Artigo: Deus morreu. Viva o corpo.


O livro A saúde perfeita, do sociólogo francês Lucien Sfez (1996), revela a ausência das grandes narrativas e a presença avassaladora de uma nova utopia nos anos 2000: a utopia da saúde perfeita.

Doentes, imperfeitos, velhos, hoje. Saudáveis, perfeitos, e - mais que perfeitos - jovens, amanhã. Sob que condição? Disciplina e doma dos desejos. Recompensa: um corpo belo e saudável, um planeta purificado e, o maior de todos os prêmios em vida, a eternidade.

Essa nova utopia da saúde perfeita é evidente em várias instâncias, legitimada pela ciência e pela tecnologia e territorializada no cotidiano, na obsessão pelo corpo perfeito, purificado das doenças e de imperfeições estéticas, e pela busca por recuperar o planeta das moléstias causadas pelo homem.

Lucien Sfez

Mais precisamente, nas campanhas contra o cigarro, contra a obesidade, contra os riscos dos " males brancos" (farinha, açúcar e arroz refinados), contra as moléstias decorrentes das práticas sexuais poligâmicas. E também na multiplicação de cirurgias estéticas reparadoras, protéticas e preventivas, na prática compulsiva de exercícios físicos, nas campanhas contra os desperdícios e agressões ao meio ambiente, em favor da separação dos lixos e, ainda, em toda atitude politica e ecologicamente correta.
Verso de maço de cigarro.

No EUA, em especial - líder nas pesquisas mundiais com os projetos Genoma, Biosphera II e Vida Artificial - a nova utopia se manifesta em clima de onipotência científico-tecnológica rumo à ambicionada imortalidade e pela conquista da eterna juventude num mundo sem mácula.

A utopia se apóia sobre triplo suporte:
1.no controle social do corpo através da autodisciplina historicamente apregoada pela religião evangélica;
2. na medicina purificadora que extirpa preventivamente órgãos sadios;
3. no resgate nostálgico de uma matriz cultural do passado norte-americano a que Sfez chama de wilderness, espécie de espírito da natureza selvagem revisitado, por exemplo, na luta pela preservação ecológica.

Os projetos Genoma, Biosphera II e Vida Artificial, de experimentos com seres humanos em condiçoes de vida perfeita, segundo Sfez (1996a) têm o objetivo máximo de "criar um novo homem, próximo ao conceito do super-homem de Nietzsche, com um paraíso terrestre artificial a reboque".

A nova moral do homem hiperindividualista em um mundo laicizado e sem instituições fortes aborreceu-se da metafísica. Em vez de plugada em Deus - constata Sfez (1996), pluga-se agora tangível e nietzscheanamente no corpo e na natureza.

Em sua obra Ecce Homo (2004:124), Nietzsche se intitula " Dionísio" contra o Crucifixo e vocifera contra "os infames" que inventaram Deus,:
O conceito de "Deus" foi arquitetado como antítese ao de " vida" (...) Os conceitos de " alma", " espírito" e, enfim, também aquele de " alma imortal" foram inventados para ensinar o desprezo do corpo, tornando-o doentio - isto é, " santo", para opor a todas as coisas que merecem ser tratadas com seriedade na vida (...) no conceito de " homem bom" se exalta tudo o que é débil, doentio, tudo o que enfim, deve desaparecer! ( ...) E tudo isso foi aceito em nome da Moral! - Écrasez l'infâme! (NIETZSCHE, 2004:124)
Friedrich Nietzsche

USA: o corpo domado em um ambiente wilderness

Saúde parece não ser apenas "ausência de doença" ou " normalidade estatística" como acreditava nos anos 70 o filósofo da medicina Cristopher Boorse, norte-americano criador da Teoria Bioestatística da Saúde (T.B.S.).

Tampouco seria "situação de perfeito bem-estar físico, mental e social", conforme definição da OMS- Organização Mundial da Saúde.

Na opinião de alguns pesquisadores contemporâneos da área, que rechaçam o adjetivo " perfeito", é necessário um olhar mais customizado para o paciente, que o contextualize não apenas no seu corpo, no seu espírito, na sua mente, mas na sua afetividade, na sua família, na sua cultura, na maneira como interage com a sociedade como pessoa, profissional, reprodutor, provedor etc.

Christophe Dejour


O mundo gira e o único que parece permanecer é a antiga premissa do senso comum médico: " não existem doenças, mas doentes".

Para o médico do trabalho, psiquiatra e psicanalista francês Christophe Dejours (1982), o que de fato conduz as pessoas a optarem pela saúde é o que ele, apoiado nas descobertas da psiquiatria e da psicossomática, chama de "desejo". Desejo, no sentido de potência, sem o qual o homem adoece e voluntariamente se candidata à morte.

Porém, Dejours adverte, saúde não é algo que se possa ter como a uma propriedade, visto tratar-se de um estado de bem-estar instável, circunstancial, mutável, que mantém as pessoas em cobiça permanente da meta perfeita. Saúde como um quadro ideal estático, diz Dejours, é mera "ilusão" pois, " saúde é alguma coisa que muda o tempo todo".

Assim, em sua opinião, em vez de ponto de chegada, saúde é muito mais caminho. Pode até ter inspiração coletiva, concede Dejours, mas precisa contar com uma espécie de auto-impulsão, trajeto inelutavelmente solitário: "a saúde é algo onde o papel de cada indivíduo, de cada pessoa é fundamental (...) é necessário que este papel motor de cada homem na sua saúde apareça", ele enfatiza, na mesma direção de Sfez (1996).


Sfez (1996) descobriu que uma nova utopia da saúde perfeita ocupa os dias das pessoas não apenas como projeto ideal coletivo, mas como meta pessoal, individual, movida por uma nova moral do homem cotidiano, de controle social do corpo. Controle que, Sfez (1996:68) alerta: " não é um assunto técnico, mas político e moral".

Nos Estados Unidos, conforme Sfez (1996:68), essa moral autodisciplinadora controla o self pelo self "a serviço de uma ordem social harmoniosa generalizada", opondo-se vitoriosa ( e vitorianamente, n.a.) ao mercado antinatural causador de doenças e de envelhecimento, abominando os produtos considerados " excitantes", como carne vermelha, temperos, açúcar, café, chá, álcool e, é claro, sexo. O que conduziu Sfez (1996) à compreensão da luta contra a gula e da luta contra o sexo como se fossem uma coisa só (SFEZ, 1996:65), relacionando diretamente a moral com o medicinal.

O corpo passou a ser a metáfora da ordem e da desordem tecidas no interior da cultura. E a natureza, " o símbolo da oposição ao mercado e às instituições", afirma Sfez (1996:67-68), embora o sociólogo capitule: não há como escapar, o mercado acaba transformando tudo em mercadoria. A todo momento novos produtos e novos tratamentos acabam sendo criados para esse novo consumidor resistente, resultando em um paradoxo: "a resistência antimodernista se cumpre supermodernista (SFEZ, 1996:68)".

Como em toda utopia, observa Sfez (1996), a da saúde perfeita também tem um inimigo comum. Inimigo, entretanto, diferente dos antigos inimigos. O inimigo não está mais no exterior, não tem mais de ser combatido ou civilizado. Não é mais o selvagem, o negro, o amarelo, o judeu, o proletário para o burguês, o burguês para o proletário. O inimigo está em nós. (SFEZ, 1996:25)

Essa aterrorizadora constatação em uma cultura que se compraz em atribuir a culpa dos seus fracassos ao Governo ou aos outros, mas ao mesmo tempo carrega paradoxalmente a culpa cristã do pecado original, se por um lado é paralisante, por outro, parece ter forçado um amadurecimento compulsório dos chamados hiperindividualistas do terceiro milênio.

Por bem ou por mal, começa a acontecer na atualidade uma suposta conscientização das causas superáveis das duas mortes mais temidas pelo homem: a sua, própria, e a do planeta que habita. Ambas tautologicamente significando em síntese o seu indesejado extermínio como sujeito e como ator.

Implacável, Sfez (1996:25) aponta giratoriamente o inimigo, o tal Outro anti-utópico: no perímetro da cidade poluída, do bairro desmembrado, nas famílias, em nossos corpos enfermos, em nossos genes. O inimigo está por toda parte e em lugar nenhum, anônimo, sem fronteiras, no electronicon sem rosto como na camada esburacada do ozônio, na droga e no colesterol (SFEZ, 1996:25).

Quando o Estado deixa de fazer a intermediação entre " o fiel" e " a ciência" (SFEZ, 1996:28), mesclando tudo em uma mèlange de mercado, a utopia escala as consciências individuais e os comportamentos coletivos, explica Sfez (1996:30).

E isso inclui " a cultura do pequeno", onde vigora a ausência de hierarquia e o multipapel.

O homem assume o posto do Criador, mirando o mundo com as lentes que o empoderaram: as da tecnologia e as da ciência.

Metafórico, Sfez (1996) traduz as características dessa nova utopia valendo-se de uma releitura dos ideais da Revolução Francesa onde, entretanto, "igualdade" teria sido substituída pela noção de " transparência".

Na transparência, todos vêem tudo, em uma visão total de como são feitos os humanos, no " desvisceramento do DNA", onde " os gens não podem escapar", diz Sfez (2007).

A fraternidade sofre um upgrade geográfico e transforma-se em " fraternidade universal" do convivio cósmico com Gaia, afastada dos homens "vulgares e medíocres (SFEZ, 2007)", em comunhão "sublimada com a natureza santificada (SFEZ, 2007)".

Sfez (2007) afirma também que essa utopia re-republicanizada acabou por se transformar em uma nova religião que "bolhifica" o mundo e intervém na genética com preocupantes estranhezas: os americanos pesquisam os gens do alcoolismo, do banditismo e - ironiza Sfez (2007) - "até dos homeless", mascarando a realidade social no intuito de fazer crer que mais que social, esse seria um problema de origem genética.

Nicole Kidman
Como ficar velho sem envelhecer

A utopia da saúde perfeita que embala hoje o cotidiano principalmente norte-americano tem o poder de afastar duplamente o medo atávico da morte.

Um, porque, sob o aspecto da intervenção genética sustentada na ciência e na tecnologia, posterga para cada vez mais longe o momento de enfrentamento fisico dessa realidade aterrorizante para todo ser vivo.

Dois, porque além de afastar o homem da morte, desconecta o ato de envelhecer do evento indesejado do óbito, transformando o aging em uma nova e inofensiva " contagem do tempo" que mantém os viventes feito jovens eternos, como se fossem imortais.

Contudo, essa mesma utopia que corrige a natureza recuperando supostos defeitos estéticos e criando, por exemplo, verdadeiras mulheres-Barbies, engendra ao mesmo tempo novas categorias quase bizarras de excêntricos "padrões de beleza" filhos da cirurgia plástica dita rejuvenescedora/reparadora.

Mais parecem enteados da cirurgia plástica, pois essas intervenções, na verdade, estão criando tipos fantasmagóricos de caricaturas de si, pedaços de pessoas - narizes escavados, bocas espatifadas, seios circunferentes, olhos arregalados - que claramente não resultaram da criatividade natural da genética, gente que pouco a pouco perde de si suas características tanto originais quanto humanas.

Para o que denuncia a velhice no homem, por exemplo, a ciência e a tecnologia inventam e reinventam a cada dia novas próteses: nos cabelos perdidos, o implante; na impotência erétil, viagra; nas articulações desgastadas, metal; nos órgãos vitais, transplantes, marca-passos, safenas.

Nas mulheres, as cirurgias plásticas reparadoras, a cosmética sofisticada e os suplementos ortomoleculares também logram enganar o envelhecimento: nos seios, silicone; nas rugas, botox; nos sexos ressequidos, hormônios; nos ventres flácidos, cirurgias; nas gorduras indesejadas, lipoaspiração; nos ovários sem uso, extirpações.

O excesso de dietas cria novos magros com estética de campo de concentração. Uma patologia ligada à comida que faz a pessoa enxergar-se gorda mesmo quando já está pele e osso tem levado à morte jovens anoréxicas no auge da idade, ao mesmo tempo que a compulsão pelo jogging e pelo fitness rompe ligamentos e cria novos cardíacos jovens anabolizados.

O consumo desenfreado do colesterol aumentou em taxas assustadoras o número de crianças com obesidade mórbida nos Estados Unidos, agregando novo sentido ao termo " macdonaldização" da vida e obrigando o próprio Governo norte-americano a empreender uma campanha de utilidade pública em prol de dietas e exercícios, chamada " Little Steps".

O corpo autodisciplinado descoberto por Sfez (1996) remete a desenho semelhante do "corpo dócil" de Foucault ( 2005:119) que em sua obra Vigiar e Punir ( 2005) acusa, no corpo disciplinado por minúcias hoje laicizadas, uma " anatomia política" e uma nova " microfísica de poder", na qual a disciplina rigorosa (das dietas, dos exercícios físicos, da renúncia aos fats e aos excitantes) aumenta as forças do corpo dito "produtivo, útil" (trabalhador, consumidor), ao mesmo tempo em que diminui a sua força política através da submissão e da obediência.
Michel Foucault

Ou seja, quanto mais disciplinado o corpo, mais à mercê da dominação externa, neste caso, da dominação do discurso tecnocientífico da utopia vigente. Um discurso, aliás, paralelo ao discurso do consumo sempre à espreita em qualquer rota de fuga que se queira empreender.

Na busca do corpo perfeito que garante também uma aceitação social, profissional e sexual, surge em contrapartida um paradoxo melancólico, como aponta o sociólogo americano Bryan Turner (2000:134): " ao nos fazermos desejáveis, eliminamos também o desejo", prisioneiros das nossas compulsões de pureza, perfeição e higienização da vida.

Barthes (2000:140), quando fala de moda (o apogeu da utopia da beleza e do corpo perfeito) entende que a questão contemporânea já não passa mais tanto pela categoria sexo ou gênero, e sim pela etária, e afirma que hoje " é a idade que recebe os valores de prestígio e de sedução".

O psicanalista argentino Germán García ( 2000:159), no entanto, explica a necessidade do tão anelado belo:" a beleza é o que estende um véu sobre o horror da morte", ele afirma, concedendo assim não simplesmente ao belo, mas ao belo que vem da juventude, mais que poder de prestígio e sedução, o generoso poder de bálsamo.


Por tudo isso, é prudente observar que o que sobra aqui não seria apenas uma submissão voluntária do corpo perfeito aparentemente sem consciência da sua condição de dominado. Subterrâneo, aflora um sentido ancestral primordial negociado nessa troca com os novos deuses utópicos da saúde perfeita: " minha liberdade por sua imortalidade". (Graça Craidy)
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BIBLIOGRAFIA:

BARTHES, Roland - " La feminidad". In Los cuerpos dóciles. Hacia un tratado sobre la moda. Buenos Aires: La Marca, 2000.

DEJOURS, Christophe - Por um novo conceito de saúde. Palestra proferida na Federação dos Trabalhadores da Metalurgia, da Confederação dos Trabalhadores (CGT) francesa, 1982. Disponível em: http://planeta.terra.com.br/saude/angelonline/artigos/art_saucol/con_sau.pdf.

FOUCAULT, Michel - Vigiar e punir. Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2005.

GARCÍA, Germán - "Cuerpo, mirada y muerte". In Los cuerpos dóciles. Hacia un tratado sobre la moda. Buenos Aires: La Marca, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich - Ecce Homo. São Paulo: Martin Claret, 2004.

SFEZ, Lucien - A saúde perfeita. Crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996

___________ - "O homem ambiciona a imortalidade". Entrevista com Lucien Sfez por Daniel Hessel Teich, para o jornal O Globo, em 12 de setembro de 1996. Disponível em: http://hps.infolink.com.br/peco/lucien01.htm 1996a

___________ - Apontamentos em sala de aula no seminário Epistemologia da Comunicação, proferido por Lucien Sfez no PPGCOM PUCRS, Porto Alegre, de agosto a dezembro de 2007.

TURNER, Bryan- " El gobierno del cuerpo". In Los cuerpos dóciles. Hacia un tratado sobre la moda. Buenos Aires: La Marca, 2000.

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2 comentários:

  1. Jane Maria Rubensam escreveu:

    Graça: seria uma premonição do que estaríamos sabendo hoje sobre a Angelina Jolie? e outras excentricidades! Excelente reflexão!!

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  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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