Agonia e êxtase de Izidério Valdonílson.

O Martin Fierro, na rua Aspicuelta, Vila Madalena, São Paulo, faz o bife de chorizo mais delicioso do Mercosur.  Não tem pra Puertos Madero, Palermo ou qué-sé-yo. O bife de chorizo do Martin Fierro vem num prato com um elegante ramo de agrião e forma com ele uma flor, um poema, uma epifania que só se sabe, mesmo, da boca para dentro.

Lá eu costumava me aquerenciar volta e meia, com amigos, quando batia aquele desejo pré-histórico de chafurdar no pecado capital sem culpa. Bife de chorizo acompanhado, por supuesto, de inigualáveis papas. E, sin embargo, de um maravilhoso, reconfortante, libertário e dionisíaco vinho tinto. Podia ser malbec, carmenére, cabernet ou merlot. Desde que seco.

Pués, naquele puxadinho sencilla de mesas apertadas com vista para a paz da Vila Madá, era fundamental também dar início aos trabalhos com uma empanadita de carne feita na hora, que vinha pelando pra mesa, e desaparecia na boca entre gemidos suspirosos de ay-mamita!

Um belo sábado ao meio-dia, estávamos na varanda do Martin Fierro, eu e minha amiga Pati, na campana do bife de chorizo, e já no enleio malemolente do vinho, naquele assunto preguiçoso e sem-vergonha de fim de semana, o garçom passando pra lá e pra cá em azáfamas portenhas.

Esse tal garçom - me lembro bem - era uma figura rara. Alto, magro, nordestino da cara angulosa, uns 30 e poucos anos, cabelos ondeados, ele gostava de puxar assunto nas mesas e prosa que te prosa. Cinco minutos de conversa e já contava que ser garçom era apenas um prolegômeno breve para a sua - essa sim, duradoura - carreira de cantor e compositor de música brega. E dali pra puxar uma fita demo do paletó branco eram dois palitos. Digamos que o nome dele fosse Valdonilson. Ou Izildério, quem sabe? Não posso garantir.

Só sei lhe dizer que Izildério Valdonilson tinha acabado de nos presentear com sua fita K-7 de inspiração Reginaldo Rossi,  Pati e eu rindo aquele riso sem relógio, de sábado, achando supimpa a vontade boa e justa dele de virar artista, nem que fosse um artista de música brega, porquois pas?  Que convivam morubixabas e orixás!

Era sábado, mas em vez de me jogar dentro de um abrigo ou de uma bermuda com camiseta, eu tinha escolhido um vestido de linho muito bonito de minha especial predileção, pra usar com sandália baixa. Longuette, manga curta, decote careca, preto com  risca de giz, adredemente amarrotado como todo linho deve ser, mas chiquezinho: tinha um abotoamento charmoso nas costas, da nuca até o tornozelo, com delicados botões de madrepérola. Me deixava com um ar assim entre o descolada e o  retrô.

Lembro que as cadeiras do Martin Fierro eram vazadas, e que eu estava sentada de costas para a entrada. E lembro ainda do restaurante lotado. Era um sábado de sol e, em assim sendo - de sol - o povo paulistano por nascença ou adoção tudo o que quer na vida é lagartear e comer e beber sem hora pra pedir a conta. E, claro, se os convivas estavam ali soltos e solteiros, nada obstava que um olho espichasse aqui, outro acolá. Nós aproveitávamos para lançar unas miraditas que matam, nunca se sabe o que o destino arquiteta.

Enfim, a modorra já havia se estabelecido e o volume das vozes nas mesas vizinhas tinha subido pelo menos dois tons, graças ao Baco ou às Norteñas, e podia quizás rolar uma sedução promissora. Que no! Começou a acontecer uma coisa muito estranha com o Izildério Valdonilson.

O homem se punha parado ao meu lado direito, na mesa. Me olhava angustiado, esfregando uma mão na outra. E seguia lá pra dentro, sem dizer palavra. Dali a pouco, lá estava ele de novo, do lado esquerdo da mesa, me encarando em agonias. E nada que nada.  Até que uma certa hora ele se aprumou,  abaixou o rosto ao lado da minha amiga Pati e cochichou qualquer coisa no ouvido dela.

Pati levantou de sopetão, os dois se dirigiram pra fora do bar, na calçada. Eu vi que eles conversaram algo pelo jeito muito sério. E olhavam pra mim, ambos, bem enfáticos, com - estranhei!- uma dramaticidade completamente fora de hora. Confesso que eu não estava entendendo porcaria nenhuma. Côsa mais esquisita, sô, vá-te!  Mas, pensei: a mí qué! Deve ser rolo do cara pedindo uma força pra Pati ou talvez queira me morder nuns pilas mas faltou valentia? Que no me venga!

Nisso, minha amiga volta pra mesa e, lembro daquela cena - das mais bizarras! - como se fosse hoje. Sem nem sentar, me olhando dentro do olho lá no fundo, a cabeça levemente abaixada feito o touro quando vai atacar o toureiro,  um jeito assim entre o histérico, o estóico e o catatônico, ela riscou com o polegar no guardanapo jogado sobre a mesa, desenhando  uma letra "V" bem forte, a ponta da unha afundando na textura macia do papel. Deste jeito, com gestos bem lentos. Primeiro, a haste esquerda do V. Depois, a haste direita. Só então, ela se acomodou devagarinho na cadeira, quase desfalecendo. E, empurrando o guardanapo com aquele V estrangeiro pro meu lado, ela murmurou entredentes a sentença mais orangotango-gorila-chimpanzé-babuíno-mico da minha vida sócio-cultural paulistana:

 - Guria, seu vestido desabotoou inteirinho atrás, da cintura pra baixo, e to-do-mun-do do restaurante está vendo - há horas!!! - a sua bunda de fora pela fresta do vestido, com a calçola em V. Assim!

E apontou de novo, implacável, para o maldito guardanapo.

(Graça Craidy)

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12 comentários:

  1. David Gusmão escreveu:

    Kkkkk!!!! Muito engraçado!!!! Querida Graça sou teu fã! Esse blog vai virar livro certo!!!! Kkkkk!!! Adorei o "V" !

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  2. Roseli Jahn escreveu:

    Bahhhh,tche, demaisss!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  3. Antonio Carlos Santiago escreveu:

    Descuidada! Gostei.

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  4. Muito bom!
    KKKKKKK...e a sua amiga, não disse nada? E depois? kkkk Meu Deus!!! Micoleãodourado.

    Ivan Caires

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  5. Sérgio Mudado escreveu:

    Compartilhei o blog. Todos merecem ver as epifanias da Hanninha e o chorizo de fierro. Que texto delicioso! Obrigado, guria-marceneira do meu coração.

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  6. Sérgio Mudado escreveu:

    Quem não ler irá perder, não uma epifania (o chorizo do Martin Fierro), mas outra aparição, céus, que texto lindo, saboroso, e com um final...Ora, me contem vocês.

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  7. Hermes escreveu:
    Muito bom.... e o Izildério, coitado, só de butuca.
    tá bom barbaridade, guria.
    Bj.
    H.

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  8. Maria Berenice Machado escreveu:

    Graça, querida

    Bom saber de ti e ler o teu texto maravilhoso. Adorei a história e, mais ainda, as descrições apuradas, o requinte prosaico-poético.

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  9. Luiz Saidenberg escreveu:

    Muito legal, Graça!

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  10. Lizete Mercadante Machado escreveu:

    ahahahahaha, deliciosíssima como sempre. Caramba, guria, tu só melhoras!!!

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  11. Edmar Salles escreveu:

    Geaça, adoro ler seus textos. Deliciosos, bem humorados e ainda se dá ao luxo de caprichar no sotaque...rs

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  12. Graça queridaaaaaaaa, incrível prazer ler teu texto!!

    Anônimo = Tati Bech

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