Quem nasce pra janela nunca chegará a maçã.

Me tapei de nojo. Outro dia fui pedir uma informação sobre troca de bateria do meu notebook G4 na loja Apple do Iguatemi de Porto Alegre, me atendeu uma moça modelito perua-periguete atrás de um computador que mal levantou os olhos da sua tela e, antes que eu terminasse a frase,  já me adiantou que não podia me ajudar, que eu falasse com nãoseiquem. Ato contínuo, ela me deletou do seu campo visual e dirigiu-se a um homem mais velho e com cara de vendedor do magazine maria luiza, ao seu lado, no balcão - que também nao tirava os olhos da tela dele - e comentou entusiasmada algo do tipo: - ah, viu, e o carro tem também ar condicionado! Fiquei feito boba ali, na frente dos dois, aquela cena desafinando escatologicamente da harmoniosa e afetiva imagem de marca que eu tenho da Apple e de alguém que mexa com Apple. Para uma macmaníaca como eu, que desde 1994 - enquanto os outros ainda escreviam em suas Olivettis -  já tinha o único laptop Mac da agência, foi uma cuspida na cara. Não me aguentei. Perguntei pro tal homem quem era o gerente dali. O sem-graceza respondeu:   - eu, por quê? Falei que eu queria reclamar do mau atendimento da moça ao lado dele. E que aquele jeito desrespeitoso de tratar eu reputava como claramente não macintoshiano, pois o espírito de Apple não é esse e blablablabla, tiscatiscatisca, perepepepepe cataplum! E pra encerrar minha puteada, ainda debochei: - Mas vocês dois nem sabem do que eu estou falando, né? Porque tá na cara que vocês não são usuários de Mac. Tá na cara que vocês são do mundo do PC e que só estão aqui por causa do emprego. Lamento dizer, mas vocês não têm alma de Mac. Sorry! Nem nascendo de novo. Nisso chegou o nãoseiquem a quem a moça nojentinha tinha se referido, esse sim um vero macintoshiano, me deu dicas, falou minha língua, era o cara lá do fundo, o da oficina, o cara que mexia com Mac. Amenizou um pouco a minha dor. (Graça Craidy)

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Aviso aos consumidores: a vida tem prazo de validade.


 Você que anda vestida sempre na última moda, esbanjando grifes dos pés à cabeça, que troca de carro todo ano, que carrega a carteira recheada de cartões de crédito, que tem os armários soterrados de roupas e sapatos, que vive compulsivamente de dieta para atender a um padrão alheio de beleza, que se lambuza de cremes dia e noite para jamais envelhecer, que sonha com uma lipo de corpo inteiro e uma piscina como a do tio Patinhas, que acha o verbo comprar infinitamente mais interessante que verbos como rir, amar, ler, curtir, escutar, entender, trocar, perdoar, confraternizar, prosear, relevar, tenho uma péssima notícia para você.

Você pensa que é livre, mas não passa de refém inconsciente de uma grande, sofisticada, maquiavélica e bem-estruturada arapuca chamada sociedade de consumo, que conseguiu convencer todo mundo da mais bizarra inversão de valores: ter e parecer é muito mais bacana que ser.

Você pensa que está vivendo, mas - preste atenção! - você só está con-su-min-do. Você pensa que está tendo o melhor da vida, mas, na verdade, você só está acumulando bens materiais e ajudando a roda da produção insaciável a girar mais rápido, para alimentar os gordos bolsos dos donos do consumo.  
                                    
Dentro de você, lá no fundo, continua cada vez maior aquele buraco que nunca se nutre, porque o prazer de viver, mesmo, não se alimenta de coisas materiais, mas de coisas do espírito, do coração.

O prazer de viver, mesmo, não custa caro.

E não caia na esparrela de acreditar - como insiste o discurso publicitário em seu eterno canto de sereia - que o amor brota mais vivo dentro de um jeans último modelo, que a melhor gargalhada vem de uma taça de champagne francesa, que o sexo mais gostoso só acontece se você estiver usando aquele perfume caríssimo, que a garota só vai reparar nos seus olhos se você estiver atrás de um volante zero km.

Recuse-se a pagar esse mico de otário! Amor é amor. Riso é riso. Sexo é sexo. Amizade é amizade. E não arremedos de amor, riso, sexo e amizade disfarçados de produtos.

Tenho percebido nos últimos tempos,  principalmente nos jovens, uma infelicidade crescente e profunda com não poder consumir toda a quinquilharada do que é anunciado, incensado, impingido, professado como artigo de primeiríssima necessidade para ser feliz.

Me espanta e me entristece ver que essa exacerbação do consumo tenha deformado as idéias e os valores das nossas crianças, a tal ponto que hoje em dia você corre o risco de ver seu adolescente jogar na sua cara que se você não tem dinheiro para comprar isso, aquilo e aquilo outro, não deveria ter tido filhos.

Piraram todos ou eu é que parei no tempo?

Está na hora de cair em si e começar a levar uma vida mais simples, menos consumista, mais em paz, mais compartilhada, resgatando o valor de viver de verdade no lugar de acumular, acumular, acumular.

Ou será que as pessoas pensam, querido leitor, que com toda essa conversa de consumo pra boy dormir, a morte foi sumariamente suprimida do menu? (Graça Craidy)

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Minha lentilha por seus ais.


Antes de deitar comigo, homem que desejo meu come primeiro da minha comida. É uma espécie de fascínio. O coração quer saber até onde a fome.

Comer na mesa ou na cama? Minha libido tecida em ancestrais ventres italianos e libaneses trilha estranhos rumos de fruir com igual lascívia os dois sentidos do verbo. Se o futuro amante ceder aos encantos da alquimia do sal e, quem dera, despertar em mim outros quereres alvoroçados pelo prazer do seu prazer, meio caminho para a alcova.

Com Josué, foi assim. Ele - como eu - tinha paixão por lentilhas. Numa quarta-feira, aceitou o convite e mergulhei, enfeitiçada, no ritual de arrebatar. Lentilhas, bíblicas lentilhas. Bizarra mercadoria de troca!

A receita foi escolhida a dedo depois de percorrer com fervor quase literário três fartos livros, onde souvernirs de molho de tomate e salsinha seca convivem com guardanapos amarelados, rabiscos de outros pratos, quiçá amores.

Festa de babette, o rol: lentilha, cebola, louro, pimenta síria, vinho, alho, sal, cenoura, batata, paio, arroz, panela de ferro, colher de pau. Tudo virginianamente à parte, sobre o granito do balcão.

Lentilha amolecendo na água, os temperos picados em cumbucas, tempo de tramar o clima com urdiduras de rosas, velas, linhos, cristais, porcelanas e, de vigília na gaveta do Cd, a cúmplice Stardust.

Agora, eu. Existe rito mais sagrado que mulher se preparando para homem? Começa no pé, lambe a pele toda, unge cabelo, conluia boca e boceta, tange seios, ronda umbigo, arranha costas e, enfim , voduza lóbulos, lábios, regos e trás-os-joelhos, com óleos e perfumes. Toda fêmea na cerimônia de pré-acasalamento já se possuiu cem vezes, antecipando o amado.

O que seduzirá Josué: a pimenta síria acanelada ou o inebriante patchouli? Em frente ao fogo, enquanto me mesclava à lentilha e ao arroz pelo girar compassado e hipnótico da colher de pau, eu abracadabra, bruxa e esfinge : - Devora-me, Josué. E te decifro!

Ele trouxe vinho do meu gostar no abraço e elogio derramado no pasmo do olho imiscuído em meu decote. Na garganta, the-memory-of-love's-refrain. Reverbera ainda em meus baixios seu pungente gemido à primeira bocada. E, no banquete reprisado do final, longa vida àquele rei.

Sua primogenitura por mil pratos da minha lentilha. (Graça Craidy)


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Wolton: a internet é um falso ícone de modernidade.


“Liberté, egalité, communication!” Esse é o grito de guerra inequívoco do sociólogo francês Dominique Wolton, em seu livro Internet, e depois?.

Na contramão assumida do fascínio contemporâneo pelas novas mídias, Wolton passa as 232 páginas do seu livro reivindicando um estudo mais sério sobre a comunicação, defendendo o valor democratizante da TV e do rádio, e alertando para os perigos do endeusamento da técnica performática como substituta das verdadeiras relações humanas.

Ao contrário de Debord e Baudrillard, que diabolizam a mídia de massa como manipuladora e espetacularizante, e mais próximo a Lipovetsky, que vê na TV uma neutralizadora de totalitarismos e catalisadora de várias correntes de pensamento, Wolton chama os proselitistas ferrenhos da internet – inclusive a imprensa escrita – de ingênuos, reducionistas, adesistas, elitistas e, por consequência, antidemocráticos.


“O essencial em um sistema de comunicação não é a tecnologia” – diz ele - mas “a ligação entre técnica, modelo cultural e projeto social”.

Respondendo com ironia às críticas das elites à pretensa manipulação da comunicação de massa sobre os telespectadores, Wolton compara o receptor da mídia generalista ao cidadão:
- Por que seria ele livre, ativo, crítico e inteligente em matéria de política e passivo, influenciável, um simplório, em matéria de comunicação?

O autor elogia a abertura das mídias generalistas como reforçadoras dos laços sociais, da identidade cultural da sociedade, do coletivo e do individual, e do conceito de maioria inerente à democracia, garantindo aos cidadãos-telespectadores o acesso gratuito a toda sorte de informação para que a julguem, critiquem, absorvam, metabolizem, discutam, dialoguem, superando suas diferenças em um nível mais amplo de trocas, ao mesmo tempo em que mantêm as suas diversidades.


Dessa forma, diz Wolton, nesse “ estar junto da consciência coletiva”, é possível criar um “ tecido social e cultural”.

Wolton entende a sedução das novas tecnologias como um reflexo da crise de utopias e da típica hiperindividualização do mundo atual, onde os usuários vivem, segundo ele, uma espécie de nova utopia da liberdade individual, sob a lógica da demanda – “eu navego onde quiser, num tempo presente expandido, sem limite de informação”.

Porém, existe um outro lado a observar, alerta Wolton: o lado da não-história que empobrece a cultura, sem “ estoque, perenidade, só fluxo”, e o lado das profundas solidões interativas” que reforça e escamoteia as dificuldades reais da comunicacão tête-a-tête. E, ainda, o lado do tempo técnico defasado do tempo real, que causa um desconforto interno antinatural além de bloquear a ação.

“Os homens (…) estão, como o coelho branco de Alice no país das maravilhas, sempre atrasados”, constata Wolton, oprimidos pelo que Edgar Morin já chamou de lógica da máquina artificial.


Para Wolton, no bloco do eu-sozinho propiciado pelas novas tecnologias, o vínculo social fica frágil, a identidade coletiva se desmaterializa, a demanda aleatória pelo saber disponível na rede pressupõe um conhecimento prévio de o quê, como buscar, requer intermediários.

E há também a questão da veracidade da informação circulante: até onde uma mídia sem regulamentação é confiável? Até que ponto o virtual é verdadeiro?

Wolton não incorre no erro maniqueísta de diabolizar as novas mídias, dizendo inclusive que elas são necessárias e complementares às mídias de massa. O que ele quer é desmitificar a tecnologia como pretensa solução, pseudo progresso, ícone falso de modernidade.

Aliás, Wolton alerta: a globalização é regida meramente por interesses econômicos que nada têm a ver com o legítimo tripé da comunicação, técnica, cultura, projeto social. Daí que, ele sugere, seria prudente verificar quais interesses movem essa mundialização da comunicação comandada por uma tecnologia que tem dono – os Estados Unidos – e que pode muito bem acabar impondo o seu padrão cultural, varrendo a diversidade do planeta, ao mesmo tempo em que garante mercado para seus softwares, hardwares e programações.


Em nome da modernidade, seríamos todos neoescravos de um grande império americano consumidor? Eis a questão.(Graça Craidy)

WOLTON, Dominique. Internet, e depois? Uma teoria crítica das novas mídias.
Trad.Isabel Crossetti. Porto Alegre: Sulina, 2003.

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Mistério gozoso.

ontem à noite sabiá-fêmea foi deitar no ninho e se acariciou como ave maria e no breu da solidão desacompanhada chamou teu nome e imaginou coisas de não contar e quando o gozo veio, assim, doído de ser um gozo solitário, sabiá chorou, chorou, num riso torto e salgado, sabe-se lá porque uma sabiá choraria na hora do gozo, talvez a asa vazia, talvez o dia, talvez sina de maria.
(Graça Craidy)

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Carlos Fico e 64: Pou! na esquerda. Pou! na direita

Golpe? Contragolpe? Revolução? No artigo Versões e Controvérsias sobre 1964 e a Ditadura, o historiador da UFRJ Carlos Fico (2004) percorre os olhares de vários autores sobre o tema e varre tudo com o seu próprio grande olhar colhendo o que considera meritório e esclarecedor.

Com essa visão panorâmica, Fico lista o que ele chama de "velhos mitos e estereótipos superados", dando relevância a pelo menos uma dúzia de aspectos que coletou na leitura dos seus pares.

Um deles se refere ao desapreço pela democracia que Fico entende haver sido bastante claro, tanto por parte da direita, a qual preferia pragmaticamente usar o autoritarismo e a força repressiva para atingir as suas metas, quanto pela esquerda, que lançou mão não só da luta armada como de crimes comuns (sequestros, assaltos) para alcançar os seus fins. Fins esses que obviamente se distanciavam à direita e à esquerda.

Enquanto a direita - via militares, mídia e burguesia empresarial - buscava a implantação de um capitalismo forte que mantivesse afastado o perigo do comunismo e ao mesmo tempo fortalecesse a moral e os bons costumes, guindando o Brasil à modernidade e à grandeza a que (acreditavam) estava fadado, a esquerda - esfacelada e fragilizada em quase 30 dissidências - lutava muito mais contra o capitalismo do que contra a ditadura.

Segundo Fico, doíam mais fortes na esquerda as dores antiburguesas e marxistas que as antidemocráticas e anti direitos humanos, pois o que essa facção visava era prioritariamente implantar um socialismo legitimado pelo campesinato unido ao proletariado.

Quer dizer, a suposta "resistência democrática" da esquerda, conforme Fico, não havia sido exatamente democrática, além de - outra constatação também destacada pelo autor - sua inépcia e desarticulação.

Consta, inclusive, que a esquerda cometia a imprudência de se reunir no mesmo prédio onde aconteciam as - essas, sim, articuladas e conspiratórias - reuniões do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), órgão civil-militar encarregado de desmoralizar ideologicamente a ação de Jango Goulart e dos seus supostos apoiadores, instituto treinador de empresários para ocupação de futuros cargos no governo, mas principalmente alertador da classe média sobre os perigos do comunismo disfarçado de trabalhismo.

Seus alertas escritos no capricho para convencer as famílias brasileiras chegavam a elas através da criação e divulgação de sedutores documentários roteirizados pelo secretário do IPES - o hoje famoso escritor José Rubem Fonseca - e dirigidos e fotografados pelo francês Jean Manzon, filmes que se espalhavam nos cinemas do Brasil, de norte a sul.

Fico destaca também a queda de mitos bastante alimentados até então de que só houve tortura após o AI-5, de que seria "coisa de subalterno" à revelia dos generais, de que só houvesse uma repressão e uma censura, de que os militares só se dividiam entre "duros e moderados", de que Castelo Branco fosse moderado ou de que Geisel não estivesse ciente dos subterrâneos ensangüentados.

Para Fico, interpretando seus pares, a tortura e a censura entraram em vigência junto com o próprio golpe, embora tenham sido de certa forma "oficializadas" mais tarde com a ampliação da abrangência do SNI (1967) e a implantação do sistema CODI-DOI que unia todas as polícias, inclusive bombeiros e polícia feminina.

No caso específico da polícia ligada à censura, Fico ressalta que, na verdade, a censura eram duas: uma, a da moral e bons costumes, que atuava sobre as diversões públicas desde muito antes dos militares (1945, na era Getúlio), e outra - essa, sim, mais recente -, a censura política, que passou a agir dentro das mídias e também de forma prévia, ambas de cargo público ao qual acorriam candidatos de todos os credos, via concurso oficial.

Castelo Branco, diz Fico, de moderado, legalista e brando só tinha a fama - construída por seus biógrafos -, pois ninguém senão ele havia co-redigido e assinado a Lei de Segurança Nacional, fechado o Congresso nacional, decretado a Lei de Imprensa e sido, sem dúvida nenhuma, conivente com a tortura desde o começo, considerada por ele e pelos outros militares como apenas "um mal menor".

Como declarou Geisel a Elio Gaspary, em A ditadura derrotada (2003:324):
"esse negócio de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser".

O que Fico traz à tona sobre Castelo é que ele teria sucumbido à forte pressão de um grupo militar ainda mais conservador do que ele próprio, mais tarde exitoso em seus esforços com Costa e Silva e Médici, e calcado no projeto de uma dita "utopia autoritária": a crença de que seria possível eliminar (leia-se eliminar no sentido literal da palavra) qualquer dissenso (comunismo, subversão, corrupção), para colocar o Brasil na "democracia ocidental cristã". Isto é: sumariamente suprimir tudo o que impedisse o Brasil de virar potência mundial.

Segundo Fico, essa "utopia autoritária" teria sido o "cimento ideológico" amalgamador das tantas diferenças entre os que apoiaram o Golpe e os que o implantaram e mantiveram, após 64. Utopia baseada em algumas "crenças": a da superioridade militar sobre os civis, vistos como " despreparados, manipuláveis, impatrióticos e - principalmente os políticos - venais"; a de se acharem capazes de "curar o organismo social", extirpando o "câncer do comunismo" pela via física (através da repressão saneadora), pela via pedagógica (através da educação do povo e defesa da moral e bons costumes) e pela via tecnológica (através dos meios de comunicação).

Fico aborda ainda outros aspectos, referindo-se, por exemplo à mudança de padrão no modo de agir dos militares, cujos passaram de meros "moderadores" históricos em mudanças de chefes de Estado - depondo e transferindo o governo a outro grupo, sem assumir o poder - para, em 1964, quebrar o modelo.

Supostamente capacitados pela ESG - Escola Superior de Guerra, dessa vez os militares se supunham aptos ao exercício do poder, espicaçados também pelo evento da quebra de disciplina dentro das próprias Forças Armadas, o que os fez pressupor que a julgar pelo caos até " dentro de casa", a situação realmente estava grave e exigia que se atuasse com mais rigor.

Junte-se a isso uma suposta imobilidade e fragilidade de Jango, a rotatividade alarmante de ministros, a paralisia do legislativo, a falta de consenso entre as partes - do Congresso aos partidos - além de outras razões de estrutura, ressalta Fico: o modelo de capitalismo brasileiro agora em um estágio mais avançado de industrialização e capitalização multinacional pedia por novos modos de gestão pública, modos que não incluíam as ditas reformas de base trabalhistas propostas pelo Presidente da República.

No entanto, diz Fico na página 55, derrubando um derradeiro mito, é preciso distinguir a atuação desestabilizadora do IPES da conspiração golpista civil-militar, que, segundo o autor, foi mais "retórica radical" e só se firmou na véspera do 31 de março.

Ou seja, a desestabilização civil promovida pelo IPES teria sido muito bem articulada, ao contrário da intempestiva ação militar, versão confirmada pelas entrevistas de militares participantes do Golpe ao CPDOC, que teriam dito dar pouca importância ao apoio americano e simplesmente focado na questão para eles imediata: tirar Jango e "limpar" as instituições.

Em suma, a principal causa do Golpe, no entender de Fico, foi uma conjunção de fatores: as transformações estruturais do capitalismo brasileiro, a fragilidade institucional do país com as incertezas do Governo Jango Goulart, a propaganda política do IPES e a índole golpista dos conspiradores, principalmente dos militares.

"Que uma tal conjunção de fatores adversos - esperamos - jamais se repita", preceitua Fico.

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Referência:

FICO, Carlos. "Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar", in Do ensaio ao golpe (1954-1964), Revista Brasileira de História, vol. 24, nº 47, Julho de 2004:19-60.
(Graça Craidy)

Baudrillard: O Ocidente tem a mania de fazer o Bem sem escrúpulos.

Jean Baudrillard lava a égua.

Tudo o que ele precisava para reforçar suas teses sobre a fantasmagoria do Ocidente, a perniciosa homogeneização, o fim do universal em favor do global, os signos gêmeos, a rede-vírus, a ausência de valores, a indiferença, a impossibilidade do apocalipse e o virtual fatal, encaixa como um lego no único fato considerado por ele digno de ser chamado hoje de “acontecimento”: o ataque terrorista ao World Trade Center.

Cada um dos capítulos de seu livro Power Inferno (2003) está prenhe de velados e inteligentes “eu-não-disse?” baudrillardianos.

Ele disse que um signo duplicado perde a sua designação original. Strike! Não só Bush Filho é clone de Bush Pai, como as torres eram gêmeas, tautológicas do sistema que encarnavam, “modelização informática, financeira, contábil, digital, (…) o cérebro dele”. Destruídas as twin towers, ferimento de morte no que elas representavam.

Baudrillard diz mais: que tudo aconteceu por uma cumplicidade da própria potência atingida, cuja, ruindo por dentro em sua arrogância de querer ser o único modelo do mundo, tornou-se “suicida”.

Mas, ele analisa também outras hipóteses sobre o terrorismo: que pode acelerar a influência planetária do pensamento único; que é expressão real do desespero dos povos oprimidos; que pariu o irmão gêmeo diabólico do sistema; que cria bruscamente uma zona de troca impossível em um sistema de intercâmbio, desconfortando inapelavelmente a potência, por não oferecer a ela um valor de troca, somente a morte, “arma absoluta”. Na morte, a libertação do “escravo”; na sobrevivência do “senhor”, a sua transformação em eterno refém da não-morte.

E ele só abre uma pequena brecha para um insólito tom otimista quando fala na quebra do espelho do universal pela globalização: “talvez seja uma sorte, pois, nos fragmentos desse espelho quebrado, ressurgem todas as nossas singularidades”.

De todas as hipóteses, porém, a que Baudrillard considera “soberana” é a que pensa o terrorismo como “a emergência de um antagonismo radical no próprio seio da globalização”,(…) “contrapoder viral”, o 11 de setembro como uma reação ao Ocidente e à sua mania de – ironiza - “fazer o Bem sem escrúpulos”.

Baudrillard atribui ao terrorismo a vingança das culturas singulares desaparecidas e a cristalização do terror homeopático já presente em toda a parte, hoje, “na violência institucional, mental e física”.

Acima de tudo, porém, a vitória real do terrorismo - para o autor - é ter mergulhado todo o Ocidente na obsessão pela segurança, “ou seja, numa forma velada de terror perpétuo”.

Baudrillard entende que a guerra de Bush foi como uma “vontade de anulação, purificação e lavagem do acontecimento original” que, mais que atingir as torres, humilhou os americanos.

Daí seu leitomotiv “zero morte” criando uma nova e estranha ação bélica: o terror preventivo. Em um perigoso comportamento persecutório e desprezando inclusive seus princípios humanistas, o próprio sistema, por enxergar terrorismo em tudo, acaba por “aterrorizar a si mesmo”, cotidianamente.

Todas as sextas-feiras, de 11 de setembro de 2001 pra cá, são 13.

Referência:

BAUDRILLARD, Jean. Power Inferno. Réquiem para as Twin Towers. Hipóteses sobre o terrorismo. A violência do global. A máscara da guerra. Porto Alegre: Sulina, 2003.

(Graça Craidy)
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Artigo: Pierre Lévy, o Diderot-D'Alembert do século 21.



A palavra "otimizar" - da língua da produção, do business, do mercado que persegue visceralmente a chamada excelência de desempenho para garantir eficiência e lucro aos seus acionistas - freqüenta o discurso epistemológico do filósofo francês nascido na Tunísia Pierre Levy, sem nenhum pudor acadêmico.

Otimizar traduz a sua ambiciosa utopia de inteligência verdadeiramente coletiva, de "todos para todos": criar uma espécie de enciclopédia semântica tão gigantesca, tão abrangente, tão plural, que consiga abarcar toda a diversidade de significados das multilínguas, multietnias, multiculturas do planeta.

" O que nos diferencia do homem pré-histórico?" - pergunta Lévy ( 2007a). " A memória acumulada" - ele completa. "O salto vem da memória".

Por isso Lévy (2007a) projeta em um futuro bastante próximo, - 2015, segundo seus slides - uma "máquina sintática universal", com capacidade para fazer arranjos e rearranjos de significantes no ecossistema da memória simbólica da humanidade, sintetizando complexamente diversidade com universalidade, ao cobrir infinitos caminhos semânticos, diferentes pontos de vista sobre a realidade, sem excluir nenhum olhar.

Assim, um novo sistema de significantes com coordenadas universais conterá a imensa memória mundial, indexando todo o conhecimento.

Seu raciocínio é evolutivo. Lévy ( 2007a) toma distância no tempo para trás a partir da descoberta da escrita até a web de hoje, e entende que no próximo degrau evolutivo, a rede mundial passará de um estado atual lógico, binário, leitora de cadeias de caracteres e de interconexão de dados, a um estágio superior hermenêutico, de web semântica, de interconexão de conceitos.

Historicamente, a posse da informação sempre significou a posse do poder. Dos mistérios guardados a sete chaves da Igreja Católica à democratização da leitura da Bíblia permitida pela Reforma de Lutero aliada à descoberta de Gutemberg, conhecer significou literalmente dominar, intermediar, evoluir, enriquecer.

No século 18, os intelectuais filósofos iluministas D'Alembert e Diderot criaram a "Encyclopédie", com 35 volumes e milhares de verbetes que continham todos os dados sobre as ciências naturais e humanas da época. Essa supermega enciclopédia tinha a missão de democratizar o saber, permitindo surgir o "cidadão esclarecido", que substituiria a fé, a superstição, o êxtase religioso e a repressão dos governantes absolutistas pelo conhecimento, pela capacidade de raciocínio autônomo e pela auto-responsabilidade.

Três seculos depois, em plena era da internet, outro francês luta por uma nova enciclopédia, milhões de vezes mais abrangente que a de Diderot e D'Alembert. Na utopia de Lévy (2007a), é imensurável o quanto de poder será democratizado agora com a multiplicação de conhecimento provocada por essa nova espécie de enciclopédia universal onde todos terão acesso à informação desintermediada.

Mas não se trata apenas de quantidade. Melhor seria dizer de busca de uma linguagem universal, espécie de - como chama o próprio Levy - "esperanto digital" organizador do caos da web 1.0, que nutriu a rede de uma quantidade enorme de dados sem hierarquia; ou, também, do aperfeiçoamento da web 2.0, que aumentou a interrelação, a produção coletiva de conhecimento. A web 3.0 estaria mais aparentada com o quesito relevância e com a cada vez mais apurada customização da navegação, buscando a universalidade do conhecimento. Sai o mero dado, entra o conceito.

A web semântica extrapolaria a simples resposta adicionando respostas inteligentes, relevantes, baseadas em navegações anteriores, em categorias registradas na sua memória, em recombinações e associações que façam sentido ao usuário como já se vê hoje em início de operação, no Facebook. Feito a rede soubesse antecipadamente, adivinhasse o que o internauta deseja.

A grande dificuldade para essa " inteligência possível no século 21", segundo Lévy (2007a), é o que o filósofo Edgar Morin (2004) chama de " separação dos saberes": a falta de sinergia entre as disciplinas, cada saber tentando preservar a última fronteira da sua competência para justificar a sua existência isolada.

Lévy (2007a) explica que não há como encontrar a universalidade na diversidade se as ciências, principalmente as ciências humanas, não estabelecerem um consenso sobre as suas noções, buscando
uma mesma língua multidisciplinar, um mesmo sistema de coordenadas.

Ele elogia as ciências da natureza onde, por exemplo, oxigênio é sempre " O2". Já a categoria "comunidade", desafia Lévy (2007a), é problemática, porque suscita as mais variadas explicações e sistemas de medidas, do psicólogo ao antropólogo, do sociólogo ao historiador, com diferentes noções e valorações.

A função do intelectual.
Fiel à sua histórica posição de integrado às novas tecnologias, Lévy sustenta a sua indefectível fé na web e no homem, principalmente no homem dito por ele "intelectual".

Ao intelectual, ele atribui o papel orgânico neogramsciano de influir no destino da humanidade, pela "otimização do conhecimento" que circula na rede mundial de computadores.

Na Revista Famecos #33 ( 2007b:13), Lévy reitera, inclusive, que, em todas as culturas, o grande papel dos intelectuais é o de estudar os sistemas simbólicos com os quais as comunidades vivem em simbiose e preservar a sua articulação, seu bom andamento e seu aperfeiçoamento.

"A digitalização dos documentos, sua interconexão em um espaço virtual ubiqüitário e as possibilidades de tratamento destes documentos anunciam uma mutação cultural de grande amplitude (...) Mais do que assistir de fora esta mutação, os intelectuais devem, na minha opinião, tomar a dianteira" (2007b:14), afirma Lévy.

Para ele (2007b), os intelectuais são como os "luthiers" - artesãos que constróem instrumentos musicais - que produzem, mantêm e aperfeiçoam o intelecto possível, a instrumentação simbólica, das comunidades pelas quais trabalham (2007:17).

No século 21, Lévy conclama a que esses luthiers de agora instaurem uma " quarta camada" na web , a da " noosfera" - para usar o termo de Teilhard de Chardin, que significa "esfera da mente/consciência humana coletiva" - chamada por ele de "camada semântica" (2007b:20).

Otimista, não. Anti-ceticista
Uma ala dos teóricos das ciências humanas critica o trabalho de Lévy, por razões tão diversas quanto comprometidas. Aos frankfurtianos que o acusam de ingênuo, "levy-ano", otimista e totalitarista, Lévy (2007a) contesta, apoiado em Karl Popper e sua condenação do ceticismo, afirmando que não é um otimista, mas um anti-ceticista.

Ele ressalta que sua busca do universalismo nada mais é que uma busca de apreender "uma unidade subjacente que traduza a diversidade". E aproveita para devolver a crítica aos céticos que o criticam, afirmando popperianamente que com o cético não se aprende nada, pois o ceticismo nunca precisa provar nada, é apenas e meramente a negação.

" Não é suficiente que os homens troquem muitas informações para que se compreendam melhor", refuta o sociólogo Dominique Wolton( 2004:150), em resposta à inundação de dados na internet que Lévy elogia. "São os planos culturais e sociais de interpretação das informações que contam, não o volume ou a diversidade dessas informações", explica o elétrico Wolton. E joga mais um dardo: " Qual experiência da realidade sobra quando a atividade econômica, social, cultural, escolar é reduzida à gestão de signos?" (2004:155).

Mas, aos que como Wolton o acusam de mitificador do poder da internet como cimento social, indutor de que informação é o mesmo que comunicação, sem alertar sobre os perigos da ausência de regulação, da desprivatização, do panoptismo, da homogeneização, ou, ainda, de uma verdade sem doma que troteia nas estradas digitais, Lévy (2007a) responde, bem mais generoso do que seus detratores, que a idéia de uma única verdade é que é totalitarista, não a dele que busca abarcar toda diversidade. E mais: que a variedade e a multiplicidade das fontes é muito mais favorável que desfavorável à verdade.

Lévy (2007a) afirma, ainda, que a internet não é um meio de supressão do erro, mas um meio poderoso de busca da verdade, e ressalta que a verdade, aliás, não só na internet como em qualquer outro meio, é sempre ilusória, porque processo. E encerra, mais pós-modernamente, impossível: - " Qual a verdade? A verdade é a verdade que interessa a você".

REFERÊNCIAS:

LÉVY, Pierre - Anotações do seminário IEML ( Information Economy Meta Language) for transformative knowledge management - ministrado na PUCRS,agosto, 2007a

LÉVY, Pierre - A inteligência possível do século XXI, in Os intelectuais e as novas tecnologias, Revista FAMECOS, Mídia, cultura e tecnologia, # 33,p. 13-20, agosto 2007b

WOLTON, Dominique - Pensar a Internet, in MARTINS, Francisco Menezes et SILVA, Juremir Machado da, A genealogia do virtual, Comunicação, cultura e tecnologias do imaginário.Porto Alegre: Sulina, 2004.

(Graça Craidy)

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A morte pede carona e um cálice de vinho tinto.

Quem nunca na vida se sentiu tentado a responder a um anúncio de "encontre a sua alma gêmea", levante a mão! Pois eu não apenas me entreguei vilmente à tentação. Respondi. E saí correndo pro abraço.

Os anúncios de gente procurando gente saíam na Folha de SP, todas as quintas-feiras, pedaços de esperança preto e brancos pingando desejos de afeto e ânsias de finais felizes, publicados ali por almas tímidas, cansadas, preguiçosas, solitárias, safadas, curiosas ou, mesmo, até, entediadas.

Um por um, devorei todos os "procura-se" daquele Classline, com atenção e desvelo, quem sabe ali o meu príncipe? O que me cativou não pedia medidas, nem obstava cigarro, desimportava-se de faixa etária, não exigia tardes livres, tampouco demandava religiosidades estranhas, cor de cabelo específica, sequer concluía o anúncio com a odiosa advertência: dispenso celular.

Era um texto leve, espiritual, naif inclusive, permeado de pieguices de almas gêmeas, pôr de sóis, viagens de mãos dadas pela vida. No meio de tanta carne, carne, carne, decidi pelo Romântico de Sampa.

Bem verdade que o achei um pouco velho pra mim: 55 anos, sabe-se lá de que jeito a criatura se cuidou para cruzar os 50? Do alto dos meus 40, imaginei que poderia administrar a diferença, afinal - e lá vinha eu com meu indefectível e arapuquento discurso humanista - o importante é o interior!

Liguei para a caixa postal que constava do anúncio, deixei o recado: - olá, vi seu anúncio no Classline, gostaria de conhecer você, por favor, me telefone.

Liguei e fui viver minha vida. No sábado, adivinhe? Romântico de Sampa ao telefone. Boa prosa, voz mansa, ficamos ali de gentilezas mútuas pra lá e pra cá, falando de nossos sonhos, gostos, desgostos e perepepês pra mais de duas horas, entre eles, o quanto ele gostava de vinho. Ah, eu também! Será que poderíamos tomar um vinhozinho, resgatar o tempo perdido?

Tempo perdido? Homem, quando separa, é tudo assim: Lázaro recém-ressuscitado.

Seduzida pela propaganda de seus pretensos dotes culinários, cometi a dolorosa imprudência de aceitar a proposta do Romântico para vir à minha casa cozinhar o almoço de domingo. Sei lá, nem me ocorreu que um homem aparentemente inofensivo como aquele pudesse me fazer mal. E depois, era de dia, solzão fora. Ninguém comete crimes à luz do dia, eu pensava, com minha cabecinha ingênua classe-média cristã interiorana que imagina o negror dos tempos só depois que o sol se esconde.

No domingo, tomo banho, me visto com discrição, nada de decotes e roupas apertadas, abro um vinho tinto seco, fico ali aguardando Marcílio - esse era o nome dele! De antemão me preparo pra dar-lhe dois amistosos tapas nas costas - Olá, amigo! - caso não me agradasse de sua figura, atitude que vinha me salvando vida afora, toda vez que eu não queria ferir os brios de algum galante admirador cujo não bolisse com meus hormônios.

Campainha. Abro a porta. Ali mesmo, na soleira, já me saltou na mente, em letras bem garrafais: - não! não! não! nem morta! nem que fosse o último! E, em seguida, outro estóico pensamento: - a tarde vai ser longa...muito longa...

O homem era um velho. Não tem outra palavra pra dizer. Um velho, credo! Como que um filhodaputa fica velho assim com 55 anos? Deve ter mentido a idade. Eca! Eu que não queria beijar aquela boca de velho, meio tremelico, sabe aqueles que o olho molha por qualquer bobagem? Ai, a tarde ia ser longa, sim.

- Tenho certeza que eu adoraria beijar a sua boca! - foi a primeira frase que o homem falou, olhando pra mim com a doçura de três latas de leite condensado e, ao mesmo tempo, um arzinho generoso de quem me concedia a honra destes dons tão privilegiados: o de beijar aquela sua boca que - mal sabia ele! - me repugnava, e o de eu ter atendido com louvor aos anseios da sua exigente libido.

Fiz que não ouvi sua proposta irrecusável, dei uma sorriso amarelo e, sem mais delongas, convidei, num falso tom efusivo: - vamos entrando, Marcílio! Tudo bem com você? Achou fácil o caminho?

(Não queria nem dar os tais tapinhas nas costas dele, pra não ter o desgosto de encostar.)

Bem-educada que sou e sabedora de que aquele situação-mico era conseqüência da minha mais pura inconseqüência, tratei de cumprir o meu papel de anfitriã com polidez e sangue-frio. Afinal, o homem não tinha culpa de ser velho! Eu é que era uma louca de me arriscar assim.

Ofereci vinho, acepipes e entabulei com ele uma conversa comprida cheia de ha-ha-has e não me digas. Àquelas alturas, eu faria qualquer coisa pra ampliar meu repertório de entretenimento à visita, desde que ela não chegasse perto de mim. E fiquei ali a beber meu vinhozinho, agarrada à taça de cristal como a um escudo pra manter a recomendável distância de pelo menos dois metros do tal Marcílio.

Foi eu levantar pra pegar não sei o quê na cozinha e ouço um baque surdo de corpo batendo no chão. Rapidamente me viro e dou de cara com o velho caído de costas no piso de cerâmica da sala, os olhos fechados como se estivesse morto, o corpo inerte, só o cálice escapulido de sua mão ainda rodando melancólico em direção ao tapete.

"Homem morre em casa de publicitária". Eu já via a manchete em todos os jornais do dia seguinte. Um segundo de pavor e corri me abaixar perto de Marcílio, sacudindo seus ombros e gritando: - Marcílio! Marcílio! O que aconteceu, pelo amor de Deus! Levanta, homem! Ai, meu santo, o que eu faço agora?

Marcílio não movia um músculo, não mexia um cílio, o desgraçado! E eu ali, morta de susto. Pálido, transparente, gelado, o corpo dele parecia de chumbo, era um cara corpulento. Tremendo dos pés à cabeça, enfiei meus braços por trás de seus braços e, a duras penas, joguei-o no sofá como se fosse saco de batata grande demais pras minhas forças.

Ele meio que reagiu, balbuciando coisas ininteligíveis, ainda de olhos fechados. Corri molhar uma toalha e passar em seu rosto, rezando para aquele pesadelo acabar logo, para aquele homem acordar e sumir da minha vida, meu Deus do céu, eu não sabia nem o sobrenome daquela criatura, quanto mais onde morava, muito menos a quem recorrer, de sua família, se o caso fosse sério mesmo.

Aos poucos, ele foi voltando a si, e quando finalmente ficou dono de novo dos seus sentidos, confessou envergonhado ser proibidíssimo de beber pelos médicos, porque o álcool acionava sei lá o quê em seu organismo e ele desmaiava. Se o filhodaputa não podia beber, por que veio fazê-lo justamente na casa de uma desconhecida?

Agora, eu é que queria matar o homem. De ódio, de raiva, de alívio, de putaqueopariu, que sorte a minha, obrigada, meu Deus!

Ninguém acreditaria, mas ainda tive a pachorra e a delicadeza de esperar Marcílio fazer o tal almoço que havia prometido e insistiu muito, pra se redimir - dizia ele - de ter me exposto a tamanho susto e vexame. Aceitei. Entendi que ele precisava daquele resgate da sua dignidade. Eu não podia chutar o pobre como se fosse um cachorro sarnento. Coitado!

Foi dos mais longos e tenebrosos exercícios de tolerância que já fiz em minha vida. Não tive coragem de botar porta afora aquele homem velho, cambaleante, com pena da sua fragilidade e, também, receio de que batesse o carro dirigindo.

Comemos, conversamos em voz baixa, eu gelada por dentro, Marcílio com aquele olhar de cão surrado. Até que ele se despediu e foi embora, na saída ainda tentando me fazer juras de amor, o sapo.
(Graça Craidy)
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Morin: Amai-vos uns aos outros, assim na terra como na terra.

Taquicardia. É isso o que se sente ao ler Terra-Pátria. Nesse livro fino mas cortante, o vieux diable Edgar Morin - em parceria com a jornalista Anne Kern - vai descolando um por um todos os band-aids ramelados que cobrem nossas feridas de perdidos humanos pós-modernos.

Ao mesmo tempo em que expõe a artificialidade, a pressa, o oco, a solidão, a tecnobarbárie, o consumismo, a demência, a progressite, a sem-razão de nossas vidas contemporâneas órfãs de futuro, Morin vai também soprando amorosamente seu pensamento complexo em nossa angústia, aliviando um pouco o que chama freudianamente de “mal-estar da civilização”, com sua proposta desviante, poética e humanista de fraternidade planetarizada.

Onde Baudrillard termina, Morin começa. Para salvar o planeta e o homem de um destino catastrófico antecipado, ele sonha com “o melhor possível” de uma re-hominização: transformar a Terra na pátria mãe gentil de uma nova humanidade evoluída – ainda que sapiens-demens e destinada a incertezas – não mais habitante de nações, mas costurada sem fronteiras por uma consciência complexa que respeita o diverso e reconhece o uno da espécie.

“A nação esgotou a sua função histórica de emancipação dos povos”– diz Morin, enfatizando que os problemas hoje “dizem respeito ao planeta, não às nações” e que, acima de tudo, não somos nação, etnia, mas humanos.

Observador sensível e independente, ele aponta vários possíveis motivos do caos atual. Para começar, acusa a tecnociência de “ núcleo e motor da agonia planetária”, o desregramento econômico de reducionista, cego ao não-econômico, e o mito do desenvolvimento happy-end de “ subdesenvolvido”.

Com sua “ lógica da máquina artificial” que ignora o ser concreto e complexo, os donos economicistas e tecnocientíficos do mundo contemporâneo roubaram a poesia da vida, deterioraram as solidariedades e subjugaram o humano em sufocantes prisões racionais de especialização, cálculo, eficácia, rapidez, cronometria, “macdonaldizando” – segundo expressão de Georges Ritzer – a sociedade.

Deu no que deu. Um angustiante vazio interno que deixou o homem alheio ao seu ritmo natural, “doente de velocidade”. Um consumo histérico do presente hiperatrofiado, com “insaciável obsessão estética, dietética”, em meio à fria sensação de “perda do futuro”.

Humanos condenados kafkianamente a “dialogar com poderes anônimos” que geram uma crescente desresponsabilização e indiferença cidadãs, num mundo carente de democracia, competitivo e sem ideologia, a não ser a do lucro.

Até no amor - último baluarte - se instalou “o mal da instabilidade, da pressa, da superficialidade”, aponta Morin. Sem falar no recrudescimento do fanatismo religioso, que aproveita a vaga de felicidade e promete de novo o paraíso.

O que fazer com tudo isso? Morin pára de assoprar e enfia o dedo na ferida. Adeus, vida eterna, deus, morte e salvação!
“Precisamos tomar consciência da nossa irremediável finitude (…) renunciar radical e definitivamente à essa salvação ( …) ao falso infinito da onipotência da técnica, do espírito”.

Antes que alguém corte os pulsos, porém, ele ensina a saída: pelo prazer da “itinerância” que valoriza os momentos autênticos, da alternância “ prosa e poesia”, da fraternidade e do “viver por viver”, com amor – antídoto poderoso contra a angústia. Prosa, para Morin, é o dia a dia, a rotina, os quefazeres. Poesia é o amor, a arte, o sonho, a relação com o Outro.

Assim, ele sugere que, na “ampliação do Nós” que supera a repulsa e o medo do diferente, e abraçando todo alter ego em uma “relação matri-patriótica terrestre”,  reconheceremos no diverso, enfim, no outro ego, “ um irmão humano”.

E Morin lança um apelo-lavoisier: “Será que não se poderia degelar a enorme quantidade de amor petrificado em religiões e abstrações, e devotá-lo não mais ao imortal, mas ao mortal?” Mortais de todo mundo, uni-vos! (Graça Craidy)

Bibliografia:
Morin, Edgar, Kern, Anne B. - Terra-Pátria . Trad. Paulo Neves. Porto Alegre: Sulina. 2000, 3ª Ed.

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Morin: A chose tá mais pra Shakespeare que pra Newton, mon ami.

O Método 1: A desordem e o progresso.

Inconformado com o pensamento reducionista e simplificador da ciência clássica, Edgar Morin percorre as quase 500 páginas do 1º volume da sua coleção O Método provando por a+b que só o pensamento complexo pode explicar a natureza da natureza.

Começa questionando a disjunção entre realidade antropossocial e ciência física, a exclusão do sujeito na observação do objeto e o método cheio de certezas manipuladoras e saberes estanques dos cientistas tradicionais, que “prende todo o universo a uma só fórmula lógica”, ocultando as ligações, as articulações, as interdependências, as complexidades.

Para Morin, o verdadeiro saber científico não é nem absoluto, nem eterno, por isso deve-se ter a coragem de fazer a “crítica da certeza”, reaprendendo a aprender por meio de um novo método gerúndio, cíclico, em espiral, que abandone teorias unitárias e sínteses totalizantes e ligue - através do princípio de complexidade - tudo o que estava separado. (Não confundir com “holismo”, que Morin também abomina, acusando-o de redução ao todo em detrimento das partes.)

Apoiado na descoberta científica do poder desorganizador da energia - que se transforma mas também se degrada entropicamente - Morin ultrapassa o conceito simplificador de “ordem” que reinou “do Átomo à Via Láctea”. E detecta na natureza o princípio constante de desordem, de catástrofe, de despesa. Assim, a evolução deixa de ser apenas progresso em ascensão – como queriam os clássicos, cegos à noção de desperdício - mas degradação e construção, dispersão e concentração: “é desintegrando-se que o cosmos se organiza”.

Tudo é energia em movimento? Morin costura homem e mundo e sol, no calor complexo da termodinâmica: “não é somente a humanidade que é subproduto do devir cósmico, é também o cosmos que é subproduto do devir antropossocial”. O autor corrige outros conceitos sobre a phisis: “a vida é um sistema de sistemas”.

Segundo ele, a descoberta científica da partícula eliminou definitivamente as idéias de elemento e de objeto. Necessário substituí-las pela noção plural de “sistema” – um “campo” de interações específicas – impondo aos olhares físicos, biológicos e antropossociológicos uma nova compreensão do universo: “nosso mundo organizado é um arquipélago de sistemas no oceano da desordem”.

E sublinha, paradoxalmente moriniano “ todo sistema é um e múltiplo”, tem a missão de “organizar as diferenças” e traz em si “o fermento interno da sua degradação”. Bem como como anunciava Heráclito, em seu “viver de morte, morrer de vida”, a filosofia amparando a ciência, para horror dos cientistas ortodoxos.

O valor do observador é resgatado também por Morin: “o sistema requer um sujeito que o isole no burburinho polissistêmico”. Mas, alerta: o olhar do observador muda o estado do sistema, conforme o zoom da sua lente:

“uma bomba atômica é, (..) para o atomista, um sistema de núcleos e nêutrons; para o químico, um sistema de átomos de urânio; para o ministro, um (..) sistema da Defesa Nacional; para todos, a destruição potencial dos sistemas”.

Ou seja, “não há mais objeto independente do sujeito (…) nem observador puro”.

Quando fala dos seres vivos, Morin deixa para trás a idéia de sistema e eleva-os à categoria privilegiada de “seres-máquinas” (no sentido de “maquinantes”), contenedora das idéias-chave de ação, criação, produção, prática e poesia. Diferente – diz ele – das máquinas repetitivas ou meramente organizadoras, como o computador, por ex., endeusado pela cibernética, mas simples “artefato”, “prótese”, incapaz de, como os seres-máquinas, se auto-gerar, se auto-organizar, se consertar, qualidade elementar da menor das bactérias.

“Somos todos a Família Máquina” - brinca Morin - “em um processo que ao mesmo tempo se autoproduz, se autodevora, se auto-recomeça”. E esse auto-recomeçar - ensina ele – é causado por uma espécie de “sentinela Sísifo” que vive em nossas organizações: a “neguentropia”, um elemento que nega, rechaça a entropia, a desorganização e busca a regeneração, a reorganização.

“Há tragédia dialética em todo ser neguentrópico”- reconhece Morin. Ao mesmo tempo em que luta desesperadamente para não morrer, está, desde o seu nascimento, predestinado à morte. E, porque complexo e não simples,

“o universo é mais shakespeariano que newtoniano; o que se representa nele é simultaneamente um pastelão sem tamanho, uma fábula feérica, uma tragédia dilacerada, e não sabemos qual é o roteiro principal…”

Edgar Morin sabe que não sabe tudo. E essa é a sua maior qualidade: estimular o conhecimento que traz o desconhecido e o mistério.

O Método 2: Entre Descartes e a Escherichia Coli.

O que há de comum entre o pensamento cartesiano e uma ínfima bactéria unicelular que vive no intestino humano? Edgar Morin.

Para ele, a Escherichia Coli é mais rica de complexidade em seu comportamento e ajuda a compreender melhor a noção de vida que a racionalidade simplificadora de Descartes seguida pela ciência clássica.

No volume 2 da sua coleção O Método, Morin faz um longo passeio pelas descobertas da biologia, buscando nela o plexu, o abraço, que a enlace à antropossociologia, para explicar a vida segundo um pensamento ecologizado.

Por que a biologia? Porque é a única ciência que reconhece o “ sujeito”, no ser celular. “ O único modo de rejeitar a metafísica do mim não é negar o mim, mas biologizá-lo”, constata o autor.

Observando a organização espontânea do ecossistema, com sua diversidade, autoprodução, autonomia, acasos, retroações, hierarquias, ordens, desordens, competições, conflitos, devorações, antagonismos, solidariedades, acentrismos, repetições, egocentrismos, genocentrismos, Morin se espanta com o autofazer-se dessa máquina complexa urdida de células e tão bem regulada, que coexiste ligada pela necessidade e regida pelo ciclo solar.

E compara: “ a lógica (…) da desorganização/reorganização permanente dos seres-máquinas (..) é a mesma da eco-organização”. Para se construir – diz Morin – a vida segue um programa genético enriquecido da cultura do seu meio e da flexibilidade criativa de estratégias gerúndias que vão se inventando na luta por sobreviver, estimulando novas reorganizações nascidas do erro, do ruído, do limite, transformados assim em nova estabilidade. Que, por sua vez, vai continuar gerando, sendo gerada e se regenerando, até morrer e mutar.

Morin descobre que o egoismo produz generosidade: na natureza, tudo é voltado para si e só se ajuda o outro quando a necessidade exige que se adapte, se sujeite, se integre para não morrer, tornando-se assim, por egocêntrico, solidário “ecocêntrico”.

Morin sugere que o observador olhe “binocularmente”, para compreender, no seu paradoxo, as relações circulares da vida, seu duplo motor. Ele enfatiza o valor do individual, do sujeito:
“cada ser é singular no seu capital genético e talvez único para sempre em toda a sua espécie (...) da bactéria ao Homo Sapiens, todo ser vivo (…) se considera como centro do seu universo (…) é único para si mesmo”.

Morin sepulta a religião e qualquer outro misticismo quando arrisca dizer que tanto a alma como o espírito são físicos, animais, tal como a sua palavra de origem:
“Os termos animus e anima traem a sua origem, não transcedental mas animal.(..) O ‘animus’ não é extra ou suprafísico, emana da ‘phisis’, não se opõe ao corpo, é inseparável dele; não procede de um espírito superior, produz nos seres superiores o espírito.”

Exímio caçador de palavras, Morin se encanta com o prefixo “ RE”, transformando-o no paradigma da complexidade, porque tradutor da espiral de repetição, recomeço, renovação, reorganização, reconstrução, regeneração, recorrência, realimentação, reprodução, revolução, enfim.

E conclui, propondo na ciência uma nova racionalidade aberta para o irracional, e no planeta uma nova religião religando a hipercomplexidade: a neofraternidade, onde o amor fraterno se une à inteligência consciente para salvar a humanidade. Se phisis quiser!

O Método 3: Tico e Teco, prazer em conhecer.

Antes de esmiuçar os quefazeres do conhecimento, da inteligência, do pensamento e da consciência, Edgar Morin - como sói fazer - desanca seus tradicionais desafetos: o pensamento simplificador que expurgou “ tripas e intestinos”, e o crescimento dos saberes separados, que gerou “um novo obscurantismo” proveniente não da patuléia, mas “ dos píncaros da cultura”.

Isso posto, a primeira coisa que você fica sabendo, quando começa a ler o 3º volume da coleção O Método, é que não se pode saber tudo: “Nosso conhecimento (…) torna-se estrangeiro e estranho quando desejamos conhecê-lo”. Sabe-se que é um fenômeno multidimensional, ao mesmo tempo físico, biológico, cerebral, mental, psicológico, cultural e social, resultado de processos que se encaixam uns nos outros, entremeados, porém, de sombras e buracos negros.

Mas, Morin não se entibia. Estabelece como ponto de partida a renúncia à completude, como “ condição do conhecimento do conhecimento” e a adesão ao pensamento complexo que dialoga com todas as disciplinas, evitando as concepções redutoras do “sociólogo fazendo do conhecimento um produto social, o psicólogo, um produto psicológico, o neurocientista, um puro e simples produto do cérebro.”

E o que advém dessa junção? “ Conhecer é primariamente computar” – afirma Morin – através da tradução do real em uma linguagem de signos, símbolos e formas, que reconstrói o conhecimento noutra realidade.

O palco dessa computação é o aparelho neurocerebral - formado pelo cérebro e sistema nervoso - movido pela dialógica do “ inato, do adquirido e do construído” , resultando na união ” do conhecido e do desconhecido”.

Somam-se assim a hereditariedade com a inteligência (que Morin chama de “arte estratégica” de resolver problemas), com a curiosidade intelectual (que ele nomeia “ prazer de conhecer”), com a consciência (“ arte reflexiva”, “ cogitação”, uma espécie de upgrade espiritual da computação), com o pensamento (“ arte dialógica e de concepção”), com a cultura (mitos, crenças, teorias), e, ainda, com a imaginação e a afetividade. Tudo morinianamente “ hologramado”, entre ruídos e reorganizações.

Morin resgata também o poder da analogia – abandonada pela lógica – como inseminadora do universo real e propõe a junção da sociologia compreensiva com a explicativa, ressaltando o valor do mimetismo, de “ colocar-se no lugar do outro” para melhor compreendê-lo, não somente através da explicação distanciada do sujeito em observações mutilantes objetivas e numéricas: “a sutileza psicológica, a intuição, como diria Einstein (…) são as vanguardas da explicação”.

E, finalmente, Morin retoma o elogio do mito como inseparável da linguagem e necessário ao conhecimento, para permitir o “ comércio com os espíritos”:

“os mitos preenchem as enormes brechas abertas pela interrogação humana e, sobretudo, mergulham na brecha existencial da morte”.


Quando a certeza do saber se concretiza em solução, idéia, fórmula, há – segundo o autor, inspirado em Karl Bühler - a “experiência do Ah!” do conhecimento, erotizado pelo “gozo do coito psíquico”. Uau! Por isso, então, que conhecer é tão bão…

O Método 4: O ménage a trois de tutu marambá, quark e homo sapiens.

E lá vem Morin de novo, armado da sua indefectível espiral, do seu inescrutável nó górdio e da alegoria do holograma todo/parte/todo, para explicar a mixórdia maravilhosa do universo das idéias, defendendo como sempre a reforma do pensamento pelo olhar complexo.

No 4º volume da sua coleção O Método, Edgar Morin busca enlear mais justo ainda o cipoal do mundo científico com o antropossocial, e nos apresenta, também, com todas as sombras, fogos-fátuos e arrastar de correntes, o fascinante mundo da noosfera, apelidado assim por Teillhard de Chardin para indicar o imaginário onde moram os mitos, os deuses, as crenças, as musas, os tabus, as regras, os espíritos.

Não ria. A fauna da nooesfera é real, poderosíssima, auto-eco-organizadora e movida a energia psíquica. Morin garante:
“O mito, o deus, a idéia têm um suporte físico/energético nos cérebros humanos e concretizam-se a partir da materialidade das trocas químico-elétricas do cérebro”, garante Morin.

E é na nooesfera que cada indivíduo carrega tatuado, como um carimbo, o que o autor chama de “ imprinting” cultural, paradigmas, doutrinas, estereótipos, normalizações, que modelam suas idéias e informações e regram a construção da sua realidade, colocando a sociedade inteira como que envelopada dentro deste padrão, no qual se protege e rechaça tudo o que possa destruir seu “molde”.

Conseqüência: conhecimento engessado, sem espaço para a dialógica que, através da opinião diversa, plural, antagônica, cria condições para ampliar os saberes, inovar, desviar, evoluir.

Morin metaforiza a cultura como um megacomputador complexo que guarda na memória todos os dados cognitivos e suas normas:

“cada espírito/cérebro individual é como um terminal individual, e o conjunto das interações entre esses terminais constitui o Grande Computador”.

Persistente em sua batalha pela junção complexa dos conhecimentos, ele critica todos os ismos do pensamento simplificador: determinismo, conformismo, reducionismo, formalismo, separatismo, expertismo, corporativismo e donismo-da-verdade, tanto na intelligentsia do mundo científico profissionalizado como do acadêmico burocratizado.

E lamenta: “impossível refletir sobre saberes despedaçados”. E boceja: “ a lógica dedutivo-identitária é feita para o mecânico e para o monótono”. E ironiza: “ há mais opiniões pessoais diante de um balcão de café do que em um coquetel literário”. E, triunfante, argumenta: “ a complexidade que o pensamento pode descobrir no mundo já está nesse próprio pensamento”.

O que espanta em Morin e seu pensamento complexo é dar-se conta, afinal, que o que ele quer, na verdade, não é encontrar a verdade, mas buscá-la. (Aliás, as verdades.)

Morin não tem sede de certezas, quer beber dúvidas. Não pensa em chegar, adora é o caminho. O ato plural e complexo de buscar, duvidar, questionar, simbioticar, juntar, parasitar, imbricar, nos fará, enfim, encontrar tantas e novas verdades que nos tornaremos cada vez maiores, mais autônomos, mais complexos, deliciando-nos com o pensamento, que ele chama de “aventura”, onde a incerteza e a interrogação nada mais são que “ oxigênio para a prática do conhecimento”.

Será que isso traz felicidade? Não sei. A mim, parece bem divertido.

O Método 5: Meu bem, meu zen, meu mal.

Quase 2.000 páginas depois dos cinco volumes da Coleção O Método, é impossível não se tomar de amores pela lucidez, humildade, poesia e humanidade avassaladoras de Edgar Morin. Em mim, Morin’s forever imprinting!

Neste 5º volume, o sábio pensador francês desviscera o bem e o mal contidos no homem, com tudo de rico e genial, louco e miserável que o constrói, chamando-o de “homo sapiens-demens”.

E reescreve o capítulo do Gênese, onde não Deus, mas “ o Cosmos criou-nos à sua imagem”. Volta 7 milhões de anos e cata o início da hominização, afirmando que a linguagem e a cultura – “ o primeiro capital humano” - é que inauguram a fase sapiens do homo.

Passeia pela História, conta das sociedades arcaicas, apresenta as sociedades históricas e a criação do Estado, descreve as ascenções e quedas das grandes nações, navega com Colombo, fala das guerras e totalitarismos, dos avanços da ciência e técnica, da internet, até chegar à planetarização (que Morin sonha reverso da diáspora ancestral, uma terra-pátria, mãe generosa de todos os cidadãos do planeta, ou, quiçá, ameaçadora falta de juízo final, pela exacerbação do economicismo desumanizante e antiecológico, pela guerra nuclear ou pela intervenção no genoma a serviço de poderes escusos).

Tanta História pra quê? Pra nos mostrar o quanto ela revela a complexidade do homem, espelho do universo que o habita:

“torrente tumultuosa de criações e destruições, despesas inusitadas de energia, mistura de racionalidade organizadora, ruído e furor”.


Aliás, segundo Morin, o universo do Eu-sujeito comporta também o princípio de inclusão do Nós, onde cada ser se inclui, em sua origem, no outro, pelo exercício da afetividade ora egoísta, ora altruísta: “ a relação com o outro inscreve-se virtualmente na relação consigo mesmo”.

O autor revela o segredo das boas relações: quando o sujeito, centro de si, consegue reconhecer no outro, da mesma forma, um sujeito centro de si - não mero objeto - e ambos se respeitam mutuamente em suas semelhanças e estranhezas. (Parece tão fácil!)

Morin peregrina incansável também pela consciência. E, na consciência, revela a aterrorizante noção de morte, que “ não se limita ao momento” em que acontece, mas bruxuleia “na vida”.

Morin explica que a dor maior do homem não é o horror natural à decomposição do corpo, mas a certeza angustiante do “ aniquilamento de si mesmo” como sujeito singular, que se pensa centro do mundo e crê-se tudo, fadado ao nada.

Daí a louca invenção de mitos, ritos e religiões que aplaquem seus temores com promessas de ressurreição ou duplicações fantasmagóricas, espectros imortais de si.

Daí, também, no reino algodoado do imaginário, o alívio essencial pelo cultivo da poesia, da arte, da música, do cinema, da estética, do amor, da amizade, que nos retiram “ do estado prosaico, racional, utilitário, para nos colocar em transe”, transportando-nos histericamente a um orgásmico “ estado poético”, num “ pacto surrealista com o real”, sem o qual – diz ele – não suportaríamos o nosso destino.

“O amor é a grande poesia no mundo prosaico moderno”, suspira Morin. E a verdadeira vida - ele acredita profundamente - é a poética:

“Viver poeticamente significa viver intensamente a vida”, viver de amor, comunhão, comunidade, jogo, estética, conhecimento, afetividade e racionalidade,” viver assumindo plenamente o destino de homo sapiens-demens.”
Assinado: Edgar Morin. Profissão: humanista.
(Graça Craidy)

Bibliografia:
MORIN, Edgar - O Método 1. A Natureza da Natureza. Trad.Ilana Heineberg. Porto Alegre: Sulina. 2003
____________ - O Método 2 A Vida da Vida. trad. Marina Lobo.Porto Alegre: Sulina. 2003. 2ª ed.
____________ - O Método 3 O conhecimento do conhecimento.Trad. Juremir Machado. Porto Alegre: Sulina. 1999. 2ª ed.
_____________- O Método 4 As idéias. Trad. Juremir Machado).Porto Alegre: Sulina. 2002. 3ª ed.
____________ - O Método 5 A humanidade da humanidade. Trad. Juremir Machado. Porto Alegre: Sulina. 2002.1ª ed.

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Canto de sabiá-fêmea em dia de domingo.

Onde meu sabiá-macho? Onde meu sabiá-macho? - ela acordou naquele domingo desgraçadamente ensolarado, tateando a ausência dele no macio de suas coxas desacompanhadas.

Já não podia mais respirar sozinha, seu ar descosturado do pulmão dele vazava a tristeza do seu oco de não poder redemoinhar em suas veias, se entontecer inebriada dos seus percorridos, do seu sabiá-macho, ele tão distante, sabiá de outros matos.

Me morra, meu sabiá amado, que cada minuto longe de ti me mata um pouco, me abrevia o canto, me descompassa o júbilo desse sol tapa na cara, eu sabiá sozinha de ti, meia-sabiá.

Que ninho é esse, melancólica mortalha que não ruste nem ruge o desaforo caboclo de me saciar a fome?

Que teia é essa que me enrosca no teu pensado feito melaço de roça boa e não me derruba de costas na beira da lama do açude e rola rindo comigo moleque safado de primários ais, que não me morde o pescoço, não enfia a cara embaixo de minha asa nem me morde o seio, nem não me lambe o sal?

Sou pássara de cidade, meu sabiá-macho, triste de existir assim burlando a peia, fingindo chilreares filhos de bem-nutranças, mas, não, tudo ânsia não cumprida, tua sabiá queria agora só o cheiro acre da tua asa mal-dormida, o roçado da tua barba por fazer, o privilégio de ser teu primeiro olhar quando acordasses de manhã, aquela hora mágica quando tu vens do mundo dos sonhos e, eu queria, assim, pular do teu sonhado pro teu real feito magia, quando subisses as pálpebras eu te currando os olhos com o sol do meu riso bom de existir ali, naquele pendurado do momento, congelada hora.

Ah, neste vazio je suis triste porquoi tu me manques, meu sabiá, gosto disso do tu-me-manque porque fala saudade tu-me-falta, tu me faz falta, sabiá, na terceira pena da minha asa esquerda há um machucado que não cicatriza do buraco que tu me dóis ali, bem do lado do meu coraçãozinho-sabiá, singelo coração sem alpiste,
o canto fica descaído pra dentro enozado de sustenidos e bemóis, ganchos tristonhos que não se purripurram porque não me ouves, sabiá.

Um bem-te-vi aqui do bosque ao lado me diz que bem me viu, que bem me ouviu mas nada pode fazer pelo meu mal de ausência, que a minha dor de desexistir tua sabiá é dor alheia, pode um pobre bem-te-vi suprir o oco de um doce sabiá? Purripurruo calada, minha garganta de novo só engole o sal e o aperto, mais uma vez ave maria, sina de sabiá-fêmea, a quem só resta rezar. ( Graça Craidy)

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