Hoje eu me senti num quadro do Chagall.

Convidada pelo mestre Britto Velho - primeiro artista na diretoria de uma Bienal do Mercosul -, fui à apresentação do novo Presidente da Bienal do Mercosul, o médico GIlberto Schwartsmann, à imprensa e comunidade gaúcha de artes plásticas, no auditório do MARGS, com mediação do supercompetente Paulo Amaral.

 À medida que Schwartsmann ia falando do seu projeto para a próxima Bienal, que vai acontecer em abril de 2018, toda a plateia começou a levitar, como num quadro do Chagall. Embalada por sua fé, seu entusiasmo, sua vontade de fazer.

E superamos a crise, o desânimo, as tristezas, as dificuldades que o momento histórico impõe. Com o pé no chão, como ele. Mas viajando, também, com ele. Sobrevoando a cidade, feito o quadro do Chagall (figura aliás com quem Schwartsmann se parece muito).

Sua voz forte, decidida e sorridente foi nos contando que, sim, é possível, mesmo com mau tempo, realizar uma Bienal bela, representativa, relevante, envolvida no cotidiano da cidade, se fazendo acessível a todos, inclusive `aqueles que nunca têm acesso `a arte.

Sim, já temos um curador de " currículo robusto" - ele falou - contando que o crítico de arte alemão Alfons Hug, conectado com o Instituto Goethe, ficou tão entusiasmado com o convite, que pagou do seu próprio bolso a passagem, vindo a Porto Alegre rapidamente para conversar com Schwartsmann.

E o novo Presidente explicou que tudo vai acontecer ao redor da Praça da Alfândega, principalmente no trio de museus da cidade - MARGS, Santander e Memorial - e quiçá nos armazéns do cais. Falou também que o tema da Bienal acordado com o conselho e o curador será O Triângulo do Atlântico - Africa, América, Europa - explorando nos seus vértices tudo o que nos contagiou, nos construiu, nos fez sermos o que somos, vindo dessas três origens.

" Temos uma dívida histórica com os imigrantes negros, em nosso estado" - ressaltou Schwartsmann - "e isso precisa ser reconhecido, com um amplo espaço para a manifestação da sua arte, da sua história no RS".

A proposta é que O Triângulo do Atlântico se reflita não apenas nas artes visuais, mas em todas as manifestações de arte em 2018, em Porto Alegre, englobando música, literatura, o que puder nos traduzir na troca de influências culturais que definem o que hoje se chama gaúcho.

O arquiteto Mario Englert, que na I Bienal da Mercosul liderou a construção em tempo recorde de 30 mil metros quadrados de espaço expositivo, convidado a dar o seu testemunho, me encheu os olhos de lágrimas, quando se mostrou valente para reconstruirmos em nossa terra o tributo aos nossos antepassados que tanto lutaram para fazer dela uma boa terra. " É possível, sim, nós vamos conseguir, nós podemos - disse ele. "Tudo hoje nos diz ' vai embora', mas nós não vamos, nós vamos ficar e lutar e transformar".

Fiquei emocionada.

Lembrei dos meus bisavós italianos que caminharam - literalmente! - durante um mês, depois de atravessar o mundo, para cruzar da antiga Vila D'Eu- Bento Gonçalves - até Ajuricaba e recomeçar a vida lá na grotas.

Lembrei dos meus avós libaneses, que vieram do outro lado do planeta, nada no bolso ou nas mãos, ele que andava de porta em porta com seu baú de mascate, ela que varava a noite costurando para ter roupa pronta a oferecer no balcão de sua lojinha.

Me emocionei não porque sou artista. Mas porque sou gaúcha e neta e bisneta de imigrantes que passaram por crises muito piores do que a que passamos hoje. E não esmoreceram.

Há 12 anos voltei para o Rio Grande do Sul, depois de 20 anos em São Paulo, e amo ter voltado. Porto Alegre me encanta, mesmo com tudo de torto que nela acontece hoje. Eu, como esse povo forte que assume a 11ª Bienal da Mercosul, acredito que, sim, é possível ser feliz de novo. Se a gente quiser. Se a gente fizer.

Longa vida a Gilberto Schwartsmann e sua equipe! ( Graça Craidy)


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