Baudrillard: O Ocidente tem a mania de fazer o Bem sem escrúpulos.

Jean Baudrillard lava a égua.

Tudo o que ele precisava para reforçar suas teses sobre a fantasmagoria do Ocidente, a perniciosa homogeneização, o fim do universal em favor do global, os signos gêmeos, a rede-vírus, a ausência de valores, a indiferença, a impossibilidade do apocalipse e o virtual fatal, encaixa como um lego no único fato considerado por ele digno de ser chamado hoje de “acontecimento”: o ataque terrorista ao World Trade Center.

Cada um dos capítulos de seu livro Power Inferno (2003) está prenhe de velados e inteligentes “eu-não-disse?” baudrillardianos.

Ele disse que um signo duplicado perde a sua designação original. Strike! Não só Bush Filho é clone de Bush Pai, como as torres eram gêmeas, tautológicas do sistema que encarnavam, “modelização informática, financeira, contábil, digital, (…) o cérebro dele”. Destruídas as twin towers, ferimento de morte no que elas representavam.

Baudrillard diz mais: que tudo aconteceu por uma cumplicidade da própria potência atingida, cuja, ruindo por dentro em sua arrogância de querer ser o único modelo do mundo, tornou-se “suicida”.

Mas, ele analisa também outras hipóteses sobre o terrorismo: que pode acelerar a influência planetária do pensamento único; que é expressão real do desespero dos povos oprimidos; que pariu o irmão gêmeo diabólico do sistema; que cria bruscamente uma zona de troca impossível em um sistema de intercâmbio, desconfortando inapelavelmente a potência, por não oferecer a ela um valor de troca, somente a morte, “arma absoluta”. Na morte, a libertação do “escravo”; na sobrevivência do “senhor”, a sua transformação em eterno refém da não-morte.

E ele só abre uma pequena brecha para um insólito tom otimista quando fala na quebra do espelho do universal pela globalização: “talvez seja uma sorte, pois, nos fragmentos desse espelho quebrado, ressurgem todas as nossas singularidades”.

De todas as hipóteses, porém, a que Baudrillard considera “soberana” é a que pensa o terrorismo como “a emergência de um antagonismo radical no próprio seio da globalização”,(…) “contrapoder viral”, o 11 de setembro como uma reação ao Ocidente e à sua mania de – ironiza - “fazer o Bem sem escrúpulos”.

Baudrillard atribui ao terrorismo a vingança das culturas singulares desaparecidas e a cristalização do terror homeopático já presente em toda a parte, hoje, “na violência institucional, mental e física”.

Acima de tudo, porém, a vitória real do terrorismo - para o autor - é ter mergulhado todo o Ocidente na obsessão pela segurança, “ou seja, numa forma velada de terror perpétuo”.

Baudrillard entende que a guerra de Bush foi como uma “vontade de anulação, purificação e lavagem do acontecimento original” que, mais que atingir as torres, humilhou os americanos.

Daí seu leitomotiv “zero morte” criando uma nova e estranha ação bélica: o terror preventivo. Em um perigoso comportamento persecutório e desprezando inclusive seus princípios humanistas, o próprio sistema, por enxergar terrorismo em tudo, acaba por “aterrorizar a si mesmo”, cotidianamente.

Todas as sextas-feiras, de 11 de setembro de 2001 pra cá, são 13.

Referência:

BAUDRILLARD, Jean. Power Inferno. Réquiem para as Twin Towers. Hipóteses sobre o terrorismo. A violência do global. A máscara da guerra. Porto Alegre: Sulina, 2003.

(Graça Craidy)
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