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Eu sou a tadinha-de-mim número 2. |
Sim, porque depois de Freud, Édipo e Electra, é até um tédio essa história de filho com pai-mãe: os culpados são sempre os mordomos. Não falta um baú de choramingos do que ficou a mais ou a menos na educação que receberam.
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Filho sempre acha que foi pouco. |
Não basta também sustentar aquela boquinha de jacaré sempre com fome, comprar roupa, videogame, pagar estudos, escolinha de futebol, inglês, balê, ritalina e tudo mais. Eles sempre vão achar que foi pouco, ou que foi errado, ou que foi menos do que mereciam ou precisavam.
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Você é um filho do meio bem resolvido? |
Não. Neca de pitibiribas. Pai e mãe de filho do meio estão sempre exaustos, já caíram na real da trabalheira desgraçada que dá um filho, já não têm mais forças nem pra juntar a chupeta do chão e lavar com água fervida. Nhé! O que não mata, engorda! Quando muito, limpam esfregando a chupeta na roupa. Quando muito.
E assim o gurizinho, a guriazinha já cresce fortinho, desde cedo, sobrevivente imune às bactérias do chão e de todos os lugares nojentos e perigosos onde uma criança costuma transitar.
Primeira batalha, um a zero pro filho do meio.
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Vantagem: ninguém dá bola pra você. |
Entonces, você filho do meio - se não for um chantagistinha pentelho mas um garoto esperto e atento às oportunidades - logo se dá conta, exultante, de que como você é invisível, você tem o salvo-conduto dos invisíveis: você pode ir e vir para qualquer lugar, qualquer, mesmo, que ninguém vai encher o seu saquinho, tampouco reparar que você foi. Ou voltou.
Que a minha mãezinha não nos ouça, mas eu me lembro muito bem, por exemplo, de ir à matinée do Cine Serrano domingo, a meia quadra da minha casa, sozinha, com uns 7 anos de idade. E ninguém não tava nem aí pra minha perigosa incursão. Eu pagava a entrada do cinema com selo de carta, que eu achava nas gavetas da minha vó, atravessava a rua, ia ao cinema, comprava a entrada e assistia ao meu Jim das Selvas, meu Joselito, minha Marisol, meu Tarzan. Eu e Deus. Na buena. Lá pelas 4 da tarde, acabava a sessão, eu atravessava a rua de volta e atinava que ninguém tinha se dado conta da minha ausência. Eba! Ninguém pra pôr a mão no peito e sair ofegante pela casa: - cadê a Graça??? Não. Filho do meio, lembra?
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Filho do meio é um estrategista. |
Por exemplo: se pai ou mãe diziam categoricamente é proibido fazer tal coisa, era o que bastava pra assanhar as lombrigas do filho do meio. Cedo ou tarde, pai ou mãe iam se distrair e filho do meio faria e-xa-ta-men-te o que era proibido. Na maciota. Na calada. Bem quietinho, sem ninguém saber. Filho do meio não tem cúmplices, não confia em ninguém para atos tresloucados, é um andarilho audaz e solitário. Carreira sempre solo.
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Carreira sempre solo. |
É bom ser filho do meio porque ninguém espera grandes coisas de você. Grandes coisas, quero dizer assim como esperam do filho primogênito, Deus me livre o que pai e mãe e família esperam de filho primogênito. Até entendo o cara aquele da Bíblia ter trocado sua progenitura por um prato de lentilhas. Barra pesadíssima, meu irmão!
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Filho do meio é livre pra ser o que quiser. |
De modos que se acontecer de você cruzar com filho do meio choramingando por aí que meu pai isso, que minha mãe aquilo, que meus manos aquiloutro, lembre de mim. E não acredite, meu bem! (Graça Craidy)
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