Minha lentilha por seus ais.


Antes de deitar comigo, homem que desejo meu come primeiro da minha comida. É uma espécie de fascínio. O coração quer saber até onde a fome.

Comer na mesa ou na cama? Minha libido tecida em ancestrais ventres italianos e libaneses trilha estranhos rumos de fruir com igual lascívia os dois sentidos do verbo. Se o futuro amante ceder aos encantos da alquimia do sal e, quem dera, despertar em mim outros quereres alvoroçados pelo prazer do seu prazer, meio caminho para a alcova.

Com Josué, foi assim. Ele - como eu - tinha paixão por lentilhas. Numa quarta-feira, aceitou o convite e mergulhei, enfeitiçada, no ritual de arrebatar. Lentilhas, bíblicas lentilhas. Bizarra mercadoria de troca!

A receita foi escolhida a dedo depois de percorrer com fervor quase literário três fartos livros, onde souvernirs de molho de tomate e salsinha seca convivem com guardanapos amarelados, rabiscos de outros pratos, quiçá amores.

Festa de babette, o rol: lentilha, cebola, louro, pimenta síria, vinho, alho, sal, cenoura, batata, paio, arroz, panela de ferro, colher de pau. Tudo virginianamente à parte, sobre o granito do balcão.

Lentilha amolecendo na água, os temperos picados em cumbucas, tempo de tramar o clima com urdiduras de rosas, velas, linhos, cristais, porcelanas e, de vigília na gaveta do Cd, a cúmplice Stardust.

Agora, eu. Existe rito mais sagrado que mulher se preparando para homem? Começa no pé, lambe a pele toda, unge cabelo, conluia boca e boceta, tange seios, ronda umbigo, arranha costas e, enfim , voduza lóbulos, lábios, regos e trás-os-joelhos, com óleos e perfumes. Toda fêmea na cerimônia de pré-acasalamento já se possuiu cem vezes, antecipando o amado.

O que seduzirá Josué: a pimenta síria acanelada ou o inebriante patchouli? Em frente ao fogo, enquanto me mesclava à lentilha e ao arroz pelo girar compassado e hipnótico da colher de pau, eu abracadabra, bruxa e esfinge : - Devora-me, Josué. E te decifro!

Ele trouxe vinho do meu gostar no abraço e elogio derramado no pasmo do olho imiscuído em meu decote. Na garganta, the-memory-of-love's-refrain. Reverbera ainda em meus baixios seu pungente gemido à primeira bocada. E, no banquete reprisado do final, longa vida àquele rei.

Sua primogenitura por mil pratos da minha lentilha. (Graça Craidy)


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3 comentários:

  1. Adriana Gragnani escreveu:

    Manuelita, melhor receita de lentilha que li.

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  2. Patrizia Eccofatto escreveu:

    Gente passei minha vida sem saber como lentilha é sexy!

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  3. Marta Escaleira escreveu:

    Tu é muito boa, guria! Parabéns! Beijos!

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