Morin: Amai-vos uns aos outros, assim na terra como na terra.

Taquicardia. É isso o que se sente ao ler Terra-Pátria. Nesse livro fino mas cortante, o vieux diable Edgar Morin - em parceria com a jornalista Anne Kern - vai descolando um por um todos os band-aids ramelados que cobrem nossas feridas de perdidos humanos pós-modernos.

Ao mesmo tempo em que expõe a artificialidade, a pressa, o oco, a solidão, a tecnobarbárie, o consumismo, a demência, a progressite, a sem-razão de nossas vidas contemporâneas órfãs de futuro, Morin vai também soprando amorosamente seu pensamento complexo em nossa angústia, aliviando um pouco o que chama freudianamente de “mal-estar da civilização”, com sua proposta desviante, poética e humanista de fraternidade planetarizada.

Onde Baudrillard termina, Morin começa. Para salvar o planeta e o homem de um destino catastrófico antecipado, ele sonha com “o melhor possível” de uma re-hominização: transformar a Terra na pátria mãe gentil de uma nova humanidade evoluída – ainda que sapiens-demens e destinada a incertezas – não mais habitante de nações, mas costurada sem fronteiras por uma consciência complexa que respeita o diverso e reconhece o uno da espécie.

“A nação esgotou a sua função histórica de emancipação dos povos”– diz Morin, enfatizando que os problemas hoje “dizem respeito ao planeta, não às nações” e que, acima de tudo, não somos nação, etnia, mas humanos.

Observador sensível e independente, ele aponta vários possíveis motivos do caos atual. Para começar, acusa a tecnociência de “ núcleo e motor da agonia planetária”, o desregramento econômico de reducionista, cego ao não-econômico, e o mito do desenvolvimento happy-end de “ subdesenvolvido”.

Com sua “ lógica da máquina artificial” que ignora o ser concreto e complexo, os donos economicistas e tecnocientíficos do mundo contemporâneo roubaram a poesia da vida, deterioraram as solidariedades e subjugaram o humano em sufocantes prisões racionais de especialização, cálculo, eficácia, rapidez, cronometria, “macdonaldizando” – segundo expressão de Georges Ritzer – a sociedade.

Deu no que deu. Um angustiante vazio interno que deixou o homem alheio ao seu ritmo natural, “doente de velocidade”. Um consumo histérico do presente hiperatrofiado, com “insaciável obsessão estética, dietética”, em meio à fria sensação de “perda do futuro”.

Humanos condenados kafkianamente a “dialogar com poderes anônimos” que geram uma crescente desresponsabilização e indiferença cidadãs, num mundo carente de democracia, competitivo e sem ideologia, a não ser a do lucro.

Até no amor - último baluarte - se instalou “o mal da instabilidade, da pressa, da superficialidade”, aponta Morin. Sem falar no recrudescimento do fanatismo religioso, que aproveita a vaga de felicidade e promete de novo o paraíso.

O que fazer com tudo isso? Morin pára de assoprar e enfia o dedo na ferida. Adeus, vida eterna, deus, morte e salvação!
“Precisamos tomar consciência da nossa irremediável finitude (…) renunciar radical e definitivamente à essa salvação ( …) ao falso infinito da onipotência da técnica, do espírito”.

Antes que alguém corte os pulsos, porém, ele ensina a saída: pelo prazer da “itinerância” que valoriza os momentos autênticos, da alternância “ prosa e poesia”, da fraternidade e do “viver por viver”, com amor – antídoto poderoso contra a angústia. Prosa, para Morin, é o dia a dia, a rotina, os quefazeres. Poesia é o amor, a arte, o sonho, a relação com o Outro.

Assim, ele sugere que, na “ampliação do Nós” que supera a repulsa e o medo do diferente, e abraçando todo alter ego em uma “relação matri-patriótica terrestre”,  reconheceremos no diverso, enfim, no outro ego, “ um irmão humano”.

E Morin lança um apelo-lavoisier: “Será que não se poderia degelar a enorme quantidade de amor petrificado em religiões e abstrações, e devotá-lo não mais ao imortal, mas ao mortal?” Mortais de todo mundo, uni-vos! (Graça Craidy)

Bibliografia:
Morin, Edgar, Kern, Anne B. - Terra-Pátria . Trad. Paulo Neves. Porto Alegre: Sulina. 2000, 3ª Ed.

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5 comentários:

  1. Angelica Moraes escreveu:

    Graça Craidy comenta Morin e nos dá de presente uma resenha saborosa, muitíssimo bem escrita.

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  2. Adriana Gragnani escreveu:

    Graça, já pensou como esse livro é atual e não é, ao mesmo tempo? Enfim.. a reificação humana.

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  3. Liber Matteucci escreveu:

    O artigo do Morin é ótimo, Graça... por acaso, o livro que acabo de lançar vai por aí, em busca de um mundo mais fraterno e menos consumista (mas não falo isso para fazer propaganda. só por causa da sintonia...

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  4. Joao Batista Ferreira Filho escreveu:

    "O livro dever ser muito bom e voltado para o Humano de cada ser humano, a julgar até pela resenha habilmente colocada por você Graça Craidy. E esse apelo-lavoisier de Morin: “Será que não se poderia degelar a enorme quantidade de amor petrificado em religiões e abstrações, e devotá-lo não mais ao imortal, mas ao mortal?” esse apelo, sinalisa muito bem o quanto estamos muito mais voltados a agrupamentos em religiões do que ao verdadeiro sentido de seu conteúdo. Estamos de coração congelado na busca do imortal, quando o mortal agoniza à espera de que o sangue volte a pulsar amorosamente no coração de cada um de nós "imortais"."

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  5. Caio Junqueira Franco escreveu:

    Querida Graça, obrigado pela resenha bem escrita sobre o Edgar Morin, saio já correndo atrás do livro....beijão e saudade!

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