A voz dublada de Deus.

Cadê a voz de Deus dublada?
Eu juro que me esforcei. Mesmo.

Desde os meus 18 anos, mais ou menos, tenho passado década atrás de década fazendo boa vontade e vistas grossas e ouvidos moucos à falta de imaginação e de preparo e de afetividade dos padres que rezam missas.


Tentei de tudo. Missa de domingo, a mais tradicional. Missa de Santo Antônio, a mais afetiva. Missa de 7º dia, a mais triste. De um mês. Um ano. Missa de casamento, a mais festiva. Missa de primeira sexta-feira do mês, a mais esperançosa. Missa de Natal, de Páscoa, de Ramos. Missa de batizado. Primeira comunhão, crisma, vocações. Não tem jeito.

Os padres estão cada dia mais diazepâmicos, no sentido sedativo da palavra. Não falo apenas da ausência total de talento para predicar seus sermões, conversar tête-a-tête com seus fiéis que foram ali buscar uma luz, um conselho, uma sabedoria, uma voz de Deus dublada.

Nada.

Seus sotaques aborrecidos são muitos. Ou o velho italiano das colônias em cujos seminários os filhos de imigrantes eram matriculados sob a égide de vocações não tão verdadeiras para obter instrução de qualidade sem ônus financeiro - sem falar na onipotência de algumas mammas que queriam para sua família um intermediador particular ao paraíso.  Ou o alemão, dos poucos pastores arrebatados das lides de Lutero da igreja evangélica. Ou - mais modernamente falando - o polonês, que entrou na moda com a ascensão de João Paulo II.

Todos eles emitem sons com o mesmo tom monocórdio, cansativo e anestésico que se sobrepõe soberano a qualquer coisa que seja dita, do velho ao mais novo versículo do novo testamento, induzindo fatalmente ao bocejo - principalmente mental! -,  ao pensamento fugidio e à impaciente espiadela no relógio.

Se o fiel que leu o evangelho contou que naquele tempo patati patatá patati patatá, por que é que o padre, quando vai fazer o sermão não parte do pressusposto, óbvio, aliás,  de que sim, nós todos já ouvimos o patati patatá, há poucos minutos?

10 X zero nos intelectuaizzzzz.
Não. Ele não acredita que a gente ouviu. E conta tudo de novo, com as mesmas palavras, variando aqui e ali um há-por-tem. Em vez de já partir pros finalmente da interpretação ou da inspiração para nos contar o que aquele patati patata significa para nossa vida mortal e imortal, como pode nos ajudar a sermos mais felizes, mais bacanas, mais alguma coisa.

Não. Isso jamais acontece. Ainda que intimamente a gente vá ouvindo ele falar e fique sublinhando cada fim de frase dele com mudas interrogações: E...? E...? E...? Com respostas que não chegam nunca, porque depois que o padre repete todo o evangelho que - atente-se again! - já foi lido, ele fala uma ou outra palavrinha pífia, recolhe os panos de sua batina e volta pro altar.

Minto. Tem vezes que o padre encarna um passador de pito (deve ser daí que vem a expressão "passar sermão") e começa a criticar o fiel presente e o ausente com tom de apocalipse, fazendo o povo se sentir com 5 anos de idade e as calças borradas. Sinceramente, não sei o que me irrita e entedia mais, se o padre redundante ou se o justiceiro de araque.

Fico pensando: me poupe! Não vim aqui pra ouvir pito. Coisa mais anacrônica, padre passando pito! Com o telhado de vidro que anda a igreja católica, mais devia o padre olhar pro seu próprio rabo - com o perdão da analogia! - antes de jogar pedra no telhado alheio.

Nem o Papa Bento aguentou, aliás, tamanha a sujeirama com que se deparou nos bastidores vaticanescos. Mas, enfim, está mais que na hora de os padres pararem de capinar sentados e mudarem seus sermões para algo interessante, pertinente, cativante e - eu ousaria sonhar - arrebatador.

Ou eles tratam as pessoas que vão à missa com mais afeto e sabedoria ou vão perder a platéia para os pastores histéricos daquelas abomináveis igrejas de televisão. Em matéria de sedução, lamento informar,  os espetaculosos pelo-duro dão de dez a zero nos nossos tedesco-italianos metidos a intelectuaizzzzzz.

(Graça Craidy)

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O abominável mala-do-buffet.

O MALA DO BUFFET NÃO TEM PRESSA.
Todos que já comeram em buffet - essa predatória invenção urbana que nos faz cometer combinações gastronômicas brutais - certamente já cruzaram com o mala-do-buffet.

De longe você já sabe que é ele. Pelo jeito de caminhar. Lento. Mocorongo. Sem noção de tempo. Caído do caminhão de mudança. O mala-do-buffet é aquele ali, ó, que ocupa o maior m2  por percurso diante do buffet.

O mala-do-buffet não sabe que o horário do meio-dia passa rápido e que todas as pessoas que estão ali - todas, com exceção dos frequentadores da terceira idade que, por sinal, muitas vezes se constituem nos malas-seniors do buffet - têm pressa.

Não. Pro mala-do-buffet, o tempo de relógio é de outro reino que não o terreno, metropolitano, feito dos parcos minutos do intervalo para o almoço.

O mala-do-buffet não está nem aí pra tempo. A única, única, única coisa que interessa ao mala-do-buffet desde o momento em que ele entra na fila do buffet é saber em quantas vezes vai escolher quantas folhinhas de alface roxa, crespa, americana, romana, rúcula. Em quantas idas e voltas do pegador de inox ele vai transportar as rodelinhas de cenoura, uma após a outra, uma após a outra, até se dar por satisfeito.

E entao, quando ele acha que tá, que deu! - e você pode perceber uma espécie de epifania estética em seus olhinhos revirados de mala-do-buffet - ele baixa as pálpebras e pá: troca para o transporte das rodelinhas de beterraba.  E, a seguir, para os quadradinhos de xuxu.

Ops! O mala-do-buffet se arrependeu. Ele quer ainda mais uma rodelinha da cenoura, licença! E lá vem o mala-do-buffet com seu pegador feroz espichando o braço pra trás em uma manobra traiçoeira e mau-caráter de querer retroceder depois que toda a fila atrás dele andou.

E não adianta você rosnar e bufar, olhar pra cima invocando os gárgulas do buffet. Assim como não pensa em você, o mala-do-buffet não vê e também não ouve você. Nem se canse! Como dizia minha amada mãezinha, oferece pra jesus! (embora eu sempre tenha me perguntado mudamente o que o pobre do jesus ia querer com aquela malice?).

Não pense que acabou. Agora que ele encheu o prato com microporçõezonas transportadas como se fosse um formigo de La Fontaine e não uma pessoa, o mala-do-buffet vai colocar o azeite, o vinagre, o balsâmico, o molho. Ah, meudeusinho, o problema do mala-do-buffet é o tanto de escolhas que só um buffet oferece!

O MALA DO BUFFET TEM EPIFANIAS.
Até a porcaria do molho de colocar na porcaria da salada oferece opções e atravanca as rodinhas - aliás, inexistentes! - nos pés do mala-do-buffet. Sim! Este é o problema: cada vez que o mala-do-buffet pode escolher, ele empaca, deliciado com a maravilhosa sensação obama-sammy-davis-jr de Yes-I-Can que só um buffet dá. Vai molho de maionese com cebolinha verde, de oliva com alecrim e pimenta ou quem sabe de mel com castanhas picadas? Tic tac tic tac!

E agora você se prepara mentalmente com o seu plasilzinho de plantão, porque o mala-do-buffet vai se servir da comida propriamente dita. Você sabe que ele vai praticar atrocidades terríveis que ferem os princípios mais básicos da gastronomia.

Não, criatura de deus! Jamais derrame  feijao no molho branco de queijo que cobre a lasanha. Não, ser humano inferior! Peixe não combina com macarrão à bolonhesa. Não, sujeito bagual! Frango xadrez não se come com moqueca à baiana. Eca!

Mas, ainda há outros deslizes abomináveis que só um sujeito ou uma sujeita com DNA de mala-de-buffet é capaz.

Por exemplo, falar pelos cotovelos em cima das comidas contaminando generosamente o buffet com todas as suas bactérias de estimação que ele, ela carregam de carona nos seus verborrágicos perdigotos.

Ou usar o pegador de inox de um prato pra pegar comidas dos outros pratos do buffet, deixando tudo melecado de vários sabores.

Ou, ainda, espichar aquele braço de Os Incríveis pra alcançar aquela comida láaa do outro lado da mesa do buffet, arrastando a manga em tudo o q encontrar pelo caminho.

E pode acrescentar aí passar as mãos nas madeixas e deixa cair longos fios de cabelos que se projetam em câmera lenta e acabam se aninhando mansamente nos recôndito dos pratos do buffet.

Finalmente, comer coisas do buffet ali, mesmo, com as mãos nuas, antes de colocar no prato.

Sem falar no malinha de buffet que mergulha a colher do creme de baunilha ou do sagu inteirinha, com cabo e tudo dentro da tigela, no buffet de sobremesas, e quando você vai pegar pra se servir, nhé! Tudo peguento!

Mais mala que o mala-de-buffet ortodoxo, só o mala-do-buffet heterodoxo: o que vem imediatamente atrás de você na fila e gruda no seu calcanhar pressionando centímetro a centímetro pra você - que ele acha ser um tremendo dum mala-de-buffet - andar mais rápido. Bah! (Graça Craidy)

Ilustrações: Giuseppe Arcimboldo, pintor italiano, século 16.

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O inferno são os outros celulares.


No meio do caminho tem um celular.
Sartre que me perdoe o uso fútil de sua famosa frase, mas nada é mais representativo do inferno em que se tornaram os outros, hoje, do que o maldito celular. Nada, mesmo. 

Onde quer que você ande, da padaria à ópera, da fila do banco à sala de espera do dentista, do taxi especial ao ônibus mais mequetrefe, sempre há um celular no meio do caminho com um idiota à coté falando alto com alguém que você não conhece, não quer conhecer e não tem o menor interesse em saber detalhes da desimportante vida da criatura. Ainda mais nesse volume pra acordar bêbado que eles adoram dialogar, numa compulsão bárbara de se expor na vitrine chafurdando na sua medíocre cotidianidade como se estivessem descendo a Champs Elysées, tralalá! 


Virar a cabeça e vomitar verde.
Odeio. Quero esgoelar. Quero me transformar na menina possuída do O Exorcista original pra vomitar verde na pessoa, assim, de repente e do nada, numa simples e providencial virada de cabeça. Ah!

Agora mesmo, eu estava numa lanchonete e lá atrás um rapaz falava em altos brados no celular com alguém. E nós outros todos mastigando nossos cheeseburguers bovinamente no ritmo daquela prosa fiada, sem reagir, como se fosse natural aquela invasão do domicílio dos nossos ouvidos.

O pior veio depois, quando o mentecapto ligou para outro amigo e, como nesse ínterim  seu lanche chegou à mesa e ele não podia segurar ao mesmo tempo o cheeseburguer e o celular, não teve a menor dúvida: apertou o botão do alto-falante do aparelho. E todos nós não apenas ficamos escutando as frases dele, como as respostas do lado de lá.


A tela do celular X tela do cinema.
Ir ao cinema, também. Outro inferno. Não bastasse a praga das pipocas barulhentas e malcheirosas à manteiga e os refrigerantes em lata sendo abertos ploft! estuprando calhordamente as cenas mais delicadas do filme e o som de mastigação suína invadindo a trilha, ainda tem a praga dos celulares com suas telas iluminadas onde os ansiolíticodependentes ficam clicando toda hora pra ver se chegou email, se chegou mensagem, que horas são, e agora, que horas são? 

Show? Outra devastação. Não sei porque as pessoas vão a show hoje em dia, se em vez de ver o show, curtir, dançar, elas só querem filmar o espetáculo com seus smartphones último tipo atrapalhando a nossa visão, atraindo magneticamente nossos olhares, perturbando nossa fruição com seu pensamentinho autoral de ser o primeiro a postar no Face olha-eu-aqui, ó no show superhipermega do Fulano. Saco! 


Fotografar é melhor que viver.
Sem falar na turba que se junta na frente do palco. Pra chegar mais perto dos seus ídolos? - você pergunta. Não. Para o celular deles chegar mais perto dos seus ídolos. Porque eles adoram a vida de segunda mão que só o celular dá. Aquela coisa Guy Debord na veia, do mundo mediado por imagens, espetacularizado até sugar todo o sangue e só deixar robozinhos tecnologizados. 

Ópera? Não, você diz botando a mão na boca horrorizado, ninguém se atreveria a interromper ritual tão centenariamente sagrado. Doce engano! Eu vi e ouvi, com esses olhos e ouvidos que a terra há de comer, uma dondoca quase apanhar do marido porque o celular dela tocou, ela não só atendeu como queria ficar falando, ali, em pleno primeiro ato, enquanto a soprano se esganipava lá no palco.


Whats app,  what a hell!
Aula? No me hagas reír que tengo el lábio partido! Jamais esquecerei em plena aula de Processo Criativo na ESPM, um grupo de alunos apresentando seus trabalhos lá na frente, toca o celular de um deles, que não se faz de rogado. Pára de falar conosco, abre a jaqueta, pega o celular e  eu e todos seus colegas, estarrecidos, o escutamos dizer:   - Alô, mãe? 

E não alimente ilusões com encontros de família. Domingo desses eu almoçava com jovens do clã e quando dei por mim conversava com as paredes. Meus dois interlocutores tinham sido abduzidos pelo Facebook, pelo WhatsApp, pelo raio que o parta.

No último Natal, peguei um ônibus de Júlio de Castilhos a Ijuí, coisa pouca de viagem, beleza, visitar a família, ah, que lindo é o Natal! 
Não funka no meu ouvido, pô!
Estou ali na janelinha embevecida com o verde da paisagem, quando me invade uma música brega no máximo do volume. Viro pro lado, uma tipa horrorosa segurava seu celular na mão e nos brindava a todos do ônibus com seu abominável gosto musical, feito uma deusa do lixão. Tentei me controlar. Calada, Graça! Até a hora em que ela veio de Tati Quebra-Barraco funkando nos meus ouvidos. Botei pra quebrar, também. 

E os loucos mansos que agora você cruza nas ruas, nos cafés, nos shoppings, no trânsito? Gente sem celular na mão mas que está, sim, falando no celular. Arrá, não contava com a astúcia deles? Fone de ouvido, Watson. Do nada, cruza com você um ser humano com o olhar vago falando em voz alta coisas mais vagas ainda. Você leva um susto, pensa que a criatura enlouqueceu, saiu da casinha, sofre de Alzheimer súbito. Nada!

E o pior é que os profetas do marketing só fazem anunciar que o celular vai cada vez mais ser o foco da convergência de comunicação.


Celulódromo, já!
Se a democratização do celular virou uma ditadura abominável, se não tem mesmo salvação, se está tudo dominado sem remédio, as pessoas precisam aprender a usá-lo com educação, parcimônia e respeito ao Outro. Por favor! 

Ou então, sofram as consequências: celulódromo, já! 

( Graça Craidy)

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O assassinato do autor.

Como um saco de gatos.
Olhe bem o anúncio abaixo criado pela DM9Sul para a RBS em homenagem ao Dia do Jornalista. E repare nas aspas que iniciam cada parágrafo. Agora, procure o nome do jornalista homenageado, autor da citação. Não sabe quem disse coisa tão interessante?

Nunca saberá.

O Grupo RBS e a DM9Sul parecem ser muito mais apaixonados pelo jornalismo que pelos jornalistas. E a homenagem, no fundo, não é bem uma homenagem.


Anúncio página dupla publicado na ZH em 07.04.2013, p. 20 e 21.
O único que você vai encontrar é, no final do anúncio, abaixo da assinatura, em uma letrinha menor que a das citações, tipo nota de pé de página, a explicação: Contribuíram para este anúncio os jornalistas do Grupo RBS, dois pontos. 

E ali, sim, os nomes dos autores das frases - todos eles grandes jornalistas, aliás - enfileiradinhos como numa esteira de fábrica, como gado que vai pro brete, como fruta que vai pra caixa, como num saco de gatos de todas as pelagens, sem que o leitor tenha como saber quem disse o que quando como onde por que.

Como se a função fosse mais importante que o sujeito que a faz funcionar. Como se o motor do jornalismo fosse o próprio jornalismo - entidade coisificada e não conceitual - em vez de o jornalista, o cabeça, a inteligência, a origem.


Homenagem ou pseudo homenagem?
Um horror! Um horror!

Das coisas que mais têm me chocado nessa esquisita pós-modernidade do vale-tudo é perceber que a autoria cada dia mais parece que foi pras cucuias.

Dia após dia, percebo que as pessoas jogam com a autoria das frases como se fosse um lego que você troca ao belprazer montando e remontando os pensamentos alheios ao sabor da vontade de cada um.

Nesses tempos de hiperindividualismo lipovetskyano onde cada um desse imenso bando de mimados só deve explicações ao próprio umbigo, o conceito de autoria muda cada vez mais de ser propriedade intelectual daquele que cria, deu origem, deu luz, para ser a propriedade de quem se apropria, recria, copia.


A volta ao breu medieval.
Ou pior, a autoria não tem mais importância nenhuma e portanto todas as coisas serão de autoria anônima. A escuridão total. O breu medieval. O grande nada onde você pergunta quem foi que fez e a resposta é: não interessa.

Volta e meia você se depara hoje com textos que ninguém sabe de onde saíram, assinados na marra por autores que você sabe muito bem de onde saíram, mas que jamé-de-la-vi escreveriam aquilo, ou que claramente não têm aquele estilo ou - filme de terror! - jamais tiveram contato com aquelas coisas citadas, por uma simples razão. Já estavam mortos quando elas foram inventadas.

Outro dia até o Luís Fernando Veríssimo escreveu uma crônica sobre isso. Que as pessoas vem elogiar um texto pretensamente dele e que quando ele agradece mas diz que não foi ele que o escreveu, o interlocutor reage quase agressivamente:- foi, sim!

Plasil! Plasil!

E essa praga se alastra para todas as áreas da autoria. Das letras às artes visuais. Das colcheias às descobertas científicas e tecnológicas.


O espírito do samplear.
Uma amiga que acaba de entrar como aluna no Instituto de Artes da UFRGS me conta que no IA é proibido assinar as pinturas e desenhos e qualquer trabalho de artes plásticas na frente da tela ou do papel ou seja lá de que suporte for. Assinar, somente atrás, modestamente. Decerto para auxiliar algum organizador bibliotecário no futuro ou para responder a alguém mais insistente, gente antiga do século XX, quem sabe, sobre - só por curiosidade, mesmo! - quem é o autor daquela obra.

Há algumas semanas, também, o vencedor de um importante prêmio de Porto Alegre, o Prêmio Açorianos de Música, foi desclassificado pela melancólica revelação de que sua música era na verdade um plágio descarado de outra música estrangeira, que ele apenas se deu ao trabalho de traduzir e fazer pequenas mudanças aqui e ali.

E, diante do cancelamento da sua premiação que qualquer um com vergonha na cara sumiria do mapa por uns tempos, sem nada comentar, o autor do plágio ainda desafiou a decisão dos jurados, questionando arrogantemente: - Mas o que é, afinal, criação? Eu apenas me inspirei na música do outro autor. Isso. Ou algo assim. Mas o espírito foi esse. O tal espírito de samplear, tão comum também no mundo rap, hip hop e dos DJs. 
Caradura ou sem noção?

Será caradurismo, falta de noção ou noção equivocada de autoria?

Me pergunto: a quem serve essa desvalorização da autoria como algo que torna a obra preciosa, reconhecível, valorosa, referencial, necessária para a evolução do homem, e em última instância, por isso mais vendável?

A quem interessa transformar tudo em um grande balaio de gatos sem autoria? Certamente, a quem leva vantagens com isso. Financeiras e intelectuais.

Os medíocres estão feitos. Basta sentar ao lado de um brilhante. Os marqueteiros estão feitos. Basta arrematar os trabalhos de gente criativa a preço de banana. Aliás, em certos casos, até a banana é mais bem paga que boas ideias.


Banana a preço de idéia.
Lembro de um artigo que li no final dos anos 90, na revista Esquire, sobre as diferenças do gosto pela arte das gerações de milionários, comparando três gerações: a dos milionários dos anos 50, os baby-pignataris, a dos milionários dos anos 80, os yuppies, e a dos milionários dos anos 90, os filhotes de bill-gates.

No que tangia às artes, a geração dos anos 50 reverenciava os grandes pintores, de Da Vinci a Van Gogh. Os novos ricos dos anos 80 preferiam Kandinski, Andy Warhol. Mas a resposta mais supreendente vinha da total indiferença à arte da geração bill-gates, posicionando-se muito mais interessada em adquirir os direitos intelectuais para a internet tanto sobre Da Vinci e Van Gogh quanto sobre Kandinski e Warhol.

Ou seja: a arte só tinha importância pelo valor de revenda ou, no caso, por sua multiplicação à exaustão na rede, na medida do que se podia ganhar dinheiro com ela. E ainda que eles entendessem que ter um Van Gogh fosse importante nesse sentido, tanto lhes fazia, de fato, a obra em si, como criação do Van Gogh ou do pai do badanha.

Lamento muito tudo isso e não consigo projetar um mundo cultural onde as coisas não tenham autores, onde tudo seja anônimo, mercantilizado, transformado inapelavelmente em commodities, genéricos.


Autor, o novo genérico.
O estudioso da cultura, especificamente da cultura da mídia, Douglas Kellner, no livro A Cultura da Mídia (2001) alerta para o fato de que a mídia fornece material para construção de identidade pela qual o indivíduo se insere na sociedade tecnológica capitalista contemporânea. E que é preciso examinar com atenção como a mídia provê recursos para formaçao dessa identidade, como promove reacionarismo ou progresso.

Por isso, quando vejo um dos maiores grupos de comunicação do país, servido por uma agência de publicidade integrante do 18º maior grupo de comunicações do mundo - a DM9Sul, do Grupo ABC -  publicarem um anúncio pretensamente elogiando os jornalistas, mas de fato capando-lhes a autoria, fico pasma e não posso fazer de conta que não vejo.

Agora é oficial? Será o autor, mesmo, uma espécie destinada à extinção?

(Graça Craidy)

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O futebol que ninguém comenta.

ENXURRADA DE BOBAGENS ALUGANDO NOSSO CÉREBRO
A quantidade de lixo que a narração e o comentarismo do futebol produz é algo que me dá vertigem, tamanha a enxurrada de bobagem que é expelida boca afora dessas criaturas que ocupam nossos ouvidos e alugam nossos cérebros antes, durante e depois dos jogos.

Tudo para que ninguém tenha tempo ou atenção de curtir por juizo próprio o jogo a que está assistindo. Nem por um segundo. Não. Necas. Jamé.

Parece que quem narra ou comenta futebol acha que o espectador ou o telespectador ou o rádio-ouvinte, enfim, é um débil mental, um retardado, um abduzido. Que não tem a menor condição de pensar com sua própria cabeça.

Daí o assumido tom pseudamente pedagógico o tempo todo explicando aquilo que você já sabe porque, afinal, você está vendo o jogo, também. Esqueceu?

Esqueceu. O narrador, o comentarista de futebol - essa dupla Batman&Robin dos gramados - finge que está vendo o jogo, mas na verdade está o tempo todo se olhando em um espelho fictício, lambendo o seu umbigo e atingindo orgasmos múltiplos ao escutar sem parar a própria voz. Aos soquinhos. Em melodias que desenham um redondo no ar, depois um redondinho. E pá, ponto.

Mas a niagara de bulshitagem não viceja apenas no comentarismo. Cada vez que um repórter entrevista um jogador saindo do campo no intervalo ou no final do embate, a resposta vem sempre igual. Até a música que a fala do entrevistado entoa é parecida.

Se o sujeito for do time vencedor, gira em torno de o nossotime-uf-teve-uf-garra-e-uf-a-equipe-uf-pegou-uf-junto. Tudo ofegantemente enquanto seca com a manga da camiseta o suor. Se eu sou do marketing da Gessy-Lever ou da Artex, é exatamente nessa hora que ia querer meu merchandising.

Caso o atleta seja do time perdedor, no entanto, a cantilena é outra. Só que igual: a-gente-uf-se-esforçamos-uf-mas-uf-nãofoi-uf-dessa-vez-uf-agora-uf-é-pensar-uf-no próximo. E ali fica, patinando na esteira do bobagismo óbvio que saliva e não engole. Cusp!

Aliás, os repórteres de futebol, na sanha de marcar pontos com seus chefes lá na emissora, cometem as piores atrocidades enfiando os microfones nas feridas dos cristãos que acabaram de perder para os leões.

NARRADOR E COMENTARISTA FALAM PRO ESPELHO
O cara sabe que perdeu. O cara sabe que errou. O cara sabe que podia ter feito isso, aquilo e aquiloutro pra ganhar. Mas não fez. Pqp, ele não fez! Não precisa vir um acacio de microfone em punho e perguntar, justamente: e aê, maicon, conta pra torcida como foi  que você perdeu aquele gol feito?

Se eu sou o jogador, respondo que foi porque eu quis. Que me deu tédio bem naquela hora. Melancolia, spleen, depressão, sabe como? Que me dei conta de repente da imensa pequenez do homem diante da gigantesca obra de Deus. E, principalmente, da finitude do ser futebolístico enquanto mortal.

Talvez rendesse conversas mais divertidas. Porque, francamente, aquele trololó desconexo que acontece todo domingo depois dos jogos, com um bando de adultos sentados em bancadas que parecem abrigar cabeças pensantes, me leva a uma loucura mansa comparável apenas à loucura mansa das pessoas que fazem palavras cruzadas sem parar.

Às vezes fico ali no sofá observando com renovado interesse socioantropológico o desenrolar de programas assim e vou entrando em um parafuso suave que me conduz ao labirinto de um minotauro de chuteiras correndo alucinado atrás do rabo.

Todos eles têm certeza. Todos eles sabem muito bem do que estão falando. Todos eles levam aquilo mais a sério que se estivessem decidindo a terceira guerra mundial. Todos eles parecem intelectuais, gente que pensa, reflete, pondera, pesquisa, compara. Todos eles concluem, baseados em evidências tão gritantes que só você, telespectador, só você, radio-ouvinte, não tinha pensado nisso sozinho, antes, com sua própria minúscula cabecinha.

E nem me venha alegar Nelson Rodrigues, que dois nelsons nao nascem no mesmo lugar.
( Graça Craidy)

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Salvador salva a dor

Salvador salva a dor de ser ocidental
de viver mal sem sal amontoado
na prateleira da cidade grande.

Salvador destapa os poros
acorda o corpo amortecido
expõe a carne água na boca
morder a maçã boa de mil pecados

Salvador é o caminho de volta
à origem bruxa do Oriente
pimenta, dente, saliva língua, gente, quente
uso, fruir, usufruir

Salvador é o fundo primitivo mundo sangue fazendo a pele rosada rubra vida urge, turge, muge
eu, vaca, mulher e peixa
Salvador, tua lembrança não me deixa.

( Salvador, 1992)

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O beijo de Omar.

Omar Izar
Quando ele beija a gaita na boca, todo meu corpo dói, como se todas as dores de ser feliz me comessem viva e me sugassem a alma.

Quando ele beija a gaita na boca, desata os nós do meu avesso e todas as aves adormecidas no torpor do cotidiano voam coração afora, sedentas do indescritível sentimento de ser divino e pobremente humano.

Es como el dolor del placer.

Es como se uma faca, um punhal me cortasse em mil pedaços de mim e me jogasse aos cães da noite, ávidos de sentires.

( 6 de novembro de 2001, bar do Omar Izar, Vila Mariana, Sampa)

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Um Mamounia, um violão, nosso amor, uma canção.

Eu me embriagava de Marrakesh.

Aquela cidade inteirinha cor de telha com suas tecelagens coloridas ao vento, seu mercado a céu aberto, seu formigueiro de gentes encapuzadas e enveuzadas, as ruelas da cidade velha Medina, o cântico lamentoso das torres que avisam várias vezes ao dia o vezo de orações, tudo me mantinha em um estado onírico imaginário único, mesclado de hortelã com canela e pimenta.

Hortelã, do chá doce e ritualizado que eles bebem compulsivamente, 24 horas por dia, num transe que - imagino - busca apagar da lembrança a milenar proibição islâmica que abomina bebida alcoólica.

Canela e pimenta, da comida perfumada que inebria os sentidos em promessas de paraíso. De todos os prazeres, o da mesa, entre os maiores e o mais permitido.

Em meio àquela sociedade de machos vestidos até os pés e de fêmeas escondidas atrás de panos e tatuagens no rosto que deduram seus estados civis, uma brasileira e sua gargalhada alta e desaforada destoam, com certeza,do submisso silêncio feminino local.

Os homens da cidade, quando querem ser galantes com as turistas estrangeiras pensando talvez arrumar ali uma noite livre de amor, falam francês e fazem floreios com as mãos e enchem o ar com suas mangas kaftanianas, em danças de acasalamento fortuito, fazendo crer às desavisadas ocidentais que eles são doces, mansos, sensuais e divertidos.

Watch your step! Quando eles falam com as suas mulheres, irmãs, mães, esposas ou empregadas, porém, mudam da água para o vinho. Titanic! Da luz para o breu absoluto. E se tornam ásperos e guturais e agressivos em um frasar árabe que pode até não ser mas que soa, soa como se fosse costurado brutalmente a gritos e insultos. Toda delicadeza se esvai. Ali jaz um ex-habib, desvendada a sua persona.

Eles têm certeza que todas as mulheres ocidentais são fáceis - em outras palavras, putas -,  que não sabem se comportar, que riem alto demais, que são despudoradas, vagabundas e, principalmente, que vivem em febres internas e eternas pelas alcovas deles .

Nessa mesma viagem, em Fez - a primeira das chamadas Cidades Imperiais, olhando de quem vem da Espanha -, fui obrigada fazer um escândalo com um conciergezinho de metro e meio do hotel em que me hospedava, porque numa noite em que voltei tarde de um jantar o mísero criaturo me seguiu pé por pé na hora em que subi para o apartamento e já ia se enfiando junto comigo no quarto, quando me dei conta daquele encosto e perguntei aos gritos aonde ele pensava que ia.

O rato teve a petulância de me responder: - dormir com você. Quê?!  Desatei um encordoado de impropérios em várias línguas, mandando ele sumir dali já agora imediatamente, antes que eu quebrasse tudo o que tinha no quarto, em cima dele.

E o gnomo saiu rapidinho, garanto que sem entender o porque de tanto dendéu, pois, afinal de contas, segundo seu entendimento, se eu praticava sexo grátis com todo mundo, por que não com ele, um exemplar, mesmo que em tamanho PP, do admirável macho marroquino?
La Mamounia Hotel

Eu estava ali no Marrocos em um grupo turistico com gentes de todos os cantos do mundo e, junto com duas amigas de viagem - uma australiana e uma argentina - resolvemos certa noite conhecer o hotel mais famoso, tradicional e chique do Marrocos, em cujo piano bar o primeiro ministro inglês Winston Churchill costumava ficar baforando seus indefectíveis charutos.

O nome do hotel: Mamounia. E lá nos fomos as três super chiques, salto alto e tudo, três gatinhas borralheiras que iam se intrometer no maravilhoso mundo das celebridades do jet set internacional, em sua noite de cinderelas marrocãs.

Só de entrar no hotel, você já se sente em um mundo de cinema, de mistério, de história. Muito mármore, muitas colunas, pé direito lá no céu, as pessoas deslizando naqueles pisos quadriculados com as pedras mais nobres, um luxo! Me sentia a Ingrid Bergman no bar do Rick em Casablanca. E tinha também um Sam pra gente pedir Play-it again! Só que era um Sam branco, francês, puro charme e talento.

Entramos no bar direto ao piano de cauda que ficava feito uma ilha com um balcão ao redor rodeado de bancos altos, onde os mais ávidos por música sentavam e ficavam por ali bebericando e curtindo o som do Sam francês.

O bar estava bombando, lotado, mas tivemos sorte. Três banquinhos altos para três  tréjolis, bebidas, glamour, nós extasiadas com tudo, eis que o Sam puxa um microfone com um fio comprido de debaixo do piano e nos aborda, perguntando de onde éramos. Argentina. Austrália. Brasil. Respondemos.

Sam pediu então que cada uma de nós cantasse uma música do seu país. Escolhi Corcovado, do Tom Jobim. O pianista sorriu pra mim, cúmplice, enquanto eu cantava Um cantinho, um violão, nosso amor, uma canção, olho grudado no olho dele, pra não errar.

Quando terminei, aplausos! Uau! E eu vi que o Sam me aprovou.

Na sequência, minha amiga argentina, tonta, em vez de cantar um tango, um bolero ou uma milonga, inventou de interpretar La Vie en Rose para o agradar o francês. Só que em espanhol! Diós, pela cara do Sam, percebi que ele achou a escolha dela uma reverenda bobagem. Francamente, la bida en rosa? Minha amiga australiana cantou não lembro bem o quê, mas não fez feio, não. Sam aprovou. E continuou a roda, pedindo aos outros clientes do balcão que cantassem também.

Estávamos as três felicíssimas na nossa noite mamouniana, sentadas no melhor lugar do bar, vendo tudo de cima e de perto, quando Sam, que já tinha até guardado o microfone debaixo do banco, requisita-o de novo do seu esconderijo e apontando-o mais uma vez para mim, me diz a frase mais linda, mais encantadora, mais surpreendente de toda aquela aventura arabesca:
- Sing it again, chérie?

Quase caí do banco. Como num filme, peguei o microfone, fechei os olhos e escorreguei suavemente pra dentro dos braços de Antonio Carlos Brasileiro Jobim e me enleei no cantinho, no violão, no amor, na canção, pra fazer feliz a quem se ama.

E eu que era triste, descrente daquele mundo, só abri os olhos quando o bar veio abaixo dos aplausos dos presentes. E eles assobiavam, e davam gritinhos, e me apupavam. E sorrindo, triunfante, Sam também aplaudiu. Seu olhar, prenhe de eu-sabias.

Sorry, Churchill, mas naquela noite, a maior celebridade do Mamounia foi moi. Moizinha aqui.
( Graça Craidy)

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O italiano insensível e meu nariz sensual.

Meu estado era lastimável. Fumante de longa data, aquele inverno úmido paulistano tinha me agarrado de jeito, anjo vingador do paraíso me perseguindo rua Manoel da Nóbrega afora: fuma agora, fuma, cadela!


E eu fumava. E quanto mais jogava fumaça pra dentro, menos oxigênio. E o resfriado virando gripe e a gripe virando bronquite e a bronquite, credo! E se virar coisa ruim. E se virar o que-diga, como diria Guimarães?

Até que, me arrastando feito alma penada, sem um pingo de maquiagem no rosto, pálida, fungando, febril, exaurida, entreguei os pontos e resolvi finalmente ir ao especialista mais temido e evitado pelos fumantes do mundo inteiro: o pneumologista.

Só ele poderia me dizer se meu caso era de corticóide, trimedal ou do abominado pneumotórax do poema de Bandeira.

A consulta era às 14 h, ali na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, se não me engano. E eu aproveitei para almoçar num restaurantezinho italiano que havia na Manoel da Nóbrega com uma comidinha gostosa, misto de nouvelle com vechia cozinha.

A dona era uma italiana excêntrica vestida à moda hippie, loira, exuberante e comandanta dos pratos, panelas e também de um marido meio almofadinha que vivia por lá, sem muito ajudar, mais enfeitando o lugar, mesmo, com aquela cara de César, juro que até folhas de louro ele colocava atrás da orelha, às vezes, feito os imperadores da velha Roma.

Era cedo ainda. Entrei. Sentei. O restaurante estava vazio. Só uns poucos fregueses numa mesa e lá no balcão, o tal. Eu, por minha vez, era só um suspiro e uma fungada. Uma fungada e um suspiro. Quase nem conseguia abrir os olhos, o rosto congestionado. Isto é, feia. Muito. Jacu. Ogra. Bruxa total.

Pedi meu prato e mal e mal conseguia engolir a comida, quando o estroncho bonitão, decerto a me ver naquele estado lamentável, pensou com sua sensibilidade de maschio italiano baldoso que podia me ajudar.

- Tu non tá bene, oggi, non?

Fiz que não com a cabeça, nem palavra eu queria dizer.

Ele ficou quieto. Lá do balcão, me observou, me observou, me escrutinou, me mediu, me olhou de cima a baixo, de baixo a cima, de um lado, de outro. Pensou um pouco. Pensou mais um pouco, ainda. E, depois de um razoável silêncio, fruto da sua, decerto, profunda reflexão sobre como me levantar o astral, ele me crava um punhal bem o meio do coração:

- Perché tu non faz uma plástica no nariz? Ia ficar bem mais bonita...

Apanhada de surpresa com aquela facada na minha auto-estima que no momento não ultrapassava a altura do tapete, nem consegui reagir. Muito lentamente fiz que sim, de novo, com a cabeça.

Mas o cão não se deu por achado. Não contente com o uso indevido de arma branca contra uma pobre mulher doente e deprimida, ele acabou de me exterminar com uma única, simples e singelinha frase:

- Hummm, não ia adiantar!

E apontando a mão num ângulo de 45º em direção à própria testa, concluiu, mais esteta que Michelangelo e Da Vinci juntos:

- Tua testa é assim, ó, muito pra trás!

Morta, moribunda, sangrando por todas as minhas reticências, de novo, eu não disse um ai. Só fiz que sim com a cabeça.

(Graça Craidy)

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Artigo: Deus e o Diabo na terra da garoa. (Ou, a gênese dos criadores Dualibi, Petit, Zaragoza, Washington e Nizan.)



Dissertação de Mestrado 2007 PUCRS
Em 1968, o redator publicitário Roberto Duailibi e os diretores de arte Francesc Petit e José Zaragoza surpreenderam o mercado brasileiro de publicidade com um feito inédito: fundaram a primeira agência de publicidade do Brasil - a DPZ (SP) - comandada não pelos indefectíveis businessmen, como era usual até então, mas pelos chamados artistas do setor, os criadores publicitários[1]      

Doze anos depois, outro criador publicitário da equipe da DPZ, o redator Washington Olivetto, sai da agência-mãe e lança a sua própria agência, em parceria com suíços - a W/GGK (SP).

Em 1989, ainda, outro criador publicitário da equipe de Washington, o redator Nizan Guanaes, por seu turno, empreendeu a sua agência DM9 (SP), evidenciando uma intrigante cadeia produtiva criativa que me moveu à grande questão desta pesquisa: que multicausas teriam propiciado a ascensão desses criadores publicitários brasileiros ao poder econômico, como sócios ou presidentes de suas agências, no campo da publicidade, no Brasil, entre as décadas de 70 e 90, já que até os anos 50 os criadores eram quase como "párias" no mercado, conforme o relato de Gandra ( 1995, p. 49)?

As respostas vieram à côté da assim chamada sociologia genética ou da prática, de Pierre Bourdieu, na aplicação das suas noções de habitus, campo, dominante/dominado, capital econômico, capital simbólico, capital cultural, capital social/relacional, illusio, lacuna estrutural e espaço dos possíveis.

As teses bourdieuanas sustentaram a reconstituição do habitus2 pessoal e profissional dos cinco criadores publicitários citados acima, além da investigação à parte, da mesma forma, da trajetória de vida e carreira de outro criador publicitário - o redator Neil Ferreira, contemporâneo de Duailibi, Petit e Zaragoza - que, embora ocupasse importante espaço no campo da publicidade, acabou não se transformando em empresário, constituindo-se portanto, metodologicamente, em parâmetro para a tomada de posição dos seus pares.

Em As regras da arte (1996, p. 244) Bourdieu aconselha que, para captar a hierarquia real dos fatores explicativos, para entender a lógica das lutas do campo da produção cultural - no caso, da produção cultural publicitária - inverta-se a progressão praticada geralmente pelos analistas, perguntando-se, por exemplo,  não como tal criador publicitário chegou a ser o que foi, mas, sim, como ele pôde ocupar -dadas sua origem social e suas propriedades socialmente constituídas - as posições oferecidas por um estado do seu campo. 

Para Bourdieu não existe acaso ou sorte e sim oportunidades, tomadas de posição inscritas potencialmente nas próprias posições, em certas somatórias de habitus com lacunas estruturais, como se fossem atitudes esperando a hora de acontecer, como se fossem roupas sociais à espera de serem vestidas. 

Essas mudanças ocorreriam ou por um cenário estrutural facilitador ou, ainda, por algo intrínseco, vindo do habitus do agente, ou, ainda melhor, por ambos, que impulsionam ainda mais rápido à ação.  
Inclusive em seu artigo A ilusão biográfica, o sociólogo francês questiona o método de história de vida cuja construção se pauta pela cronologia (2005) (chamada por ele de "ilusão retrospectiva de coerência reconstruída"), ilusoriamente acreditando que haja uma "evolução", que a vida vá se desenrolando ao longo do tempo. 

Bourdieu defende, em síntese, que a vida real não é exatamente um caminho, uma estrada com começo, meio e fim - fim, inclusive, com duplo sentido: o de final e o de finalidade - mas desconexa, ilógica, "rapsódia heterogênea e disparatada" em constante mutação, onde a única permanência - ele ressalva - é a do nome próprio:

Como instituição, o nome próprio é arrancado do tempo e do espaço e das variações segundo os lugares e os momentos (...) o que ele [o nome próprio] designa não é senão uma rapsódia heterogênea e disparatada de propriedades biológicas e sociais em constante mutação...
( BOURDIEU, in FERREIRA, FIGUEIREDO, 2005, p. 187)

Bourdieu (2005) afirma ainda que o biógrafo - cúmplice - é que desenha e recria artificialmente o sentido, em um exercício de ilusão retórica que - no seu entender - a própria literatura tradicional trata de reforçar.   

Para esquivar-se dessa ilusão, Bourdieu sugere que se construa, também, em paralelo, os estados sucessivos do campo no qual a trajetória se desenrolou e o conjunto das relações do agente em foco, junto com as relações dos outros agentes, submetidos às mesmas condições facilitadoras:

Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no espaço social, (...) nao podemos compreender uma trajetória (...) sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente (...) ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis. (BOURDIEU, in FERREIRA, FIGUEIREDO, 2005, p. 190)

Assim, Bourdieu não crê que o ator social seja construído apenas pelo tempo, mas engendrado por suas relações, pelas posições que ocupa em um determinado momento e em certo lugar, por seus deslocamentos dentro do espaço social, impulsionado por uma espécie de bagagem interna acumulada socialmente que tenha recebido ( valores familiares, escolares, sociais, econômicos, culturais) e que a sua identidade social resulta de como esses valores - traduzidos em habitus potencialmente urdidores de capital simbólico, social, cultural ou econômico5 - os sustentam em suas decisões e ações de aceitar ou não as oportunidades oferecidas pela estrutura.
 
Roger Chartier, historiador francês
Em palestra sobre Pierre Bourdieu e a história, no Rio de Janeiro (2002), o historiador francês Roger Chartier enfatiza esse aspecto relacional da sociologia genética, sublinhando que a essência, em Bourdieu, é pensar as relações visíveis (sociais) somadas às relações abstratas (estruturais) - redes visíveis e invisíveis, sempre em um dado momento e em um dado lugar - de modo que esse contexto definido e o momento histórico específico não apenas tragam luz à investigação como evidenciem a pseudo universalidade das categorias, se estudadas fora do campo e do tempo em foco, repelindo também a idéia da ascensão autônoma do gênio singular:

a obra, o artista, o filósofo só existem dentro de uma rede de relações visíveis ou invisíveis que definem a posição de cada um em relação à posição dos outros (...) (CHARTIER, 2002, p. 140)

Toda trajetória social deve ser compreendida como uma maneira singular de percorrer o espaço social, onde se exprimem as disposições do habitus, diz Bourdieu (1996). Assim, há que se perguntar, à moda bourdieuana, não como Duailibi, Petit, Zaragoza, Washington e Nizan chegaram a ser o que foram, mas, sim, como Duailibi, Petit, Zaragoza, Washington e Nizan puderam ocupar, dadas suas origens sociais e suas propriedades socialmente constituídas, as posições oferecidas por um estado específico do campo publicitário, nas décadas de 70, 80 e 90, não só em relação aos outros criadores publicitários mas também aos seus diferentes funcionais, os profissionais de atendimento6.
 



Descobrindo com o que contavam de seu, de diferente, de individual, de singular ou de herança coletiva, e ao mesmo tempo reconstituindo o estado do campo publicitário, fica evidente também o que facilitou suas trajetórias rumo às posições de dominantes na estrutura, de maneira a se igualarem entre si, como empresários, e ao mesmo tempo se diferenciarem do seu parâmetro, o criador Neil Ferreira.
 
Em outras palavras: como eles conseguiram - na posição de criadores publicitários - libertar-se do melancólico adjetivo de "párias", em 19507, para o ilustre qualificativo de "poderosos", menos de 20 anos depois, ascendendo ao mais alto patamar hierárquico nas agências de publicidade do Brasil, com repercussões de alcance mundial, dando origem inclusive a uma cadeia produtiva criativa de empreendedorismo na publicidade, que se reproduziu como prova acabada, redobrada, triplicada, da sua ascensão?8

Das 25 maiores agências, 14 são comandadas por criadores ( 2004)
O raciocínio
Para investigar as trajetórias dos criadores, Bourdieu sugeriu vários olhares. 

Primeiro, olhar de longe, projetando os criadores publicitários no mesmo cenário do campo da sociedade em geral. 

Franco, ditador espanhol de quem Zara fugiu
Depois, focando-os no campo da vida profissional, submetidos todos às mesmas intempéries e carícias do cotidiano, no rés do humano com seus desejos, benesses e tormentos que conduzem aos turbilhões do poder. 

Depois, ainda, espiar para dentro da existência de cada criador desde antes dele nascer, no recôndito do seu habitus, quando ainda era somente um desejo de vida melhor no coração apertado de um avô imigrante no porão de um navio, ou um gemido mudo nas costas lanhadas de um tataravô escravo, quando escapou da roda dos enjeitados por filho bastardo de um nobre em um vilarejo italiano, quando se refugiou da perda do pai em um jogo de futebol que nunca se acabava ou, ainda, quando se perguntou assustado porque a irmã estava voando da cama em plena madrugada, se as únicas asas que tinha eram as de papelão e tule do dia da primeira comunhão?9
 
Descobri com Bourdieu que cada homem é indivíduo único, mas que o que o move está, também, no coletivo, nas redes visíveis e invisíveis, nos vãos e desvãos da vida, ali bem onde, como num palco móvel, os espaços em branco se néonizam luminosos no aguardo do "breve aqui" das atitudes, gestos, idéias, que vão redesenhando cada esquete em um novo cenário, de tal maneira que quando fica pronto já não é mais aquele de quando começou.

1951. Professores da ESPM eram das grandes agências
Para Duailibi, Petit, Zaragoza, Washington, Nizan e Neil foi a assim. 

Cada um vindo de um canto, em épocas diferentes, todos acabaram em São Paulo, das maiores cidades do planeta, transformando, com seus capitais bourdieuanos, a história da propaganda e da criação publicitária no Brasil. 

Dos seis criadores, apenas Neil, por razões que tento apontar aqui, não aderiu às tomadas de posição que Bourdieu (1996) garante embutidas na própria posição como uma "arte de inventar já inventada", segundo suas palavras: à tomada de posição do comando de importantes agências da publicidade brasileira.

As lacunas
É perfeitamente possível identificar, uma a uma, cada lacuna estrutural, em cada década, que teria favorecido as referidas tomadas de posição dos atores sociais em foco, somadas a cada habitus, resultando em claros espaços dos possíveis10 para sua ascensão.

No estado de campo encontrado pela primeira leva de criadores que toma o poder no final da década de 60, mas que se constrói a partir da década de 50, identifico muitas lacunas estruturais. 

O mercado publicitário restrito a poucas agências nacionais (Standard, Norton, C.I.N., P.A. Nascimento, entre outras) e a basicamente duas multinacionais (Thompson e McCann).

Os redatores, embora dominados pelo atendimento, ocupavam posição privilegiada de "intelectuais", devido às suas origens profissionais (jornalismo, literatura, poesia, etc). 

Não havia redatores profissionais formados em Publicidade, mas eram requisitados principalmente do jornalismo, onde já dominavam o texto, inclusive o texto mais " macio" - semelhante ao da publicidade - do chamado " new journalism". 

A cultura do free-lance era aceita e incentivada, por falta de profissionais suficientes, favorecendo a construção de capital social aos criadores.  
ESPM 1951, MASP

A Escola de Propaganda (origem da atual ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing), recém havia sido fundada e no glamuroso espaço do MASP - Museu de Arte de São Paulo, conquistando para a profissão uma sofisticação do ofício que nasceu rasteiro como mero agenciador de anúncio. 

Os layoutmen eram sujeitos humildes, incultos, trazidos de gráficas ou de oficinas de jornais, espécie de coringas toscos, malvistos na hierarquia das agências, como simples " fazedores" que não usavam a cabeça, diferente dos diretores de arte europeus como Petit e Zaragoza, com formação em Belas Artes.
Anúncio ilustrado por Zaragoza

A ilustração era o principal recurso dos anúncios, demandando artistas plásticos. 

Os layouts eram 100% feitos à mão, requisitando habilidades artísticas, técnicas específicas e esmero no acabamento, para, antes de persuadir os consumidores, serem capazes de seduzir o próprio anunciante, layouts aos que Duailibi chamou de " layout-arte".

Na economia, outras lacunas favoreceram a ascensão dos criadores em foco.

A implantação da indústria automobilística demandava campanhas publicitárias mais profissionais e financiava, de certo modo, o aprimoramento do setor. 

O espírito desenvolvimentista de JK estava em plena vigência. 


Começa a TV em 1950 e se estabelece nos anos 60/70, exigindo também criação (e produção) profissional. 

A ditadura militar cria uma rede nacional e necessita da "costura" de comunicação de um discurso único ufanista. 

Essa mesma rede, para ser implantada, precisava de aparelhos de TV nas casas dos brasileiros e vendem-se então televisores, com campanhas publicitárias, entre outras centenas de produtos da industrialização favorecida pelos militares- 

As contas governamentais são atendidas com reserva de mercado só por agências brasileiras. 

O Milagre Brasileiro cria uma onda de consumo. 

As editoras Bloch e Abril possibilitam anúncios melhor impressos e com abrangência de leitura geograficamente maior. 
Criação pré e pós Bill Bernbach: com e sem ideia

A chamada Revolução Criativa de Bill Bernbach11 contamina o espírito publicitário criativo da época, favorecendo a mudança de illusio. 

A fabricação de fios sintéticos possibilita grandes ações publicitárias e promocionais, como o caso da Rhodia, criando o mercado da moda. 

O movimento mundial de 1968 de renovação favorece a ruptura.

Nos anos 80, as principais lacunas estruturais referem-se ainda à ditadura militar, que por seu poder de censura propicia uma postura mais alienada e absolvida de culpa de quem trabalha em criação publicitária. 

A profissão já havia sido profissionalizada pela geração anterior e já havia chegado à Academia, com a multiplicação de Faculdades de Comunicação no país. 

A ascensão de uma classe média urbana com melhor poder aquisitivo mas repertório cultural menos rico favorecia uma linguagem mais popular, acentuada pela própria programação da Globo e SBT. 

A Rede Globo se profissionaliza e se expande em todo o país. 

A grande mídia dá espaço ao assunto publicidade/ publicitários. 
Jorge Benjor: Alô, alô, W/Brasil

Jorge Benjor vende 1 bilhão de cópias de uma música com o nome de uma agência (Alô, alô, W/Brasil). 

Em São Paulo, a Democracia Corintiana é conduzida por um vice-presidente publicitário: Washington Olivetto. 

A globalização estimula a vinda de mais agências multinacionais ao Brasil, que buscam se unir operacionalmente a publicitários criativos locais. 

O festival de publicidade de Cannes firma-se como o consagrador de agências e de profissionais e seus prêmios viram imã de contas aos mais premiados.

Nos anos 90, mais lacunas acabam se oferecendo como novas oportunidades.

Os grandes grupos de comunicação movidos pelos interesses dos seus acionistas tomam posse do mundo, espalhando agências e continuando cada vez mais a se unir a criativos locais. 

A illusio da criatividade está em alta, causando a distorção da busca de prêmios em Cannes a qualquer preço, inclusive com anúncios ditos "fantasmas" que, depois de premiados, agregam-se aos portfolios das agências e das carreiras profissionais, como atestado de competência e, ainda, como ponto de atração para contas.   

Os grandes grupos provocam realinhamento geral das contas publicitárias no planeta, favorecendo as agências com sobrenome multinacional.

O Festival de Publicidade de Cannes cria a categoria " Press and Poster" (antes só havia a categoria de comerciais de TV e cinema) e a publicidade brasileira, empoderada pela nova tecnologia dos computadores e pela qualidade digital, consegue competir de igual para igual com Europa e Estados Unidos, somando excelência de acabamento à já reconhecida excelência de criatividade nacional.

Anos 70: Duailibi, Petit, Zaragoza. A primeira grande ascensão

Nos anos 50, quando Duailibi, Petit, Zaragoza e Neil se tranformaram em criadores publicitários, existiam grandes lacunas estruturais no campo da publicidade, em São Paulo, com espaços dos possíveis que facilitaram a ascensão de cada um deles, no que lhes tangia. 

Como já se viu, o mercado da propaganda era restrito, dominado pelas multinacionais Thompson e McCann, com participações mais tímidas das agências nacionais Standard, Almap, Norton, C.I.N., entre outras menores. E já que não havia ainda redatores publicitários formados em faculdade, as empresas foram buscar principalmente no jornalismo - onde estava Neil- os seus profissionais. Dentro da Criação, embora considerados hierarquicamente inferiores aos de atendimento ( os dominantes no interior do campo) os redatores pelo menos" ficavam em salinhas minúsculas",  diz Petit ( 2003) - mas eram superiores em relação aos diretores de arte da época - os chamados layoutmen, cujos" ficavam no porão" ( Petit, 2003). 

Esses layoutmen, modestos homens vindos das gráficas que serviam às agências, tinham sido convocados por falta de gente especializada, guindados à posição de meros "ilustradores" das idéias dos redatores, os intelectuais da agência, que, em consenso com os profissionais do Atendimento, determinavam o conteúdo da ilustração. 

É bom lembrar que nos anos 50 a ilustração dos anúncios era mera legenda visual do título, puro ornamento, enfeite, exposição de motivo. Ainda não havia o conceito de a idéia do título se somar à do visual, formando um terceiro significado que acaba se completando na cabeça do leitor, e que precisa da sua interação para ser compreendida. 

Naqueles anos 50, no entanto, o leitor do anúncio era passivo, recebia a mensagem mastigada, óbvia, autoritária, exagerada, uma enxurrada de adjetivos melhor dizendo, onde o texto e o título, com inspiração 100% americana, eram racionais, demonstrativos, explicativos, conservadores. Tinha até anúncio que chamava o leitor de V. Sª!  Esse modelos era calcado nos moldes do publicitário americano Claude Hopkins, o qual reiterava em seu livro A ciência da propaganda (1981), escrito em 1923, que a propaganda tinha três funções: 1ª: vender; 2ª: vender; 3ª: vender. 

Nesse quadro de pragmatismo explícito mesclado com overdose de elogios, em um incipiente Brasil juscelinizado pela idéia de desenvolvimento que atraiu principalmente a indústria automobilística, Duailibi, em clara vantagem sobre Neil, já trabalhava em propaganda como redator publicitário - ainda que de maneira meio torta - na Colgate Palmolive. Sua função era escrever relatórios sobre a propaganda da concorrência, mas que me parece  mais relevante  foi seu treino nos textos originais de anúncios americanos que ele - rico em capital cultural, poliglota - traduzia a pedido da sua imediata superiora, a redatora Silvia Jatobá. 

Que exercício melhor para um futuro redator publicitário que traduzir anúncios publicitários para uma chefe redatora publicitária, palavra por palavra, descobrindo nuances, respirações, estratégias, adjetivos, approaches, buscando a melhor versão, o ritmo perfeito? 

Duailibi aprendia, na prática, os meandros do que era um bom texto publicitário com os sujeitos que praticamente inventaram o texto publicitário: os próprios americanos, além de já ir assimilando também um olhar muito mais conjuntural, de business, porque como o próprio Duailibi relata em sua entrevista ao CPDOC (2005), também levantava custos, verbas investidas, centimetragem publicada, estratégias de mídia, analisava a concorrência, elegia pontos positivos, negativos, fazia críticas.

Reconhecimento no exterior: a 6ª Top Agency
 Duailibi (2005) conta inclusive que seus relatórios foram ficando tão divertidos com as críticas irônicas que fazia às peças publicitárias dos concorrentes, que seus superiores e os vendedores da Colgate-Palmolive passaram a aguardar ansiosos a chegada de mais um "report Duailibi". 

Diferente de Neil. Embora Neil viesse do jornalismo e também contasse com elevado capital cultural - sólida formação escolar, boas leituras, texto bem construído - e embora houvesse fundamentado seu modo elogiadíssimo de escrever na lacuna estrutural da época do texto leve e saboroso do " new journalism" - bastante semelhante ao tom recomendado pelo revolucionário Bill Bernbach - o que sobrava nele de intelectual, tanto quanto em Duailibi, faltava-lhe na visão empresarial que a Colgate havia empoderado o filho de libaneses nascido no Mato Grosso. 

Assim, quando o garoto Duailibi troca a Colgate por sua primeira agência, a C.I.N. - aliás, primeira agência também de Neil - já tinha um texto treinado especificamente para a publicidade e não para o jornalismo como Neil. E mais: já tinha o discurso do empresário que estuda a concorrência para atacá-la em seus pontos fracos. E já tinha ainda outro capital cultural que Neil não possuía: os exercícios de oratória aos quais seu pai Wadih o obrigava, na infância em Campo Grande, nas refeições, homenageando visitantes, agora bem reaproveitados para apresentar campanhas com entusiasmo, como a do lançamento do automóvel Vemag, pela agência C.I.N..

Enquanto Duailibi abraçava o lado business da propaganda, sem questionamentos, Neil, por ser jornalista - talvez distanciado por treinamento do ofício - construía uma espécie de redoma entre ele, o redator considerado brilhante, e os outros, cultivando fama de "geniozinho da criação " meio afastado da patuléia,  traço que se percebe ainda agora em suas posições, colocando-se geralmente como de uma casta à parte, postura quem sabe de filho único, mimado, do tipo que na medida em que pode só faz o que quer, com raras concessões, além de manter uma prudente distância de tudo o que significasse poder, como se ficar muito próximo dele o pudesse contaminar de um impuro espírito capitalista. 

Nada em Neil, aliás,  combina com a palavra "negociante" que, como se sabe, vem de " negociar", ceder, negacear, conceder. 

Duailibi era bem mais flexível que Neil, talvez até por temperamento, por educação familiar, por ser apenas um entre sete filhos, ou quiçá até seguindo o conselho do tio José que o treinou no balcão de sua loja a se esforçar para agradar às clientes, de preferência mantendo-as sempre sorridentes para que comprassem.  "Se elas não estiverem sorrindo" - o Tio avisava ao atento turquinho Duailibi ( 2005) - " não estão comprando!" 

O lado turquinho de Neil parece não o haver empoderado na ascensão ao poder, provavelmente porque se criou afastado da principal influência árabe da família, o seu avô Alexandre, que era bravo e nunca lhe dava massari 12- ele contou - neutralizado em um possível exercício de negociador também por um pai poeta que não apreciava, parece, as lides do comércio. Não bastasse isso, o pai também morreu cedo, deixando a Neil visões muito mais do valor de ser do que o de ter, embora Neil houvesse demonstrado desde garoto, órfão e provavelmente se sentindo responsável pela mãe, um raro espírito criativo para " fazer dinheiro"  na cata de " mais um troquinho", segundo ele conta13. 

Seu "fazer dinheiro", porém, era voltado para si, não visava o gáudio da boa troca, ambos os lados satisfeitos da negociação, como sóe ser o genuíno comércio tão apreciado pelos descendentes dos fenícios. 

Duailibi ( 2006), sim, confessa claramente achar a arte de vender  nada menos que"fascinante". 

Havia ainda outro espaço dos possíveis que favoreceu o redator Duailibi em detrimento do redator Neil na ascensão ao poder: a freqüência à Escola de Propaganda, que Duailibi cursou em 1952, junto com uma turma onde mais de 80% eram jornalistas trabalhando em jornal. 

A par de Duailibi ser dos poucos da turma que já era publicitário e cursando publicidade, ele ainda aumentava sua network, seu capital social, porque os professores eram profissionais das próprias agências multis do mercado, futuros contratadores dos alunos do curso, aliás, onde, depois de formado, Duailibi também passou a lecionar como professor de Redação. Mais capital para a sua bagagem acumulada ao poder. 

Enquanto Neil ( 2006) cursava a Faculdade de Direito, segundo ele, só para " morar de graça na Casa do Estudante", Duailibi aproveitava a posição oferecida na Escola de Propaganda e não apenas a cursava com elogios dos professores, ele conta, como também se beneficiava de um certo novo glamour agregado à profissão por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, do MASP, naquela época ainda no mesmo prédio dos Diários Associados, no centro de São Paulo. 

Aquela profissão anteriormente exercida por corretores de espaços para jornal, reputada por muitos como ofício de embusteiros volta e meia barrados nos estabelecimentos comerciais por plaquinhas que avisavam: " Não damos esmolas nem fazemos propaganda", agora era habituê de um Museu. Do requintado Museu de Belas Artes de São Paulo. Evidentemente, configurava-se ali um novo e bem-vindo patamar da profissão, claro espaço dos possíveis facilitando a ascensão de seus recém-chegados profissionais ao poder.

Afora tudo isso, é fundamental observar outras duas características do campo, na época, que favoreciam o acúmulo tanto de capital social e cultural e simbólico, quanto capital econômico aos criadores: a demanda por redatores era muito maior que a oferta. 

Conforme Neil ( 2006), eram "3 agências para 10 redatores", de tal maneira que não apenas os que estavam no ramo trocavam de emprego e dobravam seus salários com muita frequência, como ainda garantiam boa renda extra Duailibi (2005) afirma que os ganhos superavam o próprio salário  nos free-lances para as outras agências e para clientes diretos feito a Varig, no seu caso, pagos com passagens aéreas que o ajudavam a acumular ainda mais capital cultural. 

Em suma, entre os dois redatores, ambos considerados brilhantes sob o ponto de vista técnico da estrutura de texto, das idéias criativas, da precisão de argumentos, mas completamente diferentes quando no trato com o "negócio da propaganda", destaca-se Duailibi como estrategista, homem de visão empresarial, exógeno, voltado para o mercado, assumindo várias vezes o papel de porta-voz e líder setorial, enquanto Neil permanece à parte, intelectual, endógeno, distanciado dos olores mortais.

No caso dos diretores de arte Petit e Zaragoza, as lacunas estruturais foram outras. 

Carregados de sobejo capital cultural adquirido na Escola de Belas Artes de Barcelona, a  Las Lonjas, a mesma de Picasso e Miró, os dois eram, por suposto, europeus, com tudo que implica alguém ser europeu em uma antiga colônia européia, mesmo pobre "comendo pão com banana" - como relatou Petit -, mesmo fugidos da guerra, mesmo sem pai nem mãe como Zaragoza. 

Uma vez europeus, sempre europeus. E que não se esqueça: mais que europeus, Petit e Zaragoza eram catalães, nacionalidade reconhecida em O poder da identidade (CASTELLS, 2002), por exemplo, como de elevada auto-estima, grande capacidade de resistência e forte sentimento de nação, de valor de pertença. 

Some-se isso a um estado do campo da publicidade brasileira na sua área - o layout e a ilustração - e compare-se com seus pares. Ainda que o chefe de arte na Thompson Eric Nice fosse um inglês e vicejasse aqui e ali alguns outros estrangeiros na função, o cargo de layoutman, como já se falou, era ocupado por brasileiros e praticamente desprezado no organograma das agências. Um cargo exercido apenas com as mãos, não com a cabeça. 

Zaragoza, no entanto, com seus capitais de artista plástico talentoso que realizava " layouts-obra de arte" - como elogia Duailibi - não se conformou no papel de mero " fazedor" como seus humildes colegas. Aproveitou o espaço dos possíveis de uma campanha de Modess encruada na criação, e criou a "sua" campanha de absorvente higiênico, de noite, em casa, com requinte, conceito, delicadeza, aprovando-a no dia seguinte, para alívio dos seus colegas. 

Ultrapassando assim vitorioso a barreira do desdém por sua função, transformou-se incontinente em diretor de arte " pensador". Tão pensador que aproveitou as costas quentes por haver se transformado no " queridinho da Thompson" somado ao seu jeito sedutor de rapaz bonito - conta Duailibi - e ao galante dançarino de flamenco que dava show nos corredores da agência, um dia Zaragoza  extrapolou. E adotando o pasodoble dos corredores dentro da sala de criação, passou a literalmente "sapatear" em cima dos layouts reprovados, escorraçando o profissional de atendimento que não havia conseguido vender suas criações para o cliente. 

Essa excêntrica tomada de posição mudou tudo, segundo Duailibi. Os escândalos de Zaragoza cada vez mais frequentes, rasgando layouts, expulsando os do atendimento da sua sala, xingando-os de "medíocres, saiam daqui, aqui só entra a criação", acabaram criando tamanho volume de capital simbólico - o poder de fazer crer, diz Bourdieu (1996) - que contagiou seus pares em todo o mercado, fortalecidos pelo novo e corajoso líder que ousara desafiar os poderosos do atendimento. 

A esse propósito, para se ter uma idéia do poder vigente nas agências de então, Gracioso, Whitaker Penteado e Mauro Ivan, em seu Cinqüenta anos de vida e propaganda brasileiras (2001, p. 154) relatam a atitude prepotente de um profissional do Atendimento do Grupo de Contas da Nestlé, integrante da McCann Erickson, chamado Ildefonso de Carvalho, que devolvia o layout reprovado ao redator com o seguinte comentário: " Recusado com asco".

É bom que se saliente, também, que naquele estado do campo de parca tecnologização, com poucas fotografias, nenhuma fotocomposição, zero de fotolito, nem xerox existia, o talento artístico de Zaragoza foi favorecido com tamanho entusiasmo porque era fundamental um diretor de arte desenhar, pintar, ilustrar, marcar layout com maestria, cada peça um original único que ia para ser reproduzido fotograficamente nas Fotolabor da vida, estabelecimento onde Zaragoza começou carreira em São Paulo. Isto é: até isso ele já sabia.

As próprias revistas valiam-se muito do talento de ilustradores, e Zaragoza beneficiou-se disso, por seu turno, publicando vários trabalhos seus na famosa revista Senhor.

Com espírito de luta de imigrante fugido das garras de Franco, porém capitalizado com técnicas de arte já aprendidas na Espanha antes de vir para o Brasil, Petit por sua vez aproveitou também  o seu espaço dos possíveis que veio em forma de um concurso de cartazes da Varig. Obsessivo com perfeição e acabamento, ele acabou conquistando o primeiro lugar no concurso com seu personagem  Tucaninho, que transformando-se na tradução de Varig no mundo inteiro, além de, naquele momento, proporcionar ao catalão emprego na Thompson e oportunidade de fama. 

Da dupla de catalães, todavia, Petit é o mais crítico, o menos conformado, o mais agressivo, fazendo o modelo " artista temperamental" embora mestre elogiado por todos que conviveram sob suas ordens, indispensável, aliás, no empoderamento do jovem Washington à sua particular ascensão, com quem fez dupla na DPZ por quase 15 anos. 

Zara e Petit na Metro3, a mãe da DPZ
Os dois diretores de arte, no entanto, se complementam em seus capitais de tal maneira positivamente que, nesta dupla que acabou fundando a "mãe da DPZ" - a butique criativa Metro 3 -  percebe-se claramente um Petit mais voltado para dentro, obcecado com a qualidade do trabalho, com a perfeição, com a estética, com a modernidade, enquanto Zaragoza, a par de seu talento artístico e de seu atrevimento técnico, mostra-se como Duailibi mais " para fora", engajado em questões da categoria, do mercado, tanto que acabou presidente de dois clubes: do Clube de Criação de São Paulo (1975), do Clube dos Diretores de Arte de São Paulo, este último de curta existência, mas nem por isso menos comprovante inequívoco do seu movimento em prol do mercado, do seu espírito corporativo.

Por último, é bom que se ressalte dois outros aspectos comuns a Petit, Zaragoza e Duailibi, imperceptível em Neil, muito claro em Washington, bastante presente em Nizan:  o nacionalismo. 

No mundo da propaganda, ser nacionalista foi fundamental para os criadores que abriram a sua agência em plena ditadura militar (1968), beneficiando-se da explosão industrial e de consumo provocada pela gestão pública dos generais, da amplitude da Rede Globo nacional e inclusive fazendo jus a verbas governamentais conquistadas por reserva de mercado e criadas por idéia, aliás, de Duailibi ( 2005), como ele mesmo relata, em sua estratégia inspirada no dono da Manchete, Adolpho Bloch, de sugerir ao Governo resgatar o pagamento das dívidas dos veículos de comunicação - enormes, na época - não em dinheiro mas em permuta de espaços publicitários. Bom para o Governo. Bom para as revistas da Bloch. Bom para as agências.

Como cantava certa musiquinha, na época, no Brasil, o D, o P e o Z aderiram sem hesitação ao convite dos militares: "Brasil, ame-o ou deixe-o", enquanto Neil provavelmente buscava informações sobre em qual lojinha de Holywood encontraria o script original do filme Citizen Kane.

É importante ressaltar que o nacionalismo foi usado pelo menos de meia dúzia de maneiras diferentes por nossos agentes em questão: 

1. Duailibi usou-o como argumento para a reserva de mercado na distribuição das verbas governamentais; 

2. Zaragoza usou-o  como inspiração artística e renovação de linguagem, buscando um específico " jeito brasileiro de criar" que pavimentasse a fundação do Clube de Criação e justificasse um critério próprio da identidade do criador nacional; 

3. Petit usou o nacionalismo como um contraponto disfarçado à americanização da cultura colocando em seu lugar um " nacionalismo brasileiro" à moda européia; 


4. Washington usou o nacionalismo - inclusive no nome da sua agência: W/Brasil - como marca, apropriando-se de uma fatia de mercado única de agência multinacional que voltou a ser nacional porque prefere assim, além também de fazer parte, fora do país, dos " criativos brasileiros" que conquistaram fama no mundo de talentosos; 

5. Nizan usou o nacionalismo de uma maneira mais funcional, no sentido de se colocar como um expert em mercado brasileiro ( na época), em cultura brasileira, naquilo que Canclini chama de glocalização e de intercultural, como uma espécie de mediador de culturas, conhecedor daquilo que é negociável na cultura e do que nela permanece inalterado porque sustenta a pertença àquele pedaço do universo;

6. Nizan usou também o nacionalismo de uma forma " africanizada", resgatando no nacional do Brasil o seu lado negro, africano, popular, também buscando mercadológicamente estabelecer a sua marca em oposição  " às marcas brancas" como W/Brasil e DPZ, mas não escondendo seu desejo de transformar-se em um novo Martin Sorrell, presidente de um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo - o WPP - só que " o seu WPP Group" chamava-se " YPY" ("o primeiro", em tupi).

Anos 80: Washington, todo poder ao pop

Bourdieu usa a expressão "herança da construção coletiva", que serve como uma luva à ascensão do redator Washington Olivetto. 

Ninguém mais que Washington recebeu tão de mão-beijada certas benesses que o qualificaram para assumir o comando de sua agência, auxiliado também por mudanças no cenário estrutural da sociedade que favoreceram, da mesma maneira, a sua projeção, aliada ao uso singular que ele fez de metódica construção de capital simbólico. 
Anúncio da DPZ na saída de Washington

Religiosamente, lançava-se na mídia especializada, e depois extrapolava sua fama à grande mídia geral, sempre trabalhando as novíssimas questões - em se tratando de criação publicitária - do valor da autoria dos trabalhos publicitários, do contato direto com os clientes donos das verbas, da ampliação da sua rede social através de palestras pelo Brasil e pelo mundo afora.

Depois de premiado em Cannes, assumiu definitivamente o papel de "golden boy" oficial da propaganda brasileira. Ele registrava publicamente em anúncios e em telefonemas aos jornalistas cada prêmio conquistado, valendo-se ainda de uma inusitada maneira irreverente de se vestir. Para espanto dos clientes conservadores como banqueiros, entre outros, Washington misturava roupas convencionais do mundo dos negócios com detalhes estapafúrdios do mundo da Criação, tipo paletó com gravata do Mickey ou terno com tênis rosa-choque Miss Piggy. 

E o maior de todos os seus capitais: Washington foi o primeiro que, explícitamente, assumiu ser publicitário por escolha, sem culpas, remorsos, pejos, declarando centenas de vezes a sua paixão pelo seu ofício, aliás, workhaolic como todos os seus pares, de Petit a Nizan, incluindo Neil.

Quando Washington chegou ao mercado, a geração anterior à sua já havia profissionalizado a lida de criador publicitário, já havia implantado a illusio do valor da criatividade na propaganda, já tinha chegado ao poder econômico na condição suprema de proprietários das agências e já também havia com tudo isso propiciado à profissão o status acadêmico, surgindo vários cursos de Comunicação Social em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, entre outros, que geraram milhares de  consumidores da illusio criatividade.

Já havia, também, ídolos nacionais a seguir, como o redator Neil Ferreira, por quem o próprio Washington se disse influenciado, condição importante para o fortalecimento dos que chegam ao campo, muitos deles, como Washington, em um primeiro momento atuando no papel de fãs para só depois travarem as necessárias lutas na busca da nova condição de vanguarda na posição de dominante.

Do lado de fora, na sociedade, dois movimentos evoluíam influenciando o seu posicionamento: 

- um, a ditadura militar que manteve Washington em estado de semi-alienação política, campo para onde muitos jovens naqueles idos de 68, 70, quando ele começou, eram atraídos no mundo inteiro contaminados pelos movimentos estudantis em Paris, mas do qual Washington mantinha prudente distância por autoproteção; 

- outro, da explosão de consumo provocada pelo chamado Milagre Econômico, que requeria uma nova criatividade publicitária para colocar-se como favorito na escolha dos consumidores, já que a concorrência entre os produtos começava a se manifestar de forma um pouco mais acirrada. A  propaganda passava de uma fase dita pedagógica, onde apenas se ensinava a sociedade a usar o produto, listando as vantagens e implantando novos hábitos, principalmente de higiene - como desodorante, shampoo, detergente, por exemplo -, para uma fase de produção real de significados simbólicos. Agora em vez de escolher os produtos pelos quais se empatizava mais, escolhia-se  o que os produtos tinham de qualidades intangíveis, aspiracionais.

Se por um lado, nos anos 80, Washington encontrava uma classe média mais alargada pela ascensão a determinado poder aquisitivo da classe imediatamente abaixo propiciado pelo momento histórico-econômico, por outro, com sua origem "Zona Leste" popularesca, ele foi o arauto adequado, segundo Stalimir Vieira (2001), de um jeito mais popular de conduzir os temas nos comerciais e nos anúncios, assumindo a piada escrachada, diz Stalimir (2001), os temas mais cotidianos, menos cultos, mais "brasileiros", sem vergonha de parecer "do povo", estilo que substituiu aos poucos o chamado estilo "erudito, culto, requintado" de Neil Ferreira.

Comercial do garoto Bombril, 1978.
Havia ainda o feminismo, as mulheres aceitando um novo homem mais sensível, anti-herói, que Washington, em dupla com Petit, soube transformar no protótipo do homem feminista, o famoso Garoto Bombril. Mais tarde, quando ele abriu a sua W/GGK, aproveitando-se da globalização que facilitava o aporte de capital estrangeiro às sociedades locais, a Bombril virou seu cliente fiel, entrando junto com ele para o livro de records da Guinnes como a personagem que durou mais tempo na história da propaganda.

Anos 90, Nizan, o retrato de Dorian Gray em Photoshop

Para começar o parágrafo como os jornalistas anti-máfia do dendê da imprensa paulista começariam: o redator "e" baiano Nizan Guanaes... Sim, são duas instâncias bem separadas: ser redator, uma; ser baiano, outra. 

Se Nizan fosse "apenas" um paulista, certamente sua trajetória na publicidade seria outra. Embora talentoso redator, carregado de capitais cultural, social, simbólico e até econômico, filho de médico com engenheira, afilhado de batismo de Antônio Carlos Magalhães, neto de libaneses, bisneto de escravos, só ele soube transformar o seu capital geográfico aparentemente negativo em mais que positivo, folclórico, turístico, superior, hedonista, pós-moderno, onguista, anti-paulista e anti-carnavalista carioca.

Quando se deu conta de que em São Paulo ser baiano significava ser ninguém, ou, por outra, ser "mais um", Nizan parece ter-se imbuído de poderoso espírito de revanche, leia-se de luta, voltando para a Bahia em 1988 e de lá retornando no ano seguinte como um furacão, arrastando junto um grupo de baianos consigo, seus pilares na reconstrução da sua nova trajetória, desde seu suporte administrativo, - Guga Valente, passando por seu suporte financeiro - Daniel Valente Dantas, até o seu alterego considerado mediano como criador, mas leal feito um cão como administrador de talentos - Sérgio Valente, com fome de provar aos paulistas outro jeito de ser baiano: sendo o mais paulista dos baianos. 

Ser o mais paulista dos baianos significa trabalhar duramente, desconhecer fronteiras inclusive éticas, para atingir as suas metas, pensar muito grande quando se trata de dinheiro e de realizações (como por exemplo, eleger duas vezes o Presidente da República (FHC, 1994, 1998), ganhar duas vezes consecutivas o prêmio de Agência do Ano em Cannes (1993 e 1994),  fazendo declarações de que gostaria de ser " o Roberto Carlos da propaganda", em óbvia imitação do discurso popularesco de seu "pai paulista" Washington, mas na verdade sonhando, mesmo, em ser " o Martin Sorrell do Brasil", hoje já conquistado, poderoso capo da holding de comunicação ABC ( ex-YPY) que engloba várias agências de propaganda, mídia digital e no media, entre outras.

Casamento com Donata, da Daslu
Há que se atentar também para a questão da sua hexis corporal - obeso - que ele arrastou consigo por mais de 40 anos, perseguido pelas cobrança de dieta da mãe,  aliada ao seu recente reempoderamento do que ele chamou de " planta original", quando emagreceu 40 kg e apareceu exultante com dois dos seus maiores troféus da tão procurada cidadania paulista-baiana: vestindo a camiseta do tetracampeão São Paulo FC - seu mais novo "time do coração" no lugar do antigo Bahia FC - e abraçado à sua terceira esposa, a socialite Donata Meirelles, trunfo definitivo do acesso ao finalmente tão ansiado grand monde bandeirante. 

Comercial Parmalat, anos 90
Para isso, Nizan contou com a herança coletiva dos seus pares da DPZ e da W/Brasil, que lhe garantiram o valor sempre atualizado da criatividade, superado hoje, em tempos de globalização e de acirrado neoliberalismo, pelos poderes anônimos das sociedades de capital aberto, onde o que interessa é o lucro, não a qualidade dos trabalhos, o que já fez Nizan declarar em uma entrevista, cuspindo no prato de todos os que arduamente antes dele construíram os degraus da profissão onde ele subir: "prefiro ser chamado de eficiente que de criativo", disse ele, mal se dando conta de que falando assim abre as portas de novo para o mesmo velho ciclo de poder que em breve troca de mãos, mudando apenas o antagonista. 

Do antigo profissional de Atendimento, o neoinimigo dos criadores publicitários de hoje é o diretor financeiro, o player, personificado, por exemplo, na figura fake do estranho-no-ninho Roberto Justus, ex-diretor financeiro da agência Fischer & Justus, que nunca foi publicitário na vida mas mero homem de finanças, que poderia dirigir uma agência de propaganda como uma fábrica de vassouras, mas age como se publicitário fosse e administra as suas empresas com sucesso e com a frieza de quem determina quais são as blue chips do mercado, resumindo-se esta dura questão em mais uma melancólica frase tradutora dos novos tempos, dita por Nizan em dezenas de entrevistas: " o melhor curso de Propaganda é Administração". 

Referências bibliográficas:

BONNEWITZ, Patrice - La sociología de Pierre Bourdieu. Buenos Aires: Nueva Visión, 2006.

BOURDIEU, Pierre - As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

__________________- "A ilusão biográfica" - in FERREIRA, Marieta de Moraes, AMADO, Janaína. Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2005.

CASTELLS, Manuel - O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

CHARTIER, Roger - "Pierre Bourdieu e a história", Debate com José Sérgio Leite Lopes. In Topoi # 4: Revista de História - Março de 2002 - PPG Historia Social UFRJ/ 7Letras, 2002:139

CRAIDY, Maria da Graça - Do porão ao poder. A ascensão dos criadores publicitários brasileiros ( 1970-1990) Dissertação de Mestrado em Comunicação. FAMECOS/ PPGCOM PUCRS. Porto Alegre: 2007.

DUAILIBI, Roberto - Cartas a um jovem publicitário. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

_________________- (Depoimento, 2004). Rio de Janeiro, CPDOC, ABP - Associação Brasileira de Propaganda, Souza Cruz, 2005.

FERREIRA, Neil - depoimento à autora por email, de janeiro a dezembro de 2006.

GANDRA, José Ruy - História da Propaganda criativa no Brasil. São Paulo: CCSP, 1995.

GARCIA CANCLINI, Néstor - Diferentes, desiguales e desconectados. Barcelona: Gedisa, 2005.

GRACIOSO, Francisco, PENTEADO, J.R. Whitaker- Cinquenta anos de vida e propaganda brasileira. São Paulo: Mauro Ivan Editorial, 2001

HOPKINS, Claude - A ciência da propaganda. São Paulo: Cultrix, [ 1923] 1981

PETIT, Francesc. Publicitário relembra época de ouro da capital paulistana. Entrevista a CAVERSAN, Luiz. Cotidiano. Folha de São Paulo. 7/12/ 2003. Disponível em: http://www2.metodista.br/unesco/hp_unesco_redealcar37completo.htm

VIEIRA, Stalimir. Inadministráveis. Disponível em www.stalimir.com.br, artigos, Inadministráveis. 18/8/2001

 NOTAS:

1. Redator ou diretor de arte, os profissionais que criam as mensagens publicitárias dentro das agências de propaganda.

2 . Habitus: espécie de "bagagem" cultural, social, familiar, escolar, valoral, que cada um carrega sem dela ter consciência e que favoreceria, segundo Bourdieu, determinados movimentos ascendentes ou não, dentro do campo. Para a construção do habitus dos criadores, (vide " Do porão do poder", CRAIDY, 2007, que inspirou este artigo), foram utilizadas informações de terceiros, jornalistas em sua maioria, obtidas em artigos, reportagens e entrevistas concedidas pelos seis profissionais aos mais diversos veículos de comunicação, além de textos de suas autorias publicados em livros, sites, revistas ou jornais e, no caso de Neil Ferreira, entrevistas por email realizadas pela autora com o próprio, dada a raridade de informação publicada sobre sua trajetória.

3 Dominante, posição preponderante dos já instalados no poder, no campo, noção que Bourdieu define como locus de luta; sobrepõe-se à posição de dominado, aquela ocupada pelos que lutam para ocupar a privilegiada posição dominante.

4 Lacuna estrutural, segundo Bourdieu, espécie de "espaço social em branco" esperando o momento de ser ocupado pela tomada de posição de agentes com determinados habitus pretensamente afeitos àquela posição.

5 Capital simbólico, segundo Bourdieu, é o poder de fazer crer, espécie de coringa do capital econômico, acumulado na luta pelo poder e depois trocado por capital econômico quando da mudança à posição dominante; capital cultural são os bens culturais adquiridos em escolas, cursos, livros, treinamento, capacitações, qualificações; capital social, também chamado por estudiosos de Bourdieu de "relacional", é composto pela rede de pessoas com quem o agente se relaciona e é protegido/influenciado.
6 Atendimento é o departamento que realiza a "operação meio-de-campo", espécie de medidador entre a agência de propaganda e o anunciante; nos anos 50, ocupava posição mais dominante que a dos criadores, visto o valor da criatividade inerente aos criadores ainda não  haver conquistado importância na profissão.

7 Segundo depoimento de Francesc Petit ao jornalista da Folha de São Paulo, Caversan (2003), os criadores publicitários, principalmente os desenhistas, nos anos 50, no Brasil, eram tão desimportantes na hierarquia das agências que trabalhavam no porão.

8 DPZ (1968) deu origem à W/GGK (1986) que deu origem à DM9 (1989), que deu origem à Almap BBDO na gestão Marcelo Serpa/ Alexandre Gama (1993), que deu origem à Neogama (1999) etc.

9 Dos seis pesquisados, todos são descendentes de imigrantes ou os próprios imigrantes aqui chegados em navios; Nizan é descendente de escravos negros; Neil perdeu o pai antes dos 6 anos e refugiou-se em um jogo de futebol " sem-fim"; Washington afirma que seu sobrenome com dois" tt" é revelador de filiação bastarda de nobres da Ligúria que dobravam a letra do sobrenome de herdeiros fora do casamento indicando sua ilegitimidade; Zaragoza conta um dia haver acordado em Barcelona  e espantar-se ao ver a irmã voando da cama por efeito de uma bomba do general Franco nas redondezas de sua casa.

10 Espaço dos possíveis, para Bourdieu, é o encontro favorável de um habitus adequado com uma dada lacuna estrutural, propiciando que seja facilitada determinada tomada de posição.

11 Bill Bernbach, redator publicitário americano, autor da chamada Revolucão Criativa nos anos 40; juntou redator e diretor de arte na mesma mesa criando a dupla de criação; questionou o texto formal e exageradamente elogioso da propaganda da época e sugeriu novo encaminhamento criativo baseado no humor e no coloquialismo.

12 Massari = dinheiro, em árabe.

13 Vide CRAIDY, 2007, pag.171-187, dissertação de Mestrado que deu origem a este artigo.

 A realidade existe, por assim dizer, duas vezes, nas coisas e nas mentes, nos campos e nos habitus, fora e dentro dos agentes. E quando o habitus entra em relação com um mundo social que o produziu, se move como o peixe na água e o mundo lhe parece evidente por si mesmo (...)"
BOURDIEU, citado por BONNEWITZ, 2006, p. 71. Tradução minha.

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