
Era pra já. Rabo abanando, o incondicional Bob - de raça ignorada - seguia o filho único do casal cerqueirense Antônio Ferreira e Lília Lopes Ferreira, onde quer que fosse, pelas ruas arenosas de Cerqueira Cesar, cidadezinha a 300 km ao sudoeste da capital São Paulo.
Tão pequena que, no começo daqueles anos 50, quando atingia a sua terceira década independente do município de Avaré, abrigava não mais que 9.000 almas. Entre elas, a do futuro jornalista e criador publicitário Neil Ferreira, nascido em 18 de abril de 1943.
O
sobrenome Ferreira vinha do avô sírio - provavelmente chegado ao Brasil em um navio da Navegazione Generale Italiana - e que havia traduzido o seu Scandra Haddad
original para, literalmente, Alexandre Ferreira. O insólito prenome Neil -
segundo o próprio - foi escolhido pela mãe, inspirada em um romance policial inglês.
De
turquinho a lobatiano.
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Cerqueira César, SP |
eles chegavam pobres e desempregados, eram "turcos". assentavam-se, abriam um negócio, prosperavam, eram "sírios". enricavam, eram promovidos a "libaneses". meu avô, Alexandre e seu irmão Miguel, desembarcaram em Santos "turcos" e no máximo chegaram a "sírios". não conseguiram promoção para "libaneses"(...) ."Haddad" = ferreiro (profissão), exatamente como "Smith" e "Schmidt". "Ferreira" acho que foi "licença poética" do cartório. A lenda em casa diz que na sua cidade de origem, a família do meu avô era, desde o tempos ancestrais, composta de artesãos"ferreiros", "haddad", com minúsculas mesmo. (FERREIRA.2006)
As
pesquisas evidenciam que embora a maioria dos árabes no Brasil seja de origem
libanesa, a tradução dos sobrenomes contribuiu muito para a diluição das suas
identidades originais:
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Navegazione Generale Italiana |
(...) os libaneses respondem por cerca de 70% dos imigrantes árabes no Brasil. (...) É importante ressaltar a índole antidiscriminatória dos libaneses, que levou-os a constituir família a partir da união com índias, negras e descendentes de europeus. Isso, a par da tradução de seus nomes árabes para o vernáculo ou a adoção de nomes e sobrenomes de famílias ilustres, levou, com o passar do tempo, à diluição de suas identidades originais. Muitos dos Ferreira, Salles, Souza, Lage, Ananias, Alcântara, Pedreira, Lopes, Teixeira, Araújo, Amado têm sua origem no Líbano. (ETNI-CIDADE, www.etni-cidade.net/arabes.htm)
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Praça Irmãos Ferreira |
Na
acanhada Cerqueira César daqueles tempos, o avô Alexandre e seu irmão Miguel, o Tio Gué, eram prósperos
comerciantes - "figurões na cidade", revela Neil ( 2006) - e teriam doado à comunidade o terreno
da praça onde estava a igreja velha, "acho que o local hoje se chama
Praça Irmãos Ferreira" - Neil escava na memória, enquanto vagueia
recordando-se da infância como "um interminável jogo de futebol", só
interrompido por beijus e bolos de fubá, entre outros quitutes preparados pela "
tia mais próxima":
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Prefeitura de Cerqueira César |
Minha infância foi uma delícia, pena que não pude dar uma igual aos meus dois filhos, José Bento e Juliana. Pés descalços, futebol na rua todos os dias com a molecada, umas 3 horas da tarde lanche na casa da tia mais próxima. Iam os 4 sobrinhos e mais os dois times agregados, café com leite, broa de milho, manteiga, pipoca, bolo de fubá, beiju, uma refeição completa, depois continuava o jogo, que não acabava nunca. Tinha cachorrinho vira-latas que me acompanhava o tempo todo, era o "Bob" (nos filmes do cinema local, o amigo do mocinho sempre se chamava "Bob", daí o nome do cachorrinho) (...) A gente sempre variava de tia porque levava os dois times, dava uns 16 tomando lanche, nunca vi uma cara feia nem uma bronca de nenhuma delas. (FERREIRA, 2006)
Localizada
no recôndito tranquilo do interior paulista privilegiado pelas águas do
Saltinho, do Macuco e por mais uma dezena de cascatas nos arredores do rio
Paranapanema que ali se integra à represa de Jurumim, a terra natal do menino
Neil Ferreira tinha virado município só em 1918, apadrinhada por um destino
ferroviário urdido nos trilhos da Companhia Sorocabana que, por motivos financeiros, cortou Sorocaba como estação final em 1905, favorecendo Cerqueira César.
E bem ali onde os trilhos acabavam, bem ali onde se via interrompido o risco de ferro no chão, começava o desenvolvimento da comunidade cerqueirense, conforme o site Estações Ferroviárias do Brasil.
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São-paulino roxo |
Na
década de 40 em que Neil construiu a sua infância futebolística tricolor,
torcendo desde moleque pelo São Paulo F.C. nos álbuns de figurinha, Getúlio Vargas foi o presidente-ditador
do Brasil, subiu ao poder e desceu, foi simpático ao fascismo e ao nazismo, depois aos países do Eixo, unindo-se
aos Estados Unidos de Roosevelt e enviando pracinhas da Força Expedicionária
Brasileira a Nápoles. Sustentado por sua política trabalhista e
populista, Getúlio criou o salário-mínimo, a CLT, a Justiça do Trabalho e o PTB
- Partido Trabalhista Brasileiro. No 8º ano da sua ditadura e fim da II Guerra
(1945), foi deposto e substituído pelo general Dutra. Mas em 1950, novamente se candidatou à
presidência da República e se elegeu, assumindo mais uma vez o cargo de onde fora destituído há apenas 5 anos.
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Como um romance |
No
final daqueles anos 40, porém, Neil nem tinha noção das ascensões e quedas de Getúlio,
interessado que estava no mundo fascinante descrito por José Bento Monteiro
Lobato no livro Histórias do Mundo para Crianças (1933), no qual a evolução da
humanidade era partilhada com as crianças nos serões da Dona Benta, desde o
começo do mundo no tempo das cavernas, até a explosão da bomba atômica de
Hiroshima.
E com uma diferença marcante da história dos livros escolares: no Histórias, de Lobato (1933), tudo era transmitido como em um emocionante romance de aventuras, cujas proezas abasteceram o pai de Neil - seu Antônio - para ensinar seu garoto a ler aos 5 anos de idade, munindo-o de valioso capital cultural - capital onde a cultura acumulada tem valor de troca, segundo Bourdieu - antes mesmo de mandá-lo à escola.
E com uma diferença marcante da história dos livros escolares: no Histórias, de Lobato (1933), tudo era transmitido como em um emocionante romance de aventuras, cujas proezas abasteceram o pai de Neil - seu Antônio - para ensinar seu garoto a ler aos 5 anos de idade, munindo-o de valioso capital cultural - capital onde a cultura acumulada tem valor de troca, segundo Bourdieu - antes mesmo de mandá-lo à escola.
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Monteiro Lobato |
A
Mestre em História da Ciência e Tecnologia Ivy Judensneider (2006) aponta o
modo de contar de Lobato como o de um "filósofo natural
renascentista" que narra a
história das coisas englobando tudo que mora nessa teia formada pelas coisas,
desde fatos até lendas, incluindo o que se ouviu dizer, o que um dia alguém
falou, sem poupar a criança nem da lenda nem do mito.
Misturando lenda, contos de fada, e fatos históricos, Monteiro Lobato relata, em pé de igualdade, a Torre de Babel (“a famosa Torre de Babel de que vocês já ouviram falar”), o Êxodo (“a lenda diz que as águas se abriram à sua [de Moisés] passagem”) e as histórias dos impérios da Babilônia, da Pérsia, de Roma, da Grécia. (...) Moram em suas histórias, lado a lado, os deuses gregos, Moisés, Jesus, Alexandre o Grande, a Princesa Isabel, os protagonistas da Guerra dos Cem Anos e os alemães da Segunda Guerra Mundial. (JUDENSNAIDER, 2006) http://www.arscientia.com.br/materia/ver_materia.php?id_materia=161)
O mito
permitido por Lobato tornou-se poderoso capital cultural para o menino Neil que
mais tarde se tornaria um dos mais renomados criadores de lendas e mitos da
propaganda, como, por exemplo, o Leão do Imposto de Renda (1978) - em comerciais dirigidos por Andres Bukowinski, o mesmo diretor da série Garoto Bombril - que, de tão
incorporado ao cotidiano nacional virou verbete nos dois mais respeitados
dicionários brasileiros: o de Aurélio Buarque de Holanda e o de Antônio
Houaiss. No Aurélio, o verbete Leão ocupa a 10ª acepção, exatamente no sentido
criado por Neil:
-- leão. ----[Do lat. leone.] S. m. 10. Bras. Irôn. Órgão arrecadador do imposto de renda: “um projeto do Senador José Sarney transita pelas mesas do Congresso, propondo que o leão seja menos voraz com as empresas que continuam acreditando na cultura.” (Rui Castro, em Folha de S. Paulo, 28.9.1983). (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio - Século XXI. São Paulo: Nova Fronteira. 1999.)

[O leão do I.R.] foi o único personagem da propaganda brasileira a ser imortalizado nos dois principais dicionários. Isso é um prêmio! E só eu tenho. (FERREIRA, 2006)
A
permissão para o mito estimulada por Lobato também inspirou A Morte do Orelhão,
outro famoso comercial de televisão criado por Neil em parceria com Nello
Pimentel e José Zaragoza, na DPZ (1980), onde um orelhão da Telesp despenca
lentamente do seu pedestal em pleno cotidiano paulistano e morre na calçada,
causando comoção nos transeuntes, que ao final o cobrem com uma folha de
jornal, feito cadáver urbano. Tudo para pedir respeito aos orelhões, como narra
o texto do comercial:
NARRAÇÃO: Todos os dias pelo menos 20 orelhões indefesos morrem nas ruas de nossa cidade. Nenhum de morte natural. Enquanto a gente dorme eles são covardemente espancados, violentados, assaltados, vítimas da brutalidade e da ignorância de quem não sabe que um dia poderá precisar dele. - Por favor onde é que tem um orelhão hein? Cadê o orelhão? O senhor sabe onde tem um orelhão? - Acabou de morrer. 20 por dia , 600 por mês, mais de 7000 por ano, a cidade enlutada, exige que isso tenha um fim. Respeite o orelhão. (Audio do comercial para TV. A morte do orelhão. Cliente: Telesp. Criação: Neil Ferreira, Nello Pimentel, José Zaragoza. Agência: DPZ. 1980)
Em artigo sobre os 80 anos do Sítio do
Picapau Amarelo, o colunista do Diário do Nordeste José Augusto Lopes ( 2000)
chama o testemunho do pesquisador de comunicação Muniz Sodré para enfatizar a
atualidade da obra de Monteiro Lobato, depoimento aqui incluído para corroborar
o quão definitivo teria sido o autor taubateano nas escolhas dos caminhos
criativos do garoto Neil Ferreira, assim como também foi fundamental na
carreira de Nizan Guanaes e de Washington Olivetto, esse último oito anos mais moço que Neil, mas ambos alfabetizados
antes do tempo e na mesma idade, por alguém da família - Neil pelo pai,
Washington pela mãe - e claramente encaminhados às letras pelas prosas
lobatianas. Observe-se o que Lobato teria inspirado nos redatores
filhos-de-Lobato quando meninos, segundo Sodré:
Ao contrário das perversões pedagógicas correntes, o empenho lobatiano guiava-se pela invenção e pela curiosidade. O leitor mirim era estimulado a não ter medo de fazer perguntas, a buscar a aventura, a romper os limites colocados pelo universo adulto, entre fantasia e realidade. ( SODRÉ, In LOPES, 2000 ).
Romper
os limites entre fantasia e realidade, sem medo de questionar e empurrado pela
curiosidade. Parece que se está falando tanto de Neil quanto de Washington ( ou
mesmo de Zaragoza, Petit, Duailibi e Nizan). A diferença talvez esteja em quem
os ensinou a ler, o que os teria estimulado a buscar, empoderados do espírito
irreverente e questionador da boneca Emília (dizem alguns, o alterego de
Lobato).
De
estudante interno a cidadão do mundo.
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Neil, na penúltima fila, o 3º da direita para a esquerda |
No ano
de 1948, Neil não só aprendeu rapidamente a decifrar as letras, palavras e
sentidos, como daquele momento em diante sonhou ser viajante dos sete mares
narrados no História do Mundo. Perguntado sobre o que queria ser quando
crescesse, enquanto Washington respondeu, sem hesitar, "vendedor ",
Neil não soube definir. Talvez a
expressão "cidadão do mundo" fosse a síntese mais próxima do seu
desejo infantil, que, afinal, acabou se cumprindo - maktub, como dizem seus
ancestrais - financiado principalmente por seu trabalho na publicidade, que
possibilitou, entre outras coisas, que Neil vivesse um ano em Londres, oito
meses em Nova York e meio ano em Firenze:
Por influência do livro, queria crescer logo para viajar e conhecer o mundo. Estive em alguns lugares interessantes, (...) vivi um ano em Londres, oito meses em NY, seis meses em Firenze. Tenho ainda uma dívida externa, devo a mim mesmo um ano em Paris, sei até em que lugar quero morar. ( ...) Quero morar na na Place Dauphine, no 5ème, a ruazinha da entrada é exatamente na metade da Pont Neuf, aos fundos da pracinha (é minúscula) fica o comissariado de polícia, onde o personagem de "Algaravia" (Semprun) ia tentar desencavar seus documentos, para provar que existia. (...) [ mas] não lembro de ter sonhado com alguma profissão, médico, maquinista de trem, bombeiro, craque de futebol. Isso não estava nas minhas cogitações. (FERREIRA, 2006)
Em Paris, na rua onde queria morar
O
professor universitário, escritor e roteirista de quadrinhos Gian Danton conta
que na década de 50 o História do Mundo para Crianças (1933) provocou a ira de
um padre que acusava Monteiro Lobato de comunista. "Tudo isso porque o
livro explicava o surgimento do universo e da espécie humana segundo os
conceitos científicos", diz Danton, referindo-se à teoria evolucionista de
Darwin que afirma ser o homem, em última instância, descendente do macaco e não
de Adão e Eva, como sugere a Bíblia.
"Para o venerável sacerdote, dizer
que o homem que conhecemos hoje é resultado de uma evolução milenar era
sinônimo de comunismo" , explica Danton. E mais: " o sacerdote também achava comunista e
anticristão o fato das histórias de Lobato não terem lição de moral",
arremata.
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A esposa Eliana e os filhos José Bento e Juliana |
Neil,
que não virou comunista nem moralista (embora na juventude, nos idos de 64,
relate passeatas contra a ditadura e panfletagem de um chamado Jornal das
Passeatas rodado "no mimeógrafo" da agência Standard), era tão
fascinado por Monteiro Lobato que muitos anos depois, já casado com a
ex-jornalista de Veja, Eliana - uma "hippiezinha encantadora" que um
dia veio entrevistá-lo, em 1968, segundo ele (2006) - deu o nome de José Bento
a seu único filho homem, em homenagem ao criador da boneca Emília, Narizinho,
Pedrinho, Visconde de Sabugosa, Marquês de Rabicó, o rinoceronte Quindim, Tia
Nastácia e Dona Benta.
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Neil e a filha Juliana e namorado |
Monteiro Lobato foi batizado com o nome de José Renato. Mas, aos 11 anos, recebe antecipadamente, como herança do pai José Bento, uma linda bengala que tem gravada no castão as iniciais paternas J.B.M.L. A fim de usá-la, troca o nome de Renato começado do R pelo Bento do nome paterno. Assume, assim, o nome de José Bento Monteiro Lobato.
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Neil jurado no Programa Flavio Cavalcanti |
Não ia, eu era muito ocupado com a molecada, só sobrava tempo para o lanche da tarde na casa de uma das tias. Eu tinha agenda de executivo, o dia inteiro tomado, só futebol ocupava quase o dia inteiro.( FERREIRA, 2006)
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Cachoeira Saltinho, Cerqueira César |
A
pesquisadora e crítica literária Nelly Novaes Coelho (2000), professora da USP,
citada no mesmo artigo do depoimento de Muniz Sodré, justamente chama pelo
mesmo nome - pirlimpimpim - essa espécie de ponte que Lobato teria criado para
tornar tangível, segundo ela, a passagem "do real ao maravilhoso" em
suas histórias, onde a maioria das situações das personagens é vivida no mundo
cotidiano.
Para
Novaes Coelho (2000), esse jeito lobatiano de misturar deuses com mortais na
roda do dia-a-dia acrescenta um " poderoso estímulo à criatividade, por
demonstrar que qualquer ser humano pode atingir dimensões maravilhosas, através
de sua imaginação criadora". Pelo relato a seguir, a fé na imaginação
criadora teria sido, talvez, a melhor herança de Antônio Ferreira ao filho:
A vida do meu pai foi um poema, acho. Seu poema foi vivido, não escrito. Meu pai não trabalhou com meu avô nem com meus tios, tenho impressão que eles nunca compreenderam. (...) Ele morreu cedo, fora ter despertado meu gosto pelos livros lembro-me pouco. Ele que levou para casa "História do Mundo para as Crianças", do Monteiro Lobato, e me ensinou a ler desde a pág. 1, ensinando-me a magia das palavras e como a gente podia viajar nas palavras juntadas em frases, em idéias, em pensamentos, destinos, um pó de pirlimpimpim. Não gravei nada de discussões sobre "ganhar a vida", "fazer". "ter"...gravei mais as tentativas de "ser", "sonhar", por isso disse que acho ter ele sido um poeta. ( FERREIRA, 2006)
Ao
contrário de Duailibi que ficava hipnotizado ouvindo as palavras escolhidas a
dedo por seu tio na loja A Camponesa, para encantar as freguesas, Neil (2006)
deixa claro que quando menino tinha mais o que fazer do que aprender a arte do
comércio com seu avô árabe apelidado de Leão. Neil lembra dele como " um homem forte, alto,
careca, mal-humorado, lendo o Estadão de manhã e preparando-se para começar o
dia", casado com uma mineira, a avó Maria América, que Neil (2006) não
conheceu, mas "diziam que era muito doce, o refúgio dos filhos das
brabezas do Véio", ele completa.
Pode-se
tentar decifrar, nessas entrelinhas, talvez, o embate interno de dois
paradigmas masculinos incongruentes onde Neil poderia querer se projetar, em um
mimetismo natural de menino com relação à figura masculina: de um
lado o avô
poderoso, empreendedor, ponteagudo como o imigrante que venceu; de outro, o pai
poeta, amante das letras, desapegado do fascínio do massari , filho
incompreendido pelo próprio pai e irmãos, quem sabe puxando à mãe mineira ou a
algum kalil gibran da família, no passado, demasiado frágil quiçá para o gosto
do rígido imigrante árabe.
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Ser em vez de ter |
Entre
os dois modelos - empreendedor ou poeta - qual seguir? Como o próprio Neil
relata, não gravou nenhum mensagem paterna sobre "ganhar a vida",
"fazer", "ter" e sim sobre "ser",
"sonhar", dois verbos bem mais convidativos ao usufruto que os da
luta pela sobrevivência ou acumulação.
Ao que
parece, nem o avô com seu jeito aparentemente ortodoxo, nem o pai, com seu
estilo aparentemente heterodoxo, foram, sozinhos, os inspiradores do trânsito
profissional do menino Neil em relação ao poder, mas a soma de ambos, em uma
terceira figura hibridizada: a de enfant terrible, como os fatos indicam,
aproveitando do avô o espírito vendedor e a valentia atrevida para abrir portas
e fazer negócios e do pai a sensibilidade poética para construir discursos
simbólicos e tentar manter-se à parte da mais-valia capitalista.
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Neil com o cartaz da exposição de Zaragoza |
Como
amostra, analise-se o relato que Neil escreve a um potencial parceiro de trabalho sobre o seu modo de operar,
e obviamente, como sói acontecer, vai-se encontrá-lo mais uma vez na mesma
velha lida da construção do que Bourdieu chama de capital simbólico - isto é, o poder
de fazer crer:
Algumas pessoas acham que sou cheio de frescuras, eu acho que sou seletivo. Escolho os clientes. Só trabalho com quem goste de trabalhar comigo (...) Não aceito mais, como era forçado a fazer no tempo em que trabalhava em agências, prestar serviços a quem não tenha nada em comum comigo. (...) deixo de ganhar respeitáveis fees, mas preservo meu saco, no momento minha maior riqueza - e em risco de extinção. (...) A primeira reunião é crítica. Cobro R$ 2.000,00 por hora, quantia que é abatida do preço final se o contrato for realizado e cumprido. (..) (FERREIRA, 2006.)
Neil e Zara conquistam o Prêmio Abril de Publicidade
Não há
dúvida que alguém que pense assim aos 63 anos (2006) não tem, de fato, o que o
mercado considera como flexibilidade básica para ser empresário. Neil não quer
mais que quatro reuniões. Neil não trabalha com quem não tem afinidade com ele.
Neil cobra vários salários-mínimos por 2 hora de reunião. Essa é a illusio que
ele vende e a illusio que seus clientes de free-lance compram. Neil não é uma
equipe, mas o que ele mesmo chama de estilo "lobo solitário".
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Cidadão Kane |
Ocupado
em suas lides da infância, ou Neil estava jogando futebol, ou devorando broas
na casa das tias, ou fazendo forfait nas aulas de catecismo da igreja ou,
ainda, arrebatado pelas aventuras hollywoodianas no escuro do cinema local,
viajando pelo mundo com dogs Bobs e filmes em série.
O cinema, aliás, virou uma de suas mais " imorredouras paixões", segundo lembra, e pelo qual confessa haver ficado " vidrado" nas primeiras matinées em Cerqueira César, depois do catecismo aos domingos, cujo quanto mais cobiçado o filme, mais lotava. O catecismo era a condição imposta pelos pais para liberar o ingresso ao cinema.
Apaixonado
pela linguagem cinematográfica inovadora de Orson Welles e seu Cidadão Kane,
Neil usa o exemplo de outro filme para narrar o evento cinema na sua vida em
Cerqueira César:
Você viu "Amici Mei"? Os vagabundos iam à estação de trem agredir os viajantes, de inveja porque eles passavam, iam, seguiam, e eles ficavam. Comigo era diferente. O bandinho ia à estação aos sábados às 9 da noite para ver se as latas da fita em série do domingo à tarde tinham chegado. Se chegavam, o catecismo no domingo depois do almoço lotava, sem catecismo não se podia ir ao cinema. E no catecismo, o padre era uma atração. Nada de ter pedofilia. Hoje, seria noveleiro da Globo. O julgamento do Cristo foi um thriller. Levou 5 domingos, ele fazia um suspense infernal. Parava o "impisódio" sempre na hora mais terrivel para o mocinho. Competia maravilhosamente com o cinema. (FERREIRA, 2006)
Amici Mei, de Monicelli (1975)
Aquele
duplo capital cultural de religião com sétima arte não se limitava, no entanto, aos
domingos cerqueirenses. A vida
escolar do garoto Neil, seguindo os padrões da cidade, da família e da época,
aconteceu em dois tradicionais internatos de padres de São Paulo: primário e
clássico cursou como interno na Capital, no Liceu Sagrado Coração de Jesus,
educandário fundado no século 19 por padres salesianos, de requintadas
instalações em um espaço de 17 mil m2, no bairro Campos Elíseos, zona central
de São Paulo; o curso ginasial (hoje, 6ª à 8ª séries do I grau), na cidade de
Botucatu, no Colégio Diocesano de padres lassalistas, que Neil também
frequentou como aluno interno.
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Neil adolescente |
Os dois colégios me ensinaram um sentido de comunidade, de vida coletiva, que não tinha. Aprendi que a "turma" é necessária. Pode ser chata, mas é necessária. Eu não sabia o que era viver metido com tanta gente. Aprendi. (FERREIRA, 2006)
Perguntado
se carrega algum trauma por ter vivido tanto tempo como interno, longe da
família e dos amigos de Cerqueira César, Neil responde que raramente tinha
banzo, e que inclusive viveu experiências divertidas, apesar dos castigos de
ser privado da sobremesa ou da saída no domingo. Reporta-se com especial afeto
a um professor de francês, ex-figurinha de álbum de futebol, que ele chama de
" meu tipo inesquecível":
Era um estudante sofrivel, mas curtia a escola, curtia a turma, adorava alguns professores. Havia um, José Luis Monte, de francês, em Botucatu, que tinha sido profissional de futebol e tinha sido figurinha. Descobri um album com a cara dele, o cara virou herói da classe. Dava aula de futebol falando tudo em francês. Meu tipo inesquecível. ( FERREIRA, 2006)
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Colégio Diocesano de Botucatu |
Nenhum trauma, era muito divertido viver no meio da molecada, meu dormitório tinha uns 20... houve uma aposta para saber se o padre da noite dormia de pijama ou de camisola. Botucatu é um lugar alto e frio e no inverno venta muito. Deixamos uma janela aberta, batendo, numa certa noite e ele apareceu, imenso, na nossa visão uns 3 m de altura, magro, pálido, com uma lanterna acesa na mão... de camisola... foi uma gargalhada geral e castigo geral para o dormitório inteiro, culpados e inocentes. Uma semana sem sobremesa no almoço e na janta. Ninguém ligou, era a semana de "sagu", que a turma detestava. (FERREIRA, 2006)
Neil
detestava sagu e também o doce de leite que sua mãe mandava. Em vez de avisá-la
para que não desperdiçasse dinheiro nem seus dotes culinários, ele calava
e corria transformar o presente em
bem-vindo massari extra, valendo-se de estratégias para superar
seu estado de rapazote mimado e dependente. E já se prenunciava a sua decantada
visão capitalista aprendidas com os mais velhos:
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Todos preferiam, menos Neil |
as familias mandavam um "reforço" tipo doces, a minha mãe mandava doce de leite, que era feito de latas de leite Moça cozidas na panela de feijão, todo mundo gostava, eu não. Ia fazer o quê com o doce que a minha mãe mandava? Via colegas mais velhos rifando as maçãs que recebiam de casa. Eu rifei uma coisa diferente. (...) Tudo escondido dos padres. E o sorteio, tinha que ser da maior confiança, eu usava o sistema que já existia, criado pelos mais velhos (e mais fortes) a troco de uma comissão. O sistema capitalista funcionava sim. Então eu organizava uma rifa e levantava uns trocos a mais da mesada. (FERREIRA, 2006)
Mas o
lado Haddad de Neil foi usado de muitas outras maneiras, como ele mesmo relata,
lembrando seus domingos botucatenses como engraxate e locador de paletó:
Aos domingos, os bem comportados e com boas notas saiam depois do almoço e iam ao cinema, eu às vezes ficava de castigo, então engraxava os sapatos dos que sairiam e levantava mais uma graninha. Umas duas ou três vezes aluguei o meu paletó. O paletó, um colega me viu de castigo num domingo de frio e me pediu emprestado, eu falei não. Ele disse, "te trago um sanduíche de pão, queijo e mortadela e uma guaraná caçula". Começou aí um negócio novo. Se a cada tanto não houvesse férias, acho que ficaria rico. (FERREIRA, 2006)
Como se
vê, embora tenha recebido do pai o lado poético e sonhador, suas circunstâncias
o empurraram ao que ele chama de mundo da "sobrevivência dos mais
aptos", referindo-se aos episódios de ganhos financeiros paralelos em
Botucatu. Havia até, Neil conta, uma categoria praticamente sindicalizada e
cooperativada, no colégio, da qual ele fazia parte: a dos alunos castigueiros (provavelmente os
que ficavam de castigo com frequência e faziam disso uma oportunidade
positiva).
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Criação de Neil para a Pan Am |
Da turma que engraxava sapatos, eu era parte da equipe. Os "castigueiros", como éramos chamados, faziam uma caixa comum, pegavam pares de sapatos, engraxávamos e depois repartiamos a grana. Como eu não era um dos "castigueiros" contumazes, apenas "ocasional", não foi aí que ganhei muita grana, mas ganhei. (...) Puro Darwin, sobrevivência do mais apto. (FERREIRA, 2006)
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Businessman precoce |
O colégio de Botucatu estabelecia um limite de grana que os pais poderiam destinar, por faixas de idade. Os pais "depositavam" no colégio, os padres distribuiam na hora da saída e a gente assinava um "vale". Na minha faixa de idade, a mais baixa, o meu dinheiro dava para o cinema, o refrigerante, pipoca, sorvete e depois um lanche. É claro que todo mundo recebia da família algum "por fora", propinoduto em ação. Eu não recebia. Disciplina com grana fazia parte do currículo familiar. Mas aprender a me virar também fazia parte. Minhas "atividades" financeiras não foram inventadas por mim, eu via colegas praticá-las e entrava na concorrência. E nunca fiz com amargura. Quando levantava algum, morria de rir porque estava "beating the system", vencia os padres e a família com um único movimento.(FERREIRA, 2006)
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Pierre Bourdieu |
O
garoto de Cerqueira Cesar tinha especial prazer - "morria de rir",
ele diz - em enfrentar o sistema,
neutralizando os dois pilares de autoridade em sua vida, ao mesmo tempo "
em um único movimento", como relata: os padres e a família.
Atente-se
também que ele não diz " mãe", mas "família", o que, na
boca de um garoto sem pai nem irmãos provavelmente significa avós, tios, tias e
primos, principalmente se a família é do interior e de origem árabe,
tradicional, corporativa e com forte espírito de clã, onde é comum e aceito todos se intrometerem na vida de
todos. Para o bem e para o mal. Enfim, Botucatu, a apenas 140 km de Cerqueira
César, não lhe tirou o sono. Não
por muito tempo, pelo menos:
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Liceu Sagrado Coração, SP Capital |
Dá para reclamar? Eu acho que não. Só tinha vontade de ir embora quando não conseguia dormir à noite e escutava, ao longe, o apito lamentoso do trem, na direção de Cerqueira Cezar. Batia o banzo. Passava logo. (FERREIRA, 2006)
Nos
anos 50, quando estudava no Liceu Sagrado Coração, em São Paulo, cumpridos os
ritos do colégio religioso no domingo de manhã, o atrevido enfant Neil, na
valentia dos seus 8, 9 anos, fugia sorrateiramente para assistir a um famoso
programa infantil de auditório do apresentador Homero Silva, na Rádio Cultura,
a 15 quadras da Alameda Nothman, nos Campos Elíseos, na Capital:
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Programa infantil Clube do Papai Noel |
mas...não impedia que aos domingos de manhã, depois da missa e do café da manhã, eu esperasse o caminhão de suprimentos chegar e, pelo portão aberto, eu escapava e ia uns 15 quarteirões a pé, da Al. Nothmann à Av. São João, até a rádio Cultura, assistir ao programa Clube do Papai Noel. Voltava e entrava pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que tinha uma porta aos fundos para a passagem dos padres, dando acesso ao colégio, na hora certinha de pegar a fila de entrada no refeitório para almoço. (FERREIRA, 2006)
Quando
fala de sua mãe Lília, viúva jovem e filha de pai espanhol, Neil não economiza
traços para desenhá-la forte, estratégica e pragmática, muito mais talvez que
amorosa, solícita ou maternal, como soíam ser as mães dos anos 40, 50. Basta
lembrar que em seus tempos de ginásio em Botucatu ela enviava ao seu único
filho, no colégio interno, exatamente o doce que ele não gostava, o de leite
condensado cozido em panela de pressão. Mas Neil parece não ter se importado
com a distração materna. Afinal, a rifa do doce era profícua.
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Neil e sua mãe Lília |
Minha mãe era uma guerrilheira, a cabeça que pensava na casa. Lembro que ela dizia "coma pão com banana mas debaixo do seu teto". A primeira coisa concreta que fiz na vida foi aos 18 anos dar uma casinha para ela morar, foi quando sentiu-se segura no começo da velhice. Minha mãe também era de Cerq. Cezar, dos avós maternos, que não conheci, só sei que o avô era espanhol, Evaristo. ( FERREIRA, 2006)
Ao
completar 15 anos, em 1958, Neil começou de fato a cumprir por livre vontade o
seu destino de cidadão do mundo. Deixou Cerqueira César para tentar a vida
definitivamente em São Paulo, lembrança, segundo ele, tão traumática que
preferia esquecer. Entretanto, bem ao seu estilo culo de mal asiento - como
zomba dele seu parceiro criativo de quase duas décadas, o diretor de arte José
Zaragoza - Neil já chegou à Capital dando meia-volta:
Desde que comecei a pensar para além do horizonte do filme em série dos domingos, sonhava com coisas maiores. Botucatu foi uma etapa, Coração de Jesus, internato em SP, outra, Eu queria ver outras coisas. Como todos os primos, amigos, a turminha, a gente queria era dar no pé. (...) Quando cheguei a São Paulo, aos 15 anos, depois de uma noite inteira de viagem de trem, peguei minha malinha de papelão, saí da estação, sentei no meio-fio da calçada e chorei quase uma hora. Só me acalmei quando decidi: "assim que puder caio fora da daqui". Levantei-me e fui enfrentar a vida como um samurai, queimei a ponte de retorno, se cair fora e quando cair fora, será para frente. (FERREIRA, 2006)
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Anúncio imobiliário convincente |
"
Enfrentar a vida como um samurai", por outro lado, traz embutidas
conotações de importante capital simbólico, pois sabe-se: samurais não são
guerreiros quaisquer, ocupavam o mais alto status social no Japão e seguiam um
rígido código de honra. Segundo esse código - Bashido, o caminho do guerreiro -
um samurai serve ao seu senhor com empenho, lealdade, bravura e até com a
própria vida, se precisar, buscando a perfeição nas artes militares e a mais
virtuosa reputação pessoal. O importante na decisão do jovem samurai Neil, no
entanto, parece conectar-se mais com garra, austeridade, autodisciplina,
autocontrole, determinação e metas claras, que fariam dele dos mais compulsivos
workhaolics, seja como jornalista ou como publicitário.
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jornal Puk Puk |
Você
precisa apenas acordar um pouco mais cedo do que os outros, e dormir um pouco
mais tarde. (...) No Brasil, se trabalha sete meses por ano. (...) é só
trabalhar mais um pouquinho que as outras pessoas. Não precisa nem ser bom.
(...) Quando eu comecei a trabalhar em Propaganda, tinha três redatores
super-cobras. Eu olhei para a minha maquininha, e pensei: "em dois anos,
eu vou construir o quarto grande redator de Propaganda." (...) foi só
estabelecer uma disciplina nazista, mas era comigo, e trabalhar doze, treze
horas por dia. (FERREIRA, 1971.)
Interessante
notar que Neil programou-se para se construir como o quarto grande redator de
Propaganda e, provavelmente tenha sido dos maiores redatores da história da
propaganda brasileira. Programou-se e ali parou: em nenhum momento da sua
carreira tentou se construir empresário da propaganda, ao que se sabe. Outra
observação: diferente dos seus pares, também, Neil não apresenta nenhum traço
nacionalista, aliás, trata-se de um globalizado precoce.
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Mozart, para Neil o 5º Beatle |
Quando
fala de museus, de igrejas, de músicas, de pontes, de ruas, de filmes, de
livros, de referências culturais, Neil é coerente com sua face cidadão do
mundo: os nomes que cita são espécie de griffe do erudito consagrado, com
aquela nonchalance tão habituada à sofisticação intelectual que não se apercebe
que em vez de citar, ostenta.
O que
não se sabe é se Neil age assim por haver naturalizado, de fato, um grande volume de conhecimento
adquirido em livros, filmes, viagens, cursos, ou se incorporou à pele seu
incansável hábito de incorrigível construtor de capital simbólico, ator de si
mesmo, como foi, por exemplo, o pintor espanhol Salvador Dalí que, ao morrer -
como conta Francesc Petit em seu livro Propaganda ilimitada (1991: 55) - teria
merecido do La Vanguardia, principal jornal de Barcelona, um caderno especial e
a intrigante manchete: " Morreu o gênio que inventou Salvador Dalí".
De enfant a vieux terrible
Neil,
aparentemente, diverte-se com suas irreverências e com suas referências. Como o
bom enfant terrible - e ele corrige: estou mais para velho terrible" - que
num mesmo movimento desafiava os padres e a família, às vezes ele se vale de
sofisticado discurso mais pour épater le bourgeois que por convicção
irredutível.
Não há
dúvida, todavia, que sua tolerância ao vulgar, ao pop barato, ao rasteiro, é
bastante reduzida, ao contrário de Washington e de Nizan, por exemplo, dois
contumazes recicladores sem pudor da cultura popularesca, Washington, por
exemplo, que não hesitou em utilizar a quase pornográfica música " Na
boquinha da garrafa" com uma nova letra ingênua e infantil, para a trilha
cantada que anunciava famosa bebida láctea para crianças; Nizan, por sua vez,
sem vexar-se de transformar o cabelo pixaim de bebês negros em esponja de aço
para vender determinada marca concorrente de Bombril.
Embora
tenha criado com Zaragoza, na DPZ, uma das figuras mais populares da propaganda
brasileira - o Baixinho da Kaiser -
ambientado dentro de um banheiro masculino, Neil, por sua própria
formação evita o popularesco do riso ou do drama fácil.
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Comercial O Baixinho da Kaiser |
O Baixinho da Kaiser fazendo xixi no banheiro foi resultado da exposição do cooper do bebedor de cerveja. Ele enche o tanque no bar, o que todo mundo sempre mostrou, vai ao banheiro e esvazia o tanque, o que ninguém nunca tinha mostrado. O comercial é o Baixinho esvaziando o tanque. Leão de Ouro em Cannes e, depois, escolhido pela CBS TV Network One of the Greatest Commercials Ever Made (Um dos maiores comerciais de todos os tempos). (FERREIRA, 2006)
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Faculdade de Direito USP |
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Escola de Sociologia e Política de SP |
Você queria saber, acho, se na minha atividade de mimeografista clandestino eu fui preso alguma vez. Fui abordado algumas vezes, mas sempre estava de paletó e gravata, com a carteira de trabalho no bolso com um registro profissional de valor quase inacreditável para a milicaiada. Depois de identificado, me diziam "tudo bem doutor, desculpe o aborrecimento". Os "inimigos" deles eram todos barbudinhos e de jeans. Eu já era zelite.(FERREIRA, 2006)
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Ricardo Freire |
[ Drácula] não é um filme de terror nem um filme erótico. Drácula é um filme sobre o tédio da imortalidade. A vida eterna é um saco. As vezes eu sinto isso, quando passo na rua e vejo um outdoor com um título que eu já fiz há 20 anos. (FERREIRA, 1999)
Quando fala sobre música, por exemplo,
ele lamenta a falta de opções e, ao lamentar, costura aqui e ali indícios de
erudição casada com capital cultural
que rapidamente, de novo, se transforma em simbólico, o máximo de
popularesco que ele consegue é chamar Mozart de " o 5º Beatle":
E hoje ? O que ouvimos ? Meus ouvidos que cresceram com Mozart e com 'Simpathy for the Devil', dos Stones, são incapazes de ouvir o que há por aí agora.( FERREIRA, 2006)
Quando
critica o PT e o Governo Lula, por exemplo, na coluna que assina toda
sexta-feira, no jornal paulistano Diário do Comércio, onde é um pertinaz
cobrador e impiedoso crítico do ex-presidente Lula e seus seguidores,
Neil enfia o dedo na ferida justo pela fenda mais óbvia e a que mais sangra: a
da incultura. Além de se dizer " democrático à moda ateniense" ( ou
seja, elitista) e de imitar o jeito de falar errado de Lula - menas, perca, etc
- ele, por exemplo, exerce sem pudor o seu lado politicamente incorreto quando
comenta o filme brasileiro sobre a vida dos cantores Zezé de Camargo e Luciano:
Eu não vi "Os 2 Filhos de Francisco", nem vou ver. Não vi e não gostei, esse é um filme para o Brasil do Lulla, que assistiu "emocionado" a uma cópia pirata em Brasília. Êlles lá, eu aqui. (FERREIRA, 2006)
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Stalimir Vieira |
Isso
acontece exatamente na década em que Washington abre sua agência, e,
resguardado o mais que compõe o habitus de cada um dos dois criadores,
encontra-se aqui uma evidência do que Bourdieu (1996) chama de "
envelhecimento social", cujo
só acontece quando outro recém-chegado rompe as barreiras de entrada no campo,
sustentado por um discurso novo, tecendo nova illusio - no caso, a illusio do
popular substituindo a illusio do erudito - que faz com que o campo da publicidade considere o já estabelecido - no
caso, Neil - como de certo modo, um estilo a ser superado.
Como sempre e cada
vez mais, o valor-novidade impulsionando as grandes mudanças no campo da
produção cultural:
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Washington Olivetto |
[Com Washington] A fase da elegância formal, da necessidade de conteúdo cultural na propaganda ia conhecendo seus sinais de velhice. O criativo publicitário deixava de ser o ex-jornalista, o sociólogo arrependido, o aluno de psicologia que trancou a matrícula, o artista plástico atrás de grana, enfim, a formação humanística - atributo fundamental que um dia se exigiu para o exercício da função, uma vez que não havia uma profissão regulamentada - virava uma espécie de luxo decadente. (VIEIRA, Stalimir, 2001)
Elegância
formal, conteúdo cultural, ex-jornalista, sociólogo, formação humanística, de
fato, tudo isso era inequivocamente a tradução de Neil Ferreira.
Naquele
fatídico ano de 1958, quando mudou-se para São Paulo, com 15 anos anos apenas,
Neil conta que chegando à estação ferroviária teria ficado tão assustado, que
sentou no meio-fio e chorou por uma hora.
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Brasília em obras |
No céu,
não apenas a URSS já havia colocado em órbita o seu primeiro satélite, Sputinik
I, como o segundo, inclusive com a cadelinha Laika a bordo. O escritor beatnik
Jack Kerouc, considerado a voz da sua geração, lança a novela On the road,
traduzindo os valores beat em meio a drogas, álcool e jazz.
No Brasil, João
Gilberto inaugura oficialmente a bossa-nova com a música Chega de Saudade, de
Tom Jobim e Vinícius de Moraes, seus acordes dissonantes e o tom intimista
provocando nos mais conservadores o epíteto de "desafinado", mote da
próxima música de Tom Jobim, com o mesmo nome - Desafinado - em que ele
bem-humoradamente alertava: "fotografei você na minha Rolleyflex,
revelou-se a sua enorme ingratidão"(...) argumentando " que no peito
de um desafinado também bate um coração". Na Itália, o papa João XXIII
assume o trono de Pio XII. Na França, De Gaulle é escolhido presidente.
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Capa do Diário da Noite |
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Jorge Ferreira |
O envolvimento de Ferreira culminou com a criação do Parque Nacional do Xingu (atualmente Parque Indígena do Xingu), em 1961. Primeiro jornalista a descrever o Quarup (...) foi convidado pelo presidente da república Jânio Quadros a presidir a Fundação Brasil Central e transformar em realidade o sonho dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas. (O Estadão: disponível em http://www.estadao.com.br/villasboas/jorge.htm)
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O repórter Neil |
... aprendi a revelar filmes e passei a laboratorista da redação. Os fotográfos gostavam de mim e me levavam nas reportagens, para carregar suas bolsas de lâmpadas. Aprendi a anotar dados de reportagens e passá-los para os repórteres. Eu estudava o curso científico das 7h30 às 11h30 da noite. Consegui um lugar de revisor "wet back" da meia-noite às 4 da manhã, era "de menor" e não podia trabalhar a essa hora. Como revisor, além de corrigir passei a reeescrever algumas matérias muito mal alinhadas. O secretário de redação me notou e ofereceu-me um lugar de trainee, das 7h da manhã ao meio-dia. Então, estudava das 7h30 às 11h30 da noite, trabalhava como revisor da meia-noite às 4 e como trainee de reporter das 7h da manhã ao meio-dia. Dormia à tarde. Acho que foi a fase mais divertida da minha vida. (FERREIRA, 2006)
E,
antes que se fique penalizado com a situação do jovem Ferreira, ele emenda
outra frase e poetiza, como seu pai Antonio, deixando a realidade mais suave:
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Viaduto do Chá, São Paulo Capital |
Não pense que foi sofrimento ou "trabalho escravo". Eu gostava muito. Saia de madrugada e ia tomar café com leite, pão fresquinho e mortadela, uma delícia, na padaria mais próxima. Escutava meus passos batendo na calçada. Nunca tive medo, Nunca fui assaltado. Às vezes, no inverno, saia da redação, na 7 de Abril, centrão, e ia a pé até o Viaduto do Chá olhar o vale do Anhangabaú mergulhado na neblina. Lindo. (FERREIRA, 2006)
De 1958
a 1961, Neil exerceu a sua nova profissão de repórter, copidesque, jornalista,
redator e revisor, onde tivesse oportunidade - no Diário da Noite (1958), na
revista O Cruzeiro, como free-lance (1959), no Jornal do Brasil (1961), de
modo a juntar o dinheiro necessário para garantir à mãe um teto, meta alcançada
quando ele completou 18 anos, em 1961.
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revista O Cruzeiro |
O free lance só existe não por excesso de trabalho nas empresas, mas por excesso de vagabundagem das equipes. Faça a conta, 30 dias de férias, 104 sábados e domingos, uns 16 feriados, total de 150 dias na vagabundagem, sobram 7 meses de trabalho no ano, enquanto for assim, os frilas deitam e rolam. Na "O Cruzeiro" só tinha estrelas que não admitiam fazer coisas menores e mesmo não fazendo, ganhavam. Se eu não fizesse, não ganhava. (...) Nunca fui estrela. (...) (também comecei em propaganda catando os restos de redatores consagrados...) Eu não recusava nada porque era um troquinho a mais e sempre muito divertido. (FERREIRA, 2006)
Interessante
notar que em 1971, quando deu entrevista ao PUK-PUK, Neil afirmou que no Brasil
só se trabalha 7 meses por ano, ou seja, exatamente a mesma resposta que deu em
2006, 35 anos depois, falando da
necessidade de free-lance. O trabalho, uma obsessão, ao que parece, e sem prazo
de validade.
Como
tantos outros jornalistas da época - Sérgio Graciotti, por exemplo, que antes
de se transformar no criador mais poderoso da agência considerada mais poderosa
dos anos 70, a MPM, trabalhou anos na Folha, na rádio Difusora e até na revista
Realidade, como ele relatou ao CPDOC/ABP - FGV (2005:6), confirmando a lacuna
estrutural - ausência de um certo talento necessário ao momento histórico - ,
quando se constata, nos anos 60, a
evidente carência de redatores publicitários formados para a prática do ofício
e a natural transferência de redatores jornalistas para o campo símile de
comunicação, a publicidade.
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O new journalist Tom Wolfe |
Enfim,
como ensina um dos seus mais fiéis seguidores, o próprio Tom Wolfe:
A idéia era dar a descrição objetiva completa, e um algo mais que os leitores sempre tiveram que buscar nos romances e contos: ou seja, a vida subjetiva ou emocional dos personagens. (WOLFE, Tom, citado por MARSHALL Leandro, em Truman Capote. Boletim Nº 20. Janeiro-Fevereiro de 1998. Instituto Gutenberg)
Segundo
Neil, vários padrinhos o ajudaram na mudança do jornalismo para a propaganda,
no começo dos anos 60: Rogério Severino, da TV Tupi, Antônio Nogueira, da
agência C.I.N., Júlio Cosi Jr e Roberto Duailibi, da Standard, e Alex
Periscinotto, da Almap:
Estava no jornalismo e um dirigente da TV Tupi, Rogério Severino, "descobriu" o meu texto e indicou-me para um amigo dele, Antonio Nogueira, então sócio de uma agência de propaganda chamada C.I.N. (hoje Leo Burnett). Antonio Nogueira ofereceu-me um "contrato de risco": eu ficaria 3 meses na C.I.N., era o prazo que eu tinha para ver se me ajustava ou não. Se desse certo, eu teria uma nova carreira aberta à minha frente, se não desse certo, cada um voltaria para sua casa. Fiquei interessado porque o salário inicial era o dobro do que eu ganhava no jornal. (FERREIRA, 2006)
Atente-se
aqui, lembrando da advertência de Bourdieu (1996) de que o verdadeiro candidato
a dominante no campo da produção cultural
arrisca muito mais que seus pares, sem aparentemente atemorizar-se com
perdas financeiras, seja porque já conta com capital econômico, seja porque tem
gosto pelo risco. Neil, no entanto, provavelmente em razão de seu compromisso
com sustentar-se e à mãe, foi extremamente prudente ao realizar a troca de
emprego, protegendo-se com um plano B:
Aceitei [ a proposta da C.I.N.], mas não saltei no trapézio sem rede. Como o trabalho na agência era das 8 da manhã às 6 da tarde, peguei um lugar na sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil (então o jornal mais bem escrito do país) das 7 da noite à meia noite, o que me garantiria se o trabalho na publicidade não desse certo. Deu. Menos de 2 meses depois, a Standard Propaganda (hoje Ogilvy), escrit. de São Paulo, então a melhor agência brasileira, ofereceu-me o lugar de assistente do diretor de criação, o Roberto Duailibi. Fui. Entrei assistente, saí diretor de criação. (FERREIRA, 2006)
Seis
meses depois de entrar na C.I.N, Neil vai para a Standard, onde aprende tudo do
ramo com seus dois mestres - Cosi Jr e Duailibi - e então vai para a Almap
(1967), aprender mais um tanto com " o outro" representante do Bill
Bernbach no Brasil, Alex Periscinotto.
Em
1969, em plena era AI-5, o dono da brasileira Norton Propaganda, Geraldo
Alonso, ao perceber que criatividade era a illusio que dominava o mercado,
contratou Neil Ferreira e uma equipe de criadores que fizeram a sua Revolução
Criativa à moda Bill Bernbach, no Brasil, registrada em um famoso anúncio
publicado na revista Propaganda, com a foto da nova equipe de redatores e
diretores de arte da Norton, cada um empunhando suas "armas":
máquinas de escrever, régua T, pincéis, canetas, sob o título " Os subversivos"
- em clara provocação ao regime militar que comandava o país. Neil relembra o
conteúdo:
O anúncio dizia mais ou menos: "Já era tempo de denunciá-los à nação. Olha as armas terríveis que eles têm nas mãos. São armas que podem abalar governos ou vender produtos. Com elas, esses homens são capazes de mudar a história de um país ou a história de um produto. Basta apertar um botão. De uma máquina fotográfica. Uma câmera de cinema. Um aparelho de TV. A tecla de uma máquina de escrever. Eles usam essas armas para gerar insatisfações, criar descontentamentos, acender desejos (...)" E vai por aí. Há um permanente subtexto referindo-se à situacão política do momento. A milicaiada vivia "denunciando subversivos à nação". Quando um "aparelho" caía, eram apresentadas fotografias do "vasto material subversivo apreendido", geralmente máquinas de escrever, estêncils, mimeógrafos. ( FERREIRA, 2006)
Anúncio Os Subversivos, Norton Prop. 1969
Segundo
Ricardo Freire, no texto do Hall of Fame do Clube de Criação de São Paulo, a
revista foi recolhida das bancas. E Neil,
o autor do anúncio, chamado para dar satisfações à censura:
Não me lembro da revista ter sido recolhida, mas eu fui "recolhido" (gentilmente, anote-se) a um escritório de censura, na rua Xavier de Toledo (...) Falei com o diretor, um militar em roupas civis, que me perguntou muito sobre "o que eu queria dizer com aquele anúncio e por que tinha escolhido a palavra "subversivos" tão grande no título". Repeti tim-tim-por-tim-tim igual explicação que havia dado ao Geraldão [ Alonso] antes do anúncio sair. (...) Sobre a palavra "subversivo", falei horas, não fui sequer ouvido. Então apelei e falei, "olha coronel, essa palavra equivale a mulher pelada no anúncio, é só para chamar atenção". Ele me ofereceu água, cafézinho e no maior cavalheirismo me disse "porra por que não falou isso antes ". E todo mundo foi pra casa dando risada.( FERREIRA, 2006)
Em
menos de um ano, Os Subversivos causaram uma reviravolta no faturamento da
Norton, de tal maneira que em 1970, o empresário Geraldo Alonso ganhou o Prêmio
Colunistas como Publicitário do Ano e Neil, o Prêmio Colunistas como Exemplo do
Ano, que ele justifica:
... exemplo de criatividade e por pegar uma agência superconservadora, quase no fundo do poço, e transformá-la em um ano numa das mais criativas e vitoriosas do Brasil. Sangue, suor e lágrimas. ( FERREIRA, 2006)
Nem uma
década depois de transferir-se para a propaganda e Neil já havia construído uma
carreira meteórica e de sucesso. Ele próprio analisa o espaço dos possíveis
daquela realidade conjuntural, entre 60 e 70:
Naquela época não era como hoje que existem 10 agências contratando 100 redatores. Naquela época, eram 10 agências contratando 3 redatores. Os caras mudavam de emprego toda semana, dobravam o salário todo dia. (FERREIRA, in FREIRE, 1999.)
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Ênio Mainardi: despedido por Neil |
... achei que ele era insuportável. Demiti-o pelos jornais. Sou o único ex-empregado dele que ele não pode dizer que demitiu. (...) Quando resolvi sair, numa sexta-feira na hora do almoço, reuni a equipe de criação, Enio inclusive, e comuniquei que tinha tido uma idéia maravilhosa, a melhor da minha vida: "não volto mais aqui depois do almoço". (...) Um jornalista (...) publicou: "Para trabalhar com o Enio mais de duas semanas, você precisa ter a paciência do Sérgio Graciotti ou o caráter do Hans Hausdenchild. Eu não tenho nem uma coisa nem outra. Por isso, demito agora a agência dele da minha vida". (FERREIRA, 2006)
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Neil em sua casa na Granja Viana |
Cinco
anos depois, em 1977, Neil ( 2006) conta que recebeu um telegrama de Zaragoza
convidando-o para conversar sobre trabalhar na DPZ, onde permaneceu por quase
duas décadas, entre idas a Salles (90) e um anúncio "declaração de
amor" publicado em todos os jornais:
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Neil e Zaragoza |
Trabalhei duas vêzes na DPZ, somando acho que uns 18 anos. A primeira vez, em 1977. Era free lance, (...) o Zaragoza mandou um telegrama perguntando se eu gostaria de conversar com ele. (...) Fiquei até o fim de 89. (...) Depois de um tempo fui para a Salles, fiquei dois anos, almoçando a cada duas semanas com o Zaragoza e ele sempre me convidando para voltar e eu enrolando. Um dia ele fez a coisa mais gay que já vi na propaganda. Publicou um anúncio nos principais jornais dizendo "NEILZINHO QUERIDO VOLTE PRA CASA, TUDO ESTÁ PERDOADO. Z." Alguém resiste ? Não há nenhum redator do Brasil que tenha um prêmio desse valor. Voltei e fiquei mais 6 anos, saí de novo. Na semana passada [ dezembro de 2006] ele convidou outra vez. (...) fala que sou "Culo de mal asiento"...(FERREIRA, 2006)
"
Cair fora para frente", naquele depoimento de Neil em 1958, quando chegou
a São Paulo, podia significar tanto fugir de briga quanto realizar um upgrade,
como se usa dizer hoje no mundo tecnologizado. Podia querer dizer, por exemplo,
cair fora para um lugar melhor, como sua casa na Granja Viana ou até morar um
ano em Paris, naquele apartamento da Place Dauphine, 5ème, que ele diz haver um
dia se prometido. Só não significa, ao que parece, transformar-se em empresário
de propaganda.
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Neil e um dos seus polêmicos anúncios |
Eu não abri porque daí eu não vou ter pra quem pedir demissão. Eu quero ter. Eu sou um cara livre, independente, e não quero ficar escravizado a uma empresa, mesmo que seja minha. (FERREIRA, 1971.)
Três
décadas depois, em 2006, aos 63 anos, perguntado mais uma vez qual a razão, de
fato, de não haver aberto a sua própria agência, a resposta veio tão parecida
com a de 35 anos atrás, que poderia ser copiada e colada, agora na boca de um -
como ele mesmo diz - vieux terrible:
Mantenho o que já disse: "Se eu tiver uma agência não tenho para quem pedir demissão". Isso é indiscutivel. Há uma outra razão, discutível. Conheço de perto a vida de alguns donos de agência da minha geração, que ficaram muito ricos, eu não fiquei. Eu não invejo a vida deles, Tenho certeza de que invejam talvez não a minha vida, mas a minha liberdade. Nenhum cliente manda na minha liberdade nem no meu tempo. (...) não quero voltar para o ambiente de agência nem como visitante. Já imaginou se eu fosse dono de uma, o que seria de mim? (FERREIRA, 2006)
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Neil e Emerson Fittipaldi |
Não "sou - o que - não - virou - dono" (...) eu sou aquele-que-não-tem-dono. Sou um vira-latas. Sou gato de telhado, não sou gato de sofá. Gato de sofá tem abrigo, alimento e até carinho, mas antes cortam-lhe os culhões. Life is tough. (FERREIRA, 2006)
E, finalmente, Neil procura deixar
claro, de uma vez por todas, a principal diferença entre ele e os outros cinco
criadores publicitários, Duailibi, Petit, Zaragoza, Washington o e Nizan:
Objetivos diferentes. O D e o Z sempre quiseram ter sua agência. Não sou íntimo do P, mas se ele está lá até agora é porque tem o mesmo objetivo. O W, desde que o conheço, sempre quis ter a sua agência. Não sou íntimo do Nizan, mas acho que ele sempre quis ter as suas agências. Eu nunca quis ter nem jornal nem agência. (...) Quando entrei no jornal, olhei a mesona do fundo e pensei "se ficar aqui 20 anos e trabalhar direitinho vou ser um daqueles caras, o comando do jornal". Levei um susto, não queria ser nenhum deles. Quando entrei em agência, olhei em volta em busca dos caras vitoriosos. Achei muitos, não gostei de muitos, gostei de muitos, a quem admirei e admiro. Mas não quero ser nenhum deles, nem mesmo o Zaragoza, para quem a vida é uma eterna festa, é a pessoa mais honestamente feliz que conheço. (...) Culo de mal asiento. Nada de filosofia nem de ideologia. Apenas culo de mal asiento. Tendeu ? ( FERREIRA, 2006)
Zara e Neil duplando na DPZ
Talvez,
como percebeu Ricardo Freire ( 1999), quando entrevistou Neil para a homenagem
a ele publicada no Anuário #24 do Clube do Criação de São Paulo, o beatnik
cerqueirense Neil Kerouac Lennon Dylan Jaegger Lobato Mozart Ferreira parece
apreciar bem mais a estrada de ferro do que a estação ferroviária:
Neil Ferreira não se aposentou. Apenas decidiu trabalhar numa agência onde todas as pessoas são tão inteligentes, cultas e articuladas como Neil Ferreira. ( FREIRE, 1999.) <>
SE VOCÊ GOSTOU DESTE POST, TALVEZ SE INTERESSE POR ESTE.
OBS: Este texto é um capítulo de
- CRAIDY, Maria da Graça. Do Porão ao Poder, A ascensão dos criadores publicitários ao poder, dissertação de Mestrado defendida em 2007, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Famecos, PUCRS, Porto Alegre/RS (páginas 165 a 193), que investiga a ascensão dos criadores publicitários brasileiros ao poder, entre a década de 60 e 90, estudando a trajetória de seis criadores publicitários: Roberto Duailibi, Francesc Petit, José Zaragoza, Neil Ferreira, Washington Olivetto e Nizan Guanaes, sob o suporte teórico de Pierre Bourdieu e suas categorias habitus, capital social, espaço dos possíveis, lacunas estruturais, campo. No caso de Neil Ferreira, investiga-se a razão de ele não haver se tornado dono de agência como seus pares, embora possuísse aparentemente os mesmos atributos para ascender ao poder empresarial, como eles.
- CRAIDY, Maria da Graça. Do Porão ao Poder, A ascensão dos criadores publicitários ao poder, dissertação de Mestrado defendida em 2007, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Famecos, PUCRS, Porto Alegre/RS (páginas 165 a 193), que investiga a ascensão dos criadores publicitários brasileiros ao poder, entre a década de 60 e 90, estudando a trajetória de seis criadores publicitários: Roberto Duailibi, Francesc Petit, José Zaragoza, Neil Ferreira, Washington Olivetto e Nizan Guanaes, sob o suporte teórico de Pierre Bourdieu e suas categorias habitus, capital social, espaço dos possíveis, lacunas estruturais, campo. No caso de Neil Ferreira, investiga-se a razão de ele não haver se tornado dono de agência como seus pares, embora possuísse aparentemente os mesmos atributos para ascender ao poder empresarial, como eles.
NOTAS:
1.
Depoimento por email à autora desta pesquisa, disponível para comprovação, referido como (FERREIRA, 2006) no decorrer do texto.
2.
Amici Miei I e II .Comédias italiana do diretor Mario Monicelli ( 1975) (
1982), atuando Ugo Tognazzi, Phillipe Noiret e Adolfo Celi, entre outros. No
Brasil, Meus Caros Amigos e na sequência, Quinteto Irreverente.
3. Culo
de mal asiento: expressão
idiomática espanhola que significa ativo, agitado, inquieto, nervoso,
intranqüilo; se diz da pessoa muito excitável.
4.
Dança da Garrafa, música axé moda
nos anos 80. originada de uma música maliciosa do grupo É o tcham!,
assemelhando seus movimentos à pratica sexual, onde o dançarino se requebra em
direção a uma garrafa colocada no centro da dança, Refrão: " Vai ralando
na boquinha da garrafa/ E na boca da garrafa/ Sobe e desce na boquinha da
garrafa/ E na boca da garrafa."
5. Wet
back : " costas molhadas"; assim eram chamados os mexicanos que
atravessavam o Rio Grande a nado (molhando as costas, portanto) entrando ilegalmente
nos EUA. Tem o significado de "clandestino"
6.
Segundo Neil, quem lhe deu um " belo impulso" foi o secretário de
redacão, Eugenio Gertel, "pessoa histórica da 'cozinha' do jornal",
que fazia a edição sair "boa e na hora".
7. New
Journalism: relato dos fatos jornalísticos em narrativa romanceada, como se
fosse ficção.
8. Glossário bourdieuano:
Campo: " lugar de lutas entre detentores de poderes (ou de espécies de capital) diferentes que (...) têm por aposta a transformação ou a conservação do valor relativo das diferentes espécies de capital (...)" ( Bourdieu, P. As regras da arte, São Paulo: Companhia das Letras, 1996: 244);
Capital econômico: capital financeiro, patrimonial, acessível por herança, renda, patrimônio adquirido ou tradição familiar.
Capital simbólico: capacidade de diferir pelo uso estratégico das palavras, da persuasão, de fazer crer. Atuação, carisma, atitude. Peso equivalente ao econômico do dominante, específico da consagração.
Capital cultural: quantum acumulado de cultura erudita, média ou popular, habilidade ou conhecimento específicos, adquiridos na escola, nas instituições ou por habitus familiar.
Capital social: rede de relações favorecedoras de acesso ao patamar dos dominantes, com trânsito junto ao poder econômico ou político, também chamada por alguns intérpretes de Bourdieu de " capital relacional".
Dominante/dominado: posições de superioridade ou de inferioridade ocupadas pelos integrantes de cada campo, onde o dominante, dono do capital econômico, luta por sua permanência no poder e o dominado, lançando mão de capital simbólico, social e cultural, luta por sua ascendência ao poder.
Espaço dos possíveis: revelação das disposições; herança acumulada pelo trabalho coletivo; potencialidades à espera de objetivação; lacunas à espera de preenchimento; o espaço dos possíveis existe objetivado nas estruturas do campo e subjetivado nas estruturas mentais do habitus; é uma espécie de soma da estrutura favorável + o habitus; Roger Chartier chama de rede visível ( lacuna estrutural) + invisível ( habitus) ou, ainda, corpo ( lacuna estrutural) + mente ( habitus) social.
Habitus: "sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, enquanto princípios geradores e organizadores de práticas e de representações (...); espécie de " bagagem" cultural, social, familiar, escolar, valoral, que cada um de nós carrega sem ter consciência dela e que favoreceria determinados movimentos ascendentes ou não, dentro do campo; segundo Bourdieu, essas tomadas de posição seriam mais ou menos facilitadas quanto mais ou menos capital o agente carrega em sua " bagagem".
Illusio: jogo, espécie de alucinação coletiva; a obra de arte é produzida como um fetiche; produz a crença no poder criador do artista, no seu valor simbólico no campo; e produz novos consumidores desse valor.
Lacuna estrutural: espécie de "brecha" estrutural em dado momento histórico e sob determinadas condições, que favorece a tomada de posição; junto com o habitus favorável, resulta em um claro espaço dos possíveis, segundo Bourdieu, ou seja, um claro espaço de acesso ao poder dentro do campo, auxiliando o ator social a passar da posição de dominado à de dominante.
Em maio de 2012, Neil Ferreira recebeu o
Troféu Jeca Tatu, concedido pela ALAP-Associação Latino Americana de Agências
de Publicidade, pelo conjunto da premiada obra como redator publicitário entre
os mais brilhantes de todos os tempos. A ele, meu ídolo e inspirador da minha
carreira como redatora, presto aqui a minha amorosa homenagem.
Bibliografia:
Bibliografia:
- BOURDIEU, Pierre - As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
- FERREIRA, Neil - Depoimento por email à autora, 2006.
- FREIRE, Ricardo. Hall of Fame. Homenageado Neil Ferreira. in Anuário # 24. CCSP. São Paulo: Burti. 1999.
- VIEIRA, Stalimir - Bundalismo e bobagismo, disponível em www.stalimir.com.br
- ZARAGOZA, José - Layoutman. São Paulo: Zaragoza, 2003