escreveu:

    Amei e voltei no tempo.

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  2. Juao França escreveu:

    Essa é a Graça, gente. "Datilógrafa" de mão cheia, talentosa que só ela. Gostei muito do texto. Bjs, querida.

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  3. Adorei o texto e o português também!

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  4. Eu estava naquela reunião-dançante. Na pressa de te chamar, o Yunes esbarrou em mim e virei o copo de cuba-libre no vestido da Marília, de quem eu estava a fim e que passou a me odiar desde então.

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  5. Jose Carlos Piedade escreveu:
    Ótima!
    beijos,
    JCP.

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  6. Ivan escreveu:
    Gracinha, acho que o Yunes era um garoto diferenciado. Rsrsrsrsr

    Tô até te vendo em ambas as situações. :-))) minha gauchinha...serás sempre a mesma Graça que conheci. Textos maravilhosos.

    Bjo.
    Ivan

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  7. Adorei as tuas falas...ótimo texto,parabéns!

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  8. gracinha, que delícia! viajei no tempo, adorei! beijos saudosos.

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  9. Graça estás de parabéns!!! Refletes neste texto a sua alma, mostrando a menina doce que ainda existe dentro de você. Voltei ao passado...lembrando daquela linda época! Mais que merecido este prêmio, amiga talentosa...bjo.

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  10. Buenas, guria. Com certeza não conheci esse "o poderoso homem, masculino, singular ", mas o cenário e a chinoca desamparada "sentada na sarjeta" estão vivos na minha memória, uma vez que são reais. A transferência para o papel, ou monitor, foi fidedigna.
    Penso que será aplaudida pela platéia em pé, quando for receber sua premiação. Parabéns.

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  11. Adorei o " Jet´aime ", era o máximo.Amei.bjs

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