Por qué no te callas, gansolina?

Ela tinha o péssimo hábito de sentar no canto esquerdo do sofá fino de brocado da Vó Jujuca e tirar os chinelos, colocando os pés enormes e sujos de poeira sobre as tiras de couro do calçado, como se estivesse bem bela espalitando os dentes no sofá barato da sua casa, certamente um daqueles axadrezados de braço gordo combinado com retângulos de madeira lustrosa.

Não bastasse isso, quando ela levantava para ir à cozinha buscar um copo d’água, saía arrastando os chinelos sem calçá-los, num ritmo mazzaropiano, surfando toscamente, primeiro um pé, depois o outro, no piso chique de tábua corrida da sala de jantar da velhinha, deixando no rastro a sua estupidez.

Alta, corpulenta, uns 50 anos, loira escorrida como toda boa alemã, ela tinha os traços até bonitos, olhos azuis, boca bem-desenhada, nariz aquilino, não fosse uma desagradável impressão de sujeira e engorduramento que passava, o cabelo sempre oleoso, a pele brilhante, a barriga gorda e mole esparramada para frente, o andar de marreca dez-pras-duas e um jeito caborteiro de olhar meio oblíquo, com um canto da boca sempre torcido para baixo, quase uma caricatura de sorriso irônico. Sem falar na voz esganiçada e aos trancos, com o volume religiosamente acima do suportável em qualquer convívio civilizado.

No segundo dia em que Marta Helena se hospedou na casa da Vó Jujuca, pressentiu que seria uma guerra surda entre ela e a nova acompanhante da velhinha.

Olhar para a tipa já dava um arrepio de repugnância. Olhar para ela comendo, então, dava vontade de vomitar. Mas, não. Em respeito à Vó Jujuca que acabava de se recuperar de um derrame, ficavam as três jantando juntas e, enquanto a velhinha tomava sua sopa em brancas nuvens, sem nem perceber o que se passava ao redor, Marta Helena comia silenciosamente horrorizada com aquela valquíria mastodonte sorvendo cada colherada de sopa em sonoros ruídos do líquido rolando na língua, acompanhados – que nojo! – de generosas fatias de bolo que ela comia com sofreguidão suína, enquanto falava e falava e falava ao mesmo tempo, revelando a uma Marta Helena nauseada todos os segredos dos farelos do bolo de um lado para o outro no dentro da sua boca, misturados à sopa, entre cenouras e batatas esmigalhadas.

Marta Helena jamais esquecerá do odioso cacoete que a mulher tinha de falar “ ó!”, entre uma frase e outra, como se puxasse a pessoa pelo cotovelo pra prestar atenção no seu assuntinhozinhoinho. - Assim, ó, então eu disse, ó, que ia fazer, ó, mas ela falou, ó, que não adiantava, ó….E Marta Helena ali, feito o rei da espanha, a pensar: por qué no te callas, por qué, por qué, por qué?

Depois da janta, sagrado: Jornal Nacional. Vó Jujuca dormitando na poltrona, a gansolina no canto do sofá com os abomináveis pés de fora e Marta Helena quieta como um sapo de enfeite no outro canto, em seu martírio cotidiano.

Foram 60 longos e intolerantes dias de convivência forçada com a frau porca, em que ela pediu demissão pelo menos três vezes à filha da Vó Jujuca, gestora da casa, queixosa de algum comentário ríspido de Marta Helena, naqueles casos extremos em que não conseguiu se controlar perante o ser desagradável. A filha, porém, tratou de dissuadir a shrek tedesca, com a promessa garantida de que logo,logo Marta Helena iria embora e tudo voltaria ao normal outra vez.

Santas palavras! Depois que Marta Helena voltou para sua cidade, tudo amainou e até abraços acabou mandando à gansolina, quando ligava pra saber de Vó Jujuca. O bem que faz, ó, uma distância, ó!...( Graça Craidy)

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