Eu nasci há quatro mil anos atrás.

A genética me fascina. É tipo uma arte aleatória, espécie de criação randomizada, um caleidoscópio maluco que nunca pára de se reinventar. Me representa até que um geniozinho através dos tempos fica se divertindo em misturar bocas, olhos e narizes e cabelos e dedos e mãos e pés.

- Humm, que tal este nariz aqui com esta boca ali? Quem sabe aquele cabelo lá com aquele olho acolá? Tsk! Prefiro este queixo aqui com aquela sobrancelha. E não se fala mais nisso!

Eu, por exemplo, tenho um dedo mindinho no pé que certamente não pertence por direito ao resto do meu pé. Um dedinho com-ple-ta-men-te bastardo. Meu pé é forte, largo, dedos longos, ossudos, poderia muito bem ser pé de uma daquelas estátuas gregas das Cariatides de Atenas, inclusive, que pra sustentar o templo em sua cabeça havia que ter bom suporte.

Bom suporte, tirando o meu mindinho, claro. Com seu ridículo formato de dedo-bolinha, alma de pão de açucar, altinho e pra fora, ele não sustentaria nem uma casa de joao de barro, o inútil!

Duas únicas coisas, porém, me consolam. Primeiro, é que não é só num pé. Pelo menos ambos os dedos mindinhos dos meus pés são igualmente ridículos, bolinhas e saltados pra cima, como se tivessem sido mal colados. Aliás, digo e re-digo: o sujeito que me montou antes de eu nascer pegou um dedo mingo da gaveta errada. Tava distraído, o inconsequente!

O pé de Constantino. Cariatides.

A segunda coisa que me consola é que, procurando por uma imagem de pé de estátua no google, dei de cara com o pé do Constantino, depois nomeado César, que foi imperador do Império Romano Unificado até 337 DC. Quase caí pra trás! Não é que o mindinho do augustíssimo césar era tal e qual o meu? Cáspita! Há mais de 1.600 anos o mindinho-bolinha comandava o mundo! Me senti um pouco melhor, agora.

No entanto, minha herança genética mais forte é, sem dúvida nenhuma, meu nariz. Filha por um lado de pai com herança libanesa e de mãe com herança italiana e francesa, que outro nariz eu poderia me atrever a desejar que não um grande e poderoso nariz? Quem me olha de perfil enxerga um super nariz árabe-franco-italiano, com ossinho entre as sobrancelhas e tudo.

- Elementar, dear Watson!
- Nem tanto, Hol, nem tanto!
- E as infidelidades?... Aqueles que acreditam piamente em árvore genealógica esquecem que as pessoas traem? - resmungaria Jorge Luis Borges.

Outro fator desmoralizante da genética- me lembrou muito bem meu amigo Ivan Caires - é que desde todas as guerras da antiguidade até agora na Sérvia/Montenegro, os vencedores sempre estupraram as mulheres dos inimigos ou as obrigaram a aderir à cultura e à cama dominantes.

De modos que não sei se alguém andou pulando a cerca ou se houve um momento de violência contra alguma pobre mulher na minha linha genealógica bem mais lá pra trás, para que eu ou você ou qualquer outro no mundo tenhamos nos construído geneticamente da maneira que somos.

Mas é fascinante tentar descobrir a origem nos retalhos do patchwork que nos costurou, em fotos antigas, nos parentes, nos pais, nos avós e, quem sabe até, no vizinho, no melhor amigo do seu pai, no marido da melhor amiga da sua mãe?

É um festival de olho, boca, queixo, bochecha, covinha, sobrancelha, cabelo, orelha, que daria pano pra mangas per omnia saecula saeculorum. Na minha família, por exemplo, há o mito do queixo da nossa vó italiana. Cada bebê que nasce, sempre tem um que alerta: - espia, é o queixinho da vó Cristina!

Outro dia, ainda, ouvi uma adolescente bonita que é uma princesa reclamando de 0,01% do seu corpo. Que do pai só havia herdado, infelizmente, as orelhas. Orelhas de abano, ela se lamuriava. Com tanta coisa pra herdar, por que justamente as orelhas de abano?

Mistério!

Há um grande mistério, aliás, na minha genética, que não sei como explicar e que compartilho com você. Em meados dos anos 80, quando eu trabalhava como redatora publicitária na agência J. Walter Thompson, em São Paulo, havia lá um revisor muito culto de nome Gilson, se não me engano, que toda vez que me encontrava dizia:- Hitita! Você tem o perfil hitita!

Eu não sabia nada de hititas tampouco de perfis hititas e, como naquele tempo não havia google, sorria pra ele - devia ser alguma coisa bacana, eu pensava - e deixava pra lá permanecendo na minha mais escura ignorância.

Há poucos anos, porém, depois que voltei a morar em Porto Alegre, um dia me veio o Gilson à mente e sua frase brincalhona: - oi, Hitita! Lancei a palavra-chave ali mesmo, no branco generoso do google, e se ofereceu um desparrame de hititagens sem fim.

A wikipedia me esclareceu que os hititas eram um povo indo-europeu que, no II milenio a.C., fundou um poderoso império na Anatólia central (atual Turquia), cuja queda data dos séculos XIII-XII a.C..

Revelou também que em sua extensão máxima, o Império Hitita compreendia a Anatólia, o norte e o oeste da Mesopotâmia até a Palestina. Que a sua capital era Hattusha. E que o seu império formou, junto com o Egito e a Babilônia, o trio das grandes potências dos séculos XIII e XIV a.C.

Pesquisando mais, dei de cara com um site espanhol que me mostrou várias figuras do alfabeto hitita. Entre elas, uma me chamou especialmente a atenção e me deixa até hoje de queixo caído. É a figura que significa " reina". Isto é, rainha.

Você não precisa nem me acreditar. Eu mostro. Espie ali na imagem do alfabeto e reconheça. A figura da reina, da gran dama hitita, passados mais de 4 mil anos, não é ninguém mais nem ninguém menos que ....eu.(Graça Craidy)

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14 comentários:

  1. Que lindo! Bem que você me disse que tinha ficado inspirada com esse negócio de genética. Agora, ver meu nome dentro do seu maravilhoso texto e blog, juro que me deixou muito orgulhoso. Aliás, sempre tive muito orgulho de ser seu amigo. Amigos para sempre...Obrigado Gracinha. Beijão nesse perfil hitita.

    Ivan Caires

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  2. Yara Carvalho escreveu:

    Bom demais, compartilho.

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  3. Amei. Me lembrei do primeiro choque cultural que minha mae me causou quando tinha uns 13 anos, e andava me queixando pela casa de como, por que, ai senhor, tinha eu cachos e ben chegados ao vermelho, quando todo o resto da familia tinha cabelos lisos, certamente nao da cor de tangerina, com excecao de meu pai, que sempre conheci careca, esse entao nao contava.Dona Giuliana irritou-se uma hora e la veio com a informacao: conta a historia que Barba Ruiva apos matar todos os homens em Brescia, fivou 8 dias fora dos muros a se contender com as mulheres (os famosos 8 dias de brescia que ate ali nem sabia que haviam existido), Apos os 8 dias, finalmente entrou na cidade, e naturalnebte violentou as mulheres, Conclusao de Giuliana: deve ser dai que veio seu cabelo, Chocada fiquei, pois nao tinha certeza se minha mae tinha acabado de me dar uma aula de como me orgulhar de minhas ancestrais ou se tinha me chamado de FDP. Decidi rapidinho pela primeira opcao.

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  4. E tb nao entendo porque seu blog me chama de anonimo, no masculino ainda por cima.

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  5. Beia Carvalho escreveu:

    muito booommm!

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  6. Cadu Ferrer escreveu:

    Sou teu fã! heheh

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  7. Luiz Orquestra escreveu:

    Eu,desde quete li,te reconheci.Voce é Fera -é fogo -é foda!

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  8. Vera Ligia Souza escreveu:

    Graça, mto bom...adorei. bjs

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  9. Bruno Stelet escreveu:

    Rainha Graça!!!

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  10. Antonio Carlos Santiago escreveu:

    O seu texto é um charme! Bj., Antonio Carlos Santiago

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  11. Silvia Brito escreveu:

    Pronto, está explicado!! rs Adorei, Graça! bjs

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  12. Angelica Moraes escreveu:

    Ahrrrá! Está explicado. Mas pensava que o parentesco era pelos lados da Rainha de Copas ;))

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  13. Ademar Vargas de Freitas escreveu:

    Bah, Graça, não há dúvida, é tu mesmo,
    quatro mil anos atrás. E quem foi rainha
    nunca perde a majestade. Parabéns pela descoberta!
    Ademar

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