Canclini: A cultura não é uma Arca de Noé embalsamada.

Nos anos 40, a cantora luso-brasileira Carmem Miranda, que fazia sucesso em Hollywood como A Pequena Notável ou The Brazilian Bombshell, ícone do Brasil tropical em terras estrangeiras, foi criticada pelos brasileiros da época por ter aderido ao american way of success. Ao melhor estilo carioca, no entanto, ela respondeu aos seus conterrâneos detratores com um samba de Vicente Paiva e Luiz Peixoto, reforçando o seu amor à cultura brasileira:
Disseram que eu voltei americanizada/ Com o burro do dinheiro/ Que estou muito rica/ Que não suporto mais o breque do pandeiro (... )Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno/ Eu posso lá ficar americanizada/ Eu que nasci com o samba e vivo no sereno/ Topando a noite inteira a velha batucada/ Nas rodas de malandro minhas preferidas/ Eu digo mesmo eu te amo, e nunca I love you/ Enquanto houver Brasil/ Na hora da comida/ Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu. (Disseram que voltei americanizada, 1940)

Mais de seis décadas depois, já no terceiro milênio, as críticas à influência estrangeira na cultura adquiriram foro científico e freqüentam assiduamente a academia, que questiona estarrecida como encaixar " esta madeixa de comunicações distantes e incertezas cotidianas, atrações e desenraizamentos, que se nomeia como globalização", segundo palavras do filósofo e antropólogo argentino Néstor García Canclini ( 2004: 13).

Canclini, que vive no México desde 1976, é um obstinado estudioso da cultura latino-americana e dos efeitos da globalização no cotidiano pós-moderno do hemisfério sul.

Afinado com a proposta transdisciplinar dos Estudos Culturais, afirma não ser mais suficiente valer-se só da sociologia, ou só da antropologia ou, ainda, só da comunicação, para entender o fenômeno avassalador da globalização. É preciso ir além dos saberes compartimentados, questionando antigas conclusões disciplinarmente isoladas e buscando, no tempero dos vários jeitos de olhar, outras respostas, ou, melhor, outros questionamentos, como ele enfatiza, na epígrafe do seu livro Diferentes, desiguales e desconectados (2004): " Se não conheces a resposta, discute a pergunta", citando Clifford Geertz ( 2004:12).

E ele se faz perguntas intrigantes o tempo todo, para as quais nunca há só uma resposta: O que nos faz comuns? O que nos faz diferentes? O que é ser latino-americano? Globalização globaliza ou desglobaliza? Identidades são essências ou processos? Quais os paradoxos? Que conflitos movem as culturas contra as culturas? E os indivíduos contra os indivíduos? etc

No seminário Interculturalidade e Globalização que ministrou na PUCRS baseado no livro citado, Garcia Canclíni alerta para outros aspectos decorrentes da globalização que não apenas os econômicos e tecnológicos. Ele pretende uma teoria transdisciplinar ( antropologia, sociologia e comunicação, principalmente) que organize o conhecimento sobre as novas diversidades surgidas do que ele chama de desdibujamento das fronteras, da transnacionalização, das migrações e da monopolização da indústria cultural pelo capital norte-americano, sufocando as manifestações culturais locais, transformando maiorias geográficas em minorias culturais, e desglobalizando-as pela diferença, desigualdade e desconexão.

Suas propostas básicas são compreender esse fenômeno através de uma nova categoria, a interculturalidade, como a cultura que se mescla, confronta, troca e negocia, diferente da multiculturalidade, que apenas enxerga o heterogêneo estanque, o diverso separado como diverso. Ele recomenda, ainda, que se analise a globalização não somente a partir dos seus dados estatísticos - os indefectíveis datos duros canclianianos - mas também pelo imaginário, pelas narrativas dos seus atores.

Canclíni reconhece (contrariando quem achava que tudo estava perdido) o quociente inegociável de cada cultura da parcela hibridada pela globalização e sugere que se busquem acordos de co-produção cultural com capitais globalizados de culturas afins, que se reivindiquem políticas de regulação e proteção nacionais e de incentivo à produção cultural local, sob o risco de anulação e desaparecimento da diversidade cultural, em prol de uma pretensa multicultura monolíngüe construída sob o molde norte-americano.

Como receita final, ele incentiva fortemente o estudo da Economia da Cultura apontando-a como saída da opressão do mercado pelas armas do próprio mercado, fazendo lembrar claramente os estudos de George Yúdice em A Conveniência da Cultura (2004), onde a cultura extrapola o patamar tradicional de distinção apologizado por Bourdieu ou de antropologização aprofundado por Williams, e salta para a rentável plataforma de recurso, sob o argumento de que "a maior distribuição de bens simbólicos no comércio mundial (filmes, programas de televisão, música, turismo etc) deram (sic) à esfera cultural um protagonismo maior do que em qualquer outro momento da modernidade" ( 2004:26).

Ao longo do mesmo livro inspirador do seu seminário, Canclíni desconstrói algumas crenças da antropologia, da sociologia e do pensamento pós-moderno.

Da antropologia, reconhece, por exemplo, o disfarçado desejo idealizador de manter a cultura e os objetos dos seus estudos em redomas intocáveis, preservados do processo globalizador que agita o mundo, como se fosse uma Arca de Noé cuidadosamente embalsamada, cada espécie em seu escaninho cultural, "com inércias que o populismo celebra e a boa vontade etnográfica admira por sua resistência" ( 2004:21), citando inclusive Clifford Geertz que, segundo o autor, recusa-se a que se reduza a disciplina a " um saber sobre verdades caseiras" ( 2004:21).

Da sociologia, Canclíni duvida, por sua vez, que a famosa noção de campo de Bourdieu, amplamente utilizada nos meios acadêmicos como um coringa valioso para compreender a ação dos atores sociais em investigação científica sobre estrutura e poder, assim, a lo largo, como uma fórmula metodológica infalível, possa dar conta das especificidades particulares "de cada arte, da literatura, da política e das indústriais culturais" ( 2004: 97).

O estudioso argentino alerta também sobre a " indiscriminada exaltação da fragmentação e do nomadismo" de alguns estudiosos da pós-modernidade, criticando a visão tribalizadora do francês Maffesoli que, segundo Canclini, " banaliza a desintegração" (2004:22), como se todo nomadismo fosse feito apenas " pelo gozo do momento" (idem) e não, como se constata muitas vezes na prática, por sobrevivência.

Mas, afinal, a globalização é ou não o fim do mundo multicultural, a praga homogeneizadora que devorará a diversidade?

" O problema é mais de explosão e dispersão das referências culturais, que de homogeneização", responde Canclini, preocupado em estudar a interculturalidade, nova categoria criada por ele e reconhecida elogiosamente por Jesús Martin Barbero como "uma categoria com a qual nomear tanto a densidade dos conflitos e os intercâmbios que vivem as etnias, as regiões e as nações, como o lugar epistêmico desde o qual abarcá-los compreensivamente" ( revista online Pie de Pagina nº 3, abril 2005).

Para Canclini, precisamos evoluir de pensar a diversidade globalizada não mais como multicultural - o antigo caldeirão de raças e etnias catalogadas meramente por sua diferença - mas como intercultural. E explica: " interculturalidade remete à confrontação e ao entrelaçamento, ao que sucede quando os grupos entram em relações e intercâmbios". Multiculturalidade, diz ele, apenas " supõe a aceitação do heterogêneo; interculturalidade implica que os diferentes são o que são em relações de negociação, conflito e préstimos recíprocos" ( 2004:15)

E, àqueles que entendem a interculturalidade como um trânsito da diferença à fusão, como se a diferença deixasse de importar, Canclíni ressalta que sua idéia é " complexificar o espectro", considerando," junto com diferença e hibridação, as maneiras em que as teorias das diferenças necessitam articular-se com outras concepções das relações interculturais: as que entendem a interação como desigualdade, conexão/desconexão, inclusão/exclusão" ( 2004:21).

Para ele, a problemática da desigualdade se manifesta sobretudo como desigualdade econômica. Já a da diferença é visível principalmente nas práticas culturais: mais que em genética, língua e costumes, nos processos históricos de configuração social.

Aliás, Canclini ressalta que as transformações não são produzidas só pela globalização contemporânea, mas já vêm de há muito, desde a colonização, passando pela modernização, hibridação com outras culturas, pelas migrações, pelo consumo de bens industrializados e até pela adesão voluntária a modos de produzir não tradicionais. ( 2004:47). Inclusive, em um momento de raro humor, ele cita os antigos inimigos do capitalismo - os ex-comunistas chineses - que hoje produzem de tudo para todos os cantos do mundo, mesclando-se inclusive no Natal ocidental, onde são facilmente identificáveis pelos enfeites natalinos de papais noéis com bizarros (para nós) traços orientais.

Budistas cristãos ex-comunistas capitalistas globalizados, que mixórdia!

A desconexão, por sua vez, é um agravante que evidencia o aspecto desglobalizador da globalização, que marginaliza maiorias geográficas transformando-as em minorias culturais, alijadas do mercado de trabalho e da informação. Ser um conectado, no entanto, afirma Canclíni, citando Boltansky e Chiapello, pode também virar "fonte de novas formas de exploração e de novas tensões existenciais" ( in 2004:78) como, por exemplo, os portadores de celular, que acabam se transformando em trabalhadores sem limite de horário, alcançáveis em qualquer lugar e momento do dia ou da noite. Em suma, diz Canclíni, "ler o mundo pela chave das conexões não elimina as distâncias geradas pelas diferenças nem as fraturas e feridas da desigualdade"( 2004:79).

Enfim, o que Néstor Garcia Canclini propõe, cientificamente, são novas políticas de valorização das diferenças e do que chama de " direitos conectivos", para que os excluídos participem da indústria cultural e das comunicações, mantendo uma parte do seu território cultural preservada, com direito à diferença, direito à conexão e direito à igualdade, forjando talvez um novo grito de guerra pós-moderno, democrático, intercultural e universal: " Egalité, differènce, conection."

Referências bibliográficas:


GARCÍA CANCLINI, Néstor - Diferentes, desiguales e y desconectados, Mapas de la interculturalidad, Barcelona: Gedisa, 2005, 1ª reimpressão.

MARTÍN BARBERO, Jesus Maria - El tercer nombre de América Latina, resenha publicada na revista on-line colombiana Pie de Pagina, nº 3, abril de 2005, http://www.piedepagina.com/numero3/html/diferentes.htm

YÚDICE, George - A conveniência da cultura: Usos da cultura na era global - Coleção Humanitas, Belo Horizonte: UFMG, 2004
(Graça Craidy)

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2 comentários:

  1. Tati Ch escreveu:

    Excelente CANCLINI e excelente Graça!!

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  2. Sergio Gonçalves escreveu:

    Matéria de interesse maior, por enfrentar o desafio da globalização no mundo da cultura, mas com os olhos voltados para o futuro, não para o passado.

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