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quarta-feira, 22 de março de 2017

Hoje eu me senti num quadro do Chagall.

Convidada pelo mestre Britto Velho - primeiro artista na diretoria de uma Bienal do Mercosul -, fui à apresentação do novo Presidente da Bienal do Mercosul, o médico GIlberto Schwartsmann, à imprensa e comunidade gaúcha de artes plásticas, no auditório do MARGS, com mediação do supercompetente Paulo Amaral.

 À medida que Schwartsmann ia falando do seu projeto para a próxima Bienal, que vai acontecer em abril de 2018, toda a plateia começou a levitar, como num quadro do Chagall. Embalada por sua fé, seu entusiasmo, sua vontade de fazer.

E superamos a crise, o desânimo, as tristezas, as dificuldades que o momento histórico impõe. Com o pé no chão, como ele. Mas viajando, também, com ele. Sobrevoando a cidade, feito o quadro do Chagall (figura aliás com quem Schwartsmann se parece muito).

Sua voz forte, decidida e sorridente foi nos contando que, sim, é possível, mesmo com mau tempo, realizar uma Bienal bela, representativa, relevante, envolvida no cotidiano da cidade, se fazendo acessível a todos, inclusive `aqueles que nunca têm acesso `a arte.

Sim, já temos um curador de " currículo robusto" - ele falou - contando que o crítico de arte alemão Alfons Hug, conectado com o Instituto Goethe, ficou tão entusiasmado com o convite, que pagou do seu próprio bolso a passagem, vindo a Porto Alegre rapidamente para conversar com Schwartsmann.

E o novo Presidente explicou que tudo vai acontecer ao redor da Praça da Alfândega, principalmente no trio de museus da cidade - MARGS, Santander e Memorial - e quiçá nos armazéns do cais. Falou também que o tema da Bienal acordado com o conselho e o curador será O Triângulo do Atlântico - Africa, América, Europa - explorando nos seus vértices tudo o que nos contagiou, nos construiu, nos fez sermos o que somos, vindo dessas três origens.

" Temos uma dívida histórica com os imigrantes negros, em nosso estado" - ressaltou Schwartsmann - "e isso precisa ser reconhecido, com um amplo espaço para a manifestação da sua arte, da sua história no RS".

A proposta é que O Triângulo do Atlântico se reflita não apenas nas artes visuais, mas em todas as manifestações de arte em 2018, em Porto Alegre, englobando música, literatura, o que puder nos traduzir na troca de influências culturais que definem o que hoje se chama gaúcho.

O arquiteto Mario Englert, que na I Bienal da Mercosul liderou a construção em tempo recorde de 30 mil metros quadrados de espaço expositivo, convidado a dar o seu testemunho, me encheu os olhos de lágrimas, quando se mostrou valente para reconstruirmos em nossa terra o tributo aos nossos antepassados que tanto lutaram para fazer dela uma boa terra. " É possível, sim, nós vamos conseguir, nós podemos - disse ele. "Tudo hoje nos diz ' vai embora', mas nós não vamos, nós vamos ficar e lutar e transformar".

Fiquei emocionada.

Lembrei dos meus bisavós italianos que caminharam - literalmente! - durante um mês, depois de atravessar o mundo, para cruzar da antiga Vila D'Eu- Bento Gonçalves - até Ajuricaba e recomeçar a vida lá na grotas.

Lembrei dos meus avós libaneses, que vieram do outro lado do planeta, nada no bolso ou nas mãos, ele que andava de porta em porta com seu baú de mascate, ela que varava a noite costurando para ter roupa pronta a oferecer no balcão de sua lojinha.

Me emocionei não porque sou artista. Mas porque sou gaúcha e neta e bisneta de imigrantes que passaram por crises muito piores do que a que passamos hoje. E não esmoreceram.

Há 12 anos voltei para o Rio Grande do Sul, depois de 20 anos em São Paulo, e amo ter voltado. Porto Alegre me encanta, mesmo com tudo de torto que nela acontece hoje. Eu, como esse povo forte que assume a 11ª Bienal da Mercosul, acredito que, sim, é possível ser feliz de novo. Se a gente quiser. Se a gente fizer.

Longa vida a Gilberto Schwartsmann e sua equipe! ( Graça Craidy)


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domingo, 4 de dezembro de 2016

Santa Frida, rogai por nós.

Outro dia eu justificava o mito da Frida como algo muito parecido com idolatria religiosa, Frida mitificada como a mulher mártir que superou valente suas terríveis e dolorosas limitações através da arte, da paixão e da política. 

Veja nas fotos a colheita que o Google me devolve, do mundo todo, para as palavras-chaves " Santa Frida". 

Interessante como a cultura se constrói e se contamina mutuamente, montando mitos que vão atravessando os tempos e as fronteiras e, mesmo que algumas pessoas aleguem cansaço, exaustas da exuberância do mito, parece que não adianta. 



Frida como amuleto, como santinha protetora das que têm medo, das desamadas, das desvalidas, das apaixonadas etc etc.

Há os que a amam porque foi feminista, exemplo de empoderamento e autonomia. 

Há os que admiram nela sua postura ideológica, perseverante das suas convicções socialistas. 

Há os que se encantam porque sua figura é folclórica, porque ela desafiou as más línguas com seu modo de vestir, de se pentear, valorizando suas raízes mexicanas. 

E há ainda os que a cultuam por sua obra dita surrealista, onde explorou sem medo suas dores, amores e despudores. 

O mito só morre quando morrem os desejos que eles nutrem.
( Graça Craidy)


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sábado, 26 de novembro de 2016

Patrulheiros de Frida.


Nos anos 60/70, surgiu uma espécie de perseguição política, desta vez intramuros, praticada por amigos, colegas, parentes - uns contra os outros - que, aliás, vige até hoje: uma bizarrice invasiva e desrespeitosa denominada "patrulha".

A expressão "patrulha" foi cunhada pelo cineasta Cacá Diegues, que um certo dia cansado de tanto cuidares de vidas e cabeças alheias, se rebelou: - fora, patrulheiros!  Em analogia aos policiais da rádio-patrulha rondando a vida dos outros para validar comportamentos e enquadrar quem sai da trilha.

Patrulha que pos-modernamente falando, o escritor Amós Oz escancara e chama pelo nome real: fanatismo.

Eu chamo de mala, mesmo - aquele tipo de pessoa que quer decidir por você o que você deve pensar, o que deve comer, em quem deve votar, e agora, parece, também, o que você pode pintar.

Saiba que um novo tipo de patrulha se descortina no horizonte: agora deram para patrulhar não apenas quem acham que é petralha ou coxinha, mas também quem ama, desenha ou pinta Fridas.

Sim, senhor! Fazem aquele ar esnobe bem anacrônico de intelectual metido a descolado e.... humpf! que noujo!

São os defensores frankfurtianos tardios da cultura em exclusiva esfera erudita fazendo crer que todo o resto é romero-brittagem. (Aliás, não sei porque pegaram o pobre Romero Britto pra Cristo, deixa o homem enricar em paz! )

Imagina eu que tenho quase 20 lindas Fridas pintadas. Escuto esse rosnar culturalóide, e fico que nem o Cacá nos anos 60/70: de saco cheio!

Ora, vão cuidar dos seus quadros, vão cantar ponto em outra freguesia!

Os patrulheiros contra Frida alegam que estão cansados de Frida. "Que triste, isso, naum?"- disse uma certa cansada, certamente membro da Royal Accademy of Arts. Fiquei aqui lembrando do tema Madona e o Menino, no passado. Cansativíssimo!

Gente chata e metida!

Outro dia uma criatura enlouquecida, minha amiga - amiga?! - professora de cultura - veja a incoerência! de cultura - entra feito caminhão desgovernado num post da pintura de uma Frida que eu tinha acabado de publicar e, totalmente ensandecida, ficou ali fazendo discurso que estava cheia, por-aqui, cansada de Frida! chamando quem gosta de Frida de medíocre!

Sorry! Medíocre, eu? No me hagas reír! Só se eu nascesse de novo, meu bem! E ri sozinha, lembrando que pelo menos duas das brilhantes intelectuais que eu conheço - Ana Maria Colling e Lu Vilella - também como eu adoram Frida. 

Olhei praquilo surpresa e, em respeito a ela, que achei que estava em surto, deletei sumariamente suas vociferações, por pura vergonha alheia e preguiça de bater boca.

Pois hoje, acabada de publicar o quadro de Frida que doei para exposição da Chico Lisboa e um moço - do reino dos cansados - comenta ironicamente que se a Frida ganhasse direitos autorais estaria rica, algo assim. Embutidos por trás do comentário pretensamente inocente uma crítica ácida e um enfado superior.


E não adiantou eu argumentar que não é a Frida, é o mito empoderador da Frida que move a paixão por ela, é o seu exemplo de vida, é a sua superação como mulher e como pintora, é a sua autonomia para ser o que quis - dentro dos seus limites que eram muitos -, entre outras mil razões que qualquer estudioso de cultura sério e sem preconceito iria descobrir.



Que Frida é tipo uma Santa Bárbara contemporânea, guerreira, Yansã. Que Frida é tipo uma São Jorge de saias. Que ter uma Frida por perto é como se nutrir da sua coragem de viver, da sua ousadia, sua atitude. Um amuleto amoroso.

E se você não gosta do que ela fez da vida dela, paciência. Talvez ela também não gostasse da sua, talvez ela achasse que a sua vida é que é medíocre. 

Naum?


Só não me venha tentar menosprezar essa escolha com ares pernósticos e suspiros langorosos. Eu pintei, pinto e pintarei Fridas. Gosto de Frida. Vou continuar pintando Frida até o dia que eu quiser e não até o dia que os patrulheiros das artes desejarem.

Ah, e saiba que o amor pelo pobre do Van Gogh também está em perigo e começando a ser execrado pelos semideuses de plantão. - Frida, Van Gogh, Anne Frank...Que triste, naum? disse a moça, solidária com a bobice do fridófobo.

Ara, vão plantar marijuana! E relaxem, seus cansados. 

(Graça Craidy)

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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Filminho de terror


Chamei um técnico em persianas para trocar o cadarço da persiana do meu quarto e enquanto ele desaparafusava a caixa da persiana, indaguei se nunca tinha se deparado com um morcego morando ali. 

Me pareceu um bom lugar pra morcego morar. 

Ele contou que sim, que já tinha encontrado uma caixa, certa vez, preta, de tão apinhada de morcegos e que...Ele interrompe a conversa e me diz: - opa, a sra. tem uma visita! 

Eu, já na porta, pronta pra correr, só com a cabeça pra dentro do quarto: - Não me diga que é um morcego! 

Ele, do alto da escada e das suas bochechas gordas e rosadas, me tranquilizou: - sim! mas não se assuste, já está morto há muuuuuitos anos. 

E riu, bem sacudida a pança. 

Apavorada com a ideia de haver dormido muuuuitos anos na companhia de um morcego, ainda repeti ofegante a ultima frase dele: - mor....to, é? 

E ele não me poupou da última punhalada: - sim! agora só está o esqueletinho dele! 

Ah, bom! O esqueletinho dele? Puxa, ainda bem! Que alívio! Adoro a ideia de dormir com um esqueletinho de morcego!
( Graça Craidy)

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

O homem cordial, um equívoco histórico.

Cordial vem de cor, coração, não bonzinho, mas movido
pelos sentimentos ( bons e ruins).
Assisti na UFRGS à interessante palestra de Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz, editores críticos da ultimíssima edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, livro fundador da compreensão do Brasil e do brasileiro, junto com Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

O livro, que completa 80 anos da sua primeira edição, já passou por 5 edições e mais de 600 ajustes e reajustes feitos pelo autor, só nas duas primeiras edições.

Buarque de Holanda, com seu famoso capítulo 5 sobre o conceito de Homem Cordial, teria vivido uma espécie de inferno astral permanente, desde que o público e a crítica elegeram sua visão da cordialidade do brasileiro como o hit do livro.

Por quê? Primeiro porque segundo pesquisas de Pedro Meira Monteiro e Lilia Moritz Schwarcz, o conceito de Homem Cordial não é dele, Sérgio Buarque de Holanda, mas de um outro escritor, Ribeiro Couto. Couto teria se referido ao brasileiro, antes de Buarque, como "daremos ao mundo o homem cordial", visão apropriada ao livro Raízes do Brasil para complementar a sua tese.

(Imagina que louco um intelectual como ele ser reconhecido gênio por um conceito que não é exatamente seu?)

Segundo, porque houve miles de mal-entendidos quanto ao conceito de Homem Cordial, principalmente por parte de Cassiano Ricardo, que teria contribuído para o erro de compreensão ao ressaltar o livro como um " tratado sobre a bondade" do brasileiro, entendendo erradamente que cordial viria de "gentil, sociável," ao contrário do que realmente Buarque queria significar.

Cordial, diz Buarque, vem de "cor" = coração, ali onde acontecem as emoções - as boas e as ruins - e que esse homem movido pelo coração e suas paixões pratica suas relações com o público como se fosse privado, privilegiando sempre a família e os seus.

Quem não conhece esse jeito de fazer as coisas no Brasil? Basta lembrar a votação do impeachment, lembra Lília.

Lilia conta que garimpou a expressão " homem cordial" em jornais, revistas, e descobriu-a, por exemplo, na boca ignorante de Geraldo Alckimin em pleno exercício de um suspeito politicamente correto, ao dizer em um discurso que, no Brasil, o homem é cordial e a mulher também. E Lília ironiza: " ao fazer isso ele está dando um toque a Sérgio Buarque de Holanda, como quem diz, você não falou na mulher, falo eu."

Os editores contaram também das ressonâncias do famoso prefácio de Antônio Cândido ao livro, que muitos consideram o último capítulo extraoficial e outros, menos bondosos, entendem como o local onde Cândido teria inventado um Sérgio Buarque de Holanda que não existe.

Essas e outras descobertas picantes e interessantes fazem do último Raízes do Brasil um must a ser saboreado com vagar, porque é um livro que não se acaba nunca, está sempre em processo, dizem os editores críticos: a cada novo momento histórico as pessoas o lêem de um jeito, conforme suas dores e amores sociais atualizados. A ver!

( Graça Craidy)

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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Israel Kislansky: a arte como ficção.

"Arte é o fenômeno cultural que conta como vivemos a realidade." 
Assisti à palestra do fantástico escultor, pintor e desenhista baiano radicado em São Paulo, Israel Kislansky, no Atelier de Cerâmica Katia Schames.
Figura doce, serena, voz mansa, nem parece que esculpe mulheres gigantescas, um verdadeiro mestre, um impressionante sábio.
Considerado entre os maiores escultores em cerâmica e fundição do Brasil, não se vê nele um pingo de arrogância. É um igual, ali, contando pra gente, com seu amoroso timbre rouco, o que aprendeu em sua caminhada.
E ao dar uma aula magnífica sobre a História da Arte através da escultura, vai tecendo a tessitura doida da história dos homens que buscam, cavam, brigam, destroem, começam de novo, em seu eterno ciclo e reciclo de construir e destruir.
Aos poucos a gente vai-se dando conta de que a arte é sempre registro dessa luta, traduz em si o que vige na página da Historia onde foi esculpida. Não necessariamente evolução, mas registro.
Então, ele começa contando da escultura rígida, arcaica e vai desenrolando o corpo, do sagrado representando deuses, até a assumpção total de cada veia, músculo, carne dessacralizada. Pra depois, cataploft! Começar tudo de novo em surpreendente arcaismo de mais uma vez a arte retratando rigidez e ausência de carnaduras, reflexos da sociedade onde se criou, bem como aliás apontam os estudiosos de Birmingham, dos Estudos Culturais. De que a arte é concretamente o que naquele momento a sociedade deglute.
" A arte é a necessidade de experimentar outra realidade."
Quando chega em Roma, ele conta que a estatutária romana inventa o retrato.Quando chega em Rodin, ele avisa: -aqui o homem começa a conversar consigo mesmo. E se vai.
Para Israel Kislansky, que homenageia o seu mestre J. A. Van Acker, ARTE É FICÇAO, o lugar da invenção, da expressão, da criatividade. O lugar onde o homem reescreve o seu percurso, ficcionado. "Arte é o fenômeno cultural que conta como vivemos a realidade." - diz ele. A criança, por exemplo, vive todo tempo em um ficcional inventado por ela. Quando cresce, vai viver a ficção na arte: no cinema, na música, na literatura.
A vida representada pela arte poderia se resumir em três pontos - explica ele: ponto de interrogação, de exclamação, ponto final. De interrogação, a arte que questiona, pergunta; de exclamação, a arte que exubera, se exclama, e ponto final, a arte que simplesmente mostra o fato objetivo, sem grandes manifestações. ( Claro que eu me identifiquei com exclamação e interrogação! )
Kislansky entende que a arte tem também a função de organizar. E explica: " a arte é organizadora, porque há muito de inexplicável na vida, e a arte faz sentido, então, organizando o caos".
Para concluir, ele reforça o lado emocional da arte - contrariando os racionais arte-conceitualistas que rejeitam a emoção - e é categórico: " a arte é a necessidade de experimentar outra realidade, outra experiência emocional". A-mei! Obrigada, Katia Schames, por nos proporcionar esse privilégio!
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Arte ou bla-bla-blá?

O impagável Tom Wolfe, eterno mestre do New Journalism, em seu livro A PALAVRA PINTADA (Rocco, 1975), descreve com ironia e fatos e nomes a derrocada fatal da pintura no século XX.

Para Wolfe, por graça e ação de três críticos de arte americanos, Greenberg, Rosenberg e Steinberg, a pintura terminou cedendo seu lugar à Teoria, que acabou por se tornar - ela própria, a Palavra - mais importante, mais Arte que a própria Arte. A tal Palavra Pintada que dá nome ao livro.

No decorrer da leitura, o autor percorre os vários movimentos da arte nos Estados Unidos, em uma ação paralela que vai banindo da tela detalhe por detalhe, tudo o que se refere à pintura dos séculos anteriores, até fazer desaparecer, por fim, a própria tela e a própria pintura, com " o solvente universal da Palavra".

E nesse apanhado, ele repassa as palavras de ordem que comandaram esse desmonte da arte, como "superfície plana e fuliginosa", "arte de ação", " toda arte versa sobre arte" e " toda obra profundamente original parece feia a princípio" etc.

Quando o movimento da arte chega à etapa chamada Minimalismo, Wolfe joga a toalha e, na página 117, reconhece a derrota:
" E, finalmente, ali estava! Nada de realismo, nada de representação de objetos, nada de linhas, cores, formas e contornos, nada de pigmentos, nada de pinceladas, nada de evocações, nada de molduras, paredes, galerias, museus, nada de se torturar diante da face angustiada da deusa da superfície plana, nada de plateia, apenas um 'recebedor', que pode ou não ser uma pessoa, ou pode ou não estar presente, nada de ego projetado, apenas ' o artista', na terceira pessoa, que pode ser qualquer um ou ninguém, pois nada se exige dele, nadinha, nem mesmo que exista, pois isso se perdeu no modo subjuntivo - e naquele momento de abdicação absolutamente desapaixonada, de desaparecimento desinteressado, a Arte fez o seu voo final (...) e saiu pelo outro lado sob a forma de Teoria da Arte".


E foi assim que a arte virou blá-blá-blá. ( Graca Craidy)
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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Um cusp! para Bolsonaro.

Até um asno entende que ele diz. Aliás, são os que mais entendem. 

POR QUE BOLSONARO, um sujeito claramente limitado e com um discurso repulsivo sob todas as formas - homofóbico, misógino, racista, fascista, fanático, fundamentalista, asqueroso, enfim - faz sucesso e vira mito, apupado por certos grupos? 

Porque ele, ainda que diga barbaridades atrozes,é fácil de entender. Ainda que imoral, impensável, tudo o que ele diz é rasteiro, palpável, não tem proparoxítonas nem o palavrório difícil e aparentemente suspeito do usual discurso político. 

Até um asno entende o que ele diz. Aliás, são os que mais entendem. 

A conversa dele é de galpão, de muro, de cotovelo na janela, de boteco de pinga, de bolicho de sinuca. Ele encarna como ninguém o pensamento mágico infantil, o discurso reto, sem firulas, pseudo paternalista, fanfarrão, sem caráter, do sujeito que sabe o que fazer, não importa se é ético ou não - pode deixar, papai cuida de tudo! - do sujeito que promete ir lá e resolver o problema, com dois ou três tapas na orelha de quem discorda. 

A conversa dele é de bandido, de super-herói de mentira. Mentirosamente, ele faz a ovelhada medrosa acreditar que em sociedade tudo é possível de ser resolvido com beligerância e autoritarismo, muito além da moral. Ou, pior, com falsa moral. 

E nessa falácia, ele faz um atalho estratégico no discurso, deixando para trás a parte incompreensível para quem não pensa com a própria cabeça: a complexa necessidade da dura negociação inerente à democracia, da administração delicada dos contrários, da busca de consenso, da superação das diferenças por uma causa maior que a da cartilha do primeiro ano fundamental ou do catecisminho de domingo. 

Ovelhas adoram gente assim, que as poupam de raciocinar, de decidir, de compreender os meandros difíceis das relações humanas. Ovelhas adoram salvadores do rebanho, adoram não precisar refletir, não precisar arriscar, não precisar negociar, não precisar nem escolher o que é certo e o que é errado. Ovelhas adoram seguir o pastor. 

Não é à toa que um dia acabam virando tapetes, ops, pelegos. Cusp!(Graca Craidy)

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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Das vantagens de ser filho do meio.

Eu sou a tadinha-de-mim número 2.
Outro dia alguém veio me reclamar com um beiço deste tamanho que era filho do meio, mimimi mimimi mimimi. Cortei o assunto com mil argumentos contrários e te lo juro que não foi pra consolar. Digo mais: não falei por ouvir dizer. Ninguém me contou. Não li em lugar nenhum. Eu sou filha do meio, beibe. Para ser mais exata: a segunda, de quatro filhos. Isto é, do meio, mesmo. Como dizia um amigo meu: eu sou a tadinha-de-mim número 2.

Sim, porque depois de Freud, Édipo e Electra, é até um tédio essa história de filho com pai-mãe: os culpados são sempre os mordomos. Não falta um baú de choramingos do que ficou a mais ou a menos na educação que receberam.

Filho sempre acha que foi pouco.
Não basta carregar o alienzinho na barriga apertando tudo lá dentro, empurrando tripa, rins e coração pra fora do lugar, crescendo dia após dia, pesando, cansando, e depois de nove meses causando uma hecatombe pra nascer, seja por parto anormal  (na minha concepção, todo parto é anormal, haja vista a desproporção do que se pare e por onde se pare) ou cesariana. Não. Não basta. Ainda tem que passar anos limpando fralda, dando de comer, beber, etc. Enfim, todo o kit que acompanha Edipos e Electras.

Não basta também sustentar aquela boquinha de jacaré sempre com fome, comprar roupa, videogame, pagar estudos, escolinha de futebol, inglês, balê, ritalina e tudo mais. Eles sempre vão achar que foi pouco, ou que foi errado, ou que foi menos do que mereciam ou precisavam.

Você é um filho do meio bem resolvido?
A não ser que você seja um filho do meio bem resolvido. Resolvido na marra, claro. Porque cedo na vida, muito cedo, mesmo, você descobre que chegou tarde pra festa de primogênito e cedo demais pra festa do caçula. No entremeio do filho do meio não tem festinha, já sabe, né? Também não tem albinho de teste do pezinho, mechinha de cabelo com fitinha, palavrinhas que pronunciou pela primeira vez, presentes que ganhou, nem foto de primeira comunhão, nem aquelas de cinco poses uma chorando.

Não. Neca de pitibiribas. Pai e mãe de filho do meio estão sempre exaustos, já caíram na real da trabalheira desgraçada que dá um filho, já não têm mais forças nem pra juntar a chupeta do chão e lavar com água fervida. Nhé! O que não mata, engorda! Quando muito, limpam esfregando a chupeta na roupa. Quando muito.

E assim o gurizinho, a guriazinha já cresce fortinho, desde cedo, sobrevivente imune às bactérias do chão e de todos os lugares nojentos e perigosos onde uma criança costuma transitar.

Primeira batalha, um a zero pro filho do meio.

Vantagem: ninguém dá bola pra você.
A outra vantagem é que ninguém dá muita bola pra você. Por isso também ninguém pega muito no seu pé. Porque, afinal, você quase não existe, né? É uma assombraçãozinha que se cria a la cria no vai do vento.

Entonces, você filho do meio - se não for um chantagistinha pentelho mas um garoto esperto e atento às oportunidades - logo se dá conta, exultante, de que como você é invisível, você tem o salvo-conduto dos invisíveis: você pode ir e vir para qualquer lugar, qualquer, mesmo, que ninguém vai encher o seu saquinho, tampouco reparar que você foi. Ou voltou.

Que a minha mãezinha não nos ouça, mas eu me lembro muito bem, por exemplo, de ir à matinée do Cine Serrano domingo, a meia quadra da minha casa, sozinha, com uns  7 anos de idade. E ninguém não tava nem aí pra minha perigosa incursão. Eu pagava a entrada do cinema com selo de carta, que eu achava nas gavetas da minha vó, atravessava a rua, ia ao cinema, comprava a entrada e assistia ao meu Jim das Selvas, meu Joselito, minha Marisol, meu Tarzan. Eu e Deus. Na buena. Lá pelas 4 da tarde, acabava a sessão, eu atravessava a rua de volta e atinava que ninguém tinha se dado conta da minha ausência. Eba! Ninguém pra pôr a mão no peito e sair ofegante pela casa: - cadê a Graça??? Não. Filho do meio, lembra?

Filho do meio é um estrategista.
Outra vantagem de ser filho do meio é que você, por passar desapercebido, pode fazer as coisas mais horríveis e proibidas do planeta e ninguém perceber. Porque se você é um filho do meio inteligente você já deve ter notado que é melhor não bater com ninguém de frente, não dar na vista, não contrariar, não emitir opiniões polêmicas. Apenas observar. Muito. Quem manda em quem. Quando. Por que. E elaborar estratégias muito bem elaboradas. Seja em prol de si próprio ou contra algum irmão. Maior ou menor. Importante planejar tudo com muito cuidado.

Por exemplo: se pai ou mãe diziam categoricamente é proibido fazer tal coisa, era o que bastava pra assanhar as lombrigas do filho do meio. Cedo ou tarde, pai ou mãe iam se distrair e filho do meio faria e-xa-ta-men-te o que era proibido. Na maciota. Na calada. Bem quietinho, sem ninguém saber. Filho do meio não tem cúmplices, não confia em ninguém para atos tresloucados, é um andarilho audaz e solitário. Carreira sempre solo.

Carreira sempre solo.
Lembro que disseram que o livro Senhor Embaixador do Érico Veríssimo era proibido de criança ler. - Terminantemente! sublinharam. Sei!...Na primeira oportunidade, olha a Gracinha folheando curiosa página por página do Senhor Embaixador até descobrir por que ele estava proibido para menores. Ahá! Achei, bem lá no finzão. Deve ser isso, me lembro que pensei. O cara fala que vai doar os cojones dele. Cojones? Hummm! Acho que eu não sabia o que queria dizer cojones, tampouco carajo, mas deduzi - criança é maliciosa de nascença, não sei porque falam que criança é inocente - que devia ser nome feio, bagaceirice. Pronto! Fechei o livro, coloquei cuidadosamente de volta na gaveta da mesa de cabeceira do meu pai e saí, triunfante, cochichando mentalmente cojones, cojones, cojones.

É bom ser filho do meio porque ninguém espera grandes coisas de você. Grandes coisas, quero dizer assim como esperam do filho primogênito, Deus me livre o que pai e mãe e família esperam de filho primogênito. Até entendo o cara aquele da Bíblia ter trocado sua progenitura por um prato de lentilhas. Barra pesadíssima, meu irmão!

Filho do meio é livre pra ser o que quiser.
De filho caçula, também, esperam uma coisa muito estranha, não sei se é impressão minha, mas não parece que eles esperam que o caçula não cresça nunca, que nem o Peter Pan? Digo isso porque o sujeito que é o caçula pode ter 80 anos de idade e todo mundo da família ainda fala olhando pra ele como se fosse um bebê: - é o nêne! Confesso que prefiro ser do meio. Já que ninguém espera nada de você, você é livre para ser o que quiser. Não é muito melhor?

De modos que se acontecer de você cruzar com filho do meio choramingando por aí que meu pai isso, que minha mãe aquilo, que meus manos aquiloutro, lembre de mim. E não acredite, meu bem! (Graça Craidy)

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domingo, 19 de julho de 2015

Wood-facebook.

 O negócio é vampirear.
Não sei se você notou, mas o Facebook deu à luz um tipo de gente cara de pau e competitiva que adora pegar carona nos posts dos outros pra se projetar, assim tipo o anão e o gigante do filme Madmax, só que ao contrário: quem sobe no ombro do cabeça é o caroneiro.

É até engraçado, porque se você vai na página da pessoa, é um Saara intelectual: você só encontra florzinhas, bichinhos e posts pífios com prazo de validade vencido.

Sim, geralmente a pessoa que adora encher a página da gente com seus pensamentos, comandos e tem-ques não escreve coisa nenhuma na página dela. O negócio dela é vampirear, mesmo, nas páginas alheias.

Snifsnifsnif, ela vem farejando com sua fuça rapinosa e aproveita a oportunidade quando se depara com o seu post interessante que, por estar em sua página - isto é assinado, endossado por você -, você pesquisou, burilou, caprichou, não vai sair postando no Facebook qualquer porcaria, né, afinal, é o seu nome que está ali.

 O Facebook é tipo um jornal.
O que a pessoa-vampira quer é aproveitar que você se expôs e trazer o mundinho dela pra dentro do mundo que você acaba de apresentar, tentando se apoderar um pouco do brilho que porventura você tenha obtido com a sua escolha.

Digo apresentar, porque pra mim a minha página do Facebook é tipo um jornal que eu edito com pauta decidida por mim. Pauta que eu escolho com muito critério porque me interessa que meus eventuais leitores saiam mais ricos de alguma maneira da minha leitura. E me proporcionem a contrapartida de me enriquecer, também, trocando figurinhas e nos divertindo de bom escambo.

Porém, devo esclarecer: sinceramente, não escrevo ali para servir de suporte a vaidades ou ideologias alheias. Principalmente se a vaidade ou ideologia alheia não consegue se manifestar civilizadamente, e usa de alguns recursos que eu, mais por ser velha que diaba, percebo de longe e já começo a encilhar meu cavalinho pra sair a trotezito da chuva.

Por exemplo, você está contando de uma viagem, como fiz recentemente, bem entusiasmada descendo a detalhes, mostrando fotos etc, a pessoa essa é acometida de uma profunda e lancinante inveja e fica se remoendo: como é que eu posso ficar melhor na foto que ela? como é que eu posso ficar melhor na foto que ela?como é que eu posso ficar melhor na foto que ela? E tasca qualquer coisa que geralmente nem tem a ver com o assunto, citando alguma viagem que tenha feito, onde brilhou e aconteceu e foi mais feliz - muuuito mais feliz! - que a pessoa que escreveu o post. E a inveja dela fica ali rodeada de luzinhas- pisc! pisc! pisc!- entregando pra todo mundo o quanto ela ficou incomodada com a questão.

Por que não me desclica?.
Ora, me pergunto, por que cargas d'agua a criatura vem ler o meu post? Por que não segue adiante, me bloqueia, me desclica em "seguir" e nunca mais nada meu aparece na Timeline dela? Não sei. O negócio dela é ficar atenta e quando tilinta o sino de alguma alegria minha, ela vem correndo e segura a corda e tasca o verdor da sua inveja transfigurada de eu-também-e-mais-muito-mais.

Mesma coisa os ideológicos e suas viseiras. Você fala X, Y ou Z e eles entram de sola com seu discurso de frases feitas e agressivas, que me irritam profundamente porque a mim parece que vomitam sem-cerimônia no tapete da minha sala sem me pedir licença.

Não meca! No tapete da minha sala, hã-hã.

Esses tempos teve uma que, ociosa, bem se vê, e em não havendo mais onde despejar seu conhecimento acumulado, achou de vir dia e noite na minha página polemizar sobre qualquer assunto, de música a arte, de política a besteirol.

Tudo que eu postava, ela tinha apartes cheios de proparoxítonas tentando me fazer ver o quão ignorante ou mal-informada eu estava sendo, ao mesmo tempo em que ficava argumentando na esperança de que eu, vencida pelo cansaço, anuísse, enfim, ao seu ponto de vista. Até nos momentos em que eu conversava nomeando outra pessoa, - viu, Fulano? - ela se botava com os quatro pés no meio da conversa, me fazendo ver o quanto eu estava enganada, para meu tédio e dissabor.

 Ops!
Depois de muito contornar, procurando ser gentil, ou no mínimo educada - coisa que sou, pero muy mal-aprendida, devo dizer - tentando levar para o lado do humor, cheguei à fatídica conclusão de que só havia um jeito de me livrar de seres humanos assim enquanto chatos. Apertando o botão do delete.

E foi o que eu fiz. E é o que eu faço. Quando percebo que a criatura que me visita está me tirando pra rufião*, escada pro seu discurso, luz néon pra sua inveja mal-resolvida, não tenho o menor pejo. Deleto. Deletei. E deletarei. Ops! ( Graça Craidy)

* Rufião é um cavalo castrado usado para detectar que éguas estão no cio; ele leva as patadas e os rechaços das fêmeas, abrindo caminho para o cavalo reprodutor entrar em cena e cobrir a égua.

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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Afasta de mim este cale-se. Os peremptórios estão chegando.

Petardos retórico-salivares.










Toda época tem o seu deus. Na nossa, uma divindade se destaca mais que todas as outras: a do Peremptório.

Deus nos livre do Peremptório! O Peremptório é uma deidade cruel. Frio. Implacável. Intocável. Irretrucável. Irretorquível. O mais puro de todos. O mais bem-informado de todos. O que tudo sabe. O que tudo vê. O que tudo critica. O que tudo julga. O que tudo estudou, leu, releu. O que tudo acusa. E, principalmente, o que ninguém pode contrariar.

Ai de ti, Betsaida, se não caires nas graças do Peremptório. Melhor não. Porque se você ousar pensar diferente dele, ter as suas razões, apostar no seu próprio juízo de valor, ser fiel à sua maneira de pensar, à sua experiência, ao que você acredita, ser enfim, honesto consigo mesmo, você é um homem potencialmente morto a petardos retórico-salivares pelo Peremptório.

A democracia vai pro brejo e muge.








Não importa a categoria, o tema, o assunto. Pode ser política, arte, música, futebol, questões condominiais, gosto, desgosto, de uma coisa pode ter certeza: se você pensar diferente do Peremptório, reflita bem antes de falar. Você está com tempo? A paciência é uma das suas virtudes? Fez cursinho no templo zen de Três Coroas? Então, puxe um banco. Porque se tem coisa que deixa o Peremptório mais peremptório ainda, atacado de agudíssima peremptorice é o Outro - qualquer Outro - se manifestar publicamente de maneira oposta à dele. Aí a democracia vai pro brejo e muge, muge, muge. Mas ninguém escuta.

Não pertencer ao reino dos Perempórios é ter que se sujeitar a uma saraivada de argumentos os mais diversos catados em todas as instâncias do pensamento. E, se o Peremptório for acadêmico, adicione uma saraivada de citações, cada entre aspas um metralhar de setas ponteagudas direto na sua jugular, que querem dizer apenas e tão somente uma coisa: cale-se, cale-se, cale-se, idiota!

O Peremptório não aceita que ninguém pense diferente dele. O Peremptório adora uma unanimidade, não importa o que Nelson Rodrigues tenha alertado a respeito dela. Desde que seja una com o que ele acredita.

Sonha com um totalitarismozinho básico.








O Peremptório não dorme enquanto não convencer quem diverge dele a concordar com suas ideias. Ele adora proclamar que a democracia é o melhor dos sistemas mas na hora do vamos ver, é o primeiro a sonhar com um totalitarismozinho básico, onde ele é o rei da cocada preta e você o peão sem cuca e sem cocada. Peremptórios amam subestimar o interlocutor. Você não concorda com ele? Você só pode ser um ignorante, um burro, um alienado, um mal-informado, um coxinha, um petralha, um esquerdinha, um direitoso, um isso ou, quem sabe até bem pior, um aquilo!

Faz parte da estratégia do Peremptório inibir seus interlocutores com a ameaça de ostracismo intelectual. Sim, aquele dedão apontado pra você não está apenas dizendo que discorda de você. Está bradando que você é um sem-QI, um pobre coitado dum mortal que obviamente não sabe das coisas pois - imagina! - ousa discordar dele. Você só pode ser um mentecapto, um estulto, um bocó, talvez até um bocó de mola, mais feio ainda. 

Peremptórios adoram se colocar no trono e jogar seus oponentes aos crocodilos para manterem a sua majestade e o seu reino peremptoriesco engalanado com suas aspas citativas, como se citando alguém famoso você fosse obrigado a se curvar às supostas evidências e concordar, finalmente, com ele. E a mí quê? diria minha mãe.

Neverending trololó.








Tem um tipo especial de Peremptório que me bate especialmente nos nervos: é o Peremptório que adora usar o Outro como seu  sparring intelectual fazendo cama pra ele brilhar com suas proparoxítonas e construções imagéticas. Ah, confesso que esse, quanto mais entrudo, mais rápido está pedindo pra sair.

 Ainda que eu tenha o poder de bloquear o Peremptório no feice e me livrar per omnia saecula saeculorum de seu neverending trololó, penso muito antes de tomar essa decisão radical. Dou várias chances ao Peremptório. Mas chega um dia em que não há mais alpargata sete-vidas que resolva e então eu passo para a fase dois, que antigamente a gente chamava de gelo e hoje em dia a gente chama de delete. Xô, Peremptório! Vá cantar marra noutra freguesia! Faça-me o favor. Pô.
(Graça Craidy)

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