Tio de cliente morto não paga.

O cliente era um judeu sefaradi daqueles self-made-man feitos à facão. O que tinha de dinheiro, tinha de tosco. Era um cliente novo, a reunião estava marcada para terminar pontualmente às 13 horas, e ele já havia reiteradamente avisado que não ficaria um minuto a mais, pois precisava ir ao enterro de um tio, exatamente naquele horário. OK. Não seríamos nós a atrapalhar suas lides familiares, inda mais em se tratando de morte.

Sabedora disso, marquei minha consulta trimestral com o médico homeopata para as 14 horas, entendendo que uma hora seria tempo suficiente para sair da reunião e atender ao compromisso com o médico, aliás caro e superdisputado. Conseguir aquela horinha tinha sido um extremo ato de boa vontade de sua secretária.

A reunião tinha quatro pessoas: a diretora de atendimento, a assistente, o cliente e, da criação, eu. O motivo: coletar as informações do briefing para divulgar a rede de lojas de brinquedos. Conversa vai, conversa vem, nós anotando daqui, perguntando de lá, questionando, analisando concorrência, abordagens anteriores, etc etc, todos aqueles quesitos que constróem um bom briefing. E o cliente entusiasmado, falando das suas lojas, do seu público-alvo, dos projetos, do tipo de brinquedo que vendia mais etc etc.

Quando dei por mim, já eram 13 horas. E o cliente nada. Porque isso, porque aquilo, porque aquilo outro. E o tio morto? 13 horas e 10. E o cliente blá-blá-blá. Bom, morreu, morreu. 13 horas e 30. O tio dele já enterrado e o cliente pero-que-si, pero-que-no.

Levantei.

- Lamento, seu Fulano, mas preciso sair. Como o sr. havia dito que precisava encerrar a reunião às 13 horas, impreterivelmente, marquei minha consulta com o médico homeopata e se eu perdê-la hoje, só daqui a um mês.

O cliente ficou primeiro sem palavras, estupefato com o meu atrevimento de sair antes. Depois, foi tomado de uma raiva arrogante que resultou na extrema imprudência de ele tentar me comandar como comandava os balconistas das lojas dele:

- Se eu não vou ao enterro do meu tio, você também não vai ao médico. Senta aí e continua a reunião!

Impassível diante daquela clara tentativa de exercício de poder machista-capitalista pra cima de moá, ignorei solenemente a sua ordem ridícula e coloquei a bolsa no ombro, me dirigindo à porta. Não sem antes responder a primeira coisa que me veio à goela, com a mesma intensidade com que rechacei aquele desaforo de ele achar que porque era cliente da agência possuía a minha alma.

- Acontece que seu tio está morto. E eu estou viva. E quero continuar. Com licença!

Saí quase batendo a porta, deixando minhas duas colegas com aquele dragão em iras, decerto a esbravejar injustamente cuspindo fogo pra cima delas.

Fui ao médico, fiz minha consulta, voltei pra agência e, surpreendentemente, não houve nenhum contra-ataque tampouco reprimendas do chefe.

Poucos dias depois, me liga o tal cliente, irreconhecível de manso, quase meu amigo de infância. Queria minha opinião sobre se valia a pena pagar X por um certo jingle. Ele achava caro. Bem impressionada com a qualidade do trabalho, argumentei que o jingle era tão genial que se pagaria em pouco tempo. Ele acatou. Dei sorte. Aquele jingle foi coadjuvante de boa parte da fama e fortuna de suas lojas naqueles idos dos anos 90, na generosa cidade de São Paulo. ( Graça Craidy)

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5 comentários:

  1. Ronaldo Ramos escreveu:

    customer rules!

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  2. Stalimir Carvalho Vieira escreveu:


    Morto sempre pode esperar... aí é que está o causo...

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  3. Adriana Gragnani escreveu:

    Ué... pensei que o morto fosse aparecer na reunião!

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  4. Stalimir Carvalho Vieira escreveu:

    Pode nao ter aparecido, o que nao quer dizer que nao estava la...

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