Como era gostoso o meu francês argentino

Vila Madalena, bar Piratininga, Sampa. Sentada sozinha em uma mesa de canto, à espera dos meus amigos, eu saboreava um cálice de vinho tinto, cigarro na mão, o olhar passeando ao redor lentamente como a luz giratória de um farol, no meu velho hábito de observadora solitária da fascinante fauna humana.

Acende, apaga, acende, apaga, o ritmo suave das minhas pálpebras descendo e subindo nos olhos pretensamente desatentos, marcava também o crescendo do radar dos meus ouvidos que pouco a pouco iam distinguindo os sons das conversas alheias, principalmente as que vinham da mesa em frente, onde um grupo de três amigos e uma moça esvaziavam, céleres, o whisky de uma garrafa de Buchanan's.

O ritual dos cubos de gelo retinindo no copo e logo depois o líquido dourado escorrendo entre eles, mesclado à mistura dos timbres das vozes, tornava a minha espera não apenas leve, mas intrigante.

Um dos vizinhos, especialmente, me atraía o olhar. Primeiro, porque falava mais alto que os outros, liderando a conversa em um tom irônico, dramático, debochado e de sofisticado vocabulário. Segundo, porque arrastava os erres das palavras, enganchando nas esquinas das frases, e eu - por auditiva e musical - fiquei curiosa em descobrir se era aquele erre de judeu de língua presa ou de estrangeiro.

Até a hora em que ouvi ele falando sobre a solidão dos urbanos, a dele maior que a de todos os outros: - Sou tão sozinho, cara, que a única que me beija na boca, todas as manhãs, é a tuba. E eu deixo, porque senão, nem ela...Pobre humanidade, a nossa, que não consegue se relacionar nem para fazer jus a um bom e merecido beijo na boca matinal!

Ri sozinha no meu canto daquele tom shakespeareano e fiquei pensando: - Nossa, um moço tão interessante e só tem uma tuba pra lhe beijar a boca? Aliás, quem será tuba: a empregada? uma cachorra? uma gata? ou uma tuba, mesmo, dessas de banda?

Tarde demais. O moço dos erres enganchados percebeu o meu sorriso e dirigiu-se, então, diretamente a mim: - E não é verdade? Você também aí, solitária como toda a humanidade, junte-se a nós, sente-se aqui e brinde conosco à saúde dos amigos, que isso é só o que conta hoje, neste domingo desolador. ( Desoladorrrrrrrr, ele falava, o erre rolando na língua, pra lá e pra cá.)

- Esse erre é de francês! - eu arquivei mentalmente, enquanto levantava e, com meu melhor sorriso, puxava minha cadeira até a mesa deles, avisando que esperava amigos, mas que teria prazer, sim, em fazer um brinde.

O francês, com os cabelos castanho aloirados, fartos e em desalinho, acompanhados de sedutores olhos castanhos avelã, tinha feições delicadas, harmoniosas, mas de traços claramente masculinos, acentuados por um nariz adunco.

Ao seu lado, a moça loira bonita, de cabelos longos e lábios bem desenhados, sorria amigável com seus dentes brancos e fortes, vestida de jeans e blusão, como quem foi à aula, não como quem vai ao bar.

Do outro lado da mesa, na parede, um baixinho minguado com voz estridente, dentes separados e uma franjinha infantil falava sem parar, como falam aqueles que nunca escutam os outros e tampouco são escutados: falam junto, falam antes, falam durante, falam depois.

E, finalmente, ao lado do esganiçadinho, um sujeito meio careca, atarracado, moreno e de fala mansa, vestindo uma jaqueta bege que já lhe parecia apertada, acompanhava o discurso do amigo cheio de erres, com um certo ar pachorrento de quem estava acostumado àquelas alegorias literárias.


Quanto mais vinho eu tomava e o francês falava, mais eu ficava interessada em seu discurso, porquanto único, desaforado, engraçado. Ele falava coisas do tipo:
- Sou casado, mas minha mulher sabe que eu é que não vou ficar me arrastando pela vida trepando com uma mulher só...Impossível, Mon Dieu, não há quem passe uma vida ao lado da mesma mulher e deseje ela pra sempre. C'est la mort!

Dei uma gargalhada do " arrastando pela vida" e comentei: "- Rapaz, você tem síndrome de argentino. Tudo é trágico!".... Ele me beijou a mão, pelo chiste. Atrapalhada com o entrevero dos nossos braços, derrubei a garrafa da água mineral espatifando-a no chão. Ao que o moço, generoso, emendou arremessando uma taça também, ao solo, em apupos alegres de santé! santé! àquele momento tão especial.

Meus amigos - um homem e duas mulheres - acabaram também se juntando à mesa.
Resultado: depois de horas de risadas e dardejantes mensagens de sedução dirigidas a mim e mais tarde, também, às minhas amigas, quando se falou de tudo, de física quântica à influência da TPM no fracasso das relações afetivas, da tuba às energias contidas numa floresta, achei por bem ir para casa, que dia seguinte acordaria cedo.

Meio de pilequinho, risonha e pasma, vim embora pensando que há muito tempo um domingo à noite não era tão fantástico assim. Que tevê, que nada...Aquilo sim que era o show da vida.
(Graça Craidy)
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6 comentários:

  1. Um crédito à minha amiga Adriana Gragnani, que me convenceu de que a tuba nao era cachorro nem gato nem empregada. Mas uma tuba, mesmo, instrumento musical. Beijar uma tuba, disse ela, é terrivelmente solitário! Concordei.

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  2. Paulo Tiaraju Aquino escreveu:

    Quando a gente lê o blog da Graça Craidy, o cérebro agradece e o coração também.

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  3. Gracita, apaixonantes esses personagens! Bom, se eram pessoas, viraram personagens no seu texto!!! Beijocas

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  4. Tati Ch escreveu:

    Os documentaristas também roubamos !!! Gosto do teu texto, desse linguajar solto , vivaz e poético. Très bien!!!

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  5. Isto se chama de requinte social. Um primor de texto, prima !

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