Wood-facebook.

 O negócio é vampirear.
Não sei se você notou, mas o Facebook deu à luz um tipo de gente cara de pau e competitiva que adora pegar carona nos posts dos outros pra se projetar, assim tipo o anão e o gigante do filme Madmax, só que ao contrário: quem sobe no ombro do cabeça é o caroneiro.

É até engraçado, porque se você vai na página da pessoa, é um Saara intelectual: você só encontra florzinhas, bichinhos e posts pífios com prazo de validade vencido.

Sim, geralmente a pessoa que adora encher a página da gente com seus pensamentos, comandos e tem-ques não escreve coisa nenhuma na página dela. O negócio dela é vampirear, mesmo, nas páginas alheias.

Snifsnifsnif, ela vem farejando com sua fuça rapinosa e aproveita a oportunidade quando se depara com o seu post interessante que, por estar em sua página - isto é assinado, endossado por você -, você pesquisou, burilou, caprichou, não vai sair postando no Facebook qualquer porcaria, né, afinal, é o seu nome que está ali.

 O Facebook é tipo um jornal.
O que a pessoa-vampira quer é aproveitar que você se expôs e trazer o mundinho dela pra dentro do mundo que você acaba de apresentar, tentando se apoderar um pouco do brilho que porventura você tenha obtido com a sua escolha.

Digo apresentar, porque pra mim a minha página do Facebook é tipo um jornal que eu edito com pauta decidida por mim. Pauta que eu escolho com muito critério porque me interessa que meus eventuais leitores saiam mais ricos de alguma maneira da minha leitura. E me proporcionem a contrapartida de me enriquecer, também, trocando figurinhas e nos divertindo de bom escambo.

Porém, devo esclarecer: sinceramente, não escrevo ali para servir de suporte a vaidades ou ideologias alheias. Principalmente se a vaidade ou ideologia alheia não consegue se manifestar civilizadamente, e usa de alguns recursos que eu, mais por ser velha que diaba, percebo de longe e já começo a encilhar meu cavalinho pra sair a trotezito da chuva.

Por exemplo, você está contando de uma viagem, como fiz recentemente, bem entusiasmada descendo a detalhes, mostrando fotos etc, a pessoa essa é acometida de uma profunda e lancinante inveja e fica se remoendo: como é que eu posso ficar melhor na foto que ela? como é que eu posso ficar melhor na foto que ela?como é que eu posso ficar melhor na foto que ela? E tasca qualquer coisa que geralmente nem tem a ver com o assunto, citando alguma viagem que tenha feito, onde brilhou e aconteceu e foi mais feliz - muuuito mais feliz! - que a pessoa que escreveu o post. E a inveja dela fica ali rodeada de luzinhas- pisc! pisc! pisc!- entregando pra todo mundo o quanto ela ficou incomodada com a questão.

Por que não me desclica?.
Ora, me pergunto, por que cargas d'agua a criatura vem ler o meu post? Por que não segue adiante, me bloqueia, me desclica em "seguir" e nunca mais nada meu aparece na Timeline dela? Não sei. O negócio dela é ficar atenta e quando tilinta o sino de alguma alegria minha, ela vem correndo e segura a corda e tasca o verdor da sua inveja transfigurada de eu-também-e-mais-muito-mais.

Mesma coisa os ideológicos e suas viseiras. Você fala X, Y ou Z e eles entram de sola com seu discurso de frases feitas e agressivas, que me irritam profundamente porque a mim parece que vomitam sem-cerimônia no tapete da minha sala sem me pedir licença.

Não meca! No tapete da minha sala, hã-hã.

Esses tempos teve uma que, ociosa, bem se vê, e em não havendo mais onde despejar seu conhecimento acumulado, achou de vir dia e noite na minha página polemizar sobre qualquer assunto, de música a arte, de política a besteirol.

Tudo que eu postava, ela tinha apartes cheios de proparoxítonas tentando me fazer ver o quão ignorante ou mal-informada eu estava sendo, ao mesmo tempo em que ficava argumentando na esperança de que eu, vencida pelo cansaço, anuísse, enfim, ao seu ponto de vista. Até nos momentos em que eu conversava nomeando outra pessoa, - viu, Fulano? - ela se botava com os quatro pés no meio da conversa, me fazendo ver o quanto eu estava enganada, para meu tédio e dissabor.

 Ops!
Depois de muito contornar, procurando ser gentil, ou no mínimo educada - coisa que sou, pero muy mal-aprendida, devo dizer - tentando levar para o lado do humor, cheguei à fatídica conclusão de que só havia um jeito de me livrar de seres humanos assim enquanto chatos. Apertando o botão do delete.

E foi o que eu fiz. E é o que eu faço. Quando percebo que a criatura que me visita está me tirando pra rufião*, escada pro seu discurso, luz néon pra sua inveja mal-resolvida, não tenho o menor pejo. Deleto. Deletei. E deletarei. Ops! ( Graça Craidy)

* Rufião é um cavalo castrado usado para detectar que éguas estão no cio; ele leva as patadas e os rechaços das fêmeas, abrindo caminho para o cavalo reprodutor entrar em cena e cobrir a égua.

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Afasta de mim este cale-se. Os peremptórios estão chegando.

Petardos retórico-salivares.










Toda época tem o seu deus. Na nossa, uma divindade se destaca mais que todas as outras: a do Peremptório.

Deus nos livre do Peremptório! O Peremptório é uma deidade cruel. Frio. Implacável. Intocável. Irretrucável. Irretorquível. O mais puro de todos. O mais bem-informado de todos. O que tudo sabe. O que tudo vê. O que tudo critica. O que tudo julga. O que tudo estudou, leu, releu. O que tudo acusa. E, principalmente, o que ninguém pode contrariar.

Ai de ti, Betsaida, se não caires nas graças do Peremptório. Melhor não. Porque se você ousar pensar diferente dele, ter as suas razões, apostar no seu próprio juízo de valor, ser fiel à sua maneira de pensar, à sua experiência, ao que você acredita, ser enfim, honesto consigo mesmo, você é um homem potencialmente morto a petardos retórico-salivares pelo Peremptório.

A democracia vai pro brejo e muge.








Não importa a categoria, o tema, o assunto. Pode ser política, arte, música, futebol, questões condominiais, gosto, desgosto, de uma coisa pode ter certeza: se você pensar diferente do Peremptório, reflita bem antes de falar. Você está com tempo? A paciência é uma das suas virtudes? Fez cursinho no templo zen de Três Coroas? Então, puxe um banco. Porque se tem coisa que deixa o Peremptório mais peremptório ainda, atacado de agudíssima peremptorice é o Outro - qualquer Outro - se manifestar publicamente de maneira oposta à dele. Aí a democracia vai pro brejo e muge, muge, muge. Mas ninguém escuta.

Não pertencer ao reino dos Perempórios é ter que se sujeitar a uma saraivada de argumentos os mais diversos catados em todas as instâncias do pensamento. E, se o Peremptório for acadêmico, adicione uma saraivada de citações, cada entre aspas um metralhar de setas ponteagudas direto na sua jugular, que querem dizer apenas e tão somente uma coisa: cale-se, cale-se, cale-se, idiota!

O Peremptório não aceita que ninguém pense diferente dele. O Peremptório adora uma unanimidade, não importa o que Nelson Rodrigues tenha alertado a respeito dela. Desde que seja una com o que ele acredita.

Sonha com um totalitarismozinho básico.








O Peremptório não dorme enquanto não convencer quem diverge dele a concordar com suas ideias. Ele adora proclamar que a democracia é o melhor dos sistemas mas na hora do vamos ver, é o primeiro a sonhar com um totalitarismozinho básico, onde ele é o rei da cocada preta e você o peão sem cuca e sem cocada. Peremptórios amam subestimar o interlocutor. Você não concorda com ele? Você só pode ser um ignorante, um burro, um alienado, um mal-informado, um coxinha, um petralha, um esquerdinha, um direitoso, um isso ou, quem sabe até bem pior, um aquilo!

Faz parte da estratégia do Peremptório inibir seus interlocutores com a ameaça de ostracismo intelectual. Sim, aquele dedão apontado pra você não está apenas dizendo que discorda de você. Está bradando que você é um sem-QI, um pobre coitado dum mortal que obviamente não sabe das coisas pois - imagina! - ousa discordar dele. Você só pode ser um mentecapto, um estulto, um bocó, talvez até um bocó de mola, mais feio ainda. 

Peremptórios adoram se colocar no trono e jogar seus oponentes aos crocodilos para manterem a sua majestade e o seu reino peremptoriesco engalanado com suas aspas citativas, como se citando alguém famoso você fosse obrigado a se curvar às supostas evidências e concordar, finalmente, com ele. E a mí quê? diria minha mãe.

Neverending trololó.








Tem um tipo especial de Peremptório que me bate especialmente nos nervos: é o Peremptório que adora usar o Outro como seu  sparring intelectual fazendo cama pra ele brilhar com suas proparoxítonas e construções imagéticas. Ah, confesso que esse, quanto mais entrudo, mais rápido está pedindo pra sair.

 Ainda que eu tenha o poder de bloquear o Peremptório no feice e me livrar per omnia saecula saeculorum de seu neverending trololó, penso muito antes de tomar essa decisão radical. Dou várias chances ao Peremptório. Mas chega um dia em que não há mais alpargata sete-vidas que resolva e então eu passo para a fase dois, que antigamente a gente chamava de gelo e hoje em dia a gente chama de delete. Xô, Peremptório! Vá cantar marra noutra freguesia! Faça-me o favor. Pô.
(Graça Craidy)

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Alice não mora mais aqui. Nem lá.

Devastador.
Todo mundo sai do filme Para sempre Alice com uma terrível certeza: sim, eu vou ter Alzheimer!                              

O filme é tão maravilhosamente devastador, coloca tão claro o que é a doença, o quão inútil é qualquer coisa que se faça para preveni-la que caem por terra todos aqueles mitos equivocados de que se você fizer bastante palavras cruzadas ou de que se você mantiver a cabeça ativa intelectualmente ou de que se você continuar praticando exercícios, o alemão maldito vai passar a lo largo. 

Balela! Segundo o filme, o alemão liebe cabeções. A única coisa que ajuda é beber água - diz o médico - muita água!

O filme - originalmente Still Alice (USA, 2013) - premiado com o Oscar de Melhor Atriz, é dirigido e escrito por Wash Westmoreland e Richard Glatzer a partir do romance homônimo da uma renomada neurocientista de Harvard, Lisa Genova. E não deixa dúvidas. Sim, pode acontecer com qualquer um. Comigo. Com você. Com ela. Com ele. Sim, do dia pra noite você pode parar uma frase no meio, esquecer de alguma coisa, dar um branco e tic-tac-tic-tac, breve aqui, Alzheimer.

Tictactictac 
A Alice do filme é uma brilhante intelectual, famosa linguista internacional, professora na Columbia, NY. Está ativíssima, dando aulas, palestras, viajando, pratica jogging todas as manhãs, é magrinha, elegante, tem marido bonito, culto e bem de vida, filhos lindos e encaminhados, com exceção da caçula que insiste em ser atriz de teatro, justo ela que, mais tarde - vai-se ver - é a única verdadeiramente amorosa e respeitosa com a triste condição da mãe. A única que não trata Alice feito deficiente mental, aliás, como costumam tratar cuidadores e familiares de doentes com qualquer tipo de demência. Aquele tipo de gente nojenta que fala da doente na frente da doente, como se a pessoa não estivesse mais ali. Odiosos!

Enfim, a vida de Alice antes do Alzheimer precoce e, parece, genético e transmissível aos filhos, é praticamente um contos de fadas pós-moderno, principalmente intelectual.

E a gente ali sentada na plateia do cinema morre três vezes com essa descoberta. E morre mais três quando o neurologista que trata de Alice explica ao marido dela inconformado com a rapidez com que a mente da esposa se degenera: - com intelectuais é pior ainda, muito mais rápido do que com os outros. 

Cruzadas.
Ao primeiro branco em meio a uma frase, numa palestra, Alice disfarça e faz uma piada: - Eu sabia que não devia ter tomado aquele champanhe! E a platéia ri. E ela supera. Mas em segredo, sem contar de seus esquecimentos a ninguém, ela pratica compulsivamente palavras cruzadas em seu celular, fazendo bem lembrar um poemeto do sábio Mario Quintana: " Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero". Profeta!

Justo ela, uma linguista, perde as palavras. Que ironia! "As palavras estão na minha frente," - ela fala,  certa hora - " mas não consigo pegá-las." Santo Deus!

Medo.
Da metade do filme em diante, quando o Alzheimer começa mesmo a devastar Alice, toda aquela plateia buliçosa e pipocosa e celularosa  que costuma hoje em dia invadir os cinemas, currando nossos olfatos com manteiga, nossos ouvidos com criquecraques suínos e nossos olhos com luzes dos seus celulares, cala. Aos poucos vão ficando mudos, sem-pipoca, sem coca, sem celular, nada! Nem um pio, mais. Todos com medo. Dentro de suas alminhas pode-se quase ler a legenda: quando será a minha vez? Argh! Calaram, agora, né? Me regozijo.

Mas, na tela, Alice luta. Escreve palavras no quadro-negro da cozinha e tenta repeti-las sem olhar. Procura receitas no Google e finge que sabia de cor. E dê-lhe palavras cruzadas! Mas, quê! O alemão insidioso vem se arrastando feito serpente, pelas beiradas. Você não sabe à que hora ele vai dar o bote. Alice sabe. Pode ser a qualquer instante. Tanto que em um fim de semana na praia ela pede que o marido fique, em vez de voltar a trabalhar, porque ano que vem " eu não sei se ainda vou ser eu"- argumenta. 

Eu? Eu sou Alice. Você é Alice. Ali, naquele instante, somos todos Alice. E os olhos marejam.

Eu-Alice.
Impossível não chorar quando ela aceita fazer um discurso-testemunho em um congresso científico sobre Alzheimer. E começa citando a poeta Elizabeth Bishop no seu poema A arte de perder: "A arte de perder não é nenhum mistério; Tantas coisas contêm em si o acidente De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério: Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita. Nada disso é sério. (...) "

Arte:perder.











Não bastasse o poema ser lindo, ainda mais naquele contexto, Alice então começa a falar de si. Que estamos muito mais preparados para ganhar do que para perder. E logo ela, que com seu grande ego sempre se orgulhou de ganhar cada vez mais conhecimento, agora tem que aprender a gerenciar a sua perda, cada dia um pouco, cada dia mais um pouco de tudo o que havia aprendido.

E assim ela vai, desnudando em palavras o que é de fato o Alzheimer, uma espécie de apagamento inexorável de tudo que se aprendeu na vida, desde o nome, o lugar, as relações, até a simples tarefa de amarrar um tênis, espécie de Benjamin Button mental, cada dia mais infantilizado, dependente, inerte, à mercê de si própria.

Há uma cena metáfora perfeita, talvez até um pouco forçada, mas muito representativa da doença: Alice escova os dentes e se olha no espelho do banheiro, abre o tubo de pasta de dentes, aperta-o, enche a mão de dentifrício e lambuza de branco na imagem refletida do espelho, o próprio rosto. Nihil!

O mais terrível de tudo não é o não-saber que se apropria do saber. O mais terrível de tudo é saber do não-saber. Igual a todos nós humanos, que inventamos de tudo dia após dia para esquecer da morte, atormentados cotidianamente pelo saber que ela vem. Um dia. Ou outro. E para todos, sem exceção. 

Alzheimer é um arremedo disso, só que em vez de morrer, você continua vivo. Todavia morto. Tem coisa mais apavorante?

Inlucidez.











A dor moral é tanta que em dado momento Alice diz o indizível: - eu preferia ter câncer! Pelo menos estaria tentando me curar, ou numa passeata, estaria fazendo alguma coisa. E as pessoas não me tratariam como louca. (Ou algo assim, mas a ideia é essa, de a doença do corpo ser mais suportável que a da mente. Mente no sentido da lucidez, claro.)

A única saída, segundo o filme - se é que há uma saída- é o amor. Pode não curar. Pode não acabar com a doença. Mas torna a dor de existir mais amena. Love, love, love. As always, all we need is love.

(Graça Craidy)

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Bye buy, Noel.

Compre, compre, compre.
Sorry, Noel, mas pra mim deu. Fui. Já era. Cansei. Vaza! Entenda, meu bem. Não é só porque você se tranformou num crápula dinheirento, vendido ao capitalismo, um ninfomaníaco que só quer saber de consumir, consumir, consumir. E nada de gozo. Quanto mais, menos! quanto mais, menos! já alertava o vieux Debord.

Não, meu velho.  Não é só porque você não é mais aquele homem com quem me iludi nos anos 50. É porque você não é mais humano, Noel.

Beba, beba, beba.
Confesso que desde o começo achava você um sujeito meio esquisito, com essa barba ridícula, essa roupa escandalosa que não lhe assentava bem e ressaltava ainda mais sua barriga. E aquelas peles falsas arranhando o pescoço e arrematando o casaco, o chapéu, num calor de 40 graus? Ridículo, véi! Eu fingia que não via pra não magoar você, mas, pffff! Não tem outra palavra, cara. Ri-dí-cu-lo!

E ainda tinha gente que ia sentar no seu colo e fazer gugu-dadá presente? Fala sério! Contar segredos de liquidificador no seu ouvido peludo em troca de mercadorias? E você com aquela cara de Papai Noel sem saco só no din-don, enfiado até as orelhas em compromissos sempre apenas e tão somente financeiros? Tô fora, cara.  Pode riscar ali o meu nome do seu I-phone.


Isso é que não é!
Até porque, meu véio, você não passa de uma invenção da Coca-Cola roubada de um São Nicolau, lembra? E pra vender o quê? Amor? Família? União? Compreensão? Caridade? Não! Pra vender mais Coca-cola, claro!

Você é feito aquelas aves usurpadoras de ninho que aproveitam que o dono foi dar uma voadinha e se instalam, Noel. Você sentou a sua bunda gorda na cadeira delicada e modesta de um menino chamado Jesus. E de lá não mais saiu. O aniversário era dele, a festa era dele, o oba-oba era pra ele, mas depois que você enfiou esse seu corpanzil no meio, o garoto foi cada vez mais sendo sufocado por sua presença tonitroante e já quase ninguém mais lembra do guri. Je...o quê?

Nossa Senhora é Lady Gaga e São José é o Michel Teló.  Ai, se eu te pego, Noel! E os anjinhos que antigamente cantavam no presépio se transformaram em um coro de Simones tautológicas nos atormentando em todos os alto-falantes com Então é Natal. E não vou nem falar do nojo que peguei de Jingobéus.

100% fake.
Aliás, já que toquei no assunto, soube também que essa história de 25 de dezembro ser o nascimento de Jesus também é outra falcatrua, dessa vez inventada pela Igreja Católica de prisquíssimas eras que, muy espertamente, se apropriou da data de celebrações pagãs do solstício do inverno para neutralizar as indesejadas manifestações populares não-cristãs, redirecionando-a para elegias ao seu discurso.

Por tudo isso, Noel, a felicidade do Natal virou essa coisa rivotrílica prozaquenta, ansiosa, deprimente, nervosa, estressante, endividante, com o mesmo feitio fake coca-cola que inventou você: é um líquido preto sobre as nossas cabeças, nos obrigando todos a sermos felizes de mentira.

Não, não e não. Tô fora. Noel na minha vida, agora, só o Rosa.
( Graça Craidy)

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Ela sou Eu.

Não sei se você já assistiu ao filme Ela, do diretor Spike Jonze, que ganhou Oscar de Melhor Roteiro 2014.  Conta a história de um solitário escritor profissional de cartas pessoais (Joaquin Phoenix) que se apaixona por um sistema operacional. Sim! isso, mesmo: um sistema operacional, tipo um aplicativo, um app com voz de mulher, chamado Samantha (Scarlett Johansson). Ele conversa com a Samantha, passeia com a Samantha, vai à praia, a concertos e até faz sexo com ela, auxiliado por seu smartphone, desses que se encaixa na orelha. Tudo só acontece ali, ao pé do ouvido.

É um belo filme. Quando a gente vê, está envolvida em uma delicada história de amor de intensa afinidade e mútua compreensão, absolutamente terna,  divertida e improvável, torcendo pro mocinho ficar com a mocinha - ops! com o sistema operacional - no final.

Até a hora em que você toma distância e se dá conta de que o filme, na verdade, é uma melancólica metáfora  dos tempos atuais, do indivualismo exacerbado, que o filósofo Gilles Lipovetsky chamou de hiperindividualismo. O sujeito autocentrado que, com a frouxidão das antigas amarras éticas e morais da igreja, da família ou da própria sociedade e, ciente de que não existe mais aquele futuro com final feliz das grandes utopias do século XX,  se sente no direito de moldar o mundo conforme le gusta. 

E a medida, na medida do possível, é uma só: o seu umbigo. E aí cada um exercita a primeira pessoa do singular sem a menor modéstia e indisfarçável prepotência, perdendo totalmente a noção de alteridade, o Outro apenas uma palavra que se reveste claramente de inferno, como Sartre chamou,  visto que do lado de lá também habita um Um, com seu umbigo, seus desejos, sua intolerância, sua impaciência, sua cegueira a qualquer coisa que não seja seu bem-estar e estar bem. 
Por que o escritor solitário que acabou de sair de um casamento com Outra com quem não conseguia mais se relacionar, só consegue se dar bem com uma Samantha Sistema Operacional? Bingo! Porque a Samantha, no caso, é ele, mesmo. Programada a partir dos seus quereres, suas necessidades, seu universo. A Samantha não é nem um alterego. É o próprio ego. Como não gostar de quem pensa exatamente como eu, sente exatamente como eu, deseja exatamente o que eu desejo? Não dá serviço nenhum, não há embates, corre que é um riacho manso.

Todo dia a gente se depara com comportamentos na nossa sociedade atual que reforçam esse sentido de autocentrismo impaciente, de tal maneira que nos enfiam goela baixo toda hora seus Eu! Eu! Eu! e recebem de volta nossos Eu! Eu! Eu! numa briga de mudo com surdo que não chega a lugar nenhum. E a tecnologia é a grande aliada dessa lambeção de umbigo. O celular, hoje chamado de telefone inteligente, na verdade,  é um abduzidor do tempo e da realidade que nos deixa meio burros. As pessoas não conseguem mais nem sentar pra comer uma linda refeição sem ficar de olho na telinha do whats-app pra ver o que vem a seguir, numa sofreguidão pelo novo, pela necessidade de dominar o relógio, de estar up-to-date, que não preenche a fome nunca porque o novo que chega sempre é requentado, pífio, raso, pequeno, paroquial, efêmero, medíocre, midiatizado, espetaculoso. E tem a selfie que substituiu o autógrafo e a selfie pós-coito e a selfie da estante de livros e a selfie da bunda e a selfie, qualquer dia desses, do colo do útero e do intestino delgado, a julgar o andor da carroça.

Outro dia me deparo com a notícia de uma fotógrafa britânica que casou, de véu, grinalda, festa, juiz, buquê e tudo....com ela mesma! Santo deus! Dai-me Liquid Paper pra apagar tanta bobagem. Mas, não. Não é bobagem. Os dias tem sido cada vez mais assim e não se sabe onde tudo vai dar. Enquanto isso, tenho me exercitado para não estar nem aí porque pós-moderna que sou também me tornei uma hiperindividualista e, como dizia meu pai, Mateus, primeiro os meus. (Graça Craidy)
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Selfies à cata de si.

Em busca de notoriedade a todo pano.
Eu! Eu! Eu!

Não pode ser mais egocêntrica, tediosa e retrato descarado do tempo atual autolambente de umbigo que a moda de selfie grassando em todo e qualquer espaço, da praça pública aos lençóis das alcovas recém mergulhadas nos gemidos de múltiplos orgasmos.

Li hoje uma nota bizarra sobre selfie na capa de um desses portais de internet que misturam notícias com bobagens no mesmo embalo visual e de tratamento de texto, de tal maneira que você volta e meia se pega lendo uma estultície acontecida dentro de novela, de reality-show, de Instagram ou de viral de You Tube como se fosse, de fato, acontecimento relevante e fundamental para a sua vida. 


Até tu, Obama?
(Lembrei dos sapientíssimos filósofos Jean Baudrillard e Guy Debord, que apontam, entre outros insights: um, não importa mais se a notícia é verdadeira ou falsa, apenas que ela esteja no ar - diz Baudrillard; e, dois, não há mais História: a única história que vige ainda é a da humanidade patinando emburrecida na falsa história do consumo, da propaganda - no caso da selfie, digo eu, da propaganda de si - e que o único novo na História é o Novo! de lançamento de produtos - diz Debord. Pífia novidade.)

A notícia bobajosa do tal portal dava conta de que o último grito, a coisa mais atual e atrevida e pós-moderna e de vanguarda em matéria de selfies, agora, é publicar nas redes sociais a selfie do casal imediatamente após o clímax de suas investidas sexuais. 


 Gozou, fotografou, postou! 

Ui! O meu gozo é mais bonito do que o seu. Ai! O meu gozo é mais gozado que o seu. Ui! O meu gozo contém mais espermatozóides, flavonóides, molóides e bestóides que todos os outros gozos. 
Semen, suor e celular.

Olhei a foto estarrecida com a notícia e o que vi me deixou mais estarrecida ainda: um casal normal, nem bonito nem feio, com a deslavada cara do mais paquidérmico bovino e bovina, posava com um leve ar cansado e sem o mínimo dos mínimos sex-appeals, conquistando seus 15 minutos de fama à custa de semen, suor e celular.

Deus meu! Mas essa gente nunca mais na vida vai parar de expor seus avessos nas redes sociais? Nunca mais vai parar de botar a bunda na janela pra um vir e passar a mão nela, como cantava o Gonzaguinha?,

Não. Nunca mais. Senta e chora. 

Todo mundo já revelou se é gay, hetero, casto, hermafrodita ou se não tá nem aí pra sexo. Todo mundo já fotografou a comida que come, o dejeto que dejeta, o cachorro, o pai, a mãe, o sushi, o churrasco, a florzinha. Até retratinho de criança que ainda nem nasceu foi pra porta-retrato. E nós todos estamos ficando com o braço cada vez mais comprido, aleijados de tanto selfiezar.


Manipulados pela Samsung.
Ellen DeGeneres, a sem-graceza em pessoa da humorista americana que apresentou o Oscar este ano, se achou a mais engraçadinha do planeta. 

Não bastou mandar trazer pizza pra comer com a mão e engordurar os Armanis, Guccis e quetais das musas do cinema. Culminou a sua pseudo intimidade e falsa informalidade performática convidando famosos para uma selfie patética onde celebridades do mais alto nível como a maravilhosa Meryl Streep, o fantástico Kevin Spacey, mais Brad Pitt e Julia Roberts, entre outros, se acotovelavam ridiculamente pra sair na foto, pra parecer que são cool como a sem-cerimônia do Oscar queria fazer de conta. 

Parecia cool. Mas, tudo na verdade não passou de uma armação da Samsung, patrocinadora da cerimônia, para promover o seu novo smartphone. 

Debord na cabeça!
Da praça pública aos lençóis

Selfie, aliás, tão ridícula que virou meme já no minuto seguinte, multiplicada em centenas de bobagens para sublimar o riso que já nem se sabe mais se é de dentes ou esgar.

Estamos feito cachorros mordendo o próprio rabo, em busca de uma notoriedade a todo pano, talvez porque o que andamos colhendo dos nossos dias não mata nossa fome. 

Então, é preciso escarafunchar no ego, no id, nas tripas, selfiezando a vida pra ver se um alien rasga nossas vísceras e sai de dentro trazendo sangue de verdade e nos fazendo, quem sabe, de novo humanos, desconsumizados de nós mesmos. Argh! (Graça Craidy)

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Os pecados da carne e as testemunhas do antijeová


Então, você acha, mesmo, que a Gisele Bündchen lava o cabelo com o shampoo Pantene e assina a TV a cabo Sky? Ou que a Ana Maria Braga consome toda aquela tralhaiada inútil que anuncia diariamente no seu programa de TV? Ou que a Xuxa - a Xuxa, com aquela grana! - hidrata o corpinho com o simplesinho dos simplesinhos creme Monange? Ou, ainda, que a Hebe Camargo bebia Brahma, o Pele toma Vitasay e o Faustão
paga sem bufar as taxas abusivas de empréstimo do Fininvest? E que o Neymar tem, mesmo, conta no Bradesco, entre outros mil testemunhais dele e de tantos que abundam nas telinhas do Brasil?

Fala sério!

Você sabe muito bem que tudo é rigorosamente mentira e que faz parte de uma histórica farsa de longa data onde anunciante e consumidor são cúmplices silenciosos de uma - diga-se de passagem - mediocrezíssima ficção. Por que agora tantos pudores, esgares, ohhs e ahhhs, justamente com o Rei Roberto Carlos e a Friboi?  


Os motivos, parece, são vários.  

Roberto é um vendido, - acusou um renomado blogueiro jornalista, alegando que o Rei ganhou não sei quantos milhões pra dizer que desvirou de vegetariano pra carnívoro. Que falta de vergonha, tapa na cara de todos os vegetarianos e e veganos do Brasil e do mundo! Falta de hombridade, seriedade, moral. O homem rasgou seus valores por dinheiro, isso não se faz! Bombou Facebook e Twiter. 


Parecia um quadro de Bosch: os rotos esbravejando dos rasgados.




Tamanho moralismo de cuecas e mal disfarçada inveja me fizeram imaginar que havia ali algo muito mais metafísico que físico ou fisiológico.


Me dei conta de que Roberto Carlos é uma espécie de santinho do Brasil. Intocado, puro, sacristão, coroinha. Sempre de plantão no altar do nosso imaginário. Ele é aquele da família brasileira que se imola para todos os outros poderem pecar. Ele fala de Jesus Cristo, de mãe, de Nossa Senhora. 


Ele andou com uma turma da pesada - Erasmo, Tim Maia - mas nunca se conspurcou, nunca se meteu com drogas, bebidas, escândalos. Ele perdeu uma perna num acidente e superou. Ex-votos! Ele é o cara. Ele é o mentor amoroso de tantas gerações. 



Como se atreveu a dizer que voltou a comer carne porque é Friboi? Como se atreveu a descer do sacrário e se vender por inomináveis trinta-dinheiros?


Desconfio que Roberto ocupe o lugar, também, de eterno namoradinho do Brasil, uma espécie de Regino Duarte de calças, baluarte do amor sem mácula, do romantismo que nunca morre, amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores. Tudo no papel, no ouvido, tudo no coraçãozinho com as mãos. 


Porque, francamente, ninguém imagina o Roberto Carlos pelado transando loucamente numa cama, mesmo que ele cante que vai cavalgar a moça e pedir café amanhã de manhã. Não! Roberto Carlos, não. Roberto Carlos é que nem mãe. Não tem sexo. Não tem pecado. É tipo um anjo, Roberto Carlos.


O único pecado que vejo, em tudo isso, é que o comercial de TV é muito ruim, malfeito, mal dirigido, mal roteirizado, mal interpretado. Uma reverenda porcaria, sob o ponto de vista técnico e criativo.



Como idéia, em tese, me parece coerente com todos os outros mentirosos comerciais de testemunhais: Roberto Carlos voltou a comer carne e mente que a carne é Friboi. 


Mentiu, sim, como todos os outros antes dele. Exceção, talvez, ao Zeca Pagodinho, que, parece, sempre bebeu Brahma. Mas que também faltou com a verdade. Antes de testemunhar que bebia Brahma, andou mentindo que bebia cerveja Schin. E, depois, ainda teve a cara-de-pau de dizer - assoprado por Nizan Guanaes - que a Schin era só uma ficante e a Brahma, sim, amor verdadeiro.


O jornalista e humorista Stanislaw Ponte Preta ironizava, nos anos 60: "ou nos locupletamos todos, ou fica instaurada a moralidade".  Cabe pensar, quem sabe, que esta é uma boa hora para instaurar o direito, de fato, e começar a cumprir o artigo 37 do Código do Consumidor (Lei 8078, de 11 de setembro de1990):


 Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente                falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade,  propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre  produtos e serviços. 


Leu ali? Qualquer informação, inteira ou parcialmente falsa. Qual-quer. Nem pra Robertos Carlos, nem pra Fribois, Giseles, Anas, Xuxas, Hebes, Pelés, Neymars ou Faustões. Aleluia! Nós, os pobres mortais consumidores telespectadores nos livraríamos, de lambuja, também, de uma praga bem mais que abominável. De propaganda ruim. (Graça Craidy)

Arte do fundo: Hieronymus Bosch, pintor renascentista holandês, sec.15 e 16.
Arte do Roberto Carlos em neon: Nelson Leirner, Adoração, 1961.

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Doce Sebastião.











Sebastião Salgado contém multidões. Toda a humanidade, nos seus olhos. Por suas lentes, os calados falam. A miséria do mundo se estrebucha. Sebastião Salgado rasga as tripas do planeta. Provoca epifanias. Denuncia. Revela o desumano da vida, o diverso do homem, a impiedade, o desamparo, a profunda solidão. Sebastião Salgado grita sem falar. Cada foto sua é um livro de mil páginas. O belo é silencioso e imenso. As mulheres de Sebastião vêm da eternidade e nos cavocam o fundo. Punhal. Sebastião Salgado é um mago. Sebastião Salgado é um mártir. Se imola pra nos salvar. Bendito, tão doce Sebastião! (Graça Craidy)

  

Ondefoiqueuerrei?

Breu. Estamos todos destinados à eterna incompreensão. Aceite. Ou continue aí se torturando ondefoiqueuerrei. Cada um de nós é uma caixa preta inapelavelmente sem chave pra abrir.

No sufras. Não há análise que destranque os mistérios que habitam nossos avessos. Pior. Há quem diga ainda que trazemos bagagens de outras vidas. Mas o inteiro não cabe em palavras.
Cada um de nós é uma caixa preta inapelavelmente sem chave.

Breu. Estamos todos destinados ao mal-entendido. Per omnia saecula saeculorum. E mesmo quando pensamos que o Outro captou, na verdade, ele apenas se rendeu. Acatou o escuro. Se resignou com os blanks eternamente por to fill.  

E mesmo quando você se ilude achando que domina ainda que parte do que o alheio pensa, sente ou quer, vão.  O avesso do Outro é inagarrável. Não-ser. Mero desejo que nunca vai se realizar. Entenda. Não é pra entender. Apenas breu. Muito prazer. Breu. (Graça Craidy)






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Sobrancelhas circunflexas e outros filmes de terror.

Um choque estético-conceitual.

Aí, então, você vem vindo pela rua e cruza com um rosto de mulher que parece ter saído da sinistra escuridão dos tempos. Você não sabe muito bem o que é que está estranho ali. O que é que está desafinando. Aí então você aguça o olhar e descobre em cima dos olhos da pessoa, no lugar das sobrancelhas, dois acentos circunflexos.

Sim. Dois muito esquisitos acentos circunflexos (ou seria til?) negros como a asa da graúna que parecem ter caído inadvertidamente de uma caixa russa de acentos circunflexos e se jogado de qualquer jeito ali, naquele rosto que não combina ab-so-lu-ta-men-te com acento circunflexo. Tampouco com til. Muito menos daquela cor.

Por várias razões. Uma, é que a tal sobranflexa é preta e o cabelo da pessoa é loiro, por exemplo. Dá um choque estético-conceitual monstro. 

Outra, que a pessoa, por exemplo, tem 80 anos e a sobrancelha ficou sobranceira demais pra idade dela, já meio curvadinha, arrastando os pezinhos e aquele circunflexo assanhado pretão em cima do olho baço. Quase coisa de reincarnação parcial, eu diria.  Só reencarnou a sobrancelha, o corpo ainda é o antigo. Um susto!

É impressionante como essas modas de terror se instalam do dia pra noite. Quando você vê, tem atelier de sobrancelha, bureau de sobrancelha, design de sobrancelha, graduação em sobrancelha, MBA em sobrancelha, o diabo a quatro em sobrancelha. Sobrancelha passa a ser a coisa mais importante do mundo, mais que a decisao do Obama invadir a Siria, quero crer.

Do dia pra noite, parece que um pó de pirlimpimpim encanta todas as mulheres e elas se sobrancelhizam a la loca, sem critério, como se fosse imperdoável você seguir seu caminho com sua velha sobrancelhinha modesta, às vezes quase transparentinha de tão loira, uma sobrancelha recatada. Como a minha, por exemplo. Não! Você passa a ser olhada com um certo desdém. Hummm, sobrancelha sem circunflexo, que demodée!

Se sobrancelhizam à la loca.

E hoje não vou nem falar das sobrancelhas tatuadas que desbotam e ficam verdes e as mulheres desfilam pra lá e pra cá com aquela sobrancelha com limo, parece que dormiram meses numa piscina cheia de algas daquelas que não esvaziam no inverno, sabe qual?

Assim é também com essas malditas cirurgias plásticas que estão criando multidões avassaladoras de criaturas com olhos arregalados. Cara de quem foi pega no flagra roubando o tempo e pá! ficou congelada bem na hora que levou o susto, que nem as avós da gente diziam pra não sair do banho quente e abrir a geladeira senão entortava a boca. 

Toda vez que me deparo com essas pessoas arregaladas com ânsia de volver a los 17, me pergunto se elas se dão conta de que não enganam ninguém, de que todo mundo saca que ali teve a maozinha sinistra de um cirurgião plástico e seu bisturi enlouquecido, que dá pra ver direitinho que operou porque passa a sensação visual de que o rosto saiu de registro e ficou, sei lá, com duplo foco.

Outro desgosto é esse monte de mulher com beição afro em boca de brancona. Um pavor! Outro dia morri de rir quando li que uma cidadã indignada do grande ABC encheu de desaforo a mulher do Lula achando que ela fosse a Martha Suplicy. As duas - Martha e Marisa - acabaram ficando gêmeas univitelinas, de tanto silicone que tacaram nos lábios.

Não quero nem falar muito alto o que eu penso, porque você vai dizer que eu sou desbocada, mas toda vez que eu vejo essas boconas siliconadas se estrebuchando pra fora, reviradas, fazendo biquinho de pelicano, me vem à mente outra parte do corpo da mulher. Mais ao sul, eu diria. Mas, por respeito, não vou citar nomes. Nem populares nem científicos. Use a sua imaginação.

E pra encerrar meus pasmos de hoje, quero colocar em pauta também certas criaturas que se vestem com roupa de adolescente, porque malharam bastante - que bom! - e estão com seus corpitchos em dia, e deixam o cabelão lá na cintura, bem tratado, que só!

Trocaram a cabeça com o corpo?

Só que tem que quando você vê elas de costas, tudo bem, pec pec, elas vão desfilando na sua frente, na boa, você pensa que ali tem uma teenager bonitona, que bacana. Quando ela se vira,  gente do céu, fica aquele impasse, aquele descompasso, aquela dessintonia : como, assim? Trocaram a cabeça do corpo? Parece montagem enganosa. Cabeça duma, corpo doutra. Aquelas cenas de filme de bruxa má que se disfarça de mocinha bonita e que quando se desfaz se esboroa todinha e  fica só aquele pó melancólico no chão.  Sexta Feira 13 perde!

Podem me jogar pedra, dizer que sou old fashion, ultrapassada e que cada um vive como quer e gosta e pode. E não há de faltar também quem ache que tô com inveja. Ok. Ok. Ok. Eu aguento. Só não me peçam pra fazer de conta que não tô vendo, porque lá no fundo de moi vive um gurizinho tinhoso. Aquele que falou que o rei tava pelado.  Sabe qual? (Graça Craidy)

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A voz dublada de Deus.

Cadê a voz de Deus dublada?
Eu juro que me esforcei. Mesmo.

Desde os meus 18 anos, mais ou menos, tenho passado década atrás de década fazendo boa vontade e vistas grossas e ouvidos moucos à falta de imaginação e de preparo e de afetividade dos padres que rezam missas.


Tentei de tudo. Missa de domingo, a mais tradicional. Missa de Santo Antônio, a mais afetiva. Missa de 7º dia, a mais triste. De um mês. Um ano. Missa de casamento, a mais festiva. Missa de primeira sexta-feira do mês, a mais esperançosa. Missa de Natal, de Páscoa, de Ramos. Missa de batizado. Primeira comunhão, crisma, vocações. Não tem jeito.

Os padres estão cada dia mais diazepâmicos, no sentido sedativo da palavra. Não falo apenas da ausência total de talento para predicar seus sermões, conversar tête-a-tête com seus fiéis que foram ali buscar uma luz, um conselho, uma sabedoria, uma voz de Deus dublada.

Nada.

Seus sotaques aborrecidos são muitos. Ou o velho italiano das colônias em cujos seminários os filhos de imigrantes eram matriculados sob a égide de vocações não tão verdadeiras para obter instrução de qualidade sem ônus financeiro - sem falar na onipotência de algumas mammas que queriam para sua família um intermediador particular ao paraíso.  Ou o alemão, dos poucos pastores arrebatados das lides de Lutero da igreja evangélica. Ou - mais modernamente falando - o polonês, que entrou na moda com a ascensão de João Paulo II.

Todos eles emitem sons com o mesmo tom monocórdio, cansativo e anestésico que se sobrepõe soberano a qualquer coisa que seja dita, do velho ao mais novo versículo do novo testamento, induzindo fatalmente ao bocejo - principalmente mental! -,  ao pensamento fugidio e à impaciente espiadela no relógio.

Se o fiel que leu o evangelho contou que naquele tempo patati patatá patati patatá, por que é que o padre, quando vai fazer o sermão não parte do pressusposto, óbvio, aliás,  de que sim, nós todos já ouvimos o patati patatá, há poucos minutos?

10 X zero nos intelectuaizzzzz.
Não. Ele não acredita que a gente ouviu. E conta tudo de novo, com as mesmas palavras, variando aqui e ali um há-por-tem. Em vez de já partir pros finalmente da interpretação ou da inspiração para nos contar o que aquele patati patata significa para nossa vida mortal e imortal, como pode nos ajudar a sermos mais felizes, mais bacanas, mais alguma coisa.

Não. Isso jamais acontece. Ainda que intimamente a gente vá ouvindo ele falar e fique sublinhando cada fim de frase dele com mudas interrogações: E...? E...? E...? Com respostas que não chegam nunca, porque depois que o padre repete todo o evangelho que - atente-se again! - já foi lido, ele fala uma ou outra palavrinha pífia, recolhe os panos de sua batina e volta pro altar.

Minto. Tem vezes que o padre encarna um passador de pito (deve ser daí que vem a expressão "passar sermão") e começa a criticar o fiel presente e o ausente com tom de apocalipse, fazendo o povo se sentir com 5 anos de idade e as calças borradas. Sinceramente, não sei o que me irrita e entedia mais, se o padre redundante ou se o justiceiro de araque.

Fico pensando: me poupe! Não vim aqui pra ouvir pito. Coisa mais anacrônica, padre passando pito! Com o telhado de vidro que anda a igreja católica, mais devia o padre olhar pro seu próprio rabo - com o perdão da analogia! - antes de jogar pedra no telhado alheio.

Nem o Papa Bento aguentou, aliás, tamanha a sujeirama com que se deparou nos bastidores vaticanescos. Mas, enfim, está mais que na hora de os padres pararem de capinar sentados e mudarem seus sermões para algo interessante, pertinente, cativante e - eu ousaria sonhar - arrebatador.

Ou eles tratam as pessoas que vão à missa com mais afeto e sabedoria ou vão perder a platéia para os pastores histéricos daquelas abomináveis igrejas de televisão. Em matéria de sedução, lamento informar,  os espetaculosos pelo-duro dão de dez a zero nos nossos tedesco-italianos metidos a intelectuaizzzzzz.

(Graça Craidy)

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