Puk Puk, o nanico que cutucou o magnífico Reitor.

Eu adorava Jornalismo. Meu pai odiava. Quando soube que eu ia prestar vestibular pra Comunicação, ficou num desgosto só: - " Jornalista, minha filha, é tudo bêbado e boêmio! Eu sei o que eu tô falando... Cruzei com muitos deles quando estudei em Porto Alegre. Que é que tu vais te meter no meio dessa gente?"

Meu pai tentava me convencer, sem sucesso, a trocar minha vocação para as letras por Arquitetura, que lhe parecia muito mais adequado a uma moça de família. Quando passei no vestibular da Famecos, nem a mão o velho me apertou, um bico desse tamanho. João Craidy não era fácil, não. Embora - justiça seja feita - tirante a advertência sinistra, ele democraticamente nunca impediu a minha adesão à carreira.

Fazia tempo, aliás, que eu já posava de jornalista, me enfiando nas oficinas do jornal Correio Serrano, em Ijuí, a construir jornal na unha, lado a lado com os gráficos de mãos manchadas de tinta, no tempo do clichê e das frasezinhas montadas com letras de chumbo, palavra por palavra, coisa que a gurizada de hoje nem imagina o que é. Enfim, eu já tinha feito pelo menos dois jornais, antes de entrar na Faculdade: um no antigo ginásio, outro no curso Normal.

Na Borges: Roseli Jahn, Marilourdes Franarin, Graça Craidy, Déda Franarin, Paulo Boa-Nova, Sérgio Beira.
E quando entrei, não deu outra. Já no primeiro ano, tive a oportunidade de fazer o terceiro jornal da minha vida, enturmada com uma equipe inesquecível do Jornalismo: Paulo Boa-Nova, Sérgio Beira, Sérgio Gonçalves, Marilourdes Guterres Franarin, Kaytano Konze, Angélica Moraes, Ney Gastal, Bete Bina, Nisinha, Luiz Fernando Beskow, e mais alguns bem-vindos agregados de outras áreas, como Roseli Jahn, Antonio Carlos Bola Harres, Deda Franarin, Luiz Coronel, Tonho Valerio e os cartunistas Danilo e Batsow. Eu era a secretária de redação, a ogra-mor.

Essa equipe da pesada editou o famoso na época jornal Puk Puk, um nanico de formato meio-tablóide, com 30 páginas em média, valente até a 4ª edição, quando foi obrigado a se render ao mau-humor, à censura e às proibições da irmandade marista da PUCRS.

Tudo porque tínhamos publicado a coluna " Cada um na sua", onde entrevistávamos duas pessoas nos lados opostos de uma mesma questão: uma socialite e um mendigo, uma doente mental e um psiquiatra. E, nessa vez, um drogado e um médico farmacologista. Dois pontos de vista sobre drogas.

Foi ali que azedou. No discurso do médico. Sob a ótica da Farmacologia, ele se atreveu a afirmar que a maconha fazia menos mal que cigarro ou álcool. Pra quê? O magnífico reitor Irmão José Otão subiu nas tamancas e com aquela sua cara de gnomo de orelhas pontudas mandou nos chamar incontinenti na sala dele. Fomos, com trezentas pulgas atrás da orelha. Batata! Ele nos passou um pito federal, esbravejando que estávamos fazendo apologia da maconha e que o Puk Puk ficava, dali em diante, terminantemente proibido de circular dentro da PUCRS. E nem adiantou a gente alegar que a frase tinha autor, que não fomos nós que a inventamos. Necas!

Pensa que a gente se michou? Quá! A redação era na minha casa, na Salgado Filho, e antes tinha sido no escritório da Studio Imagem, na Borges de Medeiros, cedido gratuitamente pelo nosso querido amigo o jornalista Dilermando Torres. E outra vez, ainda, na própria redação da Zero Hora, onde nosso padrinho nº 2, o jornalista Armando Burd, generosamente nos deixava ficar de madrugada, quando os jornalistas profissionais iam embora. Na calada da noite, na Ipiranga, só restávamos nós lá - os aprendizes de foca - de donos dos salões gigantes da redação do seu Maurício Sirotsky, em alegre e saudável balbúrdia, lavorando no ofício do Puk Puk.

Aliás, é bom que se diga: a maior parte da tiragem do nosso Puk Puk era distribuída de graça. Ele se auto-sustentava só com os anúncios que o impagável Kaytano Konze vendia, e nós mesmos criávamos. E não eram anúncios da padaria ou da oficina do seu Valdir, não. Era anúncio dos bambambans da época. Fundo Crefisul de Investimento. Redes de varejo J.H.Santos e Hermes Macedo. A loja de moda jovem mais badalada de Porto, a Saco & Cuecão. A indústria Springer Admiral. A quentíssima do dial, Rádio Continental. A revenda VW Panambra, para citar alguns. Uma façanha estupenda, convenhamos, para uma garotadinha faceira de menos de 20 anos.

Pués, depois do pito do Irmão Otão, fechamos ainda mais um número do jornal, e nos postamos do lado de fora do campus da PUCRS, com a ajuda dos outros colegas da RP e da Publicidade, distribuindo-o aos alunos de todos os cursos, na entrada, ali na Ipiranga. Puk Puk, o maldito, continuou entrando na universidade. Ainda que pelas mãos de outros.

Aliás, nessa edição saideira, o Boa-Nova ainda provocou frisson na galera acadêmica colocando um palavrão no título de uma nota, onde elogiava o novo jornal Exemplar, do jornalista Ademar Vargas de Freitas, chamando-o de "Um puta jornal". Ohhh, uhhhh, nome feio, nome feio, que feio! Os caretas da universidade detestaram o superlativo ressignificado, onde já se viu? Isso, sem falar no desaforo de desobedecer às ordens expressas do Reitor, avinagrou para sempre a nossa relação com os padres, definitiva presença non grata.

Na época, sofri represálias também do Irmão Elvo Clemente, que ameaçou mais de uma vez contar ao meu pai lá em Ijuí que eu andava gazeando aula pra fazer jornal. - " Teu pai sabe disso, Maria da Graça? Que tu podes rodar por excesso de falta porque estás metida nesse jornalzinho?"

Pois o tal jornalzinho que o Irmão Elvo desprezava fazia furor. Publicamos grandes entrevistas. As mais interessantes, com o polêmico jornalista gaúcho Tarso de Castro, fundador do Pasquim, revelando, com todas as letras: "Eu não tenho moral!". E outra com o também polêmico redator publicitário paulista Neil Ferreira, o queridinho da publicidade de então, que se arrogou na manchete: "Minha cesta de lixo sustenta uma agência".

Agora, imagine tudo isso acontecendo em plena ditadura militar, na gestão Médici, o mais duro dos presidentes militares, repressor de toda e qualquer manifestação de rebeldia e pensamento próprio. A palavra " democracia" era sumariamente proibida de se falar. Liberdade, pior ainda. Perigoso até pensar nela. Quando a gente ousava proferir, olhava primeiro para os dois lados, pra ver se não tinha nenhum alcaguete por perto. E, mesmo não havendo ninguém, cochichava.

Em seu sonho de grandeza, os militares, além de combaterem o comunismo e a subversão e encasquetarem de conduzir o Brasil ao chamado progresso do capitalismo - nem que fosse na marra -, assumiram para si também a zeladoria da moral e dos bons costumes dos cidadãos brasileiros, principalmente dos jovens. De modos que a nós só restava calar e consumir.

Consumir, até que a gente consumiu. Pouco. Uma calça Lee aqui. Uma calça Lixo acolá. Nada parecido com o consumismo de hoje. Nem de longe. Mas, calar, só calamos depois de muitos metros de letras encordoadas. (Graça Craidy)

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13 comentários:

  1. Sandra Terra escreveu:

    Bela lembrança, amiga. Belíssima!!!!!

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  2. Marino Boeira escreveu:

    Engraçado que estando na PUC,na época, não lembro desse jornal. Devia ser muita alienação ou preconceito contra essa forma de anarquismo. Marino

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  3. Angelica Moraes escreveu:

    Ah, isso não...Manin de Diós! Adorei ler a cronica sobre o Puk Puk de saudosa memória mas que história é essa de não finalizar a crônica deliciosa sobre Dárcy (ou Darcy) ? Já pro teclado, guria. Quero um fim para esse suspense já!

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  4. Carlos Souza escreveu:

    ótimo material. bj

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  5. Adorei! Da-lhe, coroa!

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  6. Marilourdes Franarin escreveu:

    Gracinha amiga , que maravilha esse material.... Nós éramos sérios e ao mesmo tempo irreverentes na forma de fazer, sedentos de liberdade de expressão. E deu certo. Em seguida fui chamada para o meu primeiro estágio na Zero Hora.
    Obrigada por lembrar desta fase tão bacana de nossas vidas.

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  7. Deda Franarin escreveu:

    Gracinha,

    Que coisa boa que mantiveste este material e, também, que tua memória resguarde isso tudo. Acho que tenho um envelope com recibos e outros registros do puk puk.Olhando teu blog me interessei com a palavra "cantora", me fala sobre isso !! Sabes que sempre estive envolvido com música, já tendo participado de grupos de jazz, MPB, choro, samba e, atualmente, de uma banda de bossa nova chamada Nota Só. Com esse grupo organizamos bimestralmente Saraus, com a banda e convidados cantores.
    Beijos,
    Déda Franarin.

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  8. Airton Konze escreveu:

    Bom Dia Gracinha filha do seu João.Tenho lido teus textos,verdadeiras maravilhas e repletos de surpresas.Tens feito um bem danado para mim.Muito bom ter ver,ler e entender mais sobre minha colega de caminhada.Um grande beijo.Ficou muito feliz por tí. Ayrton/Kaytano

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  9. Nossa prima.
    Parabens!! Que bacana essa historia.Fico so imaginando tudo isso se passando em plena ditadura.
    Beijão.

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  10. Airton Konze escreveu:

    Querida,bendigo sempre eu ter estado e passado por alguns lugares nesta minha jornada.Encontrar pes.ssoas,pessoas com gestos nobres,
    ideais,atidudes,onde todos fazem e são parte de um todo .Nós jamais faríamos algo que não tivéssemos segurança de fazer pois nossa força de grupo era realmente grande e forte. Tem uma frase que diz assim:Um sonho que voce sonha sozinho é apenas um sonho. Um sonho que voce sonha junto com outras pessoas torna-se realidade.Cada um fazia parte do sonho dos outros e todos eram do mesmo sonho.Um beijo minha querida Graça(filha do Seu João) Ayrton/Kaytano

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  11. Paulo Boa-Nova escreveu:

    Querida Gracinha:
    Podias enriquecer ainda mais as relíquias que revelas sobre o Puk-Puk. Por exemplo: que eu e o Sérgio Beira viajamos a São Paulo e ao Rio de Janeiro para entrevistarmos o grande Tarso de Castro, fundador do lendário O Pasquim, e o genial Neil Ferreira, o cara que deu uma virada de mesa na propaganda brasileira.
    E mais: que a entrevista foi editada - copidescada, texto final, baixada e com participação na diagramação - por mim e por ti.
    Sabe, Gorda, é que estas foram as matérias mais importantes feitas por PUK-PUK, que só durou tão pouco porque o mercado de trabalho nos descobriu e nos fisgou - eu fui para a Zero Hora, o Beira para uma agência em Curitiba, o Luiz Fernando Bescow para Brasília e os demais todos entraram logo em seguida em redações, agências ou empresas de comunicação.

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  12. que texto interessantíssimo, mt bem escrito, que época maravilhosa, bem retratada....valeu!!!!

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