Canto de sabiá-fêmea em dia de domingo.

Onde meu sabiá-macho? Onde meu sabiá-macho? - ela acordou naquele domingo desgraçadamente ensolarado, tateando a ausência dele no macio de suas coxas desacompanhadas.

Já não podia mais respirar sozinha, seu ar descosturado do pulmão dele vazava a tristeza do seu oco de não poder redemoinhar em suas veias, se entontecer inebriada dos seus percorridos, do seu sabiá-macho, ele tão distante, sabiá de outros matos.

Me morra, meu sabiá amado, que cada minuto longe de ti me mata um pouco, me abrevia o canto, me descompassa o júbilo desse sol tapa na cara, eu sabiá sozinha de ti, meia-sabiá.

Que ninho é esse, melancólica mortalha que não ruste nem ruge o desaforo caboclo de me saciar a fome?

Que teia é essa que me enrosca no teu pensado feito melaço de roça boa e não me derruba de costas na beira da lama do açude e rola rindo comigo moleque safado de primários ais, que não me morde o pescoço, não enfia a cara embaixo de minha asa nem me morde o seio, nem não me lambe o sal?

Sou pássara de cidade, meu sabiá-macho, triste de existir assim burlando a peia, fingindo chilreares filhos de bem-nutranças, mas, não, tudo ânsia não cumprida, tua sabiá queria agora só o cheiro acre da tua asa mal-dormida, o roçado da tua barba por fazer, o privilégio de ser teu primeiro olhar quando acordasses de manhã, aquela hora mágica quando tu vens do mundo dos sonhos e, eu queria, assim, pular do teu sonhado pro teu real feito magia, quando subisses as pálpebras eu te currando os olhos com o sol do meu riso bom de existir ali, naquele pendurado do momento, congelada hora.

Ah, neste vazio je suis triste porquoi tu me manques, meu sabiá, gosto disso do tu-me-manque porque fala saudade tu-me-falta, tu me faz falta, sabiá, na terceira pena da minha asa esquerda há um machucado que não cicatriza do buraco que tu me dóis ali, bem do lado do meu coraçãozinho-sabiá, singelo coração sem alpiste,
o canto fica descaído pra dentro enozado de sustenidos e bemóis, ganchos tristonhos que não se purripurram porque não me ouves, sabiá.

Um bem-te-vi aqui do bosque ao lado me diz que bem me viu, que bem me ouviu mas nada pode fazer pelo meu mal de ausência, que a minha dor de desexistir tua sabiá é dor alheia, pode um pobre bem-te-vi suprir o oco de um doce sabiá? Purripurruo calada, minha garganta de novo só engole o sal e o aperto, mais uma vez ave maria, sina de sabiá-fêmea, a quem só resta rezar. ( Graça Craidy)

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5 comentários:

  1. Triste de doer... e piar desconsolo.

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  2. Adriana Gragnani escreveu:

    Caramba! Manuelizou-se em profundezas piantes! Lindo, piu!

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  3. Antonio Carlos Santiago escreveu:

    Não posso dizer que entendo a dor dessa sabiá. Ninguém pode.

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  4. …ainda bem que antes do estranhamento eu já tinha bebido uma boa taça de tinto e olhado para o frio da noite portenha ...aí sim , me fui abandonando ou me bandoneonando nas lembranças dum outro njilla, das costas africanas...
    lindo Graça!!

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  5. Angelica de Moraes escreveu:

    Pués que a guria escreve como gente grande, tchê! Teria a bença do seu Guimarães Rosa, lá pras bandas das Geraes? Arriégua, não duvido.

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