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No meio do caminho tem um celular. |
Onde quer que você ande, da padaria à ópera, da fila do banco à sala de espera do dentista, do taxi especial ao ônibus mais mequetrefe, sempre há um celular no meio do caminho com um idiota à coté falando alto com alguém que você não conhece, não quer conhecer e não tem o menor interesse em saber detalhes da desimportante vida da criatura. Ainda mais nesse volume pra acordar bêbado que eles adoram dialogar, numa compulsão bárbara de se expor na vitrine chafurdando na sua medíocre cotidianidade como se estivessem descendo a Champs Elysées, tralalá!
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Virar a cabeça e vomitar verde. |
Agora mesmo, eu estava numa lanchonete e lá atrás um rapaz falava em altos brados no celular com alguém. E nós outros todos mastigando nossos cheeseburguers bovinamente no ritmo daquela prosa fiada, sem reagir, como se fosse natural aquela invasão do domicílio dos nossos ouvidos.
O pior veio depois, quando o mentecapto ligou para outro amigo e, como nesse ínterim seu lanche chegou à mesa e ele não podia segurar ao mesmo tempo o cheeseburguer e o celular, não teve a menor dúvida: apertou o botão do alto-falante do aparelho. E todos nós não apenas ficamos escutando as frases dele, como as respostas do lado de lá.
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A tela do celular X tela do cinema. |
Show? Outra devastação. Não sei porque as pessoas vão a show hoje em dia, se em vez de ver o show, curtir, dançar, elas só querem filmar o espetáculo com seus smartphones último tipo atrapalhando a nossa visão, atraindo magneticamente nossos olhares, perturbando nossa fruição com seu pensamentinho autoral de ser o primeiro a postar no Face olha-eu-aqui, ó no show superhipermega do Fulano. Saco!
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Fotografar é melhor que viver. |
Ópera? Não, você diz botando a mão na boca horrorizado, ninguém se atreveria a interromper ritual tão centenariamente sagrado. Doce engano! Eu vi e ouvi, com esses olhos e ouvidos que a terra há de comer, uma dondoca quase apanhar do marido porque o celular dela tocou, ela não só atendeu como queria ficar falando, ali, em pleno primeiro ato, enquanto a soprano se esganipava lá no palco.
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Whats app, what a hell! |
E não alimente ilusões com encontros de família. Domingo desses eu almoçava com jovens do clã e quando dei por mim conversava com as paredes. Meus dois interlocutores tinham sido abduzidos pelo Facebook, pelo WhatsApp, pelo raio que o parta.
No último Natal, peguei um ônibus de Júlio de Castilhos a Ijuí, coisa pouca de viagem, beleza, visitar a família, ah, que lindo é o Natal!
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Não funka no meu ouvido, pô! |
E os loucos mansos que agora você cruza nas ruas, nos cafés, nos shoppings, no trânsito? Gente sem celular na mão mas que está, sim, falando no celular. Arrá, não contava com a astúcia deles? Fone de ouvido, Watson. Do nada, cruza com você um ser humano com o olhar vago falando em voz alta coisas mais vagas ainda. Você leva um susto, pensa que a criatura enlouqueceu, saiu da casinha, sofre de Alzheimer súbito. Nada!
E o pior é que os profetas do marketing só fazem anunciar que o celular vai cada vez mais ser o foco da convergência de comunicação.
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Celulódromo, já! |
Ou então, sofram as consequências: celulódromo, já!
( Graça Craidy)
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